Ansiando
9 Particularmente devastador
Notas iniciais
Merlin caminhava sorrindo, deixando que o ar fresco da manhã de sábado o envolvesse, ele estava a algumas quadras de casa, e tinha decidido caminhar para colocar os pensamentos em ordem, poderia não ter sido uma boa ideia, já que havia esquecido uma peça de roupa importante no flat de Arthur.
Tudo o que acontecera nas últimas horas ainda estava causando um turbilhão de emoções dentro dele, Merlin não esperava nada daquilo, era tudo tão novo e alucinante que ele tinha medo de acordar de algum tipo de sonho fantástico, tudo o que ele tivera até agora com Arthur fora o mais incrível e fora da realidade que ele jamais pudera imaginar, e estava além de sua perspectiva de vida.
Ele percebia claramente o quanto queria estar com Arthur, fazer aquilo dar certo, obrigar Arthur a comer legumes e jogar fora todas as caixas de chá preto... ele queria fazer Arthur comprar um Prius; levar Arthur para Ealdor; e, mais do que tudo, queria beijá-lo e amá-lo como Arthur nunca esperou; queria dormir e acordar com ele todas as noites, observar seu peito subindo e descendo enquanto o loiro estivesse adormecido, traçar linhas aleatórias no tórax dele; e beijar seus olhos e suas bochechas em adoração...
Então, como um choque Merlin percebeu que poderia não ter sido uma boa ideia deixar Arthur pela manhã com apenas um bilhete no travesseiro...
Ele jurou para si mesmo que enviaria uma mensagem mais tarde, não queria que Arthur pensasse qualquer coisa negativa, o relacionamento deles ainda era tão surpreendentemente novo... Merlin não queria estragar tudo, antes mesmo de começar apropriadamente...
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Arthur encarava o teto, ele acordara e dormira novamente, sonhos tumultuados dos quais Arthur acordava preocupado, ele estava se sentindo um pouco descartável depois de Merlin ter saído sem se despedir, não que o moreno fosse obrigado a ficar, mas Arthur já não suportava ficar sem ele, ter Merlin para si era um mantra entoado diariamente pelo seu coração. Ele sentou na cama, girou o anel no dedo pensativo, avistou o celular e pensou em mandar uma mensagem, foi quando seus olhos rastejaram para debaixo da cama, e ele viu a boxer de Merlin, ele a pegou e leu a marca na etiqueta: “Peau Ethique”, algo que ele nunca percebera antes, parecia bastante confortável e sem costuras... Arthur não foi capaz de controlar o impulso de afundar o nariz na peça e sorver lentamente o cheiro que deixava suas lembranças em chamas...
Caminhando até o banheiro, Arthur se enfiou debaixo da água e confabulou consigo mesmo sobre fazer uma visita para Merlin e tentar levá-lo para almoçar... ah, sim, havia esse amigo importante... poderiam levar ele também, Arthur pouco se importava, desde que estivesse com Merlin ao seu lado.
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Avançando pelas ruas de Londres, vestindo sua jaqueta vermelha do Arsenal, Arthur se sentia vertiginosamente confiante, ele queria levar Merlin na London Eye, no Shakespeare’s Globe e comer sorvete assistindo as luzes do Big Ben durante a noite... muitos planos surgiam para apresentar a Merlin a cidade e o namorado que ele ainda não tinha desfrutado. Namorado, o pensamento o fez sorrir e ruborizar, de perseguidor a namorado, uma evolução e tanto! Ele sorriu presunçoso, ele vencera afinal, tinha Merlin para si.
Quando chegou ao prédio de Merlin, Arthur entrou no elevador, querendo fazer uma surpresa, eram onze horas, ainda havia tempo de sobra para tudo o que ele imaginou...
Assim que chegou à porta do flat, ele apertou a campainha, esperou alguns instantes e não obtendo resposta, pressionou o botão novamente, impaciente.
Quando a porta se abriu, o som exageradamente alto de Death Cab for Cutie invadiu seus ouvidos repentinamente, bem na sua frente a porta aberta deixou que se materializasse um homem com cabelos castanhos, grandes olhos azuis amendoados, e, Arthur não pôde deixar de notar, um corpo forte e bem estruturado, apesar de ser cerca de dez centímetros mais baixo que Arthur.
— Então, parceiro, vai ficar aí parado, ou quer alguma coisa?
O sujeito olhava para Arthur com certa arrogância e desaprovação, o que Arthur não gostou.
— Bem, eu... Merlin está? — O estranho fechou a cara de imediato.
— O que você quer com ele? — Ele pareceu tão intimidador que Arthur quase recuou.
Quase.
— Eu estava passando e... chame Merlin, sim? — Arthur estava começando a perder a paciência, seu temperamento mudando inesperadamente.
— Acho que não, parceiro, você ainda não respondeu minha pergunta. — O estranho cruzara os braços sobre o peito forte, e observava Arthur com petulância destemida.
— Escuta, não me leve a mal, mas você é quem mesmo?
— Quem é você? Batendo nas portas alheias e dando ordens?
Subitamente, Merlin apareceu logo atrás do sujeito na porta, o enlaçando na cintura, deixando uma trilha branca ali, e acomodando o queixo no ombro dele, o cabelo de Merlin em total desalinho, ele usava apenas uma boxer e camiseta, o rosto coberto de farinha e as pernas longas expostas luxuosamente. Algo dentro de Arthur despencou de imediato.
— Will, eu ouvi a camp... —Ele viu Arthur, e por alguns momentos sua voz oscilou e então sumiu, ele formulou um som mudo com os lábios, olhando de olhos arregalados para Arthur — O-Olá, Arthur...
Merlin levou um susto tão grande quando viu o loiro na sua porta, com a mandíbula cerrada e expressão indecifrável, que por baixo de toda a farinha Arthur podia ver suas bochechas corarem lentamente, Merlin não conseguia decidir se estava em pânico ou envergonhado por estar coberto de farinha.
— Desculpe — disse Arthur asperamente — eu não queria interromper. — Ele virou as costas e saiu a passos rápidos, raiva, e outros mil sentimentos, borbulhando descontroladamente na superfície.
— Arthur, espere... Arthur! — O loiro entrou no elevador num rompante, sem olhar para trás, Merlin se adiantou para o corredor, deixando um rastro de farinha. — ARTHUR!
Suas mãos tremeram quando pressionou o botão para descer o elevador, assim que chegou ao saguão, Arthur apenas caminhou, o mais rápido que pôde para sair do prédio e alcançar a rua, precisava organizar a própria mente, ele não conseguia raciocinar... o céu antes já nublado agora despendia uma chuva fina e gélida, ter visto Merlin tão à vontade, com um estranho confortavelmente atendendo a porta e se mostrando tão protetor, o deixara angustiado, um sentimento extremo de perda e vazio, a sensação era de que acabara de abrir uma estranha lacuna dentro dele, imagens incontroláveis de Merlin nos braços do sujeito petulante carregavam sua mente e pesavam no seu coração.
Ele desviou de pessoas, sentindo no rosto não só a chuva, mas também algo quente que escorria impiedosamente por suas bochechas, Arthur já não sabia mais para onde suas pernas o levavam... ele só andava em frente, não se importando muito com o frio e com as roupas já molhadas, ele queria algo que pudesse aplacar aquela dor particularmente devastadora, que não sabia como tinha se instalado dentro dele, mas que o estava impedindo de raciocinar.
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Merlin andava no corredor puxando os cabelos em todas as direções, entrou no próprio apartamento com Will nos calcanhares, e foi automaticamente para a bancada ao lado do fogão, em um movimento mecânico colocou os biscoitos que descansavam ali nas formas espalhadas estrategicamente sobre o fogão, enquanto tentava recapitular o que acabara de acontecer. A expressão no rosto de Arthur... isso não era bom, não mesmo... Ele pensou tão alto que gemeu abertamente
— OK, Merlin, que porra é essa?! — Will o encarava como se estivesse vendo um circo de horrores, os olhos arregalados.
— Merda! O quê... Will, o que você disse a ele?
— Nada, eu só perguntei quem ele era, aliás, ele não falou! Quem é esse babaca?
— Will, ele não é babaca...
— Não? Então por que não se identificou e ainda por cima me deu ordens?
— Meu Deus, Will... ele vai pensar... por que você simplesmente não me chamou?
— Fala sério né, Merls... eu sei atender uma porta... só perguntei quem era o cara... qual é o drama? Ele é o filho da Rainha, foragido de Azkaban, ou algo assim? Não me admira, com aquela jaqueta do Arsenal... — Will franziu ambas as sobrancelhas, enrugando o nariz com se estivesse sentindo um cheiro muito ruim.
— Will... por que implicou com Arthur?
— Ah... por que implicou com Arthur, sei lá, só não gostei do jeito arrogante dele, ora! — Will apontou, e subitamente notou algo que não havia percebido antes — Espera! Ele é... alguém?
— O que você quer dizer?
— Oh... vamos lá, Merls... te conheço desde sempre... essa sua cara não me engana... se esse babaca arrogante quebrar o seu coração, eu quebro o pescoço dele!
— Tocante — retrucou Merlin cinicamente —, mas neste momento acho que ele entendeu tudo errado e você vai me ajudar a consertar isso.
— EU?? Não vou ajudar a consertar cacete nenhum! Eu nem ao menos fiz algo errado!
— Ah vai... Vou tomar banho, coloque os biscoitos no forno.
— Então ele é alguém, né? Há! Eu sabia...
— AGORA WILL!!
— O que há com todos hoje que estão me dando ordens sem parar? — Will resmungou já com a forma de biscoitos recém-elaborados a caminho do forno.
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No chuveiro Merlin esfregava o rosto para desgrudar a farinha, o difícil seria limpar a imagem do rosto de Arthur do seu cérebro, foram duas bolas foras em um só dia... na verdade em poucas horas, mas isto era Merlin e ele costumava estragar as coisas boas quando as tinha... Precisava encontrar Arthur e tirar aquela expressão do rosto dele de qualquer forma, esfregou os cabelos com mais força do que o normal, enxaguando e pensando em como faria. Deus... isso vai ser complicado! ele pensou em voz alta dentro do box do banheiro.
Saindo do chuveiro, ele percebeu a chuva pela janela do quarto, secou-se vigorosamente, escolheu um moletom azul marinho com capuz e uma calça confortável, pescou o celular na cama e discou para o número de Arthur... nada... entrou direto na secretária eletrônica, o coração de Merlin estava cada vez mais apertado, um sentimento de impotência começando a raspar as garras na sua garganta, fazendo seu estômago revirar.
Merlin não tinha o número do flat de Arthur, então, pulando em um pé só enquanto calçava os tênis, ele adentrou na cozinha. Pegou caneta e um bloco de notas e escreveu o número de Arthur, olhou para Will, que estava sentado no sofá, Deus, o meu mundo desabando e ele joga Mario Kart! Merlin pensou rolando os olhos estupidamente.
Ele desenformou uma leva de biscoitos, escolhendo criteriosamente aqueles da receita especial de sua mãe, e colocou-os em uma caixa, pegou tudo o que precisava e foi até o sofá.
— Will... ouça com atenção. — O amigo pressionou o pause e ergueu uma sobrancelha encarando Merlin. — Vou deixar este número, e quero que fique ligando, até que Arthur atenda, sim?
— Eu não sou secretária, Merls...
— Não, não é, pois se fosse teria atendido a porta e me chamado!
— Cacete! Mas não é culpa minha, só tentei ser educado!
— Will, por favor... apenas tente ligar sim? Se ele atender diga que estou indo para a casa dele!
— Hey, vai me deixar aqui sozinho?
— Sim, vou e você sabe se cuidar... pelo amor de Deus... meu namorado deve estar por aí, andando na chuva pegando uma gripe e pensando coisas que não deveria pensar... e você se preocupa em estar sozinho?
— Seu namorado, Merls? — Will exibia seu maior sorriso já visto.
— Oh... cale a boca e ligue, sim?
— Já que é tão importante... — ele disse revirando os olhos, fingindo tédio — Namorado hein... podia ter me avisado...
— Cale a boca, ok? — Merlin rebateu, as bochechas ardendo.
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Arthur deixou-se simplesmente cair no sofá da sua sala, já sem forças até mesmo para discutir com a própria consciência, a esta altura ele não sabia mais o que pensar, talvez estivesse sendo exagerado, talvez, apenas talvez, ele estivesse vivenciando Shakespeare...
Ele bagunçou os cabelos molhados, tirou o celular do bolso e percebeu que o maldito estava desligado. Então foi até a bancada e pegou o telefone sem fio, discou o número de emergência, e rezou para pegá-la em um bom dia.
O telefone estava chamando, Arthur se sentiu um pouco melhor quando ouviu a voz do outro lado da linha.
— Morgana?
"Arthur? O que há? Está tudo bem?"
— Sim... quer dizer, não exatamente...
"O que houve? — E obtendo o silêncio como resposta, perdeu a paciência. — Vamos com isso eu estou meio que ocupada aqui..."
— Ocupada com o quê? Está em alguma boutique nova, ou em algum chá beneficente? — Ele retrucou desdenhoso. O mundo acabando e Morgana querendo que ele se apressasse...
"Certo, pelo seu tom de voz deve ser algo muito ruim... aconteceu alguma coisa com o papai?"
— Não, não nada com o papai, é comigo...
"Okay, não me diga que a empregada trouxe a filha dela para o trabalho e a menina descobriu sua coleção de vibradores e plugs an—"
— MORGANA! Eu não tenho... Jesus... olha, acho que estou meio que... encrencado...
"Sim, e daí você chamou a mana esperta para resolver a situação... conte a novidade agora."
— Morgy... por favor...
"Awww, me chamou de “Morgy”... deve estar muito desesperado..."
A voz de Morgana retinia, sorridente e carinhosamente sagaz, no ouvido de Arthur, a irmã o lia como a um livro, certamente ela poderia ser a única a ouvi-lo agora.
"Tudo bem, vamos lá, o que você fez dessa vez?"
— Por que você sempre acha que eu fiz algo?
"Arthur... porque o conheço minha vida inteira... você sempre faz algo, se encrenca, se arrepende e me procura para ajudar... lembra aquela vez —"
— Não, Morgana, por favor...
"Certo, o que houve então?"
— Eu... fui até o flat de... Merlin... e... bem, tinha um cara lá... e Merlin estava coberto de farinha...
"Não... ahmm... talvez eles estavam cozinhando?"
— Acho que não... dificilmente alguém cozinha de cueca...
"Ah, bem, mas o que você sabe sobre Merlin, de qualquer maneira, Arthur? Vocês se conhecem há pouco tempo e tudo o que você deve saber é fruto da sua dedução..."
— O que você está falando? Eu sei tudo sobre ele que preciso saber!
"Sei... qual é a cor favorita dele? Sabe os nomes dos pais dele? Os programas de TV favoritos?"
— O que importa os programas de TV? — quando eu sei como ele gosta de ser beijado? Arthur pensou, era a última coisa que queria saber agora.
"É um começo para conhecer alguém, às vezes você é tão tapado, Arthur, nem sei como pode que sejamos irmãos... acho que herdei toda a inteligência da família..."
— Meio-irmãos, de qualquer maneira... eu saí de lá correndo, e... talvez eu tenha deixado entender que não gostei muito do que vi... não sei o que fazer agora...
"Deus, Arthur... Você foi o ciumento shakespeariano de sempre, não foi? Ligue e peça desculpas, ou espere um pouco, talvez ele mesmo ligue, não é? Ele parece ter um bom coração, ao contrário de você e sua grande cabeça, Arthur."
— Sim, obrigado por tripudiar. Eu vou tomar um banho e morrer. — Disse já sem sentir os dedos dos pés, por estar tão molhado.
"Não seja uma rainha do drama, irmãozinho... se precisar, sua Morgy está aqui, certo?"
— Tchau Morgana, ah... obrigado, eu acho.
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Merlin não quis errar e antes de chegar à rua chamou um táxi, deu o endereço de Arthur e tentou controlar os sentimentos particularmente devastadores que comprimiam suas entranhas. Segurando a caixa de biscoitos como se fosse a própria vida, ele queria apenas chegar o mais rápido possível no flat de Arthur e retirar aquela expressão árida do seu rosto, Merlin queria beijá-lo até fazer com que Arthur voltasse a sorrir, então continuar beijando-o e fazer amor com ele até que não houvesse mais espaço para pensamentos coerentes. Fazer amor, a realização de estar tão apaixonado a ponto de pensar algo assim o fez ter certeza de que devia estar vermelho até dentro dos olhos. Ele sorriu e encarou o próprio reflexo na janela do táxi. Tentaria consertar as coisas, seja lá o que fosse.
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