Anseios de Amor e Luta
4 Uma Nova História
Notas iniciais
Os passos de Jonathan eram rápidos e silenciosos.
Ele fechou a porta com cautela ao sair de casa e passou pelo pequeno jardim que decora a entrada sem olhar para trás. Seus cabelos ficaram emaranhados quando uma corrente de ar cortante passou por Elrem. Jonathan pouco se incomodou e continuou seu caminho para a floresta.
Ele sabia que teria alguém lá, o aviso não poderia ser falso.
Portava uma arma de fogo em sua mão direita; na esquerda ele segurava uma máscara que pegou no seu armário.
As primeiras árvores surgiram ao longe e Jonathan apressou-se. Ele olhou para o lado e viu dois homens trabalhando, seus rostos estavam sujos e suados. A lua lançava um brilho quase surreal sobre as casas.
Ele passou por um dos pequenos espaços entre as árvores para entrar na floresta, seu sapato de couro permitiu que ele andasse sem que os galhos e pedras machucassem seus pés. Jonathan acalmou-se e fez movimentos furtivos para desviar das árvores enquanto andava.
Ele ouviu uma voz.
Seus músculos enrijeceram e ele semicerrou os olhos a fim de enxergar melhor. Bem à sua frente, era possível ver uma mulher em vestes estranhas, a noite escura impediu que ele a reconhecesse, ela murmurava algumas palavras. Jonathan colocou sua máscara e correu para se aproximar dela.
A mulher fitou-o e se aproximou dele também.
— Bruxa! — ele falou, sua voz soou mais grave que o normal.
A bruxa manteve um olhar calmo.
— Quem é você? — ela questionou-o.
A raiva tomou conta de Jonathan.
— Não importa — ele apontou a arma — Quais suas últimas palavras?
— Não sou uma bruxa — a mulher rebateu.
Jonathan agora ardia em ódio, sem hesitar, ele disparou.
Uma dor intensa cortou suas costas, mas ele virou-se e sumiu na mata.
* * *
O grito de Isabelle fez os ouvidos de Constance vibrarem. O que ela viu há alguns minutos foi a cena mais intimidadora desde sua chegada à Elrem. Ela olhou para a avó que tinha o olhar direcionado para o chão. Constance seguiu o olhar da avó e sentiu seu estômago revirar.
O corpo de Marie estava estirado no chão, logo atrás dela.
Isabelle parou de gritar e seu choro se tornou mais baixo. Jena ajoelhou-se à frente dela e envolveu a menina em seus braços. Isabelle inspirou fundo e conteve o choro.
— Traga minha mãe de volta — ela implorou.
Jena olhou para o cadáver da amiga e segurou-se para não entrar em prantos, ela tinha que cuidar das garotas.
— Não há nada que possa ser feito — Jena falou para Isabelle. Seu coração estava acelerado no peito. Muitas lembranças passaram por sua cabeça. Lembrou-se de quando ela e Marie brincavam juntas na floresta de Elrem ou quando passavam o dia falando de suas paixões. Uma lágrima iluminou seu olhar quando ela lembrou-se do primeiro feitiço que praticou com a amiga. Jena afastou as lembranças antes que Constance e Isabelle vissem o quanto ela estava abalada.
Isabelle voltou a chorar.
— Não podemos deixar o corpo aqui — Constance falou, ela fez um sinal para que a avó soltasse Isabelle, assim que ela o fez, Constance passou a mão pelos cabelos da menina para acalmá-la — Temos que nos livrar do corpo, Bell.
A dor da perda tornou-se mais forte para Isabelle, mas ela sabia que era perigoso manter o corpo ali.
— Vamos enterrá-la — ela falou.
— Tenho uma ideia melhor — Jena levantou-se — Seria uma desonra enorme enterrar sua mãe na terra onde ela foi assassinada — mesmo sem Constance ou Isabelle contar, Jena soube que Marie foi assassinada devivo à bala ainda presa em sua testa — Vamos queimar o cadáver até virar cinzas, depois, jogamos ao vento, tudo bem?
— Vamos fazer isso — Isabelle concordou.
— Mas antes — Jena inspirou — como isso aconteceu?
— Marie estava me ensinando como me esconder no ar — Constance disse — Assim que consegui fazer o encantamento, um homem apareceu e atirou em seu rosto.
— Assim que ele deu as costas, eu nos transportei para cá — Isabelle completou.
A expressão de Jena era de medo.
— Venham aqui — ela se aproximou de Marie — Isabelle, você pode sumir com a fumaça enquanto eu queimo?
— Posso — Bell respondeu — Mas o fogo não vai destruir a casa?
— Vou usar magia — Jena respondeu.
Constance observou as duas. Jena fechou os olhos e o corpo de Marie ardeu em chamas, Isabelle se esforçou para transformar a fumaça em ar puro. A vontade de sobreviver era maior que a tristeza, mas Bell chorou quando o corpo virou cinzas.
— Isabelle — Jena olhou para a garota — pegue um daqueles frascos no beiral da janela
Quando Bell voltou com o frasco, Jena recolheu um pouco das cinzas e encheu-o.
— As cinzas de uma bruxa são preciosas, você se manterá mais forte enquanto estiver com isso — Jena devolveu o objeto para Bell.
— Obrigada — ela respondeu — Estou cansada.
— Você pode dormir aqui — Constance falou.
— Temos uma cama lá no fundo — Jena apontou para uma porta no fundo da sala.
— Muito obrigada — os olhos de Isabelle estavam inchados por causa do choro.
* * *
— Bom trabalho — Edgar tinha um sorriso orgulhoso no rosto.
— O que faço agora? — Jonathan colocou a arma de volta ao armário, a dor em suas costas era insuportável.
— Deixe-me ver — Edgar ficou à frente do filho, suas pupilas estavam dilatadas.
Jonathan livrou-se das roupas superiores. Uma queimadura era visível em sua região lombar.
— Agora você é um caçador de verdade — Edgar acariciou a cabeça do filho — Sua mãe vai ficar orgulhosa.
— Ela não gosta de mim — Jonathan rebateu.
— Talvez com o tempo que passe com ela...
— Não quero ir — o filho interrompeu.
— Você precisa ir, seu treinamento é importante — Edgar abaixou-se para olhar nos olhos de Jonathan.
— Mas eu treino desde quando eu era criança, pai — Jonathan insistiu.
— O treinamento de um caçador de verdade só é válido depois que ele mata a primeira bruxa, por isso somos marcados. Amanhã será a festa de Elrem e também sua despedida.
Jonathan hesitou, mas vendo que não poderia impedir o que viria pela frente, ele concordou.
* * *
O céu de Elrem estava mais azul do que nunca. Três homens tocavam uma música na praça circular. Os cidadãos se divertiam com danças, outros conversavam entre si. Jena, Constance e Isabelle lutavam para não deixar o sentimento de tristeza transparecer.
— Está gostando? — Jena perguntou para a neta.
— Estou, no vilarejo onde eu morava não fazíamos festas — Constance comentou.
Isabelle estava calada desde que saíram de casa.
— Vai ficar tudo bem — Constance falou, abraçando a amiga.
— Eu sei, mas está sendo difícil lidar com isso — A voz de Isabelle soou baixa.
Constance avistou Jared com Jonathan, o filho de Edgar. Os dois se aproximaram delas e as cumprimentaram.
— Bom dia — Jonathan olhou para Jena, para Isabelle e manteve o olhar fixo quando viu Constance. Ele sorriu para a garota.
— Bom dia — Constance respondeu.
— Essas são: minha prima Constance, minha avó Jena e nossa amiga Isabelle — Jared apresentou.
— Estou maravilhado em conhecê-las — Jonathan fez uma reverência.
Ele olhou mais uma vez nos olhos de Constance que eram mais azuis que o céu de Elrem.
— Belos olhos, senhorita — Ele sorriu mais uma vez.
Constance ficou envergonhada, a única coisa que fez foi sorrir de volta.
— Se me dão licença, preciso me retirar pois hoje vou deixar nossa cidade para passar um tempo com minha mãe. Vou para casa arrumar meus pertences — ele fez um sinal com os dedos, apontando para a maior casa de Elrem ao sul.
— Tudo bem — Constance falou.
Jena e Isabelle permaneceram em silêncio.
Jared acenou para Jonathan enquanto ele se distanciava.
O coração de Constance estava acelerado, ela observou Jonathan caminhar até que o garoto sumiu de vista.
Constance sabia que o sorriso dele ficaria gravado nas suas memórias por muito tempo.
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