Anseios de Amor e Luta

1 Prólogo - A Lenda das bruxas


Os cabelos grisalhos da senhora que estava deitada no amontoado de tecidos sujos dançaram com a brisa leve, que entrou pela janela da casinha de barro onde estivera desde o nascer do sol. A garota jovem, de cabelos castanhos e emaranhados, havia cuidado dela até a o levantar da lua, que brilhava linda e intensamente no céu. Um ruído da portinha de entrada chamou a atenção da garota, que olhou de relance e viu sua mãe entrar com o cabelo preso em um coque, roupas amassadas e um bebê no colo.
— Abigail, prepare água quente e um amontoado para esse bebê — disse ela apressada, passando a mão rígida e macia no couro cabeludo da criança.

— Ele está contaminado? — Abigail ajeitou uma mecha castanha atrás da orelha, temia a resposta.

— Felizmente não. Estava voltando da casa daquela mulher que morreu ao amanhecer e o choro alto dele me chamou a atenção. Pobre menino — Uma lágrima cristalina brilhou no olhar da mãe — Entrei na cabana de onde vinha o som, havia dois corpos no chão, cheios de feridas. Acho que eram os pais dele.

Abigail conteve-se para não chorar. Não suportava mais ver tantas pessoas morrendo por causa da praga. O vilarejo sempre passou por tempos difíceis desde que habitaram o coração da floresta, mas nunca houve um tempo em que tantas pessoas morreram de uma só vez. Ela tinha que conter a praga.

A casinha de Abigail serviu como abrigo de doentes desde a proliferação da doença. Era difícil manter pessoas ali, pois era provida apenas de um espaço sem divisões. Na entrada ficavam os amontoados de tecidos e logo ao fundo, potes e gravetos para fogueira.

Abigail pegou um pote cheio de água, posicionou-o numa pequena fogueira e aguardou até aquecer. Logo depois, arrumou alguns tecidos no chão escuro.

— Tudo pronto — falou em tom de satisfação depois de alguns minutos — Coloque ele aqui, mãe

A mãe sorriu. Ver sua filha ajudando seu povo com alegria e esperança encheu-a de orgulho. O bebê já dormia em seus braços, com muito cuidado, ela colocou o corpinho frágil sobre o amontoado, observando-o por um tempo.

— Uma gracinha, não é, querida? — sussurrou e logo depois sorriu, tentava não demonstrar sua fraqueza diante da filha.

— Sim, é lindo — Abigail concordou. Ela costumava não usar muitas palavras em momentos difíceis, acreditava que o silêncio era mais apropriado.

A mãe fez um aceno de cabeça e saiu em direção do pote com água quente. Ao lado, vários potinhos guardavam algumas ervas que elas usavam para aliviar a dor das pessoas contaminadas. Ela levantou as tampas de cada um raio de decepção passou por seu rosto. Abigail observava atenta.

— Acabou a casca de salgueiro branco — Ela fez um gesto com as mãos, balançando-as devagar.

— Isso é ruim! — Abigail exclamou

— Sem a casca, não posso fazer o chá para os pacientes e para o bebê, vou seguir a trilha da floresta e procurar um salgueiro branco — a voz da mãe estava mais grave que o normal, estava rouca.

— A Senhora fica aqui, eu vou! — Abigail sentiu que era o certo a se fazer, sua mãe precisava descansar.

Os músculos da mãe de Abigail estavam doloridos, havia trabalhado demais durante o dia ajudando as famílias do vilarejo. Queria impedir a filha, mas ela era a única naquele momento que poderia ajudar.

— Que os deuses te protejam — disse apontando para a porta

— Volto logo — Abigail entoou segura.

A menina, mesmo sem calçados, caminhou para a porta e com pressa saiu de casa. O céu acima estava estrelado, e a lua cheia completava a beleza natural noturna. Logo a frente, ao redor do vilarejo, a densidade de árvores dava início à floresta. Sem hesitar, Abigail correu e adentrou pela trilha quase apagada pela escuridão.

O interior da floresta era esplêndido. Mesmo depois de muitas idas ao local, Abigail se deliciava com a altura das árvores e o barulho dos insetos. Com esforço, andou pela trilha a procura de um Salgueiro Branco que pudesse retirar a casca. A terra abaixo dos seus pés descalços era fria e macia, então, Abigail desfrutou da sensação dando passos curtos e lentos. As estrelas pareciam brilhar mais agora. Continuou caminhando olhando para os desenhos que as estrelas formavam. Primeiro, as estrelas formavam uma águia, logos depois, um dragão brilhava em pontos no céu.

Depois de algum tempo observando as estrelas, Abigail percebeu que o solo já não era apenas terra. Gravetos e frutos incomodavam a sola dos seus pés. Havia saído da trilha.

Uma onda de medo percorreu suas veias.

A menina olhou em volta a fim de encontrar o caminho de volta, mas a floresta agora parecia um infinito verde e denso. Prestes a entrar em desespero, Abigail foi surpreendida com um brilho vindo do céu. Assustada, ela recuou com passos largos para trás, mas o brilho pareceu envolver todo o universo. Agora ela estava sozinha na imensidão de luz.

— A alma mais generosa e pura — Uma voz em sua cabeça soou pacífica e calma.

— Quem está aí? — Abigail gritou com dificuldade.

— Sempre estive aqui, querida — A voz respondeu.

— Quem é você? — Questionou

— Sou a floresta, sou a vida. O universo

— O que quer de mim? — Ela estava confusa, mas algo a prendia ali, estava imóvel.

— Sua bondade e determinação me atraíram até aqui, pequena garota. A praga que condena seu lar é resultado do desequilíbrio que vocês criaram ao vir habitar meu interior.

— Do que você está falando?

— Tudo no universo é equilibrado, minha jovem. Vida e morte, amor e ódio, bem e mal — houve uma pausa — Você irá restaurar o estrago na sua aldeia.

— Como? — O grito de Abigail foi intenso e rouco

— Sinta o mundo a sua volta. Tudo é energia, poder. Concedo-te o poder de recorrer à natureza quando precisar, e você precisa agora.

Num instante, era como se todo o corpo de Abigail fosse olhos, sentia os ventos, as arvores e toda ponta de vida ao redor.

— A natureza sempre estará viva. E agora que ela vive em você, a morte viverá ao seu redor, esse é o equilíbrio. Os seus serão caçados, pois serão condenados pelos que não tem a natureza viva por eles. Você deverá ensinar e passar esse poder para seus próximos porque agora fazem parte do fluxo natural e ele não pode ser quebrado. Seja sábia, Abigail Linton.

No mesmo momento, o mundo já não era luz. Abigail viu-se na trilha que a levaria de volta para casa. Tudo foi tão confuso e o tempo pareceu passar tão rápido. Ela sabia o que devia ser feito, então caminhou com pressa pela linha de terra, com a certeza de que poderia salvar seu vilarejo e com o medo das mudanças ocorreriam em sua vida desde aquele momento.