Anseios de Amor e Luta
3 Caça às Bruxas
Notas iniciais
O barulho das cavalos trotando pelas ruas de Elrem acordou Constance. Seu corpo estava leve e ela sentiu-se restaurada fisicamente. Ainda estava abalada com a morte dos pais, mas tinha que manter-se forte. Um sentimento de vingança crescia em seu peito. Ela decidiu ficar no quarto o dia todo, não queria ver seu primo, sua avó ou até mesmo a cidade. A imagem do garoto da noite anterior passou por sua cabeça, mas estava indisposta demais para pensar nele também. Seus planos foram interrompidos por uma batida ritmada na porta.
— Constance?
Era Jared.
— O que é? — ela forçou a voz para aumentar o tom.
— É melhor se apressar — ele retrucou — Temos algo importante para fazer hoje.
— Como assim? — disse desanimada.
— O conselho vai fazer um anúncio em praça pública — Jared estava perdendo a paciência — Eles exigem que todos os moradores estejam presentes quando anunciam algo.
— Não posso sair! — exclamou, percebendo uma leve falha em sua voz — Nem tenho o que vestir.
— Vovó preparou um banho quente e alguns vestidos para você, não abriu o seu guarda-roupa? Anda logo! — ele deu mais uma batida na porta e voltou para o andar de baixo.
Constance jogou as pernas para fora da cama, não batendo por pouco seus pés no guarda-roupa. Ela levantou os braços e esticou os membros a fim de relaxar os músculos do seu corpo. Ao abrir as portas do guarda-roupa, deparou-se com muitos vestidos e mantos de veludo. Constance não demorou muito e escolheu um vestido lilás, com uma cauda longa e cheia. Em seguida, pegou um manto branco e foi para o banheiro.
* * *
O espelho refletia a imagem de uma jovem elegante. Constance escolheu o manto certo para combinar com o vestido. Seus cabelos estavam presos em um coque firme, tornando seus olhos ainda mais chamativos.
Jena estava sentada à mesa esperando por Constance. Jared já estava na porta.
— Estou pronta — ela falou, virando-se para que vissem o resultado dos seus minutos dedicados à beleza — Podemos ir?
— Como você está linda! — Jena exclamou, estava impressionada com o quanto a neta crescera desde quando a viu pela ultima vez — Vamos — ela levantou-se da cadeira.
— Finalmente — Jared revirou os olhos — O anúncio já deve estar no fim, vamos logo.
Jena e Constance foram para a porta e Jared abriu-a, os três saíram e deram de cara com a agitação da cidade. Uma multidão ia para a praça ao norte. Todas estavam em trajes casuais ou pouco formais, algumas mulheres estavam com os cabelos tão emaranhados que Constance sentiu uma ponta de vergonha por estar tão arrumada em uma situação que não exigia tanta formalidade.
— Acho que vou deixar o manto — ela falou para a avó.
— Você está linda assim — Jena trajava um vestido verde sem muitos detalhes, seu cabelo estava preso em uma única e grossa trança.
— Mas as pessoas não estão arrumadas, vó — ela estava com medo, não queria chamar atenção.
— Nem todos têm a oportunidade de se vestirem bem — os olhos de Jena brilharam.
Os moradores de Elrem não tinham muitos recursos, a maioria levava uma vida simples e difícil.
Elas seguiram a multidão até chegarem em um espaço amplo e circular rodeado de pessoas, no centro, dois homens em boas vestes negras recebiam os moradores da cidade. As pessoas olhavam atentas enquanto um deles, o mais jovem, preparava-se para falar.
— Bom dia cidadãos de Elrem — ele gritou, sua voz era potente o suficiente para que todos ouvissem.
As pessoas emitiram um "bom dia" em coro.
— Sou Edgar Rasmus, um do líderes do Conselho de Elrem — ele apontou para o homem ao seu lado — Este é Lucian, o fundador da nossa cidade.
Constance deduziu que ele se apresentou por modéstia, todos pareciam saber quem ele era.
— Ontem, nós do Conselho tivemos uma reunião sobre o desaparecimento das mulheres de Elrem. — O homem ao lado de Edgar olhou para trás, uma figura pequenina se deslocava entre a multidão e ia para o centro da praça.
Era o garoto da noite passada, ele estava em roupas formais que mostravam suas formas quando ele se posicionou ao lado de Edgar.
— Deem boas vindas ao meu filho — Edgar apontou para o garoto ao seu lado — Jonathan Rasmus.
A multidão bateu muitas palmas, Constance estava maravilhada.
— Continuando — seus gritos eram mais altos agora — Aconselhamos que nenhuma mulher poderá manter-se nas ruas após as seis da tarde.
Resmungos agudos tomaram os lugares das palmas, Jena lançou um olhar para a neta, que demorou um pouco para entendê-lo.
— Espero que todas colaborem, ou serão punidas por interferir no trabalho dos reverendos da cidade — ele esperou as pessoas se calarem antes de continuar o anúncio — Amanhã, teremos uma comemoração na cidade, convidamos todos os cidadãos para assistir a cerimônia de aniversário da nossa cidade — os ouvintes aplaudiram — Espero que todos compareçam.
Ele se calou, o homem que até agora estava ao seu lado, virou-se e ordenou que as pessoas ali paradas dessem espaço para eles passarem. Os moradores de Elrem começaram a se deslocar e voltar para suas casas.
Constance, Jena e Jared fizeram o mesmo.
Ao chegar em casa, Constance trocou o vestido longo e pesado por um bem leve, se livrou do coque no cabelo e ficou na sala conversando com a avó e ajudando-a a cozinhar e limpar os móveis. O sol já se punha quando as duas sentaram exaustas à mesa e tiveram a primeira refeição do dia.
— O aviso de hoje... — Constance falou ofegante — Como vou treinar com Marie?
— Tudo bem, querida — Jena sorria, estava confiante — Isso não muda nada nos nossos planos, aliás, Marie virá hoje para cá e vocês vão treinar nas matas.
— Mas e se formos pegas, vó? — Os olhos de Constance quase saltaram das órbitas devido ao medo.
— Nós temos nossos truques — ela deu uma garfada no cozido de carne e levou o pedaço suculento à boca.
— Truques? — Constance mal conseguia comer, a curiosidade sempre a tomava quando o assunto era magia.
— Glamour — Jena sussurrou — Um feitiço que nos permite andar sem sermos vistas.
— Meu pai me ensinou algo parecido! — Constance ficou tão fascinada que ao menos se sentiu mal ao lembrar do pai — Quando Marie vem, vó?
— O sol já se pôs — ela olhou para a Janela — Em breve ela estará aqui.
Jared desceu as escadas, puxou uma cadeira e sentou-se com a prima e a avó. Seus cabelos castanhos estavam molhados e seu corpo magrelo estava coberto por roupas de couro.
— Marie já chegou? — ele perguntou.
— Está vendo ela aqui? — Constance retrucou, olhando para a avó.
— Uma bruxa nem sempre pode ser vista — ele gesticulou enquanto falava.
— Calma, meninos — Jena interrompeu os netos, não queria que o barulho chamasse a atenção das pessoas do lado de fora.
Constance bufou e Jared riu.
— Nem parece que tem quatorze anos! — Constance ficou vermelha, o primo sabia como a irritar.
— Fique quieta — Jared sussurrou.
Do lado de fora, ruídos chamaram a atenção dele.
A avó levantou e recolheu os pratos e talheres da mesa, levando-os para um lavatório no fundo do cômodo. Os netos tentaram agir de forma neutra e natural. Os ruídos ficaram mais altos e uma batida na porta foi seguida por alguns segundos de silêncio. Jared balbuciou uma frase e levantou-se para abrir a porta. Uma brisa leve passou por seu rosto quando ele espiou por uma brecha da porta.
Assim que ele trancou a porta novamente, duas figuras se materializaram no ambiente: Marie e ao lado, sua filha.
— Olá — Marie falou o mais baixo possível.
— Como fez isso? — Jared perguntou, suas sobrancelhas estavam arqueadas.
— As bruxas podem fazer muitas coisas — Marie respondeu sorrindo.
Jared nunca se acostumou com a magia, sua mãe não era bruxa e teve uma vida muito difícil. Quando Jared nasceu, seu marido a abandonou e ela morreu de desgosto anos depois, assim, Jared foi morar com Jena.
— Legal — ele falou — eu disse que nem sempre as bruxas podem ser vistas!
— Trouxe Isabelle comigo — Marie apontou para a garota negra de cabelos longos e cacheados ao seu lado.
— Oi — ela acenou para todos na sala, suas mãos eram pequenas e delicadas.
Jena sorriu para as recém chegadas.
— Sentem-se — ela pediu, mantinha o sorriso no rosto para esconder o pouco de medo que sentia.
— Creio que não precisamos — Marie falou — Quanto mais rápido formos, melhor — ela olhou para Constance — Está pronta?
— Estou — Constance deixou sua confiança transparecer.
— Temos que ir rápido, venha cá — Marie chamou-a fazendo um sinal com os dedos.
Constance estava empolgada e eufórica, Marie era muito poderosa e ela estava contente em ter uma professora. Seus pais a ensinaram alguns feitiços, mas ela sabia que tinha muito para aprender. Quando se aproximou, Marie fez um gesto com as duas mãos como se segurasse uma bola de cristal. Constance perdeu o foco da visão, retomando-o no instante seguinte.
— Esse é um feitiço para nos escondermos no ar, é como uma ilusão — Marie falou.
Isabelle encarou Constance.
— Qual seu elemento? — ela perguntou, seus olhos cor de âmbar confortaram a parceira.
— Não sei — Constance ficou envergonhada.
— Estranho! — as maçãs do rosto de Isabelle subiram e sua testa enrugou em uma expressão de espanto — Bom, como pode ver, eu e minha mãe somos bruxas do ar.
— Legal — Constance forçou um sorriso — Então... esse é o feitiço do Glamour?
— Não — foi Marie quem respondeu — O glamours são feitiços demorados para se aprender e para se fazer também, mas logo você os aprenderá.
— Tudo bem — Constance respondeu — Podemos ir?
— Claro! — Marie foi para a porta — Jared, você pode nos ajudar? Seria muito estranho uma porta abrir sozinha, não acha? — ela deu uma risadinha.
— Ah, já estão na porta? — Jared olhou para a frente, encontrando apenas o vazio.
* * *
A floresta de Elrem era enorme, o solo era rico de flores e plantas cobertas por galhos e frutos caídos. As árvores fechavam toda a visão da cidade e a noite escura era tão segura para Marie que ela decidiu não usar o ar para se esconder enquanto estivesse ali.
— Chegamos — ela falou, a capa de pele que cobria todo o seu corpo balançou com o vento noturno.
— Que lugar lindo! — Constance exclamou, sua voz soou aguda, como o canto dos insetos que invadia seus ouvidos, ela estava tão concentrada na beleza verde da floresta que não se incomodou com o barulho.
— É lindo mesmo — Isabelle se aproximou de Constance, seus olhos pareciam vidrados nela.
— Já veio aqui antes? — Constance imaginou uma Isabelle criança correndo entre as árvores.
— Poucas vezes, ainda estou em treinamento — ela sorriu e Constance soube naquele momento que Isabelle seria uma ótima parceira.
— Vamos começar, meninas? — Marie virou-se para as duas — Constance, vamos inciar com algo bem simples. Minha filha, pode te ajudar, se quiser.
— Será ótimo — empolgação era visível comportamento de Constance.
— Você disse que não sabe qual elemento te rege, não é? — A brisa fez os cabelos de Marie dançarem.
— Sim — ela encarou Marie — Aprendi alguns feitiços com meu pai, mas nada que identificasse meu regente.
— Acho que uma explicação teórica antes de praticar será de grande ajuda — Marie concluiu.
— Claro — A aluna a olhava atenta.
— Cada bruxa nasce de um elemento — Marie iniciou — Fogo, Terra, Água ou Ar. Todas as bruxas podem fazer todo o tipo de magia — ela fez uma pausa e se aproximou ainda mais de Constance — Toda magia é regida por um elemento, sendo assim, uma bruxa do ar tem mais facilidades com magias do tipo ar, entendeu?
— Entendi — Constance se deliciava com as histórias de Marie.
— Uma bruxa do ar tem facilidade com ilusões — ela continuou.
— Então é assim que você nos escondeu! — Constance interrompeu-a.
— Sim — Marie sorriu de satisfação — Uma bruxa da terra pode enxergar com o tato, bruxas desse tipo podem sentir absolutamente tudo; as do fogo tem o elemento do meio-dia ao seu dispor, sendo ótimas em adivinhações — ela caminhava ao redor de Constance enquanto falava — E uma bruxa da água é boa em cura.
— Minha vó é uma bruxa do ar também? — Constance se empolgou com o assunto.
— Sua avó é regida pelo fogo — A voz de Marie era serena.
— E a Abigail? — A história da primeira bruxa ainda vibrava na cabeça dela, Isabelle observava a mãe ensinar Constance.
— Abigail era regida pelo espírito do universo, a bruxa mais poderosa que já existiu — o olhar de Marie se iluminou com o brilho da lua.
— Uau — foi a única coisa que Constance conseguiu dizer.
— Vamos começar com um feitiço de ilusão — Marie falou em tom baixo — Isabelle, venha aqui.
A filha se aproximou da mãe.
— Constance, você vai fazer um ilusão para você e Isabelle desaparecerem no ar — ela fez uma pausa e olhou ao redor — é só imaginar o ar em sua volta virando parte do seu corpo e logo depois, do corpo da pessoa ao seu lado, tudo bem?
— Vou tentar — Constance falou enquanto se aproximava de Isabelle.
Ela fechou os olhos e sentiu o ar ao seu redor. Imaginou as correntes envolvendo-a e depois,envolvendo Isabelle que estava ao seu lado. Quando abriu os olhos, sua vista estava embaçada e logo voltou ao normal
"Consegui" pensou.
Mas Marie não estava olhando para ela. Ela tinha os olhos voltados para as árvores que as cercavam e para uma figura encapuzada que se movia entre elas. Marie se virou para as duas e balançou a cabeça para o vazio, pedindo para que elas fizessem silêncio.
— Bruxa! — A voz era masculina.
— Quem é você? — Marie era mais alta que o homem encapuzado, ele escondia o rosto com uma máscara.
Constance estava amedrontada, não conseguia ver o rosto do rapaz.
— Não importa — ele tinha uma arma apontada para a mulher à sua frente — Quais suas últimas palavras?
Marie não pôde fazer nada, ela se negou a entregar a existência das bruxas.
— Não sou uma bruxa — ela tentou se explicar, mas antes que pudesse terminar a frase, uma bala perfurou sua testa, fazendo o sangue manchar seu rosto.
Constance viu o terror no rosto de Isabelle que lutava para não gritar. O corpo de Marie caiu imóvel no chão.
— Suas últimas palavras não me interessam, bruxa — O homem olhava para o cadáver caído.
Constance percebeu que o assassino não era um homem, mas sim, um garoto.
No instante seguinte ela estava ajoelhada no chão de casa de Jena, Isabelle estava ao seu lado com o rosto cheio de lágrimas. Mesmo com o pânico da morte da mãe ela conseguiu fazer um feitiço de transmutação, e agora que estava segura, gritou.
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