Anseios

4 Esse maldito coração, pt I


ANSEIOS

I’m a stupid blind old man

Deny suck a bright light

Give up glow to live in

the peace we made before.

OHIO — Hyukoh

A sensação era de olhar através de um espelho e ver em nitidez uma imagem antiga. Nostalgia? Não, visto a sua repetição. Não sabia colocar aquela sensação em apenas uma palavra. Obviamente seria mais fácil culpar apenas um sentimento ou apenas um momento. Culpar também apenas uma falha.

Se houvesse apenas um, eu o rebobinaria em minha cabeça até que eu mesmo me dissesse: “Tudo bem Yasuo, seus motivos são compreensíveis. Agora, apenas esqueça.” Mas não era um. Nem dois ou três.

Era um amontoado de erros e a minha guarda baixa. Eu também poderia colocar a culpa em minha mente fraca, mas perdi as contas de quantas autoanálises eu fizera. E quando eu chegava a frase “Esqueça”, todos os outros erros vinham a tona e me tornavam leviano. Tornavam o meu sentimento real.

O fato era que precisei de dois meses e dezesseis dias para entender e aceitar o que estava diante do meu nariz. E muito álcool e muito fôlego para continuar tocando a flauta. A essência daquele sentimento era completamente insana e masoquista.

Eu era culpado por diversos atos. O sangue ainda escorria por minhas mãos, as intrigas, os desentendimentos, os preconceitos e todos os ressentimentos eram todos respostas do meu ego. Mas até que ponto eu era culpado por me deixar levar por meu coração?

Como se eu estivesse sozinho em um mar agitado, cada nova descoberta era uma onda quebrando contra mim, me fazendo afundar cada vez mais. Minha cabeça era inundada em negação. A memória da silhueta de Riven se afastando cada vez mais era como as antigas batidas dos congos que anunciavam o Festival de Primavera. A cada passo ou a cada batida algo dentro de mim diminuía e minha cabeça insistia em achar a resposta em outras coisas.

Esse tipo de condição antes parecia tão longe e tão distante de minha realidade que eu não me preparei para o que viria. Amor era exclusividade, era privilégio.

A lembrança daquelas noites em frente da casa de Asa Konte e a maldita lamparina acesa me deixavam inquieto. Como se fosse um tempo muito distante, eu não conseguiria voltar para lá. Não conseguiria voltar para aquele antigo sentimento. Estava praticamente estagnado. Eu não conseguiria mais tratá-la com rancor e não conseguiria mais culpá-la, mesmo que eu quisesse destratá-la como quis na volta da cachoeira, aquilo era apenas o reflexo da negação. Era a raiva inicial por ter sido tão burro. Havia conseguido enganar a mim mesmo por alguns meses, mas não poderia mais negar que eu não sentia o que eu deveria e sentia o que eu não deveria.

E quanto mais eu percebia, mais eu me odiava. Não havia outra explicação para eu me permitir a esse tipo de sentimento por ela. Eu sabia que, estar apaixonado pela mulher que destruiu meu destino era nada menos do que masoquismo e autoflagelação. Se não, de que outra maneira eu explicaria não me importar em estar ao lado dela mesmo queimando em frustração e desejo?

Talvez não fosse paixão ou amor. Talvez fosse algo diferente. Ou algo entre os dois, uma linha tênue. A mesma linha que separa o ódio do amor. Admiração? Disso eu já sabia, mas sabia também que esse sentimento não caminhava sozinho. Era como as camadas de uma cebola. A primeira era obviamente o ódio disfarçando o resto, uma máscara frágil que havia se quebrado com a facilidade da falsidade.

Depois vinha a admiração mesclada com a inveja. Como se fosse uma sopa de sabor agridoce. A admiração era reflexo das ações determinadas de Riven e a inveja vinha como um resultado do reflexo, um outro espelho, me mostrando que eu era incapaz de agir daquela forma. Mesmo ansiando.

Dizem que vemos no outro o que falta em nós. Patético.

Essa segunda camada era extremamente extensiva. Eu havia me mascarado demais nesses sentimentos, pois eles eram o mais perto do sensato que eu poderia ser. Eram praticamente a minha armadura, do qual eu me coloquei diante de algo que eu não esperava ser uma batalha. Talvez por não esperar isso que acabei abatido.

As outras camadas envolviam algo mais complexo e mais aterrorizante. E também demonstravam mais que o estopim do ódio para o amor era apenas um estalar de dedos. Os sentimentos estavam empilhados um em cima do outro e giravam como uma engrenagem, vira e mexe um sobrepunha o outro. O afeto, o carinho, o impulso, o desejo e a atração ficavam alternando entre si. Cada vez que eu pensava nela era algo diferente do anterior, cada vez mais eu achava um problema e minha cabeça esperançosa me dava uma solução.

Esperança plantada por Riven.

Também não era carência. Eu não era esse tipo de homem que culpava a carne. Talvez pelo trauma de minha infância ou talvez pela apatia dos anos. E isso me assegurava que o que eu estava sentindo por aquela mulher era real, e não um sentimento sem nexo, fruto de algo que eu não entendia. Porque eu entendia sim, e como eu adoraria não entender. Preferia não entender. Mas o coração pedia o que ele ansiava. E ele ansiava desesperadamente por Riven.

Mas uma brecha de medo se apoderava de meu corpo quando eu pensava em voltar. Uma hora eu teria que voltar. Não encará-la após a descoberta de meus sentimentos era não só admitir a derrota em medo, mas também covardia. Eu não sou covarde.

O conforto que eu sentia em ver algo e lembrar apenas dela era gratificante. Parecia uma mistura de paz com tristeza, pois sabia que apenas eu sentia aquilo. Mesmo assim, uma ternura ainda me invadia, como se algo em meu subconsciente me agradecia por simplesmente admirá-la. De longe, era um sentimento bom. E por isso voltar me amedrontava.

Eu já sabia que me tornaria ganancioso.



Parado em frente a porta de Asa Konte, eu precisava urgentemente que alguém me dissesse que eu não estava louco.

Eu esperava justamente por ele, aquela familiar figura parecida como um pai. Não que eu soubesse o que era aquilo, mas meus palpites sempre apontavam para Asa Konte. Seu passado não era tão enigmático assim, e confesso que quando era criança eu nunca me imaginaria bebendo ao lado daquele homem, tratando-o de forma íntima e ansiando pelo mesmo.

Mas lá estávamos nós, quatro horas da tarde de um dia quente de verão, bebendo qualquer saquê que desse para o gasto.

— Eu abri uma pequena exceção na minha rotina porque a sua cara não era das melhores. — Escutei-o dizer. Ele me fez sentar nos degraus que separavam sua casa principal do início da plantação. Não nos olhávamos nos olhos, apenas mirávamos reto para os sítios bem espaçados da plantação de arroz. Bem ao fundo estavam as pequenas montanhas em forma de funil.

— Pareço tão mal assim?

— Não é só por você. — Vi de relance a primeira vez que ele deu um gole em sua bebida. — Faz algum tempo que eu não vejo as lamparinas acesas até tarde. Pode não parecer grande coisa, mas também somo isso a dois episódios em específico, dos quais Riven perdeu a hora. — Aquilo aqueceu meu espírito. Asa Konte riu. — De sono, você acredita?

— Aonde você quer chegar com isso? — Não é como se eu não conhecesse aquele velho.

— Quando eu e Shava colocamos nossos olhos naquela menina era impossível ignorar a transparência. Mesmo ela não falando direito nosso dialeto e mesmo ela não dizendo nada na maioria das vezes. Riven é transparente como a água. Basta você olhar para seus olhos que você verá a resposta.

— A minha resposta nunca será simples.

— E quem disse que precisa ser? Se a verdade fosse simples, não haveria mentiras. E se não fosse dolorosa, não haveria medo. — Ele voltou a sorrir. — Nunca achei que você fugiria de uma batalha sem ao menos tentar.

— Então realmente existe uma batalha.

— E como existe. — Asa Konte arqueou as sobrancelhas, uma mistura de surpresa e sabedoria.

— Está tão na cara assim? — Perguntei em derrota, percebendo que ele já sabia dos meus sentimentos. Talvez até antes de mim.

— Como água.

A lua já brilhava no céu fazia algum tempo. Eu já tinha retornado ao vilarejo fazia uma semana e meia, passado quatro dias desde o meu encontro com Asa Konte. Por um motivo que beirava ao estúpido, eu ainda não tinha encontrado com Riven. A verdade era que eu sequer cheguei a procurá-la.

Talvez fosse medo. Talvez fosse ego. Eu não queria ir atrás dela correndo, eu temia que isso deixasse meus sentimentos a mostra. E parte de mim, aquela parte iludida, queria que ela viesse ao meu encontro.

E foi o que aconteceu. Quando eu escutei o bater na porta, a ansiedade se misturou com o nervosismo e fizeram minhas mãos suarem. Aquela hora da noite só poderia ser ela, e eu me pegava ansiando novamente para que realmente fosse.

Corri a porta e levantei meu braço, apoiando no arco de madeira e encostando a minha cabeça. Talvez ela achasse que eu não a deixaria entrar. Talvez isso fosse o sensato.

— Yo, Riven.

Talvez fosse a descoberta em meu coração, ou talvez fosse a saudade. Mas ela parecia mais linda que nunca. Eu sei que não havia nada demais ali, apenas um pouco a mais de sua carne exposta em decorrência do calor, mas eu não podia evitar meus pensamentos.

— Oi Yasuo.

— Entediada? — Falei tentando provocá-la.

— Não. — Ergui a sobrancelha percebendo que ela estava séria.

— Achei que você só vinha quando estava entediada. — Confesso que quis brincar um pouco com aquela cara emburrada. Talvez sem motivo ou não. Talvez havia acontecido alguma coisa nesses meses que fiquei fora.

— Como eu vou vir se você nunca está? — Ela falou passando por mim, empurrando um pouco meu corpo para trás.

Corri a porta e fui andando atrás dela. Riven foi até o fundo e se sentou no piso de madeira, com seus pés tocando a grama. Eu não havia iluminado no fundo, apenas duas lamparinas na cozinha que iluminavam um pouco onde estávamos. Não parecia ruim, parecia romântico.

— Por que essa cara brava? — Perguntei enquanto sentava próximo de si. — Aconteceu algo?

— Por que você sempre vai embora? — Respondeu a minha pergunta com outra. Então era isso.

Ela não usou a palavra partir ou viajar. Ir embora era sentimental demais, soava como se houvesse alguma emoção por detrás daquilo. Me esforcei para não confundir e não deixar meu coração ser enganado pelas palavras que ele gostaria de ouvir.

— Eu fiquei algum tempo fora.

— Alguns meses você quis dizer. — Franzi as sobrancelhas ao escutar aquilo. Meus ouvidos ouviam o tom diferente na voz de Riven, mas eu não sabia até que ponto aquilo podia ser a minha imaginação fantasiando. Eu podia até jurar que o motivo do qual ela estava brava era relacionado a mim. Mas não, eu não iria deixar a minha cabeça seguir por esse rumo.

Fiquei quieto, temendo que qualquer coisa que eu falasse pudesse soar errado… de alguma forma. Ou que pudesse me expor.

— Fiquei sabendo que você e Asa conversaram… — Agora sua voz parecia veludo, mudando drasticamente. A cada palavra que ela dava eu me sentia mais estranho, como se eu estivesse preso em uma alucinação. Por que ela estava falando daquele jeito? Analisando por cima, parecia um jeito pidão. Igual um gato se esfregando pedindo comida.

Ou era fruto da minha cabeça? Eu apostava que sim.

— Já faz um tempo. Umas três semanas. — Claro que eu contei. Fui ao ambiente que era impregnado de você e não pude te ver.

Eu deveria perguntar para ela logo porque ela estava agindo daquele jeito tão estranho, mas parecia que ignorá-la um pouco iria fazer com que ela se relevasse cada vez. Assim eu conseguiria saber se o que eu via era a imagem real ou uma imagem virtual.

— Ele não me contou sem eu pedir. — Meus pêlos se arrepiaram um pouco, ficando alerta ao o que Asa Konte disse para ela. Olhei para o lado e pisquei suavemente, tentando agir com neutralidade. — Ele só me contou porque eu vi que o saquê que eu ganhei tinha acabado.

— Você ganhou aquele saquê ruim?

Passou um fio de tristeza por sua face.

— O que tem demais nisso? Cavalo dado não se vê os dentes. — Eu sorri de escárnio. Acho que ela percebeu o que viria a seguir.

— Não sabia que você era assim.

— Assim como?

— Determinada a assuntos que não te pertencem.

Eu estava observando-a cara a cara, absorvendo cada ação que ela tinha comigo. E no momento que eu disse aquilo em uma inútil provocação, o seu olhar iluminou. Se fosse como qualquer outra pessoa, ela teria recuado, voltado para o seu lugar. Mas não Riven. Ela me encarou com as suas chamas adormecidas, jogando em minha cara mais um dos motivos por eu estar apaixonado por ela.

— Quem disse que eu não me interesso pelo o que diz respeito a você?

Era daquele jeito que ela me deixava sem palavras. Parecia me enlaçar brutalmente como o bote de uma tarântula ao comer uma barata.

Ri de nervoso, tentando sair de meu torpor.

— Está me dizendo isso só porque bebi o seu saquê. — Optei pela lógica, antes que não me sobrasse mais nada. — Pra recompensar, eu te trouxe algo.

— Trouxe? — Seus olhos eram ansiosos iguais de uma criança vendo doce.

Me levantei do piso de madeira e fui até o canto em que guardava minhas bebidas. Riven me perseguia com o olhar, mas não fez questão de se levantar. Voltei com a pequena garrafa amarelada já conhecida, e seus olhos não podiam brilhar menos.

— Quer beber agora? — Perguntei aquilo engolindo seco. Eu não poderia ficar bêbado perto dela.

Riven parou e refletiu durante um tempo.

— Sim! — Inferno.



Era um risco que eu estaria sempre correndo a partir de agora, algo que eu não poderia deixar de lado simplesmente com a força de vontade. Não era segredo para ninguém que eu era um bêbado fodido que acabava sempre por causar algum desastre. O porém era que ultimamente o único desastre que eu poderia acabar causando era o meu próprio. Como se eu financiasse a minha própria ruína, bebida e Riven era uma combinação letal, ainda mais com pouca coisa no estômago.

— Asa te contou que era meu?

Não saímos de nosso lugar, apenas esticamos os corpos ao piso de madeira em conforto e servíamos a bebida de jaboticaba um para o outro.

— Não, porque?

— Achei que era uma recompensa. — Ela sorriu de canto. Mulher atrevida.

— O que quer que eu diga? — Aquela era a minha quinta dose já, enquanto ela permanecia na segunda. Eu não sabia se seu ritmo era ruim ou ela tentava me embriagar. Se era a última opção, ela estava conseguindo.

— Que comprou pensando em mim. — Olhei para o lado como refúgio.

— Eu tinha te falado que ia voltar para comprar mais.

— Você disse que ia voltar para lá e que ia comprar mais, não que ia voltar lá só pra comprar mais.

Meus olhos se moveram para os dois cantos, tentando relembrar da informação. Quando eu mexia a cabeça, eu já podia sentir a tontura invadindo o meu corpo, por isso eu me limitava àquele movimento.

— Vou entender o seu silêncio como sim. — Ela levantou seu tronco. Me olhou seriamente, nele havia um leve tom frustrado. Que frustração era aquela? Isso eu não sabia dizer. — Se foi sim, então não faça mais isso.

— Não ir buscar pinga para você? — Seu rosto fez um ar de confusão, mas ela se prontificou a responder rápido.

— Sim. Desse jeito você vai me deixar mal acostumada.

— É? Por que?

—Vou achar que sempre que partir vai lembrar de mim e trazer algo na volta.

Instantaneamente arqueei o meu corpo para frente indo de encontro ao dela, com o meu olhar fixo em seus lábios. A distância de nossas bocas era talvez de cinco centímetros e acabei por me perguntar se ela também estava olhando fixamente para minha boca.

Aquilo nunca aconteceria.

Me recompondo e percebendo o quão ridículo eu poderia estar sendo, tombei a minha cabeça para trás, sucumbindo ao peso dela que já estava me irritando. Senti o contato com algo macio e olhando para cima, percebi que deitei em seu colo.

Se eu estivesse cem por cento são eu realmente conseguiria reunir as forças necessárias para me afastar dela. Ela não se moveu.

— Por que você sempre diz partir? — Descobri que odiava a palavra naquele momento. E o motivo era tão patético que me custaria a dizer se ela me perguntasse.

— Porque é o que você faz. Você se vai.

— Soa como se eu não fosse voltar. — Afirmei, rindo de escárnio. — Você está certa, eu nunca sei se vou voltar.

Olhando-a de cima, conseguia ver nitidamente a forma como ela parecia ponderar sobre o que eu disse.

— Dias iguais aquele da cachoeira acontecem com frequência? Foi só eu tirar os meus olhos de você por algumas horas que aquilo aconteceu.

— Eu não vou fugir do que eu causei. E… — Parei por um segundo. Eu deveria falar aquilo para ela? Não sei como ela reagiria. De qualquer jeito, não era como se não fosse óbvio. — … Ele só não me matou porque ele quis.

Nossos olhos se encontraram. Eu sabia o que era aquilo. A noite do julgamento, a maneira da qual eu fiz o que fiz: a ajudei a encontrar as respostas. A maneira da qual quase não duelamos, da qual eu admirei como ela aceitava a culpa. A maneira como eu praticamente abri o meu coração para aquela mulher naquele momento.

Mas eu desviei meu olhar. Pela primeira vez, parecia desnecessário voltar a carregar tamanho fardo.