Another day in paradise
5 Capítulo 4 - Wonderwall
A conversa que corre na rua é
Que o fogo no seu coração se apagou
Tenho certeza que você ouviu isso tudo antes
Mas você nunca realmente teve uma dúvida
Eu não acredito que alguém
Se sinta do modo como me sinto
Sobre você agora
Três horas depois, Naruto estava fitando as estrelas fluorescentes do teto de seu quarto enquanto acabava com mais uma carteira de cigarros. Mantinha a janela aberta para tentar diminuir o cheiro forte, pois sabia que seus tios engoliam todas as aventuras sexuais dentro de casa e as noites viradas fora dela, mas fumar ali era algo que eles eram veementemente contra. Por isso trancava o quarto, abria as janelas e ficava fumando como se estivesse cada cigarro trouxesse uma promessa de mantê-lo são dentro daquela vida tumultuada.
Tinha um curativo envolvendo sua cabeça e aquilo o incomodava bastante, então ficou de pé, apagou os restos do cigarro no cinzeiro e vidro e lançou o filtro no cesto de lixo ao lado da escrivaninha. Caminhou até a varanda e começou a repassar em mente toda a conversa que tivera com a tia no hospital.
"Os grandes e alaranjados olhos da tia Konan o encaravam enquanto empunhava ameaçadoramente uma lanterninha em direção as suas íris.
— Naruto, você andou bebendo? — perguntou ela desligando a lanterna e colocando no bolso do jaleco impecavelmente branco.
Estava sentado em uma cadeira desconfortável, no corredor do Hospital Geral de Konoha, onde sua tia trabalhava e para onde era recomendado que todos os seus sobrinhos fossem trazidos caso houvesse alguma emergência. Não que aquela fosse realmente uma emergência, tanto que nem sentia mais dor e...
— Ai! — gemeu quando a mulher desamarrou o lenço de sua cabeça para examinar o ferimento.
Sentiu quando puxou seus cabelos e conteve um novo gemido de dor quando ela passou o dedo pelo local ferido. Será que não podia ser um pouco mais delicada ou ser bruto era parte de ser médico?
— Não, eu não andei bebendo.
— Você comeu bem antes de sair de casa? Andou tendo tonturas?
— Não. Eu não sei por que desmaiei. Uma hora estava bem e na outra, acordo aqui. — respondeu.
Konan deu um volta ao seu redor, aparecendo outra vez a sua frente. A expressão da tia era preocupada, até mais que o normal, quando puxou um banquinho de plástico branco e sentou-se.
— Naruto, seus exames não deram nada errado, se quer saber. Na verdade, creio que seu problema não seja tanto o físico, mas aqui... — ela respondeu apontando para a cabeça.
O garoto ergueu as sobrancelhas surpreso.
— Acha que estou ficando doido?
— Não, querido. Acho que seu problema é psicológico.
— Como assim?
A médica suspirou longamente e mordeu o lábio. Naruto conhecia muito bem aquela expressão: ela estava medindo as palavras.
— Bem, querido, não sou especialista nessa área, mas pelo que eu andei escutando da sua psicóloga e o que Sasuke me falou que aconteceu essa manhã... Acho que você está com síndrome do pânico.
Naruto soltou uma risadinha seca e sem humor. Aquilo era ridículo. Konan ajeitou a postura enquanto colocava as mãos do sobrinho entre as suas e o olhava nos olhos novamente.
— Falta de ar, taquicardia, nervosismo e desmaios são sintomas comuns, mas, olha, não é algo tão ruim se for controlado. É só, bem, procurar um tratamento.
Ele puxou suas mãos bruscamente e desviou o olhar para um ponto distante da sala.
— No momento eu só preciso que minha cabeça pare de doer, tia Konan. Pode fazer isso?"
Às vezes ele lamentava ser um pouco bruto com a tia, mas nem sempre tinha tempo para medir suas palavras, o que acabava sendo um grande problema. Porém, outras vezes ele apenas achava que eles faziam por merecer aquela brutalidade, afinal, eles nunca se metiam em sua vida, então porque fazer isso naquela hora?
Independente de ser por conta de suas saídas que duravam um final de semana inteiro ou aquela constante falta de ar e sensação de desespero que lhe aparecia sempre que a data de aniversário de morte dos pais se aproximava.
Um tanto irritado, voltou para dentro do quarto e caminhou até a mesinha de cabeceira, tirando de lá o lencinho que lhe fora usado como curativo. Após muito custo, Naruto conseguiu fazer com que a tia não o jogasse fora, com a desculpa de que iria precisar dele para poder comprar um igual e devolver a garota que lhe havia dado, mas, no fundo, nem ele sabia o motivo pelo qual iria ficar com aquele lenço manchado de sangue.
Apertou-o entre os dedos e suspirou. Olhou para o despertador e viu que ele marcava sete e meia da noite, puxou o celular do bolso com uma súbita decisão e ligou para Sasuke.
Foram necessários apenas quatro toques para o amigo atender ao telefone.
— O que foi?
— Sasuke, você está ocupado agora?
Uma pausa do outro lado da linha.
— Não necessariamente. O que você quer?
— Quero que vá comigo ao shopping. Agora.
A ligação estalou e ouviu o outro suspirar pesadamente.
— O que você quer no shopping, Naruto?
— Comprar uma coisa — respondeu fitando o lenço rapidamente.
— O quê, por acaso a queda afetou seu cérebro e agora você é uma patricinha viciada em compras?
Naruto rangeu os dentes, mas não respondeu da maneira que gostaria.
— Se você não quiser ir, eu posso ir sozinho. Tchau, Sasu...
— Ei, Naruto, espera — Sasuke interrompeu antes de suspirar novamente — eu vou com você. Passo aí em meia hora.
Satisfeito, sorriu de leve.
oOo
Uma hora depois, Naruto e Sasuke se encontravam dentro do shopping apinhado de gente. Pessoas andavam de um lado para o outro, entravam e saiam das lojas e ele foi tomado pela certeza de que não fazia a mínima idéia de onde encontraria um novo lenço.
— O que você quer fazer? — Perguntou Sasuke após ver que o loiro mantinha-se parado na entrada observando a multidão.
— Preciso comprar um lenço.
— Um lenço? — perguntou incrédulo. — Você me tira de casa para comprar um lenço?
Naruto lhe olhou com as sobrancelhas erguidas em questionamento.
— Perguntei se estava ocupado e você disse que não. Se tinha algo melhor para fazer bastava ter dito que eu vinha sozinho.
Sasuke o fuzilou com o olhar enquanto começava a andar dentro da multidão. Naruto o seguiu.
oOo
— Então, para que você precisa de um lenço? Está pensando em presentear a Sakura com isso?
O Uzumaki negou com um movimento de cabeça, enquanto analisava um lenço fino de seda branca que fora indicado pela vendedora.
— Não. Preciso devolver o da garota que me ajudou. O dela está manchado de sangue — respondeu dando com os ombros.
— Está falando de Hinata?
Parou de olhar para o lenço e observou o amigo por um instante. Esse era o nome dela e ele falava assim? Do nada? Quando na escola ele fez um mistério enorme dizendo que não era da sua conta e mandando-o não se meter com ela?
— Bem, pode ser. Não sei como ela se chama — respondeu escondendo a frustração.
Sasuke puxou o lenço de suas mãos e o colocou novamente no demonstrador.
— Naruto, deixe disso e vamos para casa.
Pegou o lenço outra vez.
— Qual o problema Sasuke? Eu só quero comprar um lenço e dar no lugar do que foi usado no meu curativo. Não vou atacar a garota e nem comê-la. Aliás, qual o problema? Não posso ser gentil com alguém que me ajudou?
A expressão do moreno tornou-se séria, mais séria que o normal.
— O problema é exatamente esse, Naruto. Hinata não é o tipo de pessoa com quem você deva ter amizade. Ela é... — fez uma pausa, como se procurasse a palavra certa — complicada — respondeu.
— O que quer dizer com “complicada”?
— Que não é o tipo de pessoa para você andar se aproximando, Naruto. — respondeu exasperado, tirando o lenço de sua mão mais uma vez.
— Você fala como se a conhecesse — disse e, voltando-se para a vendedora, falou: — Vou ficar com esse.
— E quem disse que eu não conheço? — Sasuke perguntou erguendo uma sobrancelha. — Naruto, me escute. Hinata te ajudou e sei que é grato por isso, mas ela... Ela é complexada. Não é como uma garota normal que você vai lá, dá um lencinho em troca do que ela perdeu e booom, viram grandes amigos. Aquela garota não é como a Sakura, a Ino ou a Tenten. Hinata é... — suspirou pesado — Hinata é apenas mais um problema que você não precisa para a sua vida.
Quando o amigo terminou o discurso, Naruto ainda o encarava sem nenhuma expressão no rosto. Por fim, apertou os lábios em uma linha quase invisível e voltou-se para a vendedora que segurava a maquininha de cartão de crédito. Digitou a senha rapidamente, pegou o pacotinho do lenço e virou-se novamente para Sasuke.
— Acabou com o seu sermão ou vai continuar dizendo que eu sou uma má influencia para essa tal de Hinata?
Sasuke rolou os olhos.
— Não estou dizendo que você é uma má influência. Só estou dizendo que é um idiota procurando mais problemas do que já tem.
— Sasuke, — disse com um sorriso de lado — prometo que não vou atacar essa garota. Só vou devolver o lenço e pronto. Nunca mais falo com ela.
As sobrancelhas escuras dele se ergueram e um novo suspiro, ainda mais cansado, escapou de seus lábios quando falou visivelmente incrédulo:
— Sei...
Ambos saíram da loja a passos lentos, sem voltar a tocar no assunto, embora na cabeça do loiro tudo o que queria era saber o que diabos Sasuke escondia sobre aquela garota.
Contrariando a promessa que fizera ao amigo, Naruto estava decidido a se aproximar daquela garota estranha, independente de quantos problemas a mais ela trouxesse para a sua vida.
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