Notas iniciais
Primeiro gostaria de explicar algumas coisas como, por exemplo, a família do Naruto. Ele mora com os tios, Nagato e Konan, sendo que Nagato é irmão da mãe dele, Kushina. Os dois não tem filhos e conseguiram a guarda legal dos três, Naruto, Karin e Menma. Para quem não sabe, Menma é a versão do Naruto no genjutsu de Tobi no filme "The road ninja" e eu resolvi trazer ele aqui como um irmão gêmeo dele. Não, o Naruto não vai ser nenhum boçal e metido, vai continuar com a personalidade dele, mas com algumas adaptações para caber no enredo da fic. Sim, todos os capítulos têm uma trilha sonora hahaha. Amo músicas desse estilo e acho que têm letra perfeita para alguns temas tratados aqui. Minha intenção é fazer com que toda a história seja narrada na visão do Naruto, mas pode ser que eu pegue outros personagens emprestados como narradores no decorrer. Por fim, espero que goste.

If God had a name, what would it be?
Se Deus tivesse um nome, qual seria?

And would you call it to his face
E você o diria diante del

If you were faced with him in all his glory?
Se estivesse cara a cara com ele em toda a sua glória

What would you ask if you had just one question

O que você perguntaria, se pudesse fazer só uma pergunta?

Na primeira vez que a viu de verdade, quase tropeçou em seus próprios pés ao entrar apressado no prédio enorme localizado bem centro de Konoha. Sua respiração estava ofegante e ele achava que ia ter um ataque cardíaco ali mesmo se não encontrasse um lugar para sentar.

Devido a um despertador que não tocou, um transito horrível e nenhum lugar para estacionar, precisara deixar o carro dois quarteirões distante de onde queria chegar e agora corria o risco de chegar atrasado novamente. Não gostava de chegar atrasado, nem que fosse para um compromisso desagradável como aquele era em sua maioria, porém, o motivo maior pelo qual estava apressado para chegar era a ansiedade que sentia em, após quase cinco anos visitando aquele lugar duas vezes por mês, deitar no tão conhecido divã vermelho, mas não tanto para responder a mesma pergunta vaga e idiota que sempre ouvia e sim para poder finalmente resolver sua vida.

– Como você está se sentindo hoje, Naruto-san?

– Como se pudesse estar fazendo milhares de outras coisas no lugar de estar perdendo meu tempo aqui – era o que tinha vontade de responder, embora se contentasse em murmurar um “bem” e responder a próxima pergunta.

– E como está sendo sua volta a escola?

– Um inferno na terra. Aquele lugar é um saco. As pessoas são um saco. As matérias são um saco. O prédio também consegue ser um saco. A comida é um saco. Tudo é um saco – mas ele respondia um “bem” e esperava.

– E como tem sido a convivência com seus tios?

Quando chegavam nessa pergunta, Naruto tendia a suspirar um pouco, fechar os olhos e dizer “eles são legais”, embora tudo o que quisesse eram admitir que foram inúmeras as vezes em que se sentiu tentado a por todas as coisas em uma mala e partir sem olhar para trás.

Não que seus tios fossem ruins. Nagato e Konan eram boas pessoas. Nunca encostaram um dedo nele para bater, mas também nunca haviam encostado para abraçar.

Enquanto Nagato vivia ocupado com seu trabalho, viajando muito, encarando muitas reuniões, tratando de negócios importantes, sempre chegasse tarde em casa e Konan vivesse em plantões no hospital onde trabalhava e quando estava em casa, preferia se trancar em seu quarto para recuperar o sono perdido de toda a semana.

Apesar disso eram legais, afinal, não perguntavam onde passara a noite quando chegava em casa somente no outro dia, cheirando a cigarro e cerveja barata. Nem quem eram as moças que saiam de seu quarto logo de manhã e nunca mais retornavam lá. Muito menos quando chegava a fatura do cartão de crédito ou multas por excesso de velocidade.

Eles se limitavam a mandar a empregada preparar seu banho, o lembravam de usar preservativos para evitar possíveis gravidezes indesejadas e pagavam as contas sem nunca reclamar, independente de quão altas elas fossem.

Definitivamente, eles eram legais.

Próxima pergunta.

– E seus irmãos? Como está seu relacionamento com eles?

Naruto voltava a abrir os olhos e soltava um muxoxo. Em um passado que parecia nem ter pertencido a ele, a família Uzumaki se consistia nele, Naruto, seu pai, Minato, um homem exageradamente calmo, mas firme quando se tratava dos filhos, sua mãe, Kushina, que era totalmente o oposto do pai no quesito calmaria, mas ainda assim conseguia ser a melhor mãe do mundo, sua irmã mais velha, Karin, que era o tipo de pessoa que ele sempre evitava em certos cinco dias do mês se não quisesse uma morte lenta e dolorosa, e em menor importância, Menma, seu irmão gêmeo que, apesar de terem a mesma cara, era um completo idiota.

Antes sua casa era sempre barulhenta pelo fato de que todos os filhos pareciam ter puxado a cabeça quente da mãe, entretanto, sempre se sentavam a mesa na hora do jantar, assistiam filmes juntos no chão da sala às noites de sexta e aos finais de semana colocavam uma toalha de mesa no gramado do quintal e ficavam de bobeira olhando as nuvens e tentando adivinhar seus formatos.

Agora, na casa dos tios, o silêncio era uma regra que ninguém pensava em quebrar. Não por serem fieis cumpridores de regras do lar, mas por nenhum deles ser capaz de tentar transformar aquele apartamento luxuoso em um dos bairros mais caros da cidade no sobrado simples e quase rural que margeava a saída de Konoha. No fundo, os três Uzumaki sobreviventes chegaram ao acordo mudo de que tentar fazer aquilo era traição a memória dos pais.

– Bem.

– E como tem lidado com a morte de seus pais?

“Bem”, era o que poderia dizer, mas quem daria uma resposta dessas quando perguntado sobre a morte dos pais? De fato, ele nunca mais estivera bem desde o maldito acidente que acabara com a vida deles, entretanto, fizera questão de deixá-lo apenas com alguns arranhões nos braços, uma perna quebrada e uma cicatriz na testa. Se pelo menos houvesse lhe deixado uma lembrança como fez com Karin, condenando-a a uma existência sobre cadeira de rodas, ou pelo menos o fazendo perder o movimento de um dos dedos como fez a Menma, pudesse encarar tudo como um “estou conseguindo suportar”. Mas, por hora, tudo o que conseguia fazer era ficar calado e esperar que ela fizesse outra pergunta.

– Seus tios me falaram que você anda saindo com algumas garotas... Quem são elas?

Naruto virou o rosto para a mulher de cabelos pretos e olhos vermelhos como sangue que sorria por trás da prancheta. Um sorriso que nada expressava e preferia que não estivesse ali.

– Porque eles falaram isso?

– Perguntei primeiro, Naruto-san.

– São amigas. Porque eles falaram isso?

A Dra. Yuuhi descruzou as pernas e pousou a prancheta no colo. Inclinando-se um pouco mais para frente, focou os olhos de Naruto e disse:

– Naruto- san, seus tios se sentem culpados por não lhe darem a devida atenção e estão achando que esse seu hábito de levar uma garota diferente para casa a cada dois dias tem a ver com a falta de atenção que eles têm com você.

O loiro deu uma risadinha pensando no absurdo de tudo aquilo. Qual é?! Seus tios nunca haviam ouvido falar de sexo sem compromisso? Nunca haviam saído para uma balada, encontrado alguém interessante e saído para transar? Além do mais, qual o problema de levá-las para sua casa? Eram raras as vezes em que estavam lá para poder ver algo ou serem incomodados com o barulho.

Porém, tinha que admitir que nessas raras vezes fizera questão de que vissem as moças saindo de seu quarto logo cedo e depois agir como se nada tivesse acontecido. Era, normalmente, após essas vezes que Nagato perguntava se ele estava se prevenindo e Konan ia verificar se o estoque de preservativos em seu banheiro era suficiente.

– Claro, tio. Eu não sou idiota – respondia enquanto pegava um copo de suco na geladeira e voltava para o quarto.

Depois disso, passava o dia trancado, fosse jogando vídeo-game, fosse escutando músicas, lendo algum livro, estudando algumas matérias (podia aparentar ser um desleixado e relaxado, mas tinha em mente que queria ser médico e sabia que para isso precisava estudar) ou simplesmente encarando as estrelas fluorescentes coladas no teto enquanto acabava com um maço de cigarros.

Sabia que aquilo acabava com seu pulmão e que se continuasse naquele ritmo não teria tempo nem de terminar sua especialização em cardiologia, muito menos chegar a ter um nome dentro da área como sempre quis.

Afastando os pensamentos, ele repetiu à mulher:

– São amigas, nada demais. – então ela sorria, fazia mais algumas perguntas que respondia com palavras curtas e por fim a seção era encerrada com um “nos vemos daqui a quinze dias”, o que o fazia desejar que esses quinze dias demorassem a chegar.

Porém, naquele dia ele realmente queria sentar naquele divã velho e que sempre cheirava a canela e maçã verde, assim como todo o resto da sala. Queria poder ouvir a voz da Dr. Yuuhi e ter coragem de dizer que não agüentava mais aquela vida de faz de conta onde tudo o que ele queria era que seus pais estivessem vivos, que brigassem com ele quando chegasse em casa depois das dez da noite, que nunca lhe dessem um cartão de crédito sem limites, que tomassem o carro depois de uma multa, que nunca lhe permitiram levar uma garota direto para seu quarto e que muito menos andassem enchendo o armário de seu banheiro com preservativos.

– Tsc – ele fez torcendo a boca enquanto aguardava na sala de espera.

Cruzou os braços sobre o peito e espiou o relógio de pulso. Quinze minutos.

E foi no curto espaço daqueles quinze minutos que ele a viu pela primeira vez: um borrão pálido de cabelos lisos e azulados, usando um par de roupas frouxas e que torcia as mãos em frente ao ventre e espiava por baixo dos cílios cumpridos. Era como um bichinho assustado, um animal levado para o abatedouro cuja aura de pânico podia ver de longe.

Sozinha, viu-a dirigir-se ao balcão da atendente, falar alguma coisa em um sussurro e depois caminhar até a fila de cadeiras de plástico azuis em um canto do salão.

Era estranho, mas Naruto tinha a impressão de que já a tinha visto antes, embora não se lembrasse de onde. Não era parecida com nenhuma das amigas de Karin, um grupo de manequins de pele bronzeada e cabelos de comercial de xampu, nem nenhum dos amigos igualmente idiotas de Menma, muito menos poderia fazer parte da lista de garotas que havia levado para a cama. Não fazia seu tipo, sendo magra demais, pequena demais, triste demais.

Triste demais...

De triste em sua vida bastava ele mesmo.

Sacudindo a cabeça em um movimento rápido, afastou os pensamentos sobre quem ela era e de onde a conhecia e entrou na sala quando seu nome foi anunciado pela recepcionista, nutrindo um ponto de esperança em seu intimo que naquele dia estaria pronto para dar um fim naquela angustia que lhe corrompia e apertava o peito a ponto de ser difícil respirar.

Notas finais
O nome da música no início é One of Us da Joan Osborne :3 Deixem seus comentários e me façam feliz