Another Way to Die
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Molly Hooper
— Ok. Como ela morreu? — Perguntei, já sabendo que não consideraria a resposta e faria pessoalmente outra necrópsia.
Estávamos, Kurt e eu, numa sala anexa a de exames de necropsia. Fazia um pouco de frio ali, como quase todas as salas que não ficavam no nível geral do Saint Bartholomews.
— O cérebro dela fritou — Kurt falou como se aquela simples frase definisse tudo. — Ela faria uma apresentação hoje, você sabe disso. Para uma bancada cheia de jurados que colocaria medo em qualquer um. Não me admira ela ter morrido.
Kurt era meu mais novo assistente. Nem baixo e nem alto, mediano. Cabelos castanhos, olhos de mesma cor. Era até gente boa, mas entrara no hospital por indicação, ou seja, talvez não soubesse direito como trabalhar. E ele se achava demais, às vezes.
— Sério? — Me contive para não dizer tudo o que havia de errado. — Esse é seu diagnóstico completo?
— Claro, Molls. — Ah, quanta intimidade, hein? — Fritou! — Completou apontando para o cérebro no recipiente á nossa frente.
Suspirei.
— Ela teve um AVC, um muito forte a julgar pelo estado do sistema nervoso dela — observei mudanças na coloração em algumas camadas. — Ninguém a ajudou por acharem que fosse nervosismo, assim como você. Todos os sinais estavam presentes, talvez tenha sentido alguns sintomas, mas nada tão grave. A causa da morte foi queda da escada, mas os exames comprovam que ela estava doente — terminei.
— Caiu da escada? — Me perguntou e revirou os olhos. — Tive todo esse trabalho para você me dizer que ela morreu ao cair da escada? Era só entregar este maldito corpo a família, droga! — Disse, com ar zangado, atribuindo a mim, certamente, a culpa do “trabalho” a mais que teve.
Bem, eu também estava zangada, e com mais razão.
— Foi necessário. A mãe dela queria uma confirmação da doença, havia suspeitas da parte dela, mas a filha não a ouviu. E você era o único disponível para esse maldito exame, seu...
Fui interrompida por uma batida na porta. John entrou.
— Hã, desculpe interromper, Molly. Gostaria de falar com você. Se possível — e olhou para Kurt com uma pose militar.
Aquilo me fez sorrir, mesmo diante das circunstâncias. John Watson não sendo amistoso era incomum, e todos que o conheciam poderiam atestar a favor dessa característica. Logo, o mais correto a supor, conhecendo-o bem, era que ele ouvira a conversa.
— Claro — respondi. — Kurt, coloque o cérebro na câmara de refrigeração, farei outro teste depois. Está dispensado — concluí, sem deixar margem para mais conversa, ou discussão. Indiquei a John que iríamos para minha sala.
— Ora, ora. Como vai o grande detetive, Dr. Watson? — A voz do meu assistente transbordava de sarcasmo.
— Entediado — vi o doutor responder, por cima dos ombros, enquanto saía.
...
— Tão entediado — iniciei a conversa — que pediu três relatórios de balística e cinco necrópsias.
— Eu sei, e ele até agradeceu — falou e assumiu um leve ar de confusão.
Sorri porque fiquei da mesma maneira.
— Foi a ligação mais estranha da minha vida, acredite — confessei e entreguei os relatórios que estavam na minha gaveta. — Parece ser importante. Ou não, afinal, ele não veio para checar tudo.
— Aparentemente é assunto do governo. Mycroft estava lá quando saí do 221b — Passando um tempo enquanto conversam sobre algum caso, imagino. Podem até estar brincando de piratas ou algo parecido — disse sorrindo. — Você sabe como eles são.
Concordei.
Conversamos amenidades. Ele falou do bebê, a linda Rosie, era nítido que era um pai babão; Mary ia bem, ambos estavam na adaptação de conciliar trabalho e filha.
— Molly, como você está? Realmente — John mudou o rumo da conversa de maneira rápida. – Parece cansada.
— E estou — afirmei. — Essa semana tem sido agitada.
— Hm — ele não parecia muito convencido. — Há sequelas da cirurgia? Transtornos pós-operatórios? — Perguntou sério.
Há três meses, em razão do destino e de coincidências impensáveis, levei um tiro no abdômen. Felizmente nenhum órgão fora atingido, contudo perdi muito sangue. Quase morri.
— Não, John — respondi. — Nem dores, nem náuseas. É só a correria — garanti. — Estou bem.
— Que bom — relaxou. — Até hoje me sinto um pouco culpado. A bala pegou de raspão em mim, mas o estrago maior foi em você — terminou.
— Acho que minha sorte não era muito boa nesse dia — tentei gracejar. — Qualquer um de nós poderia ter sido atingido. Sabe-se lá o que poderia ter acontecido se Sherlock não desviasse a atenção do estrangulador — falei pensativa.
Um silêncio se instalou entre nós dois. Não queria me lembrar daquele dia, era horrível rever a imagem da minha mãe no leito.
— Não culpo você ou o Sherlock — peguei a mão dele em cima da mesa e apertei levemente. — Se não estivessem lá, talvez o socorro não chegasse tão rápido.
Ele não perdeu tempo.
— Molly, se não tivéssemos perseguindo um maníaco que entrou naquele pub para escapar, nem estaríamos tendo essa conversa.
Ambos sorrimos.
Bateram à porta. Emma, com sua cabeleira ruiva, espiara um pouco antes de entrar.
— Ah, oi John. Como vai Mary e a bebê? — ela quis saber.
— Estão ótimas. E você?
— Acredite ou não, estou tentando colocar juízo na cabeça da minha chefe — e me apontou com o queixo, como se eu fosse a maluca, um caso perdido. — Precisamos terminar algumas análises, Molly, mas posso voltar mais tarde.
— Ah, não mesmo. Já atrapalhei muito — John se levantou. — Obrigado pelos relatórios, Molly.
— De nada — demos um abraço rápido. — Devo uma visita aos Watson. Vou em breve.
— Eu também — Emma emendou.
Despedimo-nos e segui com a rotina de trabalho.
...
Lidar com corpos diariamente cria uma espécie de apreciação. Passei minha infância querendo saber como cada parte funciona, como o sistema nervoso controla toda essa máquina que carregamos. Eu amava explorar. Em encontrar as causas, mesmo que fosse tarde demais. Relaxava. Era preciso concentração total na atividade, e cumpria isso como meu mantra pessoal.
Terminei as pendências do dia, alheia ao fato de minha segunda assistente estar calada. Isso durou pouco.
— Você tá bem, Molly? — quis saber.
Olhei para ela. Talvez dividir o fardo fosse bom. Mesmo que somente parte dele.
— Minha mãe ligou — comecei.
— Algo errado com ela?
— Não, não. — tranquilizei. — Ela fez um pedido — guardei os utensílios usados nas câmaras específicas.
Nessa hora, quase jurei poder ouvir a impaciência que Emma transparecia, então concluí de uma vez:
— Minha irmã voltou e está passando um tempo em Cardiff, minha mãe quer ver nós duas reunidas — falei.
“Esqueça o passado, minha filha”, foram suas palavras exatas.
— E vocês duas... Como ela se chama?
— Agatha Hooper.
— Gostei do nome — comentou e fez uma cara de quem pede desculpas. — Vocês não são próximas?
— Já fomos — respondi, evasiva.
— Ela roubou seus namorados no colégio?
— Alguns — admiti achando graça. — Ser loira e popular certamente ajudou. Mas não é isso. Houve uma época em que faria qualquer coisa para defendê-la, mas passou — falei baixo.
Era óbvio que Emma queria os detalhes, mas não insistiu na conversa. Perguntou, mudando de assunto:
— E o nosso karaokê, ainda de pé?
— Claro, não vou perder essa noite — apontei para ela. — Estou de olho!
— Jogo limpo — ela disse.
Revirei os olhos.
Já estávamos saindo quando ela parou abruptamente.
— Meu Deus! Espero que o Kurt não vá, ele é o babaca mais idiota que já conheci — e fez uma expressão de quem ia vomitar, provavelmente lembrando-se de todas as vezes que o encontramos e tivemos que lidar com seu grande ego e sua total desafinação.
— Ah, isso não! Ele não é profissional no canto como nós duas — gargalhamos.
Combinamos o horário e pegamos um táxi.
John Watson
Com os relatórios em mãos, Sherlock pôs-se a examinar cada um e de vez em quando um ruído escapava de sua boca.
Mycroft e eu ficamos esperando o desfecho daquele caso. Bom, na verdade, eu esperei. Tinha certeza que o Holmes mais velho já sabia dos resultados, só queria que o irmão os analisasse.
— Está claro, sim? — Sherlock perguntou.
— Para mim. Você o resolveu? — o outro retrucou.
O velho jogo ia começar.
— Óbvio. Seu agente infiltrado fez isso, não vê? — Mostrou as provas. — Bangladesh, Turquia, França. Armando ataques terroristas, vendendo seus serviços. Um perfeito agente duplo.
— Queria que não fosse assim — Mycroft suspirou. — É um dos melhores em campo, quase tem o seu faro para pistas — disse para aborrecer o irmão.
— Quase, irmãozinho. Só há um Holmes mais novo — falou.
— Então — disse meu amigo — ele vai, misteriosamente, sair do serviço secreto para ser interrogado — eu afirmei. Peguei o notebook aberto em cima da mesa, era hora de achar um novo caso. Um envelope caiu ao movê-lo de lugar, simples e de cor neutra; um SH estava gravado na capa. Entreguei ao destinatário.
— Recebe cartas de amor agora?
Ele franziu o cenho, mas estendeu a mão e pegou o envelope. Quando leu a mensagem percebi que não entendera, mesmo assim examinou o papel e a letra antes de dizer algo.
— Acho difícil um amante enviar esse tipo de frase — falou. — Mesmo que seja alguém apaixonado por Shakespeare.
Como eu e seu irmão não entendíamos nada, ele leu o conteúdo da carta:
“Atos contra natura engendram perturbações contra natura”
— E o que isso quer dizer? — Mycroft perguntou.
— Não tenho ideia — Sherlock respondeu. — Possivelmente não é nada.
— Deixo os dois com suas conclusões — e o Holmes mais velho saiu, seu problema estava resolvido. Fim.
Podia até não significar nada, porém sabia que o detetive esperava que fosse o contrário.
— Você citou Shakespeare, a frase é dele? — perguntei.
— Macbeth – afirmou. — Nunca leu?
— Nunca gostei de leituras obrigatórias, talvez li uma vez para alguma prova — arrisquei.
Pegou o violino e disse com ironia.
— E você reclama que não conheço o sistema solar — falou.
Logo, todo o ambiente estava com o som lírico e grave que só uma mente em profunda concentração consegue compor.
Molly Hooper
Estava louca para comer algo ao chegar em casa. Joguei a bolsa na bancada da cozinha e fui direto para o banho.
Escolhi um vestido azul petróleo, não tão colado, com bordas metálicas, e o clássico salto preto. Soltei os cabelos e os coloquei de lado, um batom vermelho nos lábios e avaliei o resultado no espelho.
Ótima.
Ao pegar uma bolsa preta, pensei em ligar para Emma, já estava pronta e poderia passar na casa dela para irmos juntas, mas fui interrompida por um grito na rua. Aproximei-me da janela e vi uma garota pedindo ajuda aos prantos, desolada e com muito medo.
— Socorro! Me ajudem! Ela pode estar morta... — falou.
Meu Deus! O que será que aconteceu?
Mandei um sms para a Emma, explicando a ela a situação e onde poderia me encontrar, ao sair. Desci as escadas e fui seguindo alguns curiosos que ouviram as lamúrias da jovem.
— Não acredito — ela balbuciava, tentando conter o choro. — Não demorei, não fui muito longe, mas ela está... Está... — e começou um murmuro solitário do que só ela até então tinha visto.
O conjunto de prédios residenciais onde ela morava ficava no fim da rua. Já dava para perceber pessoas saindo do primeiro andar, algumas lívidas, outras tristes, a maioria com medo.
Entrei, seguida talvez, de cinco pessoas. Não havia nada na entrada do apartamento. Pude ouvir o zumbido da TV no cômodo ao lado. Tinha algo à minha frente, no entanto tudo se encontrava na mais profunda escuridão.
— Ei, será que dá para acender a luz? — alguém antecipou minha pergunta.
Quando foi possível distinguir a massa disforme a poucos metros, senti um arrepio percorrer a espinha. Paralisei de imediato. Evitei, por míseros segundos, encarar aquela cena; busquei na sala algo que desviasse minha atenção, porém, o único objeto que teve tal capacidade foi o mesmo que refletiu, em sua tela plana e escura, a imagem que me causava desconforto. Uma mulher, em torno dos cinquenta anos, sentada no sofá e vestida, ou melhor, fantasiada com uma enorme bata preta, uma peruca antiga que é usada em tribunais, e os lábios borrados com batom vermelho. Algo nela me lembrava a alguém.
Aproximei-me um pouco apressada, sabendo que tamanha precipitação da minha parte não mudaria o resultado óbvio. A fisionomia do corpo já perdia as cores da vida; chequei sua respiração e pulso.
— Ela está morta? — a jovem perguntou.
Sussurrei um sim, percebendo seus olhos inchados. Seu soluço foi alto desta vez. Pedi que alguém a levasse para fora, ela não tinha condições para aquilo.
Liguei para o Lestrade e o pus a par da situação. Os vizinhos logo bloquearam a entrada de outras pessoas. Fui falar com a garota que havia me trazido ali.
— Mais uma tragédia — dizia enquanto chorava no colo de uma senhora. Provavelmente uma vizinha conhecida. Um choro de dar pena.
Quis saber seu nome, mas não tive resposta. Só se ouvia seu pranto.
— Elizabeth Bolton — um homem respondeu, trazendo um copo com água para ela. — É o segundo parente que perde em pouco tempo. Sua avó, dona Helena, era muito querida por todos — disse, se aproximando e falando baixo.
Helena Bolton. Isso explicava o arrepio ao ver o corpo, eu a conhecia.
As sirenes soaram. Um som que para muitos tinha um significado próprio. Lestrade foi o primeiro a entrar, acompanhado de Sherlock e John. Mais atrás, Emma também apareceu.
O inspetor e o doutor acenaram na minha direção e adentraram o apartamento. Sherlock parou ao meu lado e perguntou:
— Tudo bem, Molly? — franziu as sobrancelhas avaliando minha expressão.
— Neste momento, não — respondi pela terceira vez hoje. Se ele perguntava aquilo, é porque eu devia parecer péssima. — Sei quem ela é.
— Quem é? — perguntou e seguiu para o cômodo.
— Helena Bolton.
Ele girou nos calcanhares e me olhou, pego de surpresa.
— Sherlock — John chamou. — Parece uma peça, um pequeno show particular.
Todos entramos na sala em que estivera antes e pude reparar em detalhes que não tinha percebido antes. Pétalas de rosas no sofá e no chão, marcas de dedos visíveis no pescoço da morta. Um livro com uma flor em cima do móvel da TV, e uma frase acima: “Atos contra natura engendram perturbações contra natura”.
Olhei para Emma e a vi fazendo o sinal da cruz. Não precisava de mais nada para saber quem fizera aquilo.
— Sherlock — falei com a voz estranhamente firme. — É ele. Não sei como, mas ele voltou.
O detetive sorriu de lado e concordou levemente. Sabíamos quem era.
— O Estrangulador de Veneza está de volta — concluí.
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