Virei outra página do álbum de fotografias embevecida com a graciosidade da garotinha sorridente, os dois dentinhos da frente levemente separados, os olhos pequenos tinham um brilho especial, senti uma grande vontade de apertar as bochechas fofinhas. Debruçada sobre o colchão grande e confortável, continuei a admirar o resto das fotos de infância de Demi, deixando curtos risos escaparem de minha garganta. Um vento calmo e fresco adentrava pela varanda do quarto clareado pela luz do dia, mexendo com a cortina de seda branca. Do pé da cama, levantei meus olhos para a morena ocupando a cadeira da escrivaninha, o cabelo frouxamente preso e os óculos de grau fizeram-me lembrar do primeiro dia em que a vi. O cenho franzia uma vez ou outra enquanto os olhos castanhos estavam atentos aos papéis que lia e assinava habilidosamente.

- Deus Demetria, você precisa fazer compras urgente.

A voz da loira adentrando o quarto com um pacote de salgadinho em mão, não afetou a concentração que a morena tinha nas folhas. Taylor ignorou a falta de atenção da amiga e sentou-se na beira da cama, estendendo gentilmente o pacote de chips para mim.

- Uhum. — A resposta distraída nos fez rir.

- Ainda está olhando as fotos? — Os olhos azuis fitaram-me. Assenti, levando um dos cheetos para minha boca.

- Ela era tão fofa. — Comentei, ouvindo o pequeno riso vindo da cadeira giratória.

- Era, concordo. O que houve com você, Demi? — A risada debochada fez a morena rolar os olhos.

- Espero que você não pretenda ficar para jantar. — Taylor a encarou incrédula.

- Está me expulsando?

- Praticamente. — Deslizou a caneta azul rapidamente pelo papel.

- Sorte a sua que eu tenho um encontro hoje. — Sorriu, ganhando a atenção da amiga. — E não, não é ninguém do hospital se for isso o que está pensando. — Levantou-se, levando junto o pacote de chips. — Preciso de um energético. — Comentou dirigindo-se para fora do quarto.

Demi balançou a cabeça negativamente, largou a caneta de lado na mesa juntando a papelada corretamente antes de começar a guardar tudo dentro de um envelope. Suspirei levantando-me da cama, aproximei-me da cadeira permanecendo de pé atrás da mulher ocupada. A regata branca que usava deixava seus ombros a mostra, levei minhas mãos até eles sentindo a maciez da pele pálida. Demi olhou-me brevemente ao sentir o toque, os lábios esboçaram um sorriso antes de voltar a atenção para os documentos sobre a mesa. Suavemente, comecei a massagear os ombros tensos correndo meus olhos pelas letras negras dos papéis que eram colocados nos envelopes. Sorri de lado ao ouvir um gemido baixo de satisfação escapar da boca da morena quando minhas mãos apertaram a clavícula com um pouco mais de força, porém delicadamente. Inclinei-me roçando meus lábios na pele sensível da orelha.

- Relaxe, doutora. — Sussurrei, deixando um breve beijo na bochecha macia.

- Então essa é mais uma das suas qualidades, também sabe fazer massagem? — A pergunta me fez rir.

- Na verdade não, mas já fiz algumas vezes em minha mãe então acho que fiquei boa nisso. — Dei de ombros, recebendo um riso em resposta.

Prossegui massageando minha namorada. O interior do meu corpo inteiro revirava-se toda vez em que mencionava-a daquela forma, sorria por cada letra daquela frase. Minutos depois, os óculos de armação preta foram repousados sobre a escrivaninha ao finalizar rapidamente o que fazia, afastei minhas mãos dos ombros delicados quando a cadeira girou-se para mim.

- Onde está a Taylor? — Perguntou, olhando brevemente para a porta aberta de seu quarto.

- Deve estar na sala. — Mordi o lábio assistindo um sorriso de lado formar-se nos lábios carnudos. Uma das mãos segurou a minha.

- Vem cá. — Puxou-me gentilmente para seu colo.

Um leve arrepio subiu pela minha espinha ao sentir a pele quente e suave de suas pernas tocar a minha. Envolvi meus braços em seu pescoço juntando nossas bocas, beijando-a lentamente. A mão repousada em minha coxa movia-se carinhosamente enquanto a outra segurava-me pela cintura. Separei nossas bocas com breves beijos nos lábios molhados, descendo-os para o queixo e maxilar. Deslizei minha língua pelo pescoço sensível, beijando-o, mordiscando-o de leve sentindo minha coxa ser apertada. Voltei a beijar a boca convidativa com vontade desfazendo facilmente o coque frouxo do cabelo, enterrando minhas mãos nos fios negros.

- Continuem com a pegação, só vim buscar minha bolsa. — Demi separou nossos lábios ao ouvir a voz da loira adentrar o quarto, escondi meu rosto no pescoço cheiroso, tentando não corar.

- Taylor espere, leve esses prontuários com você. — O corpo embaixo do meu movimentou-se rapidamente. Deixei um breve beijo no trapézio antes de afastar-me. — Entregue-os pra Camilla.

- Você não vai trabalhar a noite? — Taylor perguntou boquiaberta, pegando os envelopes que lhe foi entregue. Demi fitou-me brevemente antes de voltar a encarar a loira.

- Não, e por sinal estou providenciando aquelas férias.

- Meu Deus, finalmente! — Alegrou-se, revezando o olhar entre mim e Demi.

- Se não estou enganada você já estava de saída, certo? — Taylor bufou, segurei o riso brincando com as pontas dos cabelos sobre os ombros.

- Okay, estou indo antes que sou colocada para fora. Tchau Sel, foi ótimo te ver! — Sorriu, dirigindo-se para a porta.

- Até mais! — Retribui o sorriso, sentindo um beijo ser depositado em minha bochecha. — Já são que horas? — Perguntei, sorrindo com a leve mordida em meu maxilar.

- Não tenho idéia. — Roçou lentamente a ponta do nariz pela pele do meu pescoço. — Adoro seu perfume. — Sussurrou, arrepiei-me fechando os olhos automaticamente.

- Hayley deve estar querendo... a-arrancar meu cérebro. — Comentei desnorteada, afagando os cabelos sedosos enquanto a boca ávida explorava meu pescoço.

Em um momento a cadeira em que estávamos acabou tornando-se desconfortável. Suspirei entre o beijo ao sentir minhas costas descansar sobre o colchão macio, deslizei minhas mãos dos ombros para a nuca puxando-a para mais perto enquanto intensificava o beijo. A mão em minha cintura escorregou para minha coxa, apertando-a de leve, subindo até a lateral do meu corpo adentrando minha camiseta. A música conhecida que preencheu o quarto pareceu completamente distante dos meus ouvidos, arfei sentindo meu ponto de pulso ser sugado e sem a mínima vontade, estendi meu braço pelo colchão em busca do meu celular ali que continuava a tocar.

- Alô... — Minha voz saiu rouca, mordi o lábio reprimindo um gemido sentindo meu seio ser massageado sobre o tecido do sutiã enquanto os beijos continuavam pelo meu pescoço e maxilar.

- Custa muito avisar quando você não irá aparecer pra me ajudar?

- Des-desculpe Hay... e-eu nã... — Arrepiei-me ao sentir os dentes morderem o lóbulo da minha orelha.

- Você está bem, Sel?

- Uhumm... estou... bem...

- Hm... oh meu Deus, eu liguei em uma hora errada não é? — Ouvi as risadas no outro lado da linha.

- Uhumm... — Mais risos chegaram ao meu ouvido.

- Desculpe Sel, vou desligar mas ainda estou bra...

Abandonei o celular de lado na cama capturando os lábios suaves com pressa. Em um movimento rápido consegui trocar a posição em que estávamos, sentando-me na cintura fina. Aproximei-me de seu rosto com um sorriso malicioso em meus lábios e roçei carinhosamente a ponta de nossos narizes tirando pequenos risos da mulher, as mãos delicadas descansaram em minha cintura enquanto o polegar exercia uma leve carícia em minha pele.

- Vamos ter que pedir comida mais tarde, você sabe. — Sussurrou, nossas respirações quente misturando-se. — Ou o que acha de pizza?

- Pizza parece muito bom. — Mordisquei os lábios macios, beijando-os morosamente.

Aqueles era um dos momentos em que eu tentava permanecer inteiramente calma, porém; meu corpo tremia por dentro. Por mais que fosse verdade, ainda não estava acreditando que estávamos namorando. Qual é, era ela; a linda mulher que parecia ter cara de poucos amigos, cuidando do corte em minha testa. Minha médica. Por quem tive uma imensa queda e agora, sentia-me completamente apaixonada.

Sorri contra os lábios doces ao ouvir o pequeno gemido frustrado, havia minutos que o som da campanhia do apartamento tinha começado a tocar, seja quem for estava sendo completamente insistente e incomodador. Não queria sair daquela cama, da posição em que estava e senti que Demi também não, mas foi necessário quando o toque repetitivo vindo da porta de entrada prosseguiu, tornando-se completamente irritante. Retirei-me de cima do corpo sensual, descansando minha cabeça em um dos travesseiros enquanto Demi levantava-se sem ânimo, passando as mãos rapidamente pelos fios negros razoavelmente bagunçados.

- Taylor deve ter esquecido alguma coisa. — Comentou, dirigindo-se até a porta. Mordi o lábio admirando as pernas torneadas.

Sorri fitando o teto, tinha a certeza que estava vivendo o melhor tempo da minha vida. Peguei o travesseiro ao lado da cama abraçando-o fortemente, fechei levemente os olhos inalando o perfume doce presente no tecido macio.

Como é que é?

Aquela voz chegou abafada aos meus ouvidos, senti uma sensação ruim fazendo-me levantar da cama. Infelizmente, conhecia a dona da voz e o rosto praticamente esquecido apareceu em minha mente em segundos. Respirei pesadamente caminhando para fora do quarto em passos lentos, quanto mais perto da sala mais a voz indesejável penetrava em meus ouvidos.

- Não é justo comigo, Demetria.

- Você sabe que nós nunca tivemos nada. — A voz de Demi estava calma, completamente diferente da mulher furiosa na porta.

Andei mais alguns passos silenciosos pelo corredor, avistando as duas mulheres na porta. Demi tinha os braços cruzados sobre o peito enquanto a morena magra em sua frente estava inquieta.

- Agora que nós não temos nada mesmo, não é? — Riu sarcasticamente. — Você achou outra otária pra te satisfazer na cama.

Engoli seco, sabia muito bem que não era apenas aquilo que havia entre a gente, nós eramos muito mais. Deveria tomar coragem e ir até lá, mas preferi permanecer quieta. Não queria criar problemas ou brigas, ela não valia a pena.

- Você deveria ir embora agora. — Demi disse seriamente. Victoria riu outra vez.

- Ela está aqui não é? A pirralha está aqui? — Fez menção de entrar mas foi rapidamente segurada pelo braço. Cerrei os punhos sentindo meu sangue ferver.

- Victoria, não faça isso. — Demi pediu ainda calma. — Vá pra casa okay.

- Demi não... — A voz tornou-se chorosa, a mão livre segurou o rosto de Demi. — Você não entende que eu te amo meu amor?

Respirei com certa dificuldade. Amor era o sentimento mais puro e intenso, e aquela mulher havia acabado de dizer que amava a minha namorada. Engoli o pouco da saliva em minha boca, tentando não render-me a estranha vontade de chorar que preencheu-me naquele momento junto com ciúme e raiva.

- Você não sabe o que está dizendo, é melhor pra você ir embora. — Demi puxou-a delicadamente para fora, porém Victoria soltou-se da mão que a segurava.

- Olhe pra mim Demi. — Prendeu o rosto delicado entre as duas mãos. — Você mesma já afirmou que entre a gente não era apenas sexo, por que diabos não consegue me amar?

- Não é assim que acontece, Victoria. — Demi retirou as mãos egoístas de seu rosto. — Sinto muito.

- Não. — A cabeça moveu-se negativamente. — Você pode tentar mas no fundo eu sei e você sabe que nunca mais vai conseguir amar outra mulher, não é mesmo? — Gargalhou. — Miley somente Miley. Miley, Miley e Miley vai ter seu coração afinal ela foi seu primeiro amor não é? — Demi permanecia parada, o olhar sério fitava a mulher falante em sua frente. — Pena que ela morreu e ainda levou junto o seu filho.

Estremeci, senti uma forte pontada em meu peito como se estivesse sendo apunhalado por várias facadas. Filho? Passei minhas mãos pelo meus cabelos encostando minhas costas na parede, umedeci meus lábios secos sentindo meus olhos lacrimejarem, embaçando minha visão.

- Como você... como... — A voz fraca chegou aos meus ouvidos apertando meu coração. Demi passou uma das mãos pelos cabelos, sem conseguir proferir mais nenhuma palavra.

- Como eu sei? — Victoria sorriu próxima ao rosto de Demi, cerrei os dentes respirando fundo antes de acabar com o show daquela mulher. — Você me contou meu amor, não se lembra não é? Bem, deve ser por que estava caindo de bêbada e eu idiota te ajudei. Eu fiz de tudo por você, Demetria! — A voz elevou-se.

- JÁ CHEGA, CALE A PORRA DA SUA BOCA. — Gritei raivosamente, andando diretamente para colocá-la para fora.

- E a pirralha apareceu, não encoste em mim garota. — Empurrou-me longe de seu corpo. — Prefiro sair daqui por conta própria. — Sorriu cinicamente, dando as costas para mim.

Fechei a porta com força respirando fundo tentando acalmar meus nervos, estava sentindo uma imensa raiva daquela vadia estúpida por ter ferido Demi com aquelas malditas palavras, meu coração continuava a bater rapidamente no peito. O choro baixo e dolorido preencheu a sala quieta fazendo-me ao mesmo instante amparar o corpo pequeno que parecia não conter mais força alguma para continuar de pé, os braços apertaram-me as costas enquanto as lágrimas deslizaram-se pelo meu pescoço, umedecendo minha camiseta. Afaguei os cabelos macios sentindo meus olhos embaçarem completamente, o peito contra o meu movia-se com rapidez junto com a respiração descontrolada chocando-se contra minha pele, soluços misturavam-se com o choro. Suspirei dolorosamente, depositando um longo beijo na lateral da cabeça. Vê-la naquele estado matava-me por dentro, não considerava-me uma pessoa forte e toda sua dor machucava a mim.

- Sinto muito baby... sinto muito. — Sussurrei fracamente contra seus cabelos.

- S-sel eu... — Tentou dizer algo mas nada saiu corretamente.

- Shh, tudo bem... eu estou aqui... — Fechei meus olhos beijando novamente seus cabelos, sentindo as lágrimas cortarem meu rosto.

Notas finais
No próximo vocês entendem melhor sobre o filho e etc...
Review?