Anomalia
15 Capítulo 14 - Katie me vê descontrolada.
Aprendi que aceitar ajuda é uma honra, e não uma vergonha.
— James Olsen.
Jonas se viu no azar de ter aula de história com Katie e Luke.
A sua sorte era que Kim estava com ele. E Kim, para a sua surpresa, sentou-se em uma cadeira do seu lado. Mas Katie e Luke sentaram-se atrás deles. Durante todo o final de semana, eles treinaram sua pontaria e a sua mira. Kim e Jonas começaram a conversar frequentemente e, inacreditavelmente, com Rae também. Ela não conversava muito com eles como ambos conversavam um com o outro, mas ela ficava algumas horas com eles. Ontem, no domingo, Kim reuniu coragem o suficiente para chamá-los para tomar sorvete. Jonas aceitou na hora e Rae, depois de pensar muito, aceitou.
Quando a aula começou, Jonas, ao contrário de Kim que prestava atenção em cada detalhe, ele não tinha interesse. Não sabia como Kim conseguia aguentar ouvir a aula de história, pois, para ele, era uma das piores do que tinha. Mas, quando alguém da cadeira da frente disse a seguinte frase, Jonas apurou os seus ouvidos:
— Foi a menina da isca que matou ele! — brincou.
A maioria da turma riu.
— Silêncio! Eu não quero ouvir besteiras como essa na minha aula! — reclamou a professora.
— Mas a menina da isca existe...
— Cala a boca, Becky! — falou uma garota.
— Seja lá quem criou essa lenda, só quer chamar atenção! — disse a professora, severa.
— Foi o pessoal do segundo ano! — afirmou outra pessoa da turma.
— O que é a menina da isca? — outro perguntou.
— Uma lenda que o ensino médio criou — explicou a professora, pretendendo descontrair um pouco da aula — E acho uma falta de respeito criaram isso logo quando há um acidente.
Kim e Jonas se entreolharam. Ambos já sabiam o que pensar. Nada deve ser mentira na cidade que dizem ser um ímã de monstros. Ainda mais com monstros atrás deles.
A loira voltou a olhar para frente. Ela abria a boca e fechava. A professora perguntou se alguém tinha alguma dúvida quanto a lenda da menina da isca. Ela então reuniu coragem para levantar a mão.
— Sim, Kimberlly?
Quando a professora falou aquilo, todos se viram e olharam para Kim. A mesma se encolheu e alguns riram, achando-a fofa quando ela ficou corada.
— S-Sobre o que é a lenda da menina da isca? — ela perguntou em um tom de voz baixo.
— O quê? Pode repetir? — pediu a professora, não a ouvindo direito.
— Ela perguntou sobre a lenda da menina da isca — respondeu Katie, surpreendendo a Kim e Jonas.
Jonas olhou para Kim, suspirando aliviada. Ele sorriu ao vê-la com o rosto vermelho. Admitia que ela ficava fofa ao ficar daquele jeito. Por mais que estivesse envergonhada e tímida, não negava que ela fica linda assim.
Ele não era o único que a achava linda. Por conta dos cabelos loiros e dos olhos azuis, muitos meninos já a achavam linda e brincavam de paquerar com ela. Kim ficava com vergonha e os ignorava, sabendo que eles apenas gostavam dela por causa de sua aparência. Haviam também outras garotas nerds, e, deve-se dizer, bonitas também. Só porquê é nerd não significa que seja feia.
— Fale com outro colega seu, Kimberlly. Tive que interromper minha aula para falar de uma coisa dessas.
Assim, voltaram para a aula. Quando tocou o intervalo, ainda teriam aula de história. Um grupo se formou nas cadeiras da frente e Jonas e Kim ouviram a conversa deles em voz alta.
— Sabe aquele acidente com uma dupla de pescadores no lago aqui próximo? — indaga um garoto, olhando para os seus outros amigos — O barco dele "misteriosamente" foi derrubado por uma onda. Um deles acabou no hospital e o outro ficou traumatizado. Ele disse que, quando foi levar o corpo do amigo até o hospital, viu uma menina com roupas de pescador e com um anzol nas mãos que estava os seguindo.
— E não foi só dessa vez! Há três dias atrás, teve um cano estourado na casa da Sue Adams. — acrescentou outra garota.
— Dizem que se fizerem um ritual perto da água ou do lago, a menina da isca aparecerá e te perseguirá até você ficar louco e pedir pela morte... — disse um garoto, dando um ar de misterioso.
Ele, de repente, bateu contra a mesa, assustando a todos. Ele riu e muitos brigaram com ele. Aquela história tinha várias versões.
— Acha que...
— Sim, eu acho sim — Jonas concordou com Kim.
— Essa história é tão tosca quanto às do Wendigos — reclamou outra garota, revirando os olhos.
— Wendigos? — perguntou Kim. Jonas pensou um pouco. — Sabe o que é?
— Sim. É uma das minhas lendas favoritas — falou Jonas, alegre — Os índios diziam que se alguém estiver sofrendo fome em terras sagradas e fazer prática de canibalismo, ele será possuído por o espírito do Wendigo. Um monstro rápido e muito resistente.
— Você sabe mesmo dessas coisas... — admirou Kim.
— Acha que é verdade ou conversa do segundo ano?
— Você ainda duvida? — ela sorriu de canto. — Eles estão nosso olhando.
Jonas olhou discretamente para trás, vendo os irmãos Queen observando-os discretamente. Os dois se levantaram e foram para a sala de música, onde Rae carregava consigo o seu violão dentro da maleta de mesma silhueta.
— Rae! — disse Kim. — Precisamos falar com você.
— Claro, mas pode ser em outro lugar? — disse ela, tentando ser discreta — Michael está na minha cola.
Eles começaram a caminhar lado a lado. Kim e Jonas lhe contaram sobre a história da menina da isca.
— Eu sei que pode parecer uma lenda, tipo a loira do banheiro. Mas não deixa de ser possível — disse Kim, sem mais nem menos.
— O ruim das pessoas saberem que monstros sobrenaturais existem é que não sabem o que é verdade ou não — falou Rae — Histórias como Wendigos algumas pessoas acreditam e outras não. E essas pessoas começam a inventar histórias a cerca disso que não são verdade. Só resta saber se a menina da isca é real ou não é uma das pegadinhas do segundo ano.
— E a Sue Adams está envolvida nisso — disse Kim.
— Pode haver algo com a família dela. — teorizou Rae — Fiquei sabendo na aula de música que o escritório do pai dela ficou cheio de água ontem de manhã. E nenhum cano estava estourado. Alguns fantasmas surgem a partir de algo envolvendo a família.
— Então vamos investigar sobre a família dela. Pode ter algo a ver com a menina da isca — disse Jonas.
— Vocês acreditam mesmo nessa história?
Os três se viraram e olharam para Katie, Luke e Michael.
— O que estão fazendo aqui? — indaga Jonas.
— O que será que estamos fazendo na escola? — se perguntou Luke, sarcástico.
— Sabem que essa história da menina da isca é mentira, não é? — Katie voltou a falar — O povo dessa escola gosta de mentir...
— Se acreditamos ou não, o problema não é...
— Talvez! — Jonas interrompeu Rae.
Eles olharam para os novatos desconfiados.
— Ei! Pra quê essa atmosfera pesada? — Luke tentou descontrair — Acabamos de entrar na escola. Não queremos brigas.
— Nós também não — disse Rae. — Então é melhor vocês puxarem assunto com outro grupo.
— Você é sempre meiga assim? — Michael se pronunciou.
Rae o olhou, nem notando a sua presença ali.
— O que você quer? — ela perguntou — O que todos vocês querem?
— Ao contrario de você, nós queremos nos socializar! — retrucou Mike.
Kim e Jonas entreolharam-se. Ambos perceberam que a discussão era apenas entre os dois.
— Mas nós não queremos — devolveu ela, fria — Estamos perfeitamente bem e conversando entre si, e não pedimos lara nenhum de vocês três falar com a gente. Então seguem o seu caminho que seguimos o nosso.
Michael olhou para Jonas e Kim.
— Eu concordo com tudo o que ela disse.
— Eu também — disse Kim.
— Olha, podemos conversar a sós? — Luke falou em um tom sério — Sem ninguém por perto?
O trio se entreolhou.
— Sem testemunhas? — supôs Jonas.
— É. Mais ou menos isso.
Katie bateu no braço do seu irmão.
— Onde não tenha ninguém para nos ouvir — especificou ela — Só queremos falar uma coisa...
— Não! — Kim disse, assustada. Jonas e Rae olharam para ela.
— Você está bem?
— Não! Eu não estou bem — ela respondeu direta a Michael — E não vamos a lugar nenhum com vocês.
Rae e Jonas viram o rosto assustado de Kim. A mesma não reagiu bem, pois em sua mente se passava o vampiro. Eles não a culpavam de estar assim.
— Mas a gente...
— Vocês a ouviram — se intrometeu Rae — Não vamos com vocês. Estamos bem aqui.
— Dá para parar de ser tão fechada e desconfiada e pelo menos nos ouvir? — Michael se irritou — Eu não entendo porquê você é assim!
— Problema seu! Você nunca saberá! — falou ela, com uma frieza que o fez se lembrar do seu pai. Não que os dois sejam parecidos, mas quando Michael vê ou fala com uma pessoa fria, ele se lembra do seu pai. Era inevitável. — Agora nos deixe em paz se não quiserem arrumar confusão.
— Você é que vai arrumar confusão se continuar desconfiada!
— Não é só ela que está desconfiada, Michael — Kim reuniu coragem para se intrometer. Ele a olhou surpreso — Cai fora daqui!
— Eu...
— Você as ouviu! Caiam fora! — Jonas as apoiou.
Luke e Michael suspiraram derrotados e recuaram. Michael olhou para Kim com pena. A mesma estranhou. Mas, ao olhar para Rae, lhe veio um grande desgosto e recuou também.
— Eu podia me virar sozinha — disse Rae, fria e grossa. Kim e Jonas a olharam e não souberam que se passou pela sua cabeça, pois acrescentou — Mas obrigada!
— De nada — devolveu Kim. Ela suspirou.
— Eu tenho que agradecer a vocês dois por causa de sexta. Sabe aquela hora em que a vampira me pega? — Kim e Jonas assentiram — Então, obrigada por me salvarem.
— Não tem de quê — disse Jonas — Você não está sozinha nessa!
Rae, inacreditavelmente, sorriu. Caminhavam pelos corredores, alertas.
— Vocês estão bem? — perguntou ela — Digo, com essa coisa de sermos caçados...
— Nós nunca vamos estar bem — disse Kim. — Mas vamos aguentar. — Jonas concordou — Só essa coisa de lutar e andar com uma arma é o que me apavora.
Eles riram.
— Ei! Eu sei que nos conhecemos há pouco tempo, mas... A gente meio que pode morrer a qualquer segundo — falou Jonas. — Então, nós temos que...
— Trabalhar juntos. — completou Kimberlly. Ela olhou para os dois — Temos que estar juntos nessa.
Rae concordou com eles.
— Então... Nós meio que somos...
— Amigos? — supôs Jonas. Ele olhou para Kim. — Bem... Se vamos enfrentar isso...
— Vocês querem ser os meus amigos? — perguntou a loira.
— Seria bom — disse Jonas. Os dois olharam para Rae.
Ela deu de ombros.
— Não quero morrer ao lado de estranhos — disse — Mas com uma condição. — os dois a olharam — Não falem nada para Michael, Luke, Katie para qualquer um sobre mim...
— Se quiséssemos, já teríamos contado — alegou Jonas.
A garota fria e fechada sorriu abertamente para os dois.
***
— Você o quê?
Joel desviou sua atenção da luminária quebrada em cima do centro de mesa.
— Eu decidi ficar amiga de Jonas e Kim — ela repetiu suas palavras.
Ele soltou uma ferramenta e estendeu a mão em um cumprimento.
— Oi, meu nome é Joel! Você por acaso viu uma garota chamada Rae, que depois que descobriu uma radiação fria nela decidiu não ter amigos e se tornar fechada para não ser descoberta?
— Que engraçado, Joel — disse Rae com desdém.
— É sério! O que aconteceu?
Ela deu de ombros, pegando uma engrenagem.
— Quando ficamos treinando nesse final de semana, os dois ficaram conversando muito. — começou a explicar — E eles também falavam comigo. Acho que o medo de sermos mortos a qualquer momento faz com que estejamos mais próximos. E quando Kim convidou eu e Jonas para tomar sorvete ontem... Eu meio que fiquei surpresa, sabe? Ninguém nunca me convidou para sair. — ela aproximou a engrenagem do seu olho, usando como telescópio e olhou para Joel — Eu aceitei, porquê eu estava com fome e eles pareciam quererem que eu fosse. E pensei em como poderia ser divertido. Eu meio que dei uma chance e...
— Você gostou! — completou Joel. Rae assentiu com a cabeça.
— E hoje eu percebi que era melhor eu morrer com amigos do que com estranhos.
— E como está indo?
Ela, de novo, deu de ombros.
— Criamos um grupo no celular. Acho que está indo bem — falou Rae.
Joel pegou a engrenagem da mão dela.
— E você está bem? Digo, com essa história da Vindicta?
Rae pensou.
— É confuso. — respondeu — Eu acho que vou ter que tomar remédios para dormir.
— É só dormir com um facão e pronto — aconselhou Joel.
— Você é o único adulto que diria uma coisa dessas.
— Eu falo a verdade. Mesmo quando as pessoas não querem ouvir — disse Joel. Rae suspirou.
— Eu queria relaxar um pouco — refletiu ela — O pneu da minha bicicleta está furado.
Ela olhou discretamente para Joel. O mesmo olhou-a sério.
— Sem chance!
— Ainda não anoiteceu.
— E tem monstros atrás de você! — afirmou ele. Rae suspirou derrotada. — Quando isso acabar, eu prometo te levar para um passeio na minha forma de lobisomem.
— Se estarmos vivos quando acabar — murmurou Rae.
Joel a olhou, furioso.
— Nós vamos estar vivos quando acabar — corrigiu com desdém.
Poucos minutos depois, os dois saíram do pequeno chalé, vendo a luz do dia diminuindo. Não era uma boa estar fora de casa de noite. Joel voltou para o seu chalé, procurando as chaves do seu carro de guarda florestal.
Rae olhava ao seu redor, atenta. E se assustou ao ver um vulto no chão. Olhou para o machado de Joel em cima da mesa onde cortava lenha e pegou-o. Segurou com as duas mãos, vendo qualquer outro movimento. Ouviu sons de passos e seus batimentos cardíacos aceleraram. O som veio de trás do carro. Nem pensar que iria em direção ao barulho. Andou para trás, cautelosa. Ouviu mais passos. Virou-se para trás para avisar a Joel e viu algo saindo do chão e correndo rápido.
Deu um grito fino. Mas, ao ver melhor, viu apenas um rato saindo debaixo do carro e indo para a floresta. Rae, no momento em que gritou, acertou com o machado o ar, prevendo haver uma pessoa atrás dela. Apesar de ter sido um simples rato, Rae ficou apavorada e ficou com a respiração ofegante, nervosa. Ficou mais ainda ao sentir que estava se descontrolando.
Sons pesados saíam de dentro do chalé. Quando um ser sobrenatural pulou em cima do carro e pousou na frente de Rae. Não lhe veio na sua mente que era Joel e gritou de novo. O mesmo, na sua forma de lobisomem, olhou-a. Rae olhou para os olhos cor de mel claros do lobisomem a sua frente, antes sendo olhos azuis. O pelo marrom, também claro como os olhos, esvoaçava por causa do vento. Sua respiração fazia barulho.
— Estou bem! Está tudo bem! — Rae mal conseguia falar.
Joel viu os olhos de Rae lacrimejando. Ele voltou a sua forma humana, vestido com roupas diferentes. Segurou seus ombros com firmeza.
— Rae, se controle — ordenou ele. — Foi só um rato. Nada de demais.
Rae tentou controlar a sua respiração. Joel se estremeceu, sentindo frio. Rae se afastou dele, prevendo que a radiação se extinguiu e deixou o clima ali frio.
— Eu estou com medo, Joel — falou ela.
Joel se aproximou dela, suportando o frio. Ao olhar para ele, os olhos de Rae foram para mais atrás dele, onde viu a última pessoa que queria ver.
— Joel — murmurou.
O mesmo também olhou para trás, e só deu para ver a garota pegando a bicicleta e saindo dali. Ele iria atrás dela, mas sentiu o fri de Rae aumentar. Não iria deixá-la sozinha. Olhou para ela, nervoso.
— Você quem era ela? — indaga.
— Katie... — disse.
— O.k., se acalma — o frio aumentava cada vez mais.
Joel a levou para dentro do chalé. Deitou-a no sofá, conseguindo a acalmar. Rae agora se mantinha enrolada em um cobertor. Joel se sentou do seu lado e lhe entregou uma caneca cheia de café.
— Descafeinado — ele disse. Rae sorriu e tomou um pouco.
— Eu já estou melhor — disse, calma. — Só estou pensando em Katie.
— Sabe onde ela mora?
— Não — respondeu. Joel abriu a boca para falar, mas Rae o interrompeu — Eu sei. Ficar longe dela até sabermos que tipo de monstro ela é.
Ele vou como ela parecia cansada.
— Foi só um susto.
— Eu sei que foi! — afirmou Joel.
Ele olhou para Rae. E tudo o que via era uma garota assustada, mas tentando se manter calma. Alguém que, naquela situação, faz Joel fazer de tudo para acalmar. Para proteger. Faz tempo que não se sentia assim.
Joel a puxou e ela se deitou no seu ombro. Encostou-se no sofá, deixando Rae apoiar a cabeça nele. Joel olhou para o teto. Ela se aconchegou, encolhendo-se mais. Não era a primeira vez que a maldição dela se descontrola. Tudo o que Joel precisava fazer era acalma-lá e respirar fundo. Aquilo era incontrolável. Algo que somente ele e Samuel conseguiam impedir.
— Desance um pouco. Deixe que eu cuide da garota — falou Joel.
Ele nem percebeu que ela ficou um bom tempo ali. Sabia que ela havia pegado no sono, e deixou. Suspirou, pegando-a nos braços e levando para o seu quarto. Cobriu-a com o lençol e alisou um pouco seus cabelos.
— Boa noite, Rae.
Se levantou e trancou as janelas do quarto. Apagou a luz e saiu do mesmo.
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