“Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo”.
Apocalipse 1:3

A poucos metros da Praça Principal da cidade, onde a estátua pichada e velha do fundador ainda era atração principal, e onde a grande figueira — ainda descrita pelos habitantes como o melhor vegetal de tronco lenhoso — balançava suas folhas, o orfanato Santa Maria permanecia em silêncio. A princípio, todas as crianças deveriam estar em suas camas às 22h, mas aquele dia já estava estranho o suficiente e tal horário parecia ser tarde demais. Às 21h, a maioria já dormia. Não por cansaço, não por imposição. Talvez por receio, medo.

Eram 03:15 da manhã, madrugada do dia 25 de Outubro de 1993. Agora, uma tempestade elétrica ocorria, castigando Criptal. Cidade pequena; pequena demais para ter sequer uma pessoa ruim que merecesse aquelas explosões e constrangimentos devido à queda de descargas elétricas que não foram previstas em momento algum. Se fosse apenas esse o problema...

Podemos voltar à manhã do dia anterior: uma tempestade pegou a cidade — e diversos meteorologistas — de surpresa. Árvores caíram, assim como casas foram destruídas e duas vidas (um senhor de idade que fumava seu cachimbo matutino no quintal, onde um raio caiu, e uma criança, que fora vítima de um acidente de carro, em decorrência da chuva forte) perdidas. Pela tarde, fazendeiros locais relataram sobre suas plantações — as não devastadas pela chuva: simplesmente se ressecaram. Apenas quilômetros e mais quilômetros de plantações perdidas, sem nenhuma explicação plausível.

Brenda acordou assustada, olhou em seu rádio relógio que hora marcava e levantou-se, sentindo que algo estava errado; mais que o comum. Nada parecia certo em um orfanato, onde dezenas de crianças carentes corriam de um lado para outro o dia inteiro. Ela odiava aquilo, odiava ser a filha da dona, odiava ter de dormir ali quando não estava na casa de seu pai — que, de acordo com a mesma, fez a melhor escolha da vida dele ao se separar de sua mãe. Mas agora, precisava se levantar e agir. Tinha a sensação de que algo lá fora a chamava.

Desceu as escadas do orfanato, chegando ao térreo correndo. Andou mais um pouco no escuro, tropeçou em uma mesa de canto e finalmente chegou à porta. Quando a abriu, um raio caiu. Um miado distante foi ouvido. Um ar frio a atingiu.

Quando a abriu, um bebê chorou.