A manhã estava, no mínimo, o que consideramos por agradável. O sol brilhava por entre as nuvens acinzentadas. Seus raios eram fortes o suficiente para que as crianças ousassem a correr por aí — e fracos o bastante para que fizessem isso com cachecóis. Os adolescentes problemáticos pareciam não estar planejando vandalizar a estátua recém-restaurada de Erick Criptal, fundador da cidade. O melhor vegetal de tronco lenhoso não existia mais; foi derrubado, para a construção de duas vagas para estacionamento na praça da cidade. Os defensores da natureza (e moradores mais antigos) ainda não superaram tal fato.

— Eu achava que era algo sério. — Sheila disse, portando um olhar assassino, enquanto tentava ajeitar seu coque loiro.

— Meu dedo. Meu melhor dedo! — Paul mostrava indignação.

Ambos estavam sentados em uma mesa próxima à janela, no restaurante da família Lemon — a limonada do estabelecimento era considerada a melhor da cidade, logo, a família se vangloriava por ter um sobrenome tão bem adequado. Todo mundo ama um trocadilho.

O restaurante, localizado a poucos quarteirões da praça da cidade, atraía os mais variados tipos de pessoas. Incluindo os que tinham melhores dedos.

— Por Deus, Paul! Você não quebrou essa droga de dedo. — Sheila agora segurava, de uma forma bem ameaçadora, uma batata frita. — Não sei onde o andou enfiando, mas quebrado não está.

— O que quer dizer com isso? — O rapaz dramático, sentado em frente a loira, mexia seu melhor dedo enquanto avaliava um sanduíche de frango em seu prato.

Ele mal percebeu quando uma garçonete se aproximou e deu um leve tapa em seu pescoço.

— Acho que você devia pagar a conta dessa vez, mocinho. — Annie disse, guardando um bloquinho no bolso de seu avental vermelho.

— Avalia meu dedo? — Paul insistia.

Annie olhou o mindinho do amigo, perplexa. Ao tocá-lo, fez uma careta de desaprovação.

— Precisa amputar. Não se preocupe, arrumo uma prótese para você. Conhecemos um doutor que mexe com essas coisas. — Annie disse, tentando não rir, enquanto puxava uma cadeira para sentar-se entre seus amigos.

Sheila não conseguia se segurar perante essas situações. Começou a rir quase que descontroladamente quando viu a cara assustada de Paul.

— Estou brincando, idiota. — Annie disse, com aquele olhar. Aquele olhar que todo mundo tem, quando quer insinuar que outras pessoas são estúpidas.

— Não é engraçado! Meu dedo é ferramenta de trabalho! — Paul retrucou.

— O quê? — Sheila ria entre as palavras — Você nem ao menos trabalha!

— Mas se quero ter um futuro no turismo, preciso de todos os meus dedos saudáveis. — O dramático dramatizou.

— Turismo? Quem faz turismo? Só você faz turismo nessa cidade. Aponte alguma concorrência. — Annie foi sutil como uma granada.

Paul apenas riu. Apesar de sua personalidade boba e um tanto relaxada, se preocupava com o futuro. Annie e Sheila pareciam, para ele, bem resolvidas quanto a isso. A loira apenas fazia um curso de enfermagem, mas aparentemente gostava muito. A morena, além de ser colega de sala de Sheila, ainda trabalhava como garçonete no restaurante dos Lemon. Oh sim, os Lemon!

— Lá vem o gerente gostosão. — Paul disse, após seus olhos varrerem o restaurante, poucos segundos depois.

Matt Lemon. Filho único de Alex Lemon e Denise Lemon. Gerente do local e um bom namorado. Amor da vida de Annie, de acordo com ela.

O rapaz se aproximou, vestindo um terno preto com uma gravata que claramente o incomodava. Seu cabelo castanho ondulado brilhava. Gel demais. Annie não se conteve e soltou um risinho abafado.

— O que diabos, Matt? — Perguntou, risonha.

— Meu pai disse que, se quero ser gerente, preciso de uma roupa a caráter. Aqui estou. Assim, só para os jantares, mas experimentei. — Matt respondeu, mexendo desesperadamente na gravata apertada.

— Mas... — Annie não completou. Matt a interrompeu.

— Não me esqueci do nosso jantar especial. Meus pais nos liberaram. O restaurante fica por conta deles essa noite.

Um sorriso preencheu o rosto de Annie de ponta a ponta. Jantar romântico, ideia de Matt, noite boa.

— Matt e Annie, debaixo da figueira, se beijando, sem bobeira. — Paul cantarolou em uma melodia aleatória.

— A figueira virou estacionamento. — Sheila, entendendo dos assuntos da cidade, fez uma piada mal compreendida.

— Ok, chega. — Annie levantou-se, colocando a cadeira que pegou em seu devido lugar. — Matt. Dispensa. Agora. Preciso de ajuda com uma caixa.

Matt lançou aquele outro olhar para Paul. Aquele outro olhar que os homens trocam, se referindo ao que uma mulher quer. Ou melhor: se referindo ao que uma mulher parece querer.

▬▬▬

Criptal — Abril de 1993

Pela noite, em um pequeno morro, um tanto longe de toda a civilização, eles surgiram. Mas eles não tinham corpo. Eles não podiam ser vistos. Apesar disso, estavam ali. Um bar próximo foi o suficiente para todos. Enquanto doze pegaram corpos aleatórios — prostitutas, viciados em heroína, bêbados — o décimo terceiro decidiu escolher. Olhos verdes, barba por fazer, cabelo castanho, copo de cerveja na mão, sentado em frente a um balcão. O fantoche perfeito. A casca perfeita. O escolhido de Eligor.

— Bela casca. — Assim que se viu com um copo na mão, Eligor ouviu uma voz feminina.

Ao olhá-la, viu que era uma loira, com cabelo curto, usando roupas curtas. Seu diferencial eram seus olhos completamente negros.

— Fomos enviados juntos, mas não sou obrigado a fazer amizade com demônio algum. — Eligor disse, tomando um gole da cerveja e largando o copo em seguida.

— Quanta grosseria. — A mulher se aproximou mais. — Não quer nem ao menos saber o nome? O corpo dela é maravilhoso.

Eligor riu e se levantou do banco onde, sua casca, havia escolhido para estar. Em seguida, pegou a loira pela cintura e a beijou. Não durou mais que dez segundos.

— Não. Sinto o gosto da derrota até mesmo na boca dessa mulher que possuiu. — Eligor disse, soltando a loira.

Ao tentar se retirar, a mulher o pegou pelo braço.

— O nome dela é Nora. Abusada pelo padrasto aos dez, se tornou prostituta aos quinze e se sustenta assim até hoje. Grita bastante aqui dentro, mas não é forte o suficiente para que eu perca o controle sobre ela. — “Nora” disse.

Eligor a olhou com desprezo.

— Não sei qual o seu problema. Você é o escolhido de Abaddon! — Ela permaneceu falando, sem se importar se mais alguém ouvia. — Você comanda doze demônios! Controla nossas ações aqui! Abaddon te escolheu como chefe desse grupo por algum motivo. Devia honrar o fardo que carrega.

— Façam o que quiserem. — Eligor concluiu a conversa.

Ao sair do bar, percebeu que a luz da Lua o agradava. Caminhou por alguns segundos até que esbarrou em uma jovem mulher. Não teve tempo de reparar bem, mas ela parecia ter cabelo bem escuro — talvez tão escuro quanto a cor dos olhos de um demônio quando queria, claro, se revelar como um demônio.

Ela também não reparou muito nele, tampouco percebeu que Eligor era uma criatura infernal; apesar de seus instintos angelicais sempre identificarem um indivíduo do submundo. Se ela tivesse reparado, talvez Eligor acabasse morto junto com mais doze demônios que, de acordo com Nora, ele deveria comandar.

▬▬▬

Assim que entraram na dispensa, Matt agarrou Annie por trás, beijando seu pescoço. A morena ria, enquanto tentava se soltar. Quando conseguiu, percebeu que seu namorado agora portava um beicinho frustrado.

— Deixa eu te ajudar. — Annie disse, afrouxando a gravata de Matt.

— Ótimo. Passei de enforcado para agoniado. — Matt ironizou, após a ajuda de sua garçonete favorita.

— Então... — Annie começou a falar, se apoiando em uma mesa empoeirada. — Sobre o nosso jantar de hoje. Vai ser na sua casa e...

— Amor. — Ela foi cortada. — Já conversamos sobre isso. Não precisa ter medo. Não faremos nada que você não queira.

Annie sorriu, percebendo que Matt ficava mais fofo quando a chamava de amor. O terno deixava tudo ainda melhor. Depois de alguns segundos fitando o rosto do namorado, ela o beijou. O beijo tinha a doçura e carinho de sempre, mas Matt percebeu algo a mais. Fogo?

— Eu quero. — Annie o beijou por mais alguns segundos. — E nossa noite tem tudo para ser perfeita.

O rapaz-de-terno se surpreendeu. Annie agora estava com os braços envolvendo seu pescoço, olhando fixamente para ele com aqueles olhos verdes, que pareciam enfeitiçar qualquer um.

— Tem certeza? Estamos falando daquilo, certo? — Matt costumava demorar a entender as coisas.

Annie tentou responder, rindo, mas Sheila invadiu a dispensa e a interrompeu.

— Amiga, Marta me ligou. Pediu para que você verificasse seu celular, já que não a atende. — A loira disse. — Ela falou que a clínica entrou em contato e sua mãe está... mal.

Alguns segundos de silêncio constrangedor passaram.

— Mal como? — Annie perguntou. — Onde ela está?

— Indo levar Nathan para a última apresentação do coral da escola. Ela não quer preocupá-lo. — Sheila parecia confusa. — E não definiu o mal.

Annie olhou para Matt. Ele apenas assentiu com a cabeça.

— Vou até a clínica. De bicicleta devo chegar rápido. — Ela disse.

Saiu da dispensa mais rápido que entrou, retirando prontamente seu avental e o colocando em um balcão aleatório do restaurante. Não percebeu Paul ainda mexendo seu melhor dedo. Não notou a presença de um homem bem vestido, de cabelo na altura dos ombros, que a observava quase que sem piscar. Ela só desejava pegar sua bicicleta e ver Andrea.

▬▬▬

Criptal — Abril de 1993

Eligor estava feliz. Parecia sentir o ar fresco percorrendo seus (emprestados) pulmões. Sentia-se vivo. Apesar de ter uma voz bucólica em sua cabeça — perguntando o que estava acontecendo — estar ali era ótimo. Ele pouco se lembrava de como era segurar um copo (se é que viveu quando os copos já existiam), de como era beijar alguém (se é que beijou) e havia feito tais coisas em apenas quarenta minutos fora do inferno.

Agora, sentado em frente a um rio — chamado apenas de Fronteira Natural entre Criptal e Thiwoo — ele tentava se lembrar de quando era realmente vivo. De quando tinha uma alma. Foi quando se arrepiou por completo.

— O que diabos? — Balbuciou ao vento.

Levantou-se e começou andar na direção em que sentia aquilo. Aquilo, que os demônios sentem. Aquela sensação de grupo, de conjunto, de trevas. Quando sentiu mais daquilo, decidiu correr. Correu por algum tempo até que viu cinco homens, aparentemente furiosos, cercando uma mulher. Eligor não conseguiu definir se estavam tentando uma possessão conjunta ou apenas desejavam torturá-la, mas sentiu-se culpado. Não sabia se eram realmente demônios, mas não podia arriscar.

— Vocês! — Gritou.

Dois deles se viraram. Esses levantaram voo quando o escolhido-de-Abaddon gesticulou com as mãos. Um bateu em uma pedra e desmaiou. O outro, Eligor não se deu o luxo de admirar, mas o alto estalo que ouviu o satisfez.

Aproximou-se mais e gesticulou novamente. Outros dois homens começaram a berrar, com as mãos na cabeça. Definitivamente eram demônios — que Eligor não reconheceu; não pareciam fazer parte de seu bando — e estavam sendo expulsos.

A mulher, por sua vez, parecia assustada. Apenas parecia. Virou-se e pôs sua mão direita sobre o peito do homem restante. Esse começou a gritar. Seus olhos normais se tornaram negros e começaram a ganhar um tom amarelado. Alguns segundos depois, caiu, morto. Os homens que estavam em meio a um exorcismo tiveram seus pescoços quebrados, sem que ninguém tivesse os tocado — ato também realizado pela vítima.

Eligor começou a se afastar, se dando conta que a mulher, antes indefesa, era um anjo. Apenas anjos poderiam fazer aquilo a um demônio. Assustou-se mais, quando percebeu que havia esbarrado nela havia pouco tempo. A moça do cabelo bem escuro...

— Agradeço. — Ela disse. — Bom uso da telecinese, aliás.

Ele deu mais uns passos para atrás.

— Me chamo Ariel. E deve estar pensando que foi um grande erro me salvar. — Ariel fez uma breve pausa. — Concordo.

Eligor agora estava com o nariz sangrando, jogado no chão a alguns metros da mulher-anjo. Ele sentira uma pressão em seu peito e levantou voo, sem ter asas, batendo com força em uma árvore.

Ariel andou até ele, com passos apertados. Seu um metro e cinquenta de altura não fazia jus a sua força. Quando finalmente o tocou, sentiu algo diferente.

— Por que não o matou? — Perguntou, com voz vacilante. — Todos os seus companheiros mataram os donos de seus receptáculos.

Eligor pensou um pouco antes de responder.

— Não ficarei aqui por muito tempo. Este homem, por mais que leve uma vida medíocre, não merece a morte. E preferimos o termo casca.

Ariel soltou o braço do homem. Aquilo não era comum, nunca havia visto algo do tipo. Ela havia matado um bando de doze demônios (além de ter quebrado há segundos o pescoço de mais dois e ter eliminado outro com apenas um toque) e apenas se sentira satisfeita, fazendo seu trabalho, extinguindo criaturas perversas. Mas aquele era diferente. Apesar dos olhos negros, parecia ter algo a mais. Humanidade? Piedade? Mas não seria possível, seria?

▬▬▬

Annie começou a pressionar os freios de sua bicicleta assim que passou pelo cruzamento da Rua Apolo com a Drake. A Clínica Criptal de Reabilitação — ou apenas CCR — ficava um pouco mais a frente. Ao chegar e avistar o bicicletário, percebeu que havia esquecido sua corrente e cadeado, mas aquilo pouco importava. Deixou seu veículo ali, desprotegido e entrou no prédio.

— Bom dia. — Ela disse, chegando à recepção. Viu a identificação da recepcionista (A. Sudamöes) e o nome era uma perfeita incógnita.

— Bom dia. Em que posso ajudá-la? — Sudamöes perguntou.

— É sobre Andrea Dinsmore.

Sudamöes ergueu as sobrancelhas, enquanto coçava o lado esquerdo de seu rosto. Tal nome era bastante conhecido nos corredores da CCR.

— Você é Marta Dinsmore? — Perguntou.

— Annie. Annie Dinsmore. Marta é minha avó. Vocês a informaram sobre uma alteração no estado de minha mãe.

— Certo. Apenas assine a lista de visitas. Nome, sobrenome e hora. Biparei algum enfermeiro que a levará até ela.

— Obrigada. — A neta-de-Marta disse. Pegando em seguida uma caneta e se apoiando no balcão de granito, começou a escrever.

O enfermeiro chegou cinco minutos depois, mas Annie mal notou a demora. Na verdade, preferia que ele não chegasse. Preferia que a recepcionista-com-nome-impronunciável dissesse que tudo não passou de um engano, que Andrea estava bem, para que o Restaurante Lemon tivesse de volta sua garçonete, rápido, bem rápido. Apesar de preocupada, não aguentaria ver sua mãe se ela estivesse pior que da última vez.

— É o seguinte. — Ele começou a falar. — Ela precisou ser medicada, para que descansasse. Agora está dormindo, mas achamos melhor informar sua família sobre o ocorrido. A senhora Dinsmore anda passando por intensas variações de humor, todos os dias.

Annie quase se perdeu nos olhos do rapaz. Antônio, ela leu a identificação. Moreno, apenas um pouco mais alto que ela. Tão atraente quanto Matt, oh sim! Talvez mais.

— Entendido?

Não, não entendido. Ela não havia ouvido mais nada, porém assentiu, um pouco envergonhada. Antônio a olhou estranhamente e pegou um cartão azulado do bolso de seu jaleco branco. Acompanhou a moça até o Corredor 3, a poucos metros da recepção.

Só irei vê-la. Ela está dormindo. Está tudo bem. — Annie pensara.

Porém, diferente do esperado, Andrea não dormia. O enfermeiro passou o cartão na fechadura eletrônica do quarto seis e disse que esperaria do lado de fora. Annie entrou. Aconteceu em menos de três minutos.

▬▬▬

Criptal — Abril de 1993

Quanto mais Ariel falava, mais Eligor se encantava. Sentada em um banco de pedra na praça da cidade, a moça descrevia eventos com entusiasmo, fingindo não ter responsabilidades. Esqueceu por alguns momentos que o homem a sua frente estava possuído por uma criatura que, sem dúvida, ela já deveria ter cancelado. Mas Eligor era diferente. Óbvio que era.

Ao tocá-lo para curar aquele nariz quebrado, sentiu que o dono daquele corpo estava tranquilo; outra coisa incomum. Ariel teve a certeza de que não deveria se sentir culpada. Todos merecem redenção, ela lembrou. Frase clichê no Paraíso.

— O meu nome é realmente Eligor. Sei quem eu sou, mas não sei quando morri e nem me lembro de minha vida passada.

Ariel se espantou.

— Você... Aguentou toda a tortura? Não preferiu se... — Ela pensou em um termo apropriado. — Se desligar e se tornar mais um deles?

— Eu sou um deles. — Ele disse. — Não faço ideia de quanto tempo passei lá, não me lembro do que fiz quando era vivo, mas eu sei que fui humano. Aguentei tudo porque queria me lembrar. Quem sabe um dia eu descubra quem sou, por completo.

— Isso é impossível. — Ariel soltou uma risada sarcástica. — Nunca vi uma alma aguentar a dor do inferno a ponto de não se corromper.

Eligor suspirou.

— Esse é o grande problema dos anjos, sabia? — Ele decidiu aplicar um sermão. — Seguem todo um sistema, acreditam apenas no que foi proferido por seus superiores, não...

— Superiores? — Ariel o interrompeu. — Primeira vez fora do inferno e já possui tantas informações?

— Muitos anjos vão ao inferno, seja para libertar algumas almas ou apenas para nos torturar. — Eligor disse.

— Você espera que eu acredite? — Ariel perguntou. — Anjos torturando demônios por puro prazer? Totalmente fora do comum.

O primeiro beijo veio após o sarcasmo.

— Você notou o fora do comum com quem está conversando? Aliás, quão dolorosa será minha morte?

▬▬▬

— Quem é você? — Andrea perguntou, sentada em sua cama, assim que Annie adentrou o quarto.

Seu cabelo loiro claro estava solto, batendo um pouco abaixo dos ombros. Annie percebeu que eles estavam bem maltratados, provavelmente sem nenhum tipo de cuidado decente desde que Andrea fora internada, há quatro anos.

— Quem. É. Você? — Andrea repetiu a pergunta, usando entonações distintas para cada palavra.

Annie estava confusa, se perdendo em diferentes pensamentos. Matt passou pela sua cabeça, assim como Antônio, clínica, o cabelo de sua mãe e inclusive o melhor dedo de Paul. Resmungou algo que Andrea não ouviu. Estava assustada. Sua mãe a assustava.

— Isso precisa acabar! Agora! Eu não aguento mais! — Andrea gritou.

Percebendo uma nova movimentação do outro lado da porta, se levantou da cama e pôs seu indicador direito sobre os lábios, pedindo silêncio. Aproximou-se devagar. Annie reconhecera a voz da pessoa que chegara: Sudamöes, a recepcionista. Nem ela e nem Antônio pareciam ter escutado os gritos, já que a porta não fora aberta, já que ninguém interferiu.

— Quantos? Quantos?!

— Mãe, o que a senhora...

— QUANTOS?!

Com o novo grito, Annie agarrou a maçaneta, mas a porta não abriu. Tentou mais vezes, mas nada acontecia. Ninguém interferia. O desespero começou a tomar conta. Por que ela temia a loucura da mulher que a criou? Andrea não poderia machucá-la! Poderia?

— Annie está bem? Me diga que Annie está bem, sua vadia!

— Mamãe, eu sou Annie! — Sua voz vacilava.

Andrea bufou. Havia ódio em toda a sua feição. Annie respirava devagar, esperando um ataque. Um soco. Qualquer coisa. Ela sabia que viria.

— Eu. Não. Aguento. Mais. — Andrea disse.

Mas não atacou sua filha. Voltou à cama, onde pegou seu travesseiro e explorou a fronha até achar o que queria. Um bisturi, pequeno e prateado.

— Não quer? Não é isso o que quer?! — Andrea berrou, segurando o objeto com força.

Annie gritou agudamente e começou a bater na porta, descontrolada, movimentando a maçaneta com a outra mão e olhando para sua mãe, que bizarramente posicionava o objeto perto do pescoço.

— ALGUÉM ME AJUDA! ABRAM! RÁPIDO! — Annie gritava. E batia. E movimentava. E olhava.

Antônio entrou (finalmente) poucos segundos após a nova onda de berros. Quando a porta se abriu, Annie saiu quase que ao mesmo tempo, chorando. Sudamöes foi a primeira pessoa que viu, trajando um olhar assustado.

— O que aconteceu? — Ela perguntou.

E não obteve resposta. Dentro do quarto, Antônio teve seu braço furado pelo objeto de Andrea, mas conseguiu contê-la antes que algo pior acontecesse. A última coisa que Annie jurou ouvir antes de sair daquele lugar foi uma risada; distante e insana.

▬▬▬

Criptal — Abril de 1993

Eligor ainda não conhecia o sabor da luxúria, mas tratou de conhecer assim que invadiu uma casa com Ariel. O demônio demonstrava total receio no momento da penetração — podia fritar sua casca e acabar morto junto a ela — mas esqueceu-se de todos os problemas quando (entrou, entrou, entrou, foi, foi, foi) pegou um ritmo maravilhoso com sua mais nova — talvez até primeira — amiga.

Ariel, por sua vez, fazia as coisas muito bem. Bem demais, para um anjo. Eligor não fazia ideia de como aquilo acontecera tão rápido. Deveria estar morto, mas estava ali, invadindo sem parar o corpo da raça inimiga.

Explorar. Explorar e matar, explorar e matar. — Abaddon ordenara. Oh, Abaddon. Há coisas melhores nessa vida!

Pós perder sua virgindade — sem saber o momento em que deveria tirar, colocar ou parar — Eligor permanecia risonho na cama bagunçada. Ariel olhava os olhos verdes do homem, quase hipnotizada, enquanto mexia nervosamente no colar prateado que pendia em seu pescoço. Annie estava escrito como pingente, com letras bem desenhadas.

— Annie? — Eligor perguntou, vendo o interesse da amada em apalpar o objeto.

Ariel levantou o pingente na altura dos olhos. Soltou uma risada em seguida.

— É o nome do meu receptáculo. — Riu meio envergonhada. — Ela também adorou o jeito que você nos adentrou.

E beijou Eligor. Mais tarde, poderia se arrepender amargamente do extremo em que chegou. Do pecado que cometeu. Mas, agora, queria mais.

▬▬▬

Matt puxou um pouco a manga de seu pavoroso terno preto para ver seu relógio de pulso. Faltava bastante. Estava nervoso, talvez até um pouco demais, para o jantar que prepararia. Ainda mais agora que Annie queria. E claro, se ela queria, ele queria muito mais. Quando ajeitou sua roupa, viu um homem-bem-vestido acenar.

— Boa tarde, senhor. Algo de errado? — Disse, chegando rapidamente à mesa do cliente.

O homem-bem-vestido sorriu. Matt avaliou aquele sorriso como intrigante, esperançoso, seguro e extremamente assustador. Mas, como poderia ter pensado em tais adjetivos? Apenas dois segundos se passaram!

Porque o homem-bem-vestido gosta de brincar.

— Matt. — respondeu.

Respondeu sem pergunta. Matt sabia que ele queria seu nome. Matt sentia a necessidade de agradá-lo.

Como diabos ele está fazendo isso?! — Pensou.

— É meu passatempo favorito. — O homem-bem-vestido respondeu a pergunta pensada.

Enquanto mordiscava mais um pedaço de torta, o bem-vestido-homem (a definição de Matt mudou em um segundo) ouviu:

— Asmodeus.

Após dizer tal nome, Matt se sentiu tonto. Tonto demais para permanecer em pé. A última coisa que viu antes de desmaiar foi o sorriso intrigante, esperançoso, seguro e extremamente assustador do bem-vestido-homem. De Asmodeus.

Notas finais
Primeiro capítulo dos três que julgamos necessários para entender a história como um todo, e, então, partir em busca de mais desenvolvimento. Espero que gostem. Há mais a caminho...