O sol atravessava o vidro da janela do quarto de Anne com feixes pálidos, e os raios de luz batiam na parede, mas não aqueciam o ambiente. Do lado de fora, a neve pousava sobre a Rainha das Neves. Os flocos de neve batiam no vidro e voltavam para o chão de forma lenta. Não havia vento naquele dia... estava tudo silencioso demais, como se o vento também tivesse tirado um tempo para descansar.


No andar debaixo, Marilla estava terminando de preparar o café da manhã, com sua habitual forma silenciosa. O cheiro do chá fresco preenchia todo o ambiente, misturado com o aroma dos biscoitos recém-assados. Junto à mesa estavam bolos e potes de geleia, todos devidamente alinhados. A louça utilizada era do dia a dia, não a de visitas, o que mostrava que não esperavam ninguém para aquele momento. Na verdade, havia poucos utensílios na mesa, o que indicava que seria um café da manhã rápido. Matthew, como sempre sentado em sua cadeira, realizava sua leitura do jornal de forma rotineira, folheava com calma, lendo em silêncio. O único som do ambiente naquele momento era o dos passos de Marilla e do jornal sendo folheado. Ele deu um olhar calmo em direção a Marilla, que serviu seu chá com cuidado e sem pressa, conforme ocorria todos os dias desde sempre.


— Essa garota tem que acordar logo, já está quase na hora de sairmos para Carmody. E precisamos sair no horário dessa vez, Matthew. O dia está bem tranquilo hoje, mas o tempo ultimamente tem nos pregado cada peça…

Matthew deu um gole no chá que ela acabara de servir, lançando um olhar calmo em direção às escadas. Ele sorriu e anunciou:

— Bom dia, Anne! Você dormiu bem? — disse, olhando de relance para Marilla enquanto tomava seu chá.

Anne estava com os cabelos bagunçados e ainda de pijama.

— Bom dia, Matthew. Bom dia, Marilla. Nossa, que dia excelente, não acham? Está tão lindo lá fora, tudo branquinho. A Rainha das Neves me acordou hoje com botões de neve… literalmente. É tudo tão lindo e maravilhoso! Eu amo Green Gables. E também amo o fato de estar caindo pouca neve, assim posso ir visitar a Diana.


Marilla deu uma bufada baixa e, em seguida, serviu seu próprio chá e o de Anne. Não olhou diretamente para ela, mas já sabia que a garota provavelmente esqueceria mais alguma coisa que pedisse.

— Anne, hoje é o dia em que Matthew e eu vamos para Carmody. Será rápido, só precisamos resolver algumas coisas com alguns fornecedores sobre questões após o término do inverno. Preciso que você fique em casa hoje e cuide da lareira, tudo bem? Está muito frio, precisamos que mantenha a casa aquecida para quando voltarmos, para que possamos preparar o jantar.

Anne, que segurava uma mecha de seus cabelos e passava os dedos pelas pontas, olhou para Marilla com uma expressão suplicante.

— Marilla! Hoje o dia está adorável e eu preciso ver a Diana, por favor! Já faz cinco dias que não nos vemos por causa das neves fortes. Está cada vez mais difícil nos comunicarmos pela janela devido às tempestades de neve. Hoje seria um dia tão agradável para vê-la…


— Eu disse que não, Anne — disse Marilla, secando as mãos no avental amarrado em sua cintura. — No máximo, você pode ir lá em quinze minutos e voltar. Esse é o tempo de sairmos e você colocar sua tagarelice em dia. Mas preciso que volte no horário correto, pois a estrada está com algumas partes cobertas de neve que ainda precisamos limpar, o que pode atrasar nossa volta. Por isso, preciso que fique aqui e cuide da casa.

Anne correu e abraçou Marilla rapidamente.

— Obrigada, obrigada, obrigada! Já vou e já volto!

Ela subiu as escadas e, quase imediatamente, já estava pronta — com o cabelo de forma aceitável para a ocasião, roupas adequadas e bem agasalhada.

— Eu já volto em quinze minutos! Ai, estou tão feliz, mal posso esperar para ver a Diana! — disse em direção à porta, batendo-a ao sair correndo da casa.

Marilla e Matthew acompanharam a saída de Anne e começaram a se preparar para partir. Marilla guardou todos os itens do café da manhã, enquanto Matthew saiu para verificar os cavalos e a carroça.


Anne corria mais rápido do que seus pés poderiam suportar. Durante a corrida, seu sobretudo se abrira e o frio quase congelara suas pernas finas. Estava quase chegando à casa da família Barry quando avistou Diana, que também corria em sua direção.

— Oh, minha querida Diana! — disse Anne, chocando o corpo contra o da amiga em um abraço apertado. — Estava morrendo de saudade! Quase não consegui vir hoje, e só posso ficar por uns cinco minutos… Eu tinha quinze, gastei cinco no caminho até aqui, e agora me restam apenas alguns para voltar. Marilla e Matthew vão para Carmody hoje e preciso estar em casa no tempo certo, cuidar da casa e adiantar algumas coisas para o jantar antes que cheguem. Está fazendo muito frio ultimamente… como você está?

Ela terminou de falar meio ofegante e tremendo de frio.

— Anne, você está congelando! Entre um pouco, por favor… — disse Diana, após o abraço apertado. — Vejo que você correu muito.

— Não posso! Só tenho alguns minutos, quinze ao todo, mas já usei parte do tempo e preciso voltar antes que Marilla e Matthew saiam para Carmody!

Anne e Diana conversaram rapidamente e de forma apressada, até que Anne se despediu e saiu correndo novamente em direção a Green Gables. Um vento leve começou a balançar os galhos finos das árvores, mas Anne mal percebeu. Quando se deu conta, já avistava Marilla e Matthew na entrada da casa, abrindo a porteira para partir.


— Lembre-se de cuidar da casa Anne, não deixe de fazer nada! – Disse Marilla dentro da carroça.


— Fique tranquila, Marilla, vou tomar conta de tudo! Quando chegarem, terão um chá quentinho esperando por vocês também. Até logo e boa viagem… apreciem a vista por mim e cumprimentem as árvores dormentes, que logo voltarão a florescer.

Anne fechou a porteira, deu meia-volta e entrou em casa. Pegou a vassoura e varreu a cozinha e a sala de visitas, depois foi para o seu quarto. Pegou o livro que estava lendo e deitou na cama para apreciá-lo.

Quando se deu conta, por causa da falta de iluminação, foi até a janela. O sol já havia baixado um pouco, mas ainda não era noite, o ambiente apenas escurecera devido à quantidade de neve que começava a cair naquele momento.

Anne desceu as escadas e percebeu que ainda faltava muito para Matthew e Marilla voltarem. No entanto, devido à tempestade, ficou preocupada se conseguiriam retornar em segurança. Mesmo sendo uma viagem curta, enfrentar uma tempestade de neve em uma carroça era arriscado para pessoas mais jovens e ainda mais perigoso para pessoas mais velhas.

Ela pegou as lenhas e colocou na lareira para manter a casa aquecida. Em seguida, colocou o bule no fogão para aquecer água e preparar um chá para si mesma.

De repente, ouviu uma batida forte na porta. Assustada, aproximou-se com cuidado e perguntou quem era, mas não obteve resposta…


Sem perceber, a porta dos fundos estava destrancada. E quando Anne finalmente levantou o olhar para quem entrava, sentiu o rosto arder imediatamente. O coração deu um salto confuso no peito.

— Você… — disse ela, surpresa, antes que a voz falhasse por completo.

Era alguém que ela conhecia. Alguém que naquele momento, não deveria estar ali.

E isso era ainda mais irritante do que o frio lá fora.


Notas finais
Olá, queridos leitores, como estão? Já faz um bom tempo que esta autora não escreve nada para vossa mercê… vossa mercê? Kkk, realmente estou entrando no espírito de Anne de Green Gables. O que trago aqui para vocês é como se fosse um capítulo extra de Anne de Green Gables. Espero que apreciem. Tentei dar o meu máximo para ser o mais fiel possível à escrita da autora, mantendo a essência da história, mas sem perder o meu próprio jeito de escrever. É a primeira vez que escrevo algo do tipo. Estou com muita vontade de escrever mais sobre Gilbert e Anne, então, se forem gostando, vão me dizendo nos comentários! Beijos da Harvelle.