Annabele Vermont

24 Lobos são mais corajosos do que humanos.


Acordei com o despertador, gostaria de dormir mais umas 3 horas. Mas levantei mesmo assim, alguns minutos depois de chagar no trabalho, meu pai telefonou:

–Annabele?

–Oi pai.

–La Push é uma cidade pequena e muito pacata não é?

Sua pergunta me pegou de surpresa, hesitei ao responder.

–Sim...

–Então você vai gostar da novidade! Estamos expandindo a filial de Boston e precisamos de alguém para coordená-la. Suas passagens estão compradas, diga adeus à essa cidadezinha. Você se muda no sábado.

Enquanto meu pai proferia aquelas palavras minha respiração foi cessando vagarosamente, até parar por completo quando sua voz parou. Todos os barulhos paralelos à aquela conversa sumiram da minha mente, só ouvia meu coração batendo na sala e a respiração do meu pai pelo telefone. Paralisei por alguns instantes.

–Annabele, você está ouvindo?

–Sim, estou.

–E não vai dizer nada?

Hesitei por mais um tempo.

–Pai... Eu não posso, não mais.

–Não pode o que? – sua voz estava ríspida.

–Não posso mais fazer isso. Você terá que encontrar outra pessoa para a filial de Boston, e se não concordar com minha decisão terá que encontrar mais uma para a filial de La Push, por que não poderei mais trabalhar para o senhor.

–Do que está falando Annabele? Que besteira é essa? – seu tom de voz aumentou.

–Eu não vou mais me mudar, Sr. Vermont! Vou morar em La Push! – Fale pausadamente.

–Annabele Vermont! Estamos falando da nossa empresa, do nosso patrimônio. Preciso de você lá.

–Não Pai. – minha respiração estava acelerada e as mãos tremulas. – Estamos falando da minha vida. Eu preciso ficar aqui!

Ele ficou calado por um bom tempo.

–Isso é um absurdo!

Mantive-me quieta.

–Não pode estar falando sério!

–Eu estou. Quer que eu cuide dessa filial ou vai assinar minha demissão? – quase não acreditava nas palavras que saiam da minha boca.

–O que está acontecendo? Está grávida? Cometeu algum crime e não pode mudar de estado?

Ri amargamente.

– Quer que eu cuide dessa filial ou vai assinar minha demissão? – Repeti rispidamente.

Ele bateu o telefone no gancho.

Quando minha percepção foi voltando ao normal os barulhos do ambiente foram aumentando e retomando minha audição. Meu coração reduziu os batimentos e a respiração se acalmou.

Aos poucos fui percebendo a dimensão dessa conversa. Uma vida inteira de culpa, submissão, e covardia, havia acabado de desaparecer.

O poderoso senhor Alex Vermont e o meu pai já não eram mais a mesma pessoa. Há muito tempo não vêm sendo. Um não existe concomitante com o outro, e eu já não sabia mais quem tinha desligado o telefone.

Não produzi nada naquela manha, não consegui me concentrar, cheguei mais cedo ao restaurante e fiquei sentada, olhando para o nada até os rapazes chegarem. Jacob foi o ultimo deles, e assim que o vi descendo de sua moto, caminhando calmamente até o restaurante; quando seus olhos cruzaram com os meus, eu soube. Não importava se foi meu pai ou meu chefe capitalista que desligou o telefone na minha cara, quem falou o que era certo fui eu, Annabele Vermont. E não alguém que se culpava por ter matado o irmão em um acidente.

Ele se sentou ao meu lado, mantendo seus olhos nos meus, beijou meus lábios calmamente, deslizou sua mão pelo meu braço até pará-la sobre as minhas mãos.

Enquanto uma conversa surgia entre Jacob e Embry eu continuei o encarando, até que ele percebeu e parou de falar para me olhar.

–Aconteceu alguma coisa Anna? – seus olhos se estreitaram, os outros ficaram em silencio.

–Meu pai me ligou hoje – Jacob serrou os dentes instantaneamente. – Ele quer que eu vá para Boston.

Sua respiração ficou irregular e seus olhos piscaram algumas vezes enquanto ele olhou para baixo, os outros permaneciam estáticos. Então continuei.

– Agora acho que eu estou desempregada... – Falei baixinho. Quil soltou um suspiro de alivio, Jacob olhou em meus olhos e então abriu um sorriso espontâneo e inesperado. O mais puro sorriso que já vi.

Então ele me puxou pra perto dele e num sussurro quase inaudível a mim disse.

–Eu amo você.

Me afastei um pouco e olhei em seus olhos.

–Você não ouviu? Estou quebrada Jake! – Rimos.

–Que pena! Acho que vai ter que ir morar de favor na minha casa. – ele falou ironicamente.

– Um brinde à mais nova desempregada de La Push! – Quil levantou um copo de água.

Brindamos rindo.

Durante todo o almoço Jake me olhava com um sorriso contido nos lábios, eu não sei se isso é possível, mas quando está feliz ele é ainda mais bonito. E em todos aqueles olhares vinham a confirmação de que eu havia agido da forma certa.

Caminhamos de mãos dadas até o estacionamento, Embry e Seth foram embora, Quil me olhou bem antes de entrar no seu carro:

–Bem vinda ao lar Annabele. – e então também se foi.

Jake se encostou ao meu carro e ficou me olhando com a mesma expressão do almoço todo. Parei em sua frente e deslizei os dedos pelo seu rosto.

–Lobos são mais corajosos do que humanos – sussurrei.

Ele sorriu e me abraçou.

–Antes de estar feliz por tudo isso, estou orgulhoso por você!

Girei nossos corpos e então eu fiquei encostada no carro.

Aproximei nossos rostos e então o beijei. Suas mãos apertaram minha cintura e sua língua invadiu minha boca, nossos lábios quentes se movimentavam ferozmente, as respirações se aceleraram e o calor aumentou.

Quando o folego estava no fim ele se afastou, colocou meu cabelo de lado e beijou meu pescoço, com uma voz rouca e sexy sussurrou em meu ouvido:

–Quero te levar pra outro lugar agora.

Minhas pernas balançaram, mas não pude ceder.

–Ainda não posso Jake! Não sei como vão ficar as coisas então não posso deixar a Vermont ainda. Tenho que esperar uma posição do meu pai e é melhor estar na empresa durante a tarde.

Ele juntou as sobrancelhas fazendo a cara de triste mais sexy da história. Depois sorriu.

–Eu entendo, é melhor resolver as coisas logo. – então beijou meu pescoço mais uma vez. – mas a noite você não escapa!

Montou em sua moto e foi embora, meu corpo ficou gritando por ele.

Trabalhei durante a tarde apreensiva por cada toque de telefone, mas meu pai não ligou. Não mandou nenhum e-mail, nenhuma ordem de demissão, nenhum comunicado. A ansiedade não me fazia bem. Ao chegar em casa tomei um banho relaxante e comi uma salada de frutas. A cada novo minuto eu conferia o visor do celular, mas não havia nada do meu pai.

Jacob me mandou uma mensagem dizendo que me buscaria em casa para jantarmos juntos em sua casa, então me arrumei e o aguardei.

Durante o caminho ele perguntou se havia alguma novidade, então contei a ele que meu pai não se manifestou.

Jantamos e contamos o ocorrido ao Billy, que me apoiou em minha escolha e disse que tudo se resolveria, então estávamos todos sentados na varanda da casa olhando o mar.

–Agora sim o clima está bom nessa varanda. – Billy respirou profundamente.

Rimos.

Jake segurou minha mão e entrelaçou seus dedos nos meus. Sim, era um clima muito bom!

Quando Billy resolveu ir dormir, Jake foi me levar em casa, não deu tempo nem de chegar ao quarto, fizemos amor no sofá da minha sala. Dessa vez foi muito mais romântico do que das outras, acho que ele estava esperando uma prova de que eu realmente ficaria e hoje ele teve sua confirmação. Ele me olhava profundamente e acariciava minha pele a cada instante, sem deixar de ser alucinantemente sensual.

–Dorme aqui comigo hoje? – pedi.

Ele sorriu e me levou nos braços até a cama. Então deitamos abraçados e dormimos a noite de sono mais tranquila de todas as noites que já vivi.

Durante a quinta feira tudo ocorreu normalmente, apesar do meu pai continuar sem se manifestar. No meio da manha Nancy me comunicou que havia uma mulher querendo conversar comigo, então mandei entrar. Antes mesmo que ela abrisse a porta eu senti seu cheiro. Isabella veio me visitar.

Ela entrou na sala, altiva e confiante. Caminhou até a mesa e sentou na minha frente.

–Preciso conversar com você Annabele.

Desviei meus olhos da tela do computador.

–Estou ouvindo Bella.

Então voltei os olhos e continuei mexendo em minha planilha. Eu estava incrivelmente calma e cética.

– Me sinto na obrigação de dizer a verdade à você. – Ela se inclinou na cadeira.

Olhei para ela e permaneci quieta, aguardando sua fala.

–Sei que você pode não acreditar, mas é melhor que você saiba no que está se metendo. Existe muita coisa obscura nesse mundo. Segredos de séculos, sobre lendas e mistérios...

Então eu percebi sobre o que ela queria conversar, sem mudar meu semblante, apoiei meus cotovelos sobre a mesa e continuei a olhando.

–La Push é um lugar muito misterioso, você chegou agora aqui então pode não ter percebido. Eu preciso dizer a você, preciso contar, apesar de ser proibido, pois sua vida corre grande risco.

Sorrindo mentalmente, permaneci calada até que ela concluísse.

–Jacob é parte da lenda dos guerreiros. Jacob se transforma em uma criatura mística muito perigosa e ele não tem controle sobre isso... Ele pode se zangar com alguma coisa e de repente se transformar em algo que pode acabar com sua vida em um piscar de olhos. E não é apenas ele, existem vários, todos se transformam. Sua vida corre perigo, você deveria ficar longe deles. – Sua voz era agitada e nervosa, ela gesticulava tentando me convencer.

–Ele é muito perigoso, é imprevisível. Eu sei que é difícil de acreditar, mas... – A interrompi repentinamente me inclinando sobre a mesa.

–Jacob é um lobo. E eu também sou. Você tem mais alguma coisa a dizer Bella? Meu dia está bem atarefado!

Ela ficou em choque por alguns segundos. Corou, possivelmente de vergonha. Então engoliu a seco e se levantou. Saiu da minha sala sem dizer nada e foi embora. Assim que a porta se fechou sorri e voltei ao trabalho, afinal Bella já não era mais um problema, nunca foi. E isso foi divertido!

Durante o restante do dia permaneci de bom humor.

Assim que saímos do trabalho depois das 17 hrs, Jake e eu nos encontramos em minha casa, pois era nossa noite de ronda. Resolvi não contar sobre a Bella, guardaria só para mim, como uma realização pessoal ou uma memória divertida. Afinal, EU sempre fui a questão.

Estávamos comendo um lanche na cozinha, já vestidos para a ronda quando ouvi um carro se aproximar e para em frente a minha casa. Foi então que senti um cheiro nostálgico e familiar, literalmente familiar.

Senti um calafrio, corri até a porta da frente e a abri, Jacob sem intender veio atrás de mim.

Eles estavam lá. Diferentes da minha memória; reais. Presentes.