Anna Prior - Em Busca de um Passado Esquecido
10 Capítulo 9 - Uma noite sem Lua
Notas iniciais
Senti o ar gélido em minhas penas cobertas só do joelho para cima. Estremeci por inteiro. Era uma noite sem lua e eu estava perto de casa, perto de mais para falar a verdade.
O céu não havia exibido nenhuma estrela até aquele momento, no qual eu botei meus olhos no primeiro pontinho iluminado que vi. Lembrei-me então do que diziam sobre a primeira estrela da noite. “Olhe para ela e diga ‘primeira estrela que eu vejo, realize o meu desejo’ e então faça um pedido, mas tem que ser de coração” pude ouvir Evelyn me ensinando o pequeno truque quando eu ainda nem chegava a altura da sua cintura.
Parei de caminhar bem no meio da calçada e fiquei mirando a estrela por longos e intermináveis segundos. “Primeira estrela que eu vejo” pensei, fechando os olhos suavemente “Realize o meu desejo”. Não sabia em que raio de desejo pensar. Então, pensei em todos, pensei em nenhum, tanto faz, mas é segredo.
Abri os olhos e balancei a cabeça, eu estava ficando maluca. Voltei a andar ainda meio vacilante enquanto tentava parecer pelo menos decente. Nosso apartamento ficava a menos de uma quadra de onde eu estava, e eu sabia que não tinha como passar despercebida pelo sensor de anormalidades do meu pai.
Revirei os olhos. Será mesmo que amizades entre garotos e garotas tinham que ser tão complicadas? Se é que aquilo poderia ser chamado de amizade... E daí? Eu dei uns pegas no meu amigo e agora estou com uma dose elevada de auto piedade. Realmente sou uma idiota.
Queria mandar o mundo inteiro a você sabe aonde, mas não seria educado e também não adiantaria nada. Por isso fui até a entrada do meu prédio a passos lentos e melancólicos que mascaravam o coração acelerado e sem rumo.
Aproveitei o espelho do elevador para dar um jeito no me cabelo e ensaiar uma cara de quem não estava surtando. Não deu muito certo, mas fui de peito erguido até a porta do apartamento, pronta para abri-la e mentir na cara do meu pai.
Fui entrando na sala, pé ante pé, bem de vagar. Ele estava sentado no sofá, lendo um livro com a luz ligada. Nem tive tempo de me surpreender, afinal, o pai sempre me esperava acordado.
– Boa noite filha – ele fechou o seu livro, o deixando sobre a mesa. Seu olhar era sereno na medida do possível, mas recheado de preocupação.
– Oi pai – respondi, meio hesitante. Tentei me virar e seguir pelo corredor até o meu quarto, mas evidentemente não deu certo. Ele gesticulou para que eu me sentasse a sua frente antes mesmo de eu poder me mexer.
– São dez e meia, te dei como horário limite as onze – começou, olhando no relógio. Sentei-me na poltrona a sua frente, meio desconfortável – Você nunca chega antes do horário quando vai à casa de FZ.
– Terminamos o trabalho mais cedo – tentei mentir, falhando vergonhosamente. Minha voz saiu meio estranha e hesitante, senti minhas bochechas queimarem e o meu coração aos pulos.
– Ele ligou – meu pai me informou, pronunciando cada palavra como se fosse uma sentença de morte. Eu senti como se tivesse levando uma pancada da cabeça. FZ ligou? Como assim? E ele disse o que? “Oi Tobias, a sua filha me beijou, sabia? Tchau”. Quase tive um treco depois daquele pensamento. Como que lendo a minha mente ele continuou – Disse que você saiu de lá correndo, que temia que você não chegasse em casa bem.
Aquilo com certeza foi pior do que um balde da água gelada. Agora ele se importava com a minha segurança? Só por que tínhamos nos agarrado ele queria saber se eu tinha chegado bem em casa? Fiquei surpresa por alguns segundos. Logo depois, uma enxurrada de memórias me atingiu de repente.
Então nós tínhamos cinco anos outra vez. Estávamos brincando de pega-pega, pude sentir minhas pernas cansadas, minha respiração ofegante e o meu sorriso abundante enquanto eu fugia de FZ por perto dos trilhos. Ele gritava “Eu vou te pegaaaar” com todo o fôlego de seus pulmões, e iria mesmo, eu já estava perdendo a velocidade de tanto rir sozinha. De repente a empolgação de um bom desafio de atingiu, eu gritei de volta “Não vai não”, mostrei a língua e comecei a correr mais rápido em direção aos trilhos, quase sem escutar o barulho do trem que estava chegando. Só conseguia rir, subindo nos trilhos, anônima do perigo, enquanto via os olhos de FZ se arregalarem e espanto. Ele correu muito mais rápido do que eu, gritando algo como “Anna!”, e eu continuei rindo quando ele me alcançou e me puxou pela mão, um puxão forte que fez o meu pulso doer. Eu caí em cima dele na plataforma, então escutei o trem passando atrás de nós, cortando o ar com um zunido agudo. Comecei a chorar no mesmo instante, poderia ter sido eu em baixo daquele trem, se não fosse por FZ eu teria sido esmagada sem dó. Ele me consolou, eu agradeci e ele disse que não era para eu fazer isso de novo.
Depois teve o dia das mães da quarta série. Nunca fui de ficar fazendo drama porque eu não tinha mãe, mas aquele ano foi... Diferente. Ver todas as crianças fazendo cartões de dia das mães e eu lendo um livro. Também tiveram alguns “coleginhas” que decidiram esfregar na minha cara que eu não tinha mãe, colocaram na minha cabeça que eu tinha sido achada em uma lata de lixo e dada ao meu pai como punição por um crime capital. Senti meus olhos marejados, mas eu não podia chorar na sala, não por um motivo tão estúpido. FZ percebeu e me sussurrou para eu pedir para ir ao banheiro. Fiz o que ele disse e, logo depois que eu sai da sala ele veio atrás de mim e escondeu a minha cabeça no seu casaco para que ninguém me visse chorar, apesar de parecer estranho não houveram perguntas. Fomos até o banheiro e FZ me deixou chorar em seu ombro, murmurando palavras desajeitadas de consolo e me fazendo cafuné. Depois, ele me fez perceber que aquilo eram só bobagens e me ajudou a lavar o rosto com água bem fria. FZ se ofereceu para dar um jeito naqueles meninos e eu disse que não, tínhamos nove anos e aquilo ia dar muito errado. Lembro que saímos rindo do banheiro e eu até o chamei de “Meu herói”, por uma pequena brincadeira com um fundo de verdade.
Quando fomos a nossa primeira festinha de escola, lá pela sexta, sétima série, meu pai ficou louco, ele não queria me deixar ir de jeito nenhum. FZ prometeu que ia tomar conta de mim direitinho, e, depois de muitos argumentos, meu pai cedeu, com um horário limite, é claro. Achei que FZ só estivesse enrolando o meu pai, que ele iria ficar na dele se esquecer de mim, mas ele seguiu as recomendações á risca, não desgrudou de mim. Ele não me deixava pegar uma bebida sem ter certeza que era refrigerante, não me deixava sentar de pernas cruzadas porque eu estava de vestido e já lançava um olhar fuzilante a cada garoto que olhava pra mim. Na mesma festa, teve um menino mais velho que deu em cima de mim, eu fiquei toda derretidinha é claro, mas FZ se meteu no meio e expulsou-o de lá. Eu briguei com ele por se meter na minha vida e fiquei quase uma semana emburrada. Meses depois, a namorada daquele menino engravidou, e ele fugiu. FZ se aproveitou do “eu avisei” e eu fingi estar nem aí. Mas no fundo agradeci, ele tinha me salvado, de novo.
Naquele instante, sentada na poltrona da sala, eu me dei conta: FZ sempre fora o meu cavalheiro de armadura brilhante. Eu é que não tinha percebido, mas ele sempre me protegera de tudo e de todos. Sempre fora o Meu Herói.
– Anna – meu pai me olhou nos olhos, sério e preocupado – O que ele fez pra você? – a pergunta foi tão sincera e recheada de amor paternal que eu fiquei tentada a responder “tentou me beijar pai, eu virei o rosto e depois me joguei em cima dele”, mas comprimi os lábios – Filha, por favor – ele suplicou. Eu virei os olhos para baixo, já tinha tomado a minha decisão.
– Não aconteceu absolutamente nada pai – respondi, baixando os olhos – Foi o trabalho, só isso – eu era definitivamente muito ruim em mentir, mas cerrei os dentes e continuei firme.
– Se ele te machucou filha... – ele disse com a mandíbula cerrada. O rosto demostrando tanta preocupação e determinação que eu cheguei a acreditar que ele faria mesmo o que estava prestes a prometer – Eu juro que acabo com ele... É só você me dizer...
– Ele não fez nada pai, eu estou bem – eu respondi, sem conseguir olhar em seus olhos. Então eu me levantei, com a sutileza de um fantasma, e murmurei “Me desculpa”. Não sabia se eu estava me desculpando por mentir, chegar daquele jeito ou beijar FZ.
Então em me virei, meio nervosa e hesitante. Caminhei alguns passos e pude ouvi-los ecoarem pela sala por causa do silêncio mórbido apenas preenchido pela respiração ofegante do meu pai.
– Foi o seu primeiro beijo? – meu pai perguntou com uma voz baixa, porém firme. Assim, na lata. Prendi a respiração enquanto eu sentia o rubor chegando a minha face. Virei-me de vagar com os olhos arregalados. Ele continuava sentado, meio inclinado para frente com uma expressão levemente perturbada. Aquilo devia ser muito constrangedor para ele também.
– Pai... – minha voz saiu como um sussurro. Ele olhou para mim e arqueou as sobrancelhas. Eu só podia ficar em choque, como ele descobrira? Recuei alguns passos, ele não esperava mesmo que eu conversasse com ele sobre aquilo.
– Só queria ter certeza – comentou, em voz baixa, mais para si mesmo do que pra mim. Então virou seu rosto anguloso em minha direção, me fitando intensamente com seus olhos brilhantes. – Por que se não for, se não for o seu primeiro beijo então eu serei um péssimo pai, por só ter te notado no segundo. Por favor, me responda – meu pai encheu os pulmões de ar e o seu olhar se tornou mais intenso e sincero, como se ele fosse extrair a verdade de mim como se tira sangue de uma veia – Foi o seu primeiro beijo?
Uma parte de mim se encantou pelo seu tom paternal e fiel. Era como se ele estivesse admitindo que a sua princesinha crescera, não que estivesse concordando, mas estava pelo menos tentando acompanha-la, deixa-la mais livre e entender que ela sairia do ninho algum dia. E aquele pai queria apenas um “Sim pai, esse foi o meu primeiro beijo, você não se descuidou quanto a mim”, mesmo que aquilo fosse constrangedor, íntimo e estranho de se falar com um pai, ele só queria saber.
Aquela parte de mim ansiava por falar a verdade, por me sentar ao lado de meu pai e contar em detalhes o que acontecera e pedir se o seu primeiro beijo foi assim também. Apenas por um abraço reconfortante a algumas frases de consolo que colocariam o meu coração nos eixos. Então, por um instante, aquela parte, que ainda era pequena, foi crescendo gradativamente, como se fosse um balão a inflar dentro de mim. E eu cheguei à beira de deixar que ela sucumbisse.
Então, em menos de um instante eu acordei. Não podia abrir a boca para o meu pai de jeito nenhum. Ele realmente achava que eu iria sair contando para ele quem eu beijava ou não? Eu realmente achava que eu iria fazer isso?
– Não importa – grunhi, era para ter soado como algum tipo de ameaça rude ou pelo menos um desacato, mas a minha voz saiu baixa e hesitante. Eu ergui os olhos, ajeitei a postura e empinei o queixo, encarando meu pai com uma certa dignidade e rebeldia – Não importa – repeti, desta vez com mais convicção, fazendo a fala soar um pouco mais firme.
Vi o rosto dele mudar gradativamente. De preocupação para dúvida, depois para indignação e por fim assumiu uma expressão de raiva e revolta. Meu pai se levantou subitamente, erguendo os braços e xingando baixinho.
– Você contaria pra ela, eu sei que sim – ele começou, logo depois de se virar de costas. A tensão era palpável pelos seus músculos rígidos e ele pronunciava cada sílaba como se fosse única e perigosa. Levei alguns segundos para perceber quem era “ela” e foi como levar um soco no estômago. Mordi o lábio e comecei a me questionar quanto aquilo. No instante seguinte meu pai se virou bruscamente e soltou de repente – Ás vezes é difícil ser pai e mão ao mesmo tempo se você... – ele fez uma pequena pausa e comprimiu os lábios. Vi seu peito diminuindo o ritmo gradativamente e o seu corpo inteiro ficando mais leve. Quando ele falou de novo sua voz parecia mais um sussurro ou apelo – Se você não me conta o que contaria para Tris.
Senti meus joelhos cederem e a cor de esvair de mim. Respirei fundo, uma, duas, três vezes, mas o ar se recusava a entrar em meus pulmões. Ouvi-me tossindo, mas era como se eu não estivesse mais ali.
O rosto de meu pai exibia um remorso explícito, estampado em sua face com letras granes. Então de repente uma força única e bruta me atingiu, vindo de dentro de mim, me dando forças para abrir a boca e dizer o que tinha que ser dito.
– Eu adoraria conversar sobre isso com a minha MÃE – gritei com voz de choro. Minha garganta chegou a doer e eu jurei que os vizinhos podiam me ouvir também, mas eu estava pouco me lixando. Cada batida do meu coração era recheada de raiva, frustração, tristeza e remorso.
Vi a cor de esvair do rosto de meu pai exatamente como acontecera comigo. Mas eu não fiquei ali para ver o resto das suas reações. Apenas tirei forças do além e corri até o meu quarto, batendo a porta com uma força exagerada.
Encolhi-me em um canto da cama, abraçando os joelhos e com os ombros tremendo. Fraca de mais para falar, pensar ou chorar. Era como se um buraco negro tivesse me engolido.
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