Anna Prior - Em Busca de um Passado Esquecido
30 Capítulo 29 - Você não é a única que tem uma arma.
Notas iniciais
Abri os olhos de vagar. Respirei fundo. Pisquei. Analisei meus próprios braços e pernas. Estranho. Nada doía. Ou me agoniava. Eu estava estranhamente...Normal. Em uma sala normal, sentada em uma cadeira normal com o corpo normal.
“Acabou?” pensei comigo mesma, confusa.
Tentei sorrir. “Acabou mesmo?” refleti. Onde eu estava...Onde eu estou...O que...Tudo me dizia que havia acabado. Que eu já podia tirar esse peso do meu coração. Mas tinha um problema: aquela sensação no meu estômago não tinha sumido.
Foi quando eu virei a cabeça e vi. Aquela sala, aparentemente deserta, apenas com uma cadeira fia nela, não estava tão desta assim. Dei um sorriso assim que o reconheci. Seus ombros largos, seu rosto familiar e aquela expressão de preocupação sempre presente ali.
“Pai!” tentei gritar, mas minha garganta não emitiu nenhum som. Tomei impulso para levantar e correr para os seus braços. Mas nada aconteceu. Eu não conseguia levantar. Eu não conseguia me mexer.
Foi quando eu vi. Vi razão pela qual o semblante de meu pai estava mais sombrio do que o normal. Tinha uma arma encostada na sua cabeça. O metal sendo pressionado com força, apesar da estatura pequena de quem estava o ameaçando.
Meu coração descompassou assim que eu reconheci aquele cabelo loiro. A estatura baixa e curvas familiares, cobertas por um abrigo preto exatamente igual. Olhei dentro daqueles olhos marrons cheios de uma fúria desconhecida por mim.
Aquela era...Eu?
Alguém totalmente igual a mim. Fiquei pasma. O que estava...O que eu estava...Aquela não podia ser eu. Com uma arma na cabeça do meu pai. Não, não podia ser eu. Não era eu.
Virei a cabeça, buscando o outro extremo da sala, quando o meu coração deu um pulo. Eu estava lá. De novo. Com outra arma. Na cabeça, desta vez, de uma figura bem menor do que meu pai. Fiquei branca como um fantasma enquanto eu observava aquele cabelo preto bagunçado emoldurando o rostinho inocente que eu estava ameaçando.
Era Julia. Eu estava com uma arma na cabeça dela.
Minha respiração se tornou entrecortada. O ar parecia refeito para suprir o vazio dentro de mim. Aquele sentimento que estava me consumindo por dentro e torturando meu coração. Aquela culpa insuportável que me fazia querer gritar de agonia.
Olhei para frente e não foi muito diferente. Os dois apareceram ao mesmo tempo, com seus rostos tão familiares e assustados, fazendo meu estômago revirar. E, logo atrás, eu. Eu apontava uma arma para a cabeça de Evelyn, que me fitava com um olhar maternal e de FZ, que olhava dentro dos meus olhos como se perguntasse “O que você fez?”
“Nada. Essa não sou eu” tentei mover meus lábios quando um grande soluço escapou deles. Senti meus rosto molhado e vermelho, quente como lava, enquanto eu derramava minha agonia pelos olhos. Não...Não, aquela não era eu!
De repente eu estava de pé. Em um pulo, mesmo sem minhas pernas conseguirem me sustentar direito, era como se uma força invisível me controlasse. Senti um metal frio envolvido pelas minhas mãos meu indicador no gatilho enquanto eu apertava as duas mãos ao redor daquela arma apontada para frente.
Solucei, sem acreditar, enquanto eu me debulhava em lágrimas. O mais impressionante e assustador daquilo tudo era a cabeça para a qual eu mantinha a arma apontada.
Ela não era muito mais alta do que eu e parecia ter por volta de dezessete anos. Seus cabelos loiros bagunçados mal batiam nos ombros, enquanto aqueles olhos escuros pareciam consumir minha alma. O formato de sua boca, nariz, seu corpo pequeno, singular e determinado me eram mais do que familiares: eu os via em mim mesma.
– Mãe... – balbuciei, incrédula. Ela apenas abrir um sorriso triste. Meu corpo tremia por inteiro, o que eu estava fazendo com uma arma na cabeça dela? Como minha mãe estava aqui? Senti mais lágrimas correrem pelas minhas bochechas para mais perguntas sem resposta.
Se aquilo fosse um sonho, bom, tecnicamente era, mas eu quis dizer um sonho bom, aquela seria uma entrada perfeita para a cena mais dramática de todas. Na qual minha mãe envolveria o cano da arma com suas mãos e cerraria os olhos, dizendo algo terno e reconfortante como “Baixe a arma Anna, eu estou aqui, está tudo bem”. Eu me debulharia em lágrimas enquanto a arma escorregaria de minhas mãos e seria chutada longe pela minha mãe. Nós nos abraçaríamos, ela me deixaria chorar em seus braços enquanto me contava que tudo não passava de uma grande mentira e ela estava ali, viva.
Mas aquilo não era um sonho bom. E o que vi nos seus olhos não foi um sorriso terno e palavras reconfortantes.
Ela simplesmente deu de ombros. Enquanto eu tremia, meu coração se angustiava e o medo era derramado por meus olhos elas apenas deu de ombros. Seu rosto não parecia triste, agoniado ou receoso.
Na verdade, era como se ela sentisse prazer na dor que eu que eu sentia com aquilo tudo. No desespero que me sufocava enquanto eu apontava uma arma para a minha querida mãe e várias de mim faziam o mesmo com as pessoas que eu mais gostava nesse mundo.
– Atire e tudo acaba. – minha mãe disse, com a voz fria e sentida. Pisquei, o que? Ela notou me olhar confuso e repetiu, com a voz calma e clara – Puxe o gatilho e acabe com isso.
Aquela não era minha mãe.
De repente, eu fui tomada por uma certeza indecifrável que me atingiu de uma hora para a outra: Aquela não era a minha mãe.
Nada era real.
Minha mãe não era real. Eu não era real. Aquela arma não era real. As lágrimas correndo pelas minhas bochechas não existiam. Meu pai era uma mera ilusão. A sala não era real. Evelyn não era real. Julia não existia. FZ era uma ilusão. As várias versões de mim não era reais. O meu medo não tinha fundamento.
Nada era real.
Eles não riam morrer de verdade.
Tomei uma decisão. Respirando fundo, senti as lágrimas descerem em peso, encharcando minhas bochechas. Nada era real. Meu coração batia mais rápido do que nunca. Nada era real. Mas eu não conseguia. Nada era real. Fechei os olhos.
Nada era real.
Puxei o gatilho.
***
Acordei com o olhar turvo e o corpo tremendo. Abri meus olhos cheios de lágrimas bem de vagar, enxergando apenas um borrão a minha frente. Antes de ter consciência do meu corpo deitado no chão eu senti uma dor cortante em meu tornozelo. Gemi baixinho e, segundos depois escutei uma voz.
– Anna? – minha visão foi clareando de vagar. Eu reconheci a voz masculina e estava prestes a chamar por FZ ou Tobias quando meus olhos focaram no seu rosto.
Assim que eu percebi que minha cabeça estava deitada no colo de um desconhecido, tentei levantar em um pulo. Só tentei mesmo. No instante em que meu tornozelo tocou o chão eu desabei com um grito.
– Quem é você? – encarei o homem a minha frente. Ele parecia simplesmente acabado. Olheiras escuras marcavam seus olhos e todo o seu corpo magro denunciava se cansaço. Ele deveria ter por volta de trinta anos, seu rosto anguloso e calculista me parecia estranhamente familiar.
– Anna, não se preocupe – ele disse com a voz terna e estendeu a mão, como se me chamasse para mais perto. Eu apenas escorreguei para trás com o coração martelando e lancei a ele um olhar fuzilante. O homem suspirou e fez o máximo para abrir um sorriso – Eu sou seu tio , Caleb.
Quase caí para trás. Como? Quem? Quando? Aquele tio? Irmão da minha mãe? Aquele Caleb que só era mencionado em trabalhos da escola e natais “em família”. Tive a sensação de engasgar o ar que eu respirava. Aquilo era simplesmente inacreditável.
– Caleb? De onde você surgiu? – murmurei, desconfiada. Em poucos segundos eu me lembrei de tudo: do bombardeamento, de Matthew, dos corredores cinza e daquela seringa. Eu não podia confiar em ninguém, eu nem sabia se Caleb era realmente um tio e se aquele homem era realmente Caleb.
Ouvi o homem dar uma risada fraca e forçada, mas eu já estava preocupada com outras coisas. Comecei a me virar em busca do painel, visualizando todo o aeroporto de uma vez. No instante seguinte o meu tornozelo, que continuava doendo, enviou mais um choque de dor pela minha perna. Gemi, aquilo não podia ser de quando eu tropecei, não?
– Anna, nós temos que ir – Caleb disse com a voz alarmada, como se eu fosse com ele para algum lugar. Ri enquanto eu puxava a barra da minha calça para cima para ver o meu tornozelo. Tudo o que eu encontrei foi um imagem macabra do meu tornozelo mole com o pé pendendo dele em uma direção estranha.
– Meu tornozelo – eu respondi, como se fosse uma justificativa e uma pergunta ao mesmo tempo. Caleb chegou mais perto e observou-o com atenção, como se fosse um médico experiente.
– Está quebrado – ele informou. Morri de vontade de dizer “Jura cabeção?”, mas mordi a língua. Se ele era realmente médico ou pelo menos sabia alguma coisa eu precisava daquilo. Mordendo o lábio e franzindo as sobrancelhas, Caleb completou – Temos que imobilizar.
– Não temos tempo – eu afirmei, mordendo o lábio. Balancei a cabeça, me lembrando subitamente do painel – Você não tem tempo! – exclamei, mandando meu tornozelo a merda enquanto eu tentava me apoiar no chão para levantar. – Eu não posso explicar , mas você tem que ir agora, por favor Caleb, saia daqui.
Pude vê-lo movendo a cabeça em sinal de negação enquanto se levantava e estendia o braço para me ajudar. Revirando os olhos, eu aceitei a ajuda e me apoiei em seu braço, tentando não gritar de dor. Colocando todo o peso na perna boa eu me equilibrei entre espasmos de dor.
– Anna, o que aconteceu? – Caleb me olhou nos olhos com uma preocupação aparente e terna, mas eu apenas balancei a cabeça e escorreguei a mão até a minha arma. Respirando fundo eu a empunhei e, tentando não aponta-la na direção dele, tentei localizar o painel.
Virei a cabeça em todas as direções e, apesar de eu ainda estar meio tonta, vi a parede onde estava o painel. Coloquei o dedo no gatinho de vagar, tentando não tremer. Respirei fundo, seria bem mais seguro chegar mais perto, considerando a minha falta de mira, mas o meu pé não me ajudava.
Eu podia ouvir Caleb gritando atrás de mim, algo como “O que você pensa que está fazendo? Vamos Anna!”. Mas eu apenas o ignorei e fechei um dos olhos, tentando uma mire mais precisa. Senti meu coração desacelerar e respirei fundo.
Eu estava prestes a puxar o gatilho quando ouvi uma voz. Virei a cabeça para o lado esquerdo, apesar daquela voz ser friamente familiar. Prendi a respiração, era ele, aquele desgraçado, na mesma cadeira de rodas com os cabelos grisalhos. E uma arma na mão.
Então, quase rindo com o meu choque, David disse, em um tom calculista e triunfante:
–Você não é a única que tem uma arma.
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