Anna Prior - Em Busca de um Passado Esquecido
25 Capítulo 24 - E você não precisa do seu namorado vivo, não é mesmo?
Notas iniciais
Tudo começou com um barulho. Batidas constantes que me fizeram acordar de meu sono alerta. Abri os olhos e notei, pela primeira vez, uma pequena janela logo em cima de onde estávamos, por onde o sol cobria a escadaria com a luz fraca do amanhecer. Já deviam ser seis horas da manhã.
Virei a cabeça e vi que FZ ainda dormia. Mas o barulho continuou. Pareciam passos, rápidos como os de quem desce uma escada. Haviam começando baixos e estava ficando mais altos a medida em que o tempo passava. Me sentei de súbito, sentindo uma dor se espalhar pelas minhas costas. Gemi baixinho e puxei a minha mochila para perto, passando a mão em minhas roupas amarrotadas e soltando o cabelo.
Mas passos cada vez mais altos me lembraram de que eu não podia me dar o luxo de estar bonita. Cutuquei FZ com força, fazendo-o perceber que era urgente. Ele murmurou um “Hã” grogue e coçou os olhos. Mas, segundos depois, ouviu os passos e se sentou tão rápido quanto eu.
Levantei em um pulo, colocando a minha mochila nas costas e amarrando o cabelo de qualquer jeito. Passei os olhos pelo local, procurando algo com o que me defender. O “tum tum” dos passos estava cada vez mais alto. Fixei meu olhar na arma ao mesmo tempo em que FZ a notou, ele já estava de pé e pronto para a ação. Meu coração batia cada vez mais rápido e os passos estavam cada vez mais perto. Troquei olhares com FZ e ele deixou claro que a escolha estava em minhas mãos.
Mais Passos. Eu podia dizer que era uma pessoa a uns dois lances de escada para cima. Um e meio. Eu tinha que decidir se pegava ou não pegava. Um lance. Fechei os olhos e guardei meu medo.
Peguei a arma. Meio lance. Coloquei no bolso grande do casaco, com o dedo já no gatilho. Olhei para FZ e acenei com a cabeça. Eu já podia ver uma forma esguia chegando perto de nós. Mais três degraus. Era questão de segundos até que a pessoa nos visse. O meu dedo estava no gatilho. Dois degraus.
Respirei fundo e fechei os olhos. Ambos estávamos alertas e eu era capaz de disparar até no meu próprio bolso, minhas mãos tremiam mais do que nunca. Um degrau.
Movi minhas pálpebras a tempo de ver uma figura esguia a cima de nós. Era uma mulher, com olhos azuis e cabelos negros presos em um rabo de cavalo. Foi tudo que eu pude observar nos segundos pelos quais nos encaramos, estupefatas (e estupefato, desculpe FZ). Eu estava pronta para gritar e sacar a arma, quando ela engasgou com a própria saliva e teve uma crise de tosse.
Eu fiquei a observando enquanto seu corpo magro se curvava para a frente, com o cotovelo em cima da boca. Claro que eu devia ter oferecido ajuda, ou apenas perguntado se estava bem. Mas tudo que eu pude fazer foi observar. Notar que ela vestia uma calça jeans e um a blusa de lã, apesar da estação. Que ela tinha uma bolsa preta pendurada no ombro. E não movi um dedo pra ampara-la.
– Quem são vocês? – a mulher disse, com a voz rouca, assim que parou de tossir. Eu estreitei os olhos, aquela mulher não me parecia estranha. Olhei de lado para FZ de lado e, como ele continuava calado, decidi ficar na defensiva.
– Quem é você? – perguntei, procurando manter a voz firme. A vi morder o lábio enquanto descia alguns degraus. Minha respiração estava pesada e eu não havia ousado tirar a mão do bolso, ou melhor, o dedo do gatilho.
– Você me parece familiar – ela divagou, franzindo as sobrancelhas. Continuei a encarando, procurando entender de onde eu a conhecia. Olhei para FZ e ele deu de ombros. Suspirando, subi dois degraus até ela continuar – Em todo o caso...
– Não é tão incomum encontrar alguém na escada, ou é? – a interrompi, com a voz nervosa. Fixando o olhar nela eu pude perceber de onde a mulher me parecia familiar. Meu coração dava socos no peito, eu sabia, agora eu sabia. Eu havia a visto na Reunião. E era muito provável que ela me reconhecesse.
Coloquei a mão esquerda trás das costas, de modo que só FZ pudesse vê-la. Fiz um sinal veemente, chamando-o para me seguir. Ele entendeu o recado e subiu alguns degraus rápido até mim. Não tirei o dedo do gatilho. Fui subindo, praticamente pulando, com FZ atrás de mim. O olhar da mulher continuava fixo em nós. Eu estava suando frio. Se esperávamos sair dali, tinha que ser subindo, porque ela estava descendo.
– É, bom, já vamos indo – tentei me despedir de uma forma educada, quando eu já estava no mesmo lance que a mulher. Ela continuou me encarando com a respiração pesada. E eu não fiz questão de continuar ali. Virei-me e comecei a andar rápido, com FZ na minha cola. Já estávamos perto do próximo lance quando eu senti uma mão segurando o meu pulso.
– Espere – gelei. A mulher magra tinha um aperto forte. Me virei em sua direção, tentando manter o semblante calmo, mas ela continuou – Eu sei quem você é. – afirmou me fuzilando com o olhar. Cada centímetro do meu corpo tremia e meu dedo continuava no gatilho. Então, após vários instantes tensos, ela finalmente completou, com um sorriso divertido nos lábios– Você é a espiã da reunião. A traidora.
Não sei dizer, com clareza, o que aconteceu depois. Suas palavras foram como um gatilho para mim. Senti um aperto no estômago, uma tontura atravessando todo o meu corpo e meu coração batendo forte de mais. Então, eu me vi tirando a mão direita do bolso do casaco. Ela tremia como uma batedeira e eu realmente não sei como consegui encostar a arma na cabeça da mulher.
Mas eu encostei. E deixei o meu dedo no gatilho.
– Você não vai contar para ninguém, não é? – eu disse, com a maior cautela que foi possível e tentando parecer ameaçadora até certo ponto. Meus ouvidos pareciam estar cheios de água e minhas próprias palavras eram sons distantes e abafados.
Quando finalmente consegui olhar para a mulher, em busca de um rosto assustado, tudo que eu vi foi aquele sorriso divertido que não havia saído de seus lábios. Como se estivesse zombando de mim. Fiquei um pouco confusa e irritada, afinal, quem estava com a arma ali? Olhei de relance para FZ e conferi que ele estava bem. Mas, mais do que isso eu não me achava capaz de fazer.
– Ou o que? Vai atirar? – ela disse, praticamente rindo. Empurrei a arma com mais força contra a sua cabeça, para que ela sentisse que eu, em tese, atiraria. Minha boca estava seca e eu estava nervosa de mais por blefar. E, apesar de todas as minhas tentativas, a mulher apenas riu e completou – É obvio que você não vai. Roubou essa arma quando? Não deve fazer muito, veja só: você nem consegue mantê-la no lugar.
Respirei fundo, tentando me manter calma e pensar em algo ameaçador para dizer. Mas não estava muito fácil, considerando que até meus lábios tremiam descontroladamente. Fechei os olhos e me concentrei, eu tinha tirar minhas emoções da situação. Não podia ter pena da mulher, deixar que a arma me desse náuseas ou que a minha própria capacidade de matar me assustasse. Eu tinha que ameaça-la e fazê-la me contar sobre o bombardeamento.
– Na cabeça? Provavelmente não. – comecei, com a voz relativamente firme. A mulher arqueou as sobrancelhas e eu sorri um pouco antes de continuar – Mas você não precisa daquele braço, não é mesmo?
Ouvi um riso abafado e tive vontade de cotovelar FZ. Não era pra ser engraçado, mas acabou sendo. Virei e vi que a mulher não estava mais tão feliz. Meu sorriso triunfante estava prestes a se abrir ainda mais quando a vi puxando algo de dentro da bolsa.
O metal refletiu a luz do sol no mesmo momento em que o meu estômago se contraiu. Eu sabia o que ela tinha na mão que para quem iria aponta-la. Seus dedos se encaixavam com perfeição na superfície prateada, como se já tivesse feito aquilo várias vezes. Então, em um piscar de olhos, a mulher tinha uma arma apontada para FZ.
– E você não precisa do seu namorado vivo, não é mesmo? – ela ameaçou, com a voz fria como o gelo e sem um pingo de compaixão. O ar pareceu ter se esvaído de meus pulmões e minha mente estava um turbilhão completo. Olhei de canto para FZ , tentando não cair no ato, e vi que ele estava assustado, mas não perdera seu jeito brincalhão.
– Ouviu Anna? Ela disse n-a-m-o-r-a-d-o. Com todas as letras, viu? – meu queixo literalmente caiu. Era nisso que ele estava pensando? Era aquela a parte mais “crucial” da frase? Eu estava prestes a me irritar com FZ quando o vi contraindo os lábios e engolindo em seco. Respirei fundo, aquilo só podia significar uma coisa: Ele tinha um plano, e a ironia era só fachada.
Tentei, por meio de olhares, que FZ me dissesse o que ele iria fazer, mas não consegui. Vi que a mulher nos olhava curiosa e ameaçadora ao mesmo tempo. Eu não podia me arriscar, ela tinha uma arma apontada para FZ. Então, agora, era tudo questão de tempo: quanto mais, melhor.
– Se você atirar, eu atiro – Se eu atirar você atira. A frase ficou presa em meus lábios, mas todos naquela escadaria sabiam o que aconteceria se alguém disparasse: um tiroteio. E aquela mulher não parecia temer a morte, mas eu temia. Pela minha vida e pela de FZ. E podia sentir meu coração na garganta.
– Que menina esperta – a mulher “elogiou”, batendo a mão livre três vezes na coxa, como se estivesse aplaudindo. Sua risada rouca ecoou por toda a escadaria. Eu engoli em seco e olhei de canto para FZ. No instante em que meus olhos miraram os seus eu percebi uma coisa: Ele estava cada vez mais perto da mulher. Qual fosse o seu plano envolvia ser discreto. Fechei os olhos de vagar, com o cérebro dando voltas em busca da compreensão, e, quando os abri, eu vi uma coisa: A bolsa.
Ela era relativamente grande, toda preta, com uma alça comprida e presa só em um ombro. No braço que estava segurando a arma. Como eu não somei dois mais dois? Se aquela mulher estava na reunião e havia me chamado de traidora então ela era leal ao David. Era óbvio que tinha alguma coisa na sua bolsa. Eu só tinha que enrolar e depois... É, por enquanto, enrolar....
– E se... Nós duas largássemos as armas? – sugeri, engolindo em seco. Vi o rosto zombeteiro da mulher se virando em minha direção. Ótimo, eu havia conseguido a sua atenção, agora eu só tinha que mantê-la. E não olhar para FZ, de jeito nenhum. Respirei fundo, lutando para manter a voz calma – Eu subo e você desce. Ninguém fica ferido.
– Nunca menininha! – juro que pude ouvir sua risada psicopática com uma clareza impressionante. Respirei fundo, a arma estava quase escorregando da minha mão de tão suada. “Não olhe para FZ, a distraia” eu ficava repetindo para mim mesma. Mantive o rosto firme e franzi as sobrancelhas. A mulher passou a língua pelo lábio, entretida e completou – David a quer viva.
– Por que, hein? – questionei, engolindo em seco. Cravei meus olhos nela e fiz o possível para abrir um sorriso de canto e acrescentar ironia a frase seguinte – Ele vai me colocar numa gaiolinha? – ok, não foi a melhor frase de efeito, mas foi.
– Por que? – ela me imitou, ainda com toda a atenção voltada em mim. Meu coração estava a mil por hora e eu já havia calculado tudo: naquela quantidade de segundos FZ já deveria estar perto, e, se tivéssemos bolado o mesmo plano, tudo tinha que dar certo. Ela respirou fundo e completou – Para que você veja sua querida cidade sendo bombardeada. E pelo diário, é claro.
Algo pulsou dentro de mim. Não, melhor, algo explodiu dentro de mim. Como se aquela pequena frase tivesse puxado um gatilho no meu cérebro. Eu podia ver a expressão zombeteira da mulher e o semblante assustado de FZ.
Até hoje eu não faço ideia de como eu fiz aquilo. Eu, Anna, a garota assustada que tremia segurando uma arma. Só sei que minhas mãos se moveram mais rápido do que o meu cérebro. Tirei a arma da testa da mulher e apontei para cima do seu ombro, bem para cima e, depois, mais para baixo. E atirei.
A bala voou pelas escadarias e eu me abaixei, torcendo para que FZ fizesse o mesmo e conseguisse arrebentar a alça da bolsa. Passei a mão na mochila de Julia e comecei a correr escada a cima, com a arma em mãos e abaixada como eu podia.
Meus ouvidos estavam tapados pelos sons das balas ricocheteando em todos os cantos. Nossa única esperança era o próximo lance. Minhas coxas ardiam e eu estava de cócoras, protegendo a cabeça. Fechei os olhos e estiquei uma mão para trás. Eu sabia que, naquele momento, o mais prudente era correr sem esperar FZ. Mas, daquela vez, meu coração ganhou a voraz briga que ele havia travado contra a minha razão. E eu esperei.
Logo senti o calor de sua mão contra a minha. Segurei-a com firmeza, como se fosse o último pedaço de terra firme existente, e ele segurou a minha com total confiança. Eu podia sentir nossos corações batendo em sintonia quando nos levantamos ao mesmo tempo e começamos a correr, cada um buscando a mão do outro como apoio.
Eu me virei para trás e atirei algumas vezes, ainda correndo. FZ me ajudou bem no momento em que o meu corpo pendeu. Sorri em meio a correria, nós éramos uma dupla em tanto. Em poucos segundos, chegamos ao próximo lance e eu pude sentir meu pulmão respirando aliviado.
Me concentrei em colocar toda a minha força em minhas pernas doloridas para que corrêssemos o mais longe o possível. Não contei os lances, nem os degraus. Tudo o que eu podias sentir era sua mão apertando a minha, uma ardência subindo pelas minhas coxas e o som dos tiros ficando cada vez mais distante. Subimos, subimos e subimos, até que ambos não aguentássemos mais.
Ao invés de desabar, nos abraçamos. Buscando forças de nossos corações grudados. Foi um abraço apertado. Eu enterrei a cabeça no seu peito e ele no meu ombro. Foi um abraço nosso. Um abraço que dizia “Fico feliz que esteja bem”, “Preciso de você” e “Eu te amo”, tudo em um só gesto. Um abraço para aquecer corações e recarregar energias.
E ficamos assim, abraçados, pelo que pareceu uma eternidade.
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