Anna Prior - Em Busca de um Passado Esquecido
16 Capítulo 15 - Você é um fofo dormindo
Notas iniciais
Não sei direito o que me fez acordar, mas com certeza não foi o sol. Não eram mais do que oito e meia da manhã quando eu abri os olhos. Eu ainda estava meio grogue e confusa, mas o sono havia me feito bem.
Sentei, ainda me espreguiçando e coçando os olhos. Depois de dar uma boa olhada em volta, percebi que apenas eu estava acordada. Por alguns instantes, me permiti olhar FZ dormindo, todo esparramado na cama e com a cara mais amassada que eu já tinha visto. E mesmo dormindo ele conseguia ser... Simplesmente FZ, de um jeito especial.
Sorri e lancei as minhas pernas para fora da cama, sim eu havia dormido muito pouco, então, estava acordando muito cedo, mas cedo para a escola é uma coisa, cedo para o Departamento é outra. Minhas roupas estavam realmente muito amassadas, mas eu não me importei.
Na realidade uma xícara de café cairia mais do que bem naquele instante, mas eu tinha água, e foi o que eu tomei. Julia também estava dormindo e, assim que eu a observei por mais alguns segundos, pude me lembrar da nossa conversa na noite anterior.
Balançando a cabeça, optei por esquecer. Olhando a hora no relógio percebi que eu tinha errado por apenas alguns minutos, eram oito e trinta e três. Depois da alguns instantes, desisti de fazer algo útil e apenas me sentei na minha cama, esperando os outros acordarem.
No final, não tive que esperar nem vinte minutos, FZ acordou logo depois e abriu seus olhos sorrindo para mim, ao ver que eu o observava. Eu correspondi o sorriso com um mais bobo ainda e revirei os olhos, repreendendo a mim mesma.
– Bom dia – ele disse, sentando na cama com os cabelos bagunçados e esfregando os olhos – Que horas são? – perguntou, bocejando, mas sem deixar que aquele sorriso que sempre brincava em seu roto de esvaísse.
– Quase nove – respondi, rindo internamente do seu cabelo nada decente. FZ foi descendo a escadinha que dava acesso ao beliche e pulou no chão – E, a propósito, você é um fofo dormindo – informei, rindo alto desta vez e resisti à tentação de acrescentar “até dormindo”.
FZ abriu aquele sorriso convencido e encantador. Então, piscou com o olho direito, como se estivesse flertando, só pra me irritar. Eu meio que gostei, mas fiz uma encenaçãozinha: revirei os olhos e, sacando a escova de cabelo da mochila, joguei-a nele, com esperança de que FZ penteasse o cabelo.
– O que tem de errado com o meu cabelo? – ele perguntou, assim que a escova caiu perfeitamente em suas mãos, e, por um momento, eu invejei profundamente os seus reflexos. Depois eu deixei para lá, afinal, eram aqueles mesmos reflexos que haviam me segurado habilmente pela cintura noite passada.
– Ta desarrumado – expliquei, rindo quando ele fez cara de confuso – Penteia – especifiquei enquanto FZ revirava os olhos. E, só para provocar, coloquei o meu cabelo incansavelmente penteado atrás da orelha.
– Que seja – ele respondeu e, finalmente, começou a dar um jeito naquele cabelo. – Você acorda a Julia para mim? – perguntou, me olhando nos olhos. Eu já estava pronta para argumentar, mas ele tinha razão, já eram quase nove horas.
Concordei com a cabeça e subi os poucos degraus para chegar ao beliche de cima. Julia estava um tanto inquieta, agarrada ao travesseiro. Eu a cutuquei de vagar e depois chamei pelo seu nome. Depois de alguns resmungos ela finalmente acordou, de contragosto.
Quando eu desci FZ estava sentado no chão, com a sua mochila aberta na frente dele, um sanduiche em uma mão e uma garrafa de água na outra. Eu ri e passei a escova, agora em cima da cama, para Julia, mandando que ela ajeitasse o cabelo.
– Quer dividir? – FZ perguntou, com a boca um pouco cheia, indicando o sanduiche. Eu mordi o lábio e pensei, eu tinha que comer, ele também, nós tínhamos que planejar e eu não comeria um inteiro. Fazia sentido.
– Pode ser – respondi, dando de ombros e me sentando ao lado dele. FZ estendeu o sanduiche para mim e eu dei uma mordida, em seguida ele deu outra. Logo descobri que aquele era uma maneira diferente de dividir, mas eu gostava.
Julia, segundos depois, não parecia mais com sono. Ela preferiu uma barrinha de cereal e sentou-se com nós para que planejássemos.
– Então: o que nós vamos fazer? – comecei, após longos instantes com um silêncio deprimente pairando sobre nós. Julia e FZ me olharam e franziram as sobrancelhas com uma simultaneidade assustadora. Suspirei, iria demorar um pouco para alguém falar.
– Ninguém tem um plano? – Julia perguntou, dando de ombros. Eu suspirei mais uma vez e neguei com a cabeça. FZ parecia igualmente perdido, apenas um pouco mais pensativo do que eu.
– Acho que eles devem ter algum tipo de... – ele começou, com a expressão séria e fez uma pausa logo depois, como se estivesse procurando as palavras – Arquivos ou documentos, algo que fale sobre a sua mãe – concluiu, como se tivesse pensado profundamente na ideia. FZ começou a rir de repente e balançou a cabeça – Isso é meio louco não acha?
– Acho – respondi, desta vez sem lamentos, abrindo um sorriso feliz e insano. Olhei para o jeito como FZ sorria, aquele sorriso lindo, bobo e especial que eu amava. Aquele sorriso que, mesmo Julia sorrindo quase de forma idêntica ao irmão, ainda era unicamente de FZ.
– Afinal... O que vamos fazer? – Julia interrompeu a nossa sessão de sorrisos com uma pergunta mais do que fundamental. Eu deixei aquela alegria repentina se esvaísse por entre os meus dedos, recobrando uma postura mais séria e pensando sobre a nossa situação.
– Não acredito que eles tenham arquivos, principalmente escritos... – comecei, depois de pensar um pouco. FZ me olhou de forma interrogativa e eu logo expliquei – Se eles soltaram o soro da memória, não iriam querer que o passado fosse lembrado – completei, ele permaneceu inflexível, mas um pouco mais convencido.
– Mas mesmo assim... – FZ continuou, teimoso. Logo ele pareceu deixar a insistência de lado e me perguntou – E a sua ideia, é qual? – pensei um pouco no que eu iria respondeu, e, depois de uma lógica simples, eu tinha um “plano”.
– Supondo que não há arquivos e a maioria das pessoas não se lembra. – comecei a explicar, os dois me olhavam com atenção – Temos que procurar a minoria – conclui, com um pequeno sorriso. Logo depois dos olhares confusos eu expliquei – Os que se vacinaram contra o soro da memória.
Quase levantei para buscar os papéis na minha mochila e dar veracidade ao que eu falava enquanto Julia e FZ me olhavam pensativos. Ambos pareciam concordar que a ideia fazia sentido. Mas sempre tem um “mas”.
– E se agente arrumasse uma cena – Julia começou, atraindo olhares confusos – Grande o suficiente para que fossemos levados até algum chefe desse lugar? Uma pessoa assim deve saber alguma coisa... – antes que ela acabasse FZ já estava revirando os olhos.
– A propósito Anna – ele a cortou, não dando a mínima importância para o que a garota dizia – Eu tenho uma coisa que você talvez possa querer – FZ enfatizou a palavra “talvez” e abriu um sorriso. Eu sorri também, afinal, eu o conhecia bem, e aquilo claramente queria dizer que ele tinha uma coisa que eu faria tudo para ter em mãos.
FZ se levantou em um pulo e eu fiz o mesmo, Julia reclamou que a ignorávamos, mas nenhum de nós deu bola. Ele foi até a mochila, tirou de lá de dentro uma coisa retangular, branca e com uma tela, como um celular maior do que o normal, e a entregou para mim.
– Enquanto você estava batendo papo com aquele cientista – FZ começou a explicar, diante da minha expressão confusa – Eu observei a mesa dele – continuou e fez um suspense – Tinha uma caixa retangular, um pouco maior que isso, escrito “Confidencial” em letras vermelhas e maiúsculas – eu bati com a mão na testa, confidencial! Onde FZ tinha nos metido? – E é claro que eu peguei, conferi antes de dormir, não é um explosivo.
Eu quase ri diante da última afirmação: se FZ continuava sendo FZ, ele tinha pegado. E, não, definitivamente não era um explosivo. Tentei fazer cara de preocupada e respirei fundo.
– Então, o que é? – perguntei por fim, com a voz tão ansiosa quanto a de uma criança prestes a ganhar um doce. FZ me olhou e sorriu, como se a resposta fosse óbvia. Agora Julia se aquietara e estava nos observando.
– Veja você mesma – ele me respondeu, com um sorriso travesso. O que seria o mesmo que dizer “Eu sei que você vai adorar. De nada.”
Suspirando e tentando conter o meu sorriso eu comecei a procurar por algum botão. Um redondo e estreito ficava na lateral direita, eu apertei já com as mãos tremendo. Primeiramente, a tela era apenas branca, depois apareceram letras pretas e grandes, que formavam um título.
Eu perdi o fôlego, não pude acreditar. Ali, bem na minha frente, estava escrito “Diário de Natalie Prior”. Era aquele, o famoso diário, que me ajudaria na minha inacabável busca por respostas. Meus olhos brilharam de emoção, eu finalmente tinha em mãos o Diário de Natalie Prior, minha avó.
– Gostou? – FZ me perguntou, algum tempo depois, me tirando de um transe intenso. Eu virei a cabeça para ele a alarguei o meu sorriso ainda mais. Dessa vez eu não tive que resistir a tentação de abraça-lo, simplesmente pulei no seu pescoço, quase nos fazendo cair para trás.
– Eu amei – respondi, um pouco excitada de mais e torcendo para não ter gritando em seu ouvido. FZ havia passado os braços em volta de mim também enquanto eu o apertava com toda a força – Obrigada!!! – agradeci, ainda sorrido e fui me soltando dele de vagar, consciente de Julia pigarreando atrás de nós.
– Eu sabia que você ia gostar – FZ disse, sorrindo, assim que eu o deixei respirar. Eu alarguei o meu sorriso ainda mais. Logo em seguida já fui tratando de abrir o arquivo do diário e comecei a ler. Ele me olhou e balançou a cabeça – Agora não dá tempo Anna. – justificou-se.
Julia nos olhava de modo curioso, eu dei de ombros, suspirando. Guardei o diário cuidadosamente na mochila quando uma ideia me veio a mente.
– Eu sei quem temos que procurar primeiro – eu disse, com um sorriso largo e os olhos brilhando, como se aquela fosse a melhor ideia do mundo. FZ voltou toda a sua atenção para mim, assim como Julia.
– Quem? – ela quebrou o silêncio da expectativa, seus olhos brilhando de ansiedade. Eu mordi o lábio inferior, como se estivesse me certificando de que aquela era a pessoa certa, na verdade, era a única pessoa. Por fim, sorri e disse, com a voz calma, confiante e ansiosa:
– Nós temos que falar com Juanita, a única que não foi afetada pelo soro.
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