Anna Prior - Em Busca de um Passado Esquecido
12 Capítulo 11 - É da incerteza que os Corações Loucos se Alimentam
Notas iniciais
Eu pude sentir o ar gélido enchendo os meus pulmões gradativamente enquanto eu tomava fôlego, ainda um pouco ofegante. Mesmo depois daqueles lances de escada que tivemos que subir até chegar aqui em cima eu continuava com o estômago embrulhado, me sentindo realmente mal por ter fugido de casa daquele jeito.
Ficar quieta e com um semblante normal durante toda a janta fora realmente um desafio, considerando que o sensor de anormalidades de Tobias estava em alta. Mas eu consegui, ou acho que consegui, não levantar nenhuma suspeita.
Depois disso, por volta da uma da manhã, eu fugi pela porta da frente, com o coração aos pulos. Já deviam ser uma e meia quando eu e FZ nos encontramos na frente do prédio. Percebi de cara que compartilhávamos da mesma ansiedade enquanto ele me mostrava o caminho, primeiro o elevador e depois a escada.
Durante o percurso fiquei tentando não encher FZ de perguntas inúteis, apesar de ele parecer só um pouco mais confiante do que eu. Quando por fim chegamos ao topo do edifício e eu pude ver a altura daquilo através do breu da noite minhas palmas começaram a suar. E meu coração, que antes já estava agitado por conta da expectativa, agora parecia prestes a explodir.
– Isso é realmente seguro? – perguntei logo depois de espiar sobre a borda do telhado. A tirolesa começava em um cabo de arame e logo a baixo algumas alças penduradas por uma corda, presumi que elas se encaixem na barriga, braços e coxas. Presumi também que eu devesse entrar lá.
Depois da alguns segundos eu percebi com o a pergunta parecia tola e “careta”. Revirei os olhos mordendo o lábio inferior em uma tentativa falha de esconder o meu medo.
– Não – FZ respondeu, soltando uma risada curta e abrindo aquele sorriso de bad boy. Apesar da sua confiança percebi que ele também estava receoso, só tentava disfarçar. Alguns segundos depois o seu semblante mudou, de zombaria para preocupação. FZ andou até mim e colocou as suas mãos em volta do meu corpo, em um abraço carinhoso, porém um pouco mais invasivo do que um abraço entre amigos. Eu encostei a cabeça delicadamente em seu peito, ainda um pouco receosa – Não se preocupe, eu te protejo – ele sussurrou delicadamente em meu ouvido, fazendo seus lábios roçarem nele com uma delicadeza extraordinária.
Eu fiquei ali, parada, vermelha, com as pernas bambas, o coração aos pulos e sem saber o que fazer. Afinal, era exatamente assim que ele me deixava, em uma montanha-russa de emoções.
Não sei quantos minutos se passaram com nós assim, abraçados e balançando levemente. Na verdade tudo era muito estranho e eu não sabia exatamente o que fazer.
– Idiota – retruquei por fim, me desvencilhando do seu abraço e dando um soquinho no seu braço. FZ rui com a minha reação, abrindo um sorriso bobo e radiante. Revirei os olhos e fui andando até a tirolesa, dei uma boa olhada para ela antes de perguntar – Quer me explicar como isso funciona?
– Ei, calma – FZ me puxou delicadamente pelo braço. Lancei a ele um olhar confuso e impaciente ao mesmo tempo, como quem diz “esperar por o que?”.
FZ não disse nada apenas foi andando na minha direção vagarosamente, me forçando a andar para trás, até chegar bem na beirinha, mas sem largar o meu pulso por nenhum segundo se quer. Ele esgueirou as suas mãos até a minha cintura quando eu já estava praticamente grudada na mureta que nos separava da morte.
FZ me ergueu para cima dela, tudo em mim me dizia para gritar. Acontece que, naquele momento, eu só tinha olhos para o meu coração martelando contra o peito, para o sorriso bobo que se estampara em meus lábios e para os seus olhos cor de chocolate a me fitar intensamente.
Balancei as pernas no curto espaço entre nós dois, até que FZ foi chegando tão perto que eu não consegui mais fazer isso. Ele foi colocando o seu rosto perto do meu até as nossas testas suadas se encostarem, de um jeito estranhamente romântico.
– Será que esse é um bom lugar para um beijo? – ouvi a sua voz de mel me perguntando enquanto sentia seus lábios roçando em meu queixo. Eu fiquei extasiada, aliás, já estava. O nó no meu estômago só aumentava a cada segundo, assim como o sorriso no meu rosto.
Nós estávamos no telhado de um edifício de mais de cem andares, eu sentada na beirinha, prestes a cair apesar das suas mãos firmes na minha cintura. Eram quase duas da manhã, nós tínhamos uma “aventura” marcada, assim como uma descida na tirolesa. Ambos havíamos fugido de casa e, a dois dias atrás, pensávamos que éramos só amigos.
É claro que aquele era o lugar perfeito para um beijo. Por que, apesar de todos os contras, havia um pró insubstituível: eu o amava. Ou achava que sim, mas tudo bem achar, porque é da incerteza que os corações loucos se alimentam.
– Não, não é – ouvi a frase sair dos meus lábios com a maior naturalidade extraída dela. Não sei por que raios dei a resposta que dei, apenas dei. E não consegui olhar em seus olhos de chocolate depois daquilo.
FZ foi naturalmente para trás, eu senti meu coração se estilhaçando enquanto ele se afastava de mim, mas não fiz comentários. Fui me levantando, mais nervosa do que antes e mastigando internamente uma bochecha para ter o que fazer. Parecia haver um letreiro enorme escrito “Constrangimento” entre nós dois. Mas, naquele momento, haviam coisas mais importantes com as quais se preocupar.
– A tirolesa é grande e mete medo até nos mais velhos, quando a facção existia, pessoas novas como nós não vinham aqui – FZ começou a explicação com uma voz neutra. Quase suspirei de alívio por ter um monólogo para prestar atenção e não deixar a minha mente vagar muito longe. – Eu vou te prender nessas alças, elas têm que ser bem apertadas, vá como você quiser e grite. Antigamente os membros da audácia formavam uma espécie de rede com os braços para sair da tirolesa, hoje existe uma rede de cordas esticada em baixo do final, só trave e se desamarre. Eu vou logo depois de você.
Ascendi com a cabeça, tentando absorver o máximo possível da sua explicação. FZ fez sinal para que eu me aproximasse e eu fui a passos lentos ao encontro das alças. Tentei me enfiar dentro delas e ignorar o pânico que crescia dentro de mim.
Eu fui de cabeça, prendendo a tira mais grossa sobre a minha barriga. FZ me ajudou a ajeitar e apertar as outras, murmurando alguns incentivos tranquilizadores, como se nada tivesse acontecido. Tentei sorrir, já tremendo de medo da cabeça aos pés.
– Tudo certo? Pronta? – FZ me perguntou com o semblante sério e brincalhão ao mesmo tempo. Eu me limitei a ascender com a cabeça, engolindo em seco. – Um, dois, três e vai!
O fato de FZ ter tido tempo de acabar a palavra “vai” me surpreendeu. Ele me empurrou tão rápido em direção ao céu escuro que eu nem tive tempo de gritar.
Pude sentir meu corpo sendo empurrado em direção ao chão, mesmo sem eu poder ver um palmo a frente do nariz. Engasguei-me com o ar frio enquanto tentava gritar. Senti meus olhos lacrimejando e o meu coração martelando contra o peito.
A escuridão parecia ter me engolido enquanto o pânico me dominava.
Mas o pior de tudo é que eu não me debati, chorei ou amaldiçoei a “experiência”, se é que ela pode ser chamada assim. O medo parecia estar sendo expulso a cada metro que eu percorria.
De repente me senti consumida por uma sensação de um estranho...prazer. Pude sentir a adrenalina pulsando por todo o meu corpo, em cada veia possível.
Deixei-me ser dominada por ela, eu podia senti-la em cada batida do meu coração. Pelo pânico prazeroso que consistia em não ter certeza nem do chão sob meus pés.
Por fim eu percebi o real sentido daquela antiga facção. Os audaciosos, esses sim, deviam sentir toda essa adrenalina todo o dia. E eu queria muito ser como eles. Ser da audácia.
Sorrindo tanto quanto se podia, eu abri os braços e deixei o vento ricochetear por todo o meu corpo.
Pelo menos assim, eu parecia um pássaro.
Em meio a toda essa carga de emoções, que misturavam adrenalina e pânico homogeneamente, eu quase não me dei conta do instante em que eu devia puxar a trava. A minha sorte é que o meu cérebro foi mais rápido do que eu, muito mais, e, ao ver a grande rede branca, minha mão direita se moveu no automático até a pequena corda presa as minhas costas.
Quando me dei conta do que havia acontecido quase tive um ataque, bem ali, pendurada na tirolesa. Mas então respirei fundo, fiz o ar voltar para os meus pulmões e tentei parar de tremer, bom, só tentei mesmo. Vendo que não havia alternativa, fui tentando me desprender das alças pretas que me envolviam.
Admito, se eu estivesse vendo a cena de fora, provavelmente riria de mim mesma. Depois de alguns logos minutos, com alguma paciência e sorte, eu finalmente consegui sair daquilo.
Soltei um grito assim que eu percebi que teria de cair na rede de cordas. Para mim, ela parecia muito insegura e próxima do chão. Tentei me agarrar ao cabo de aço da tirolesa, o que, é claro, deu errado e só me fez calejar as mãos.
Fechei os olhos e soltei outro grito estridente enquanto eu caia. Indo contra as minhas expectativas a rede amorteceu o meu peso com facilidade, não me causando nenhum arranhão.
Continuei de olhos fechados por alguns minutos, tentando tranquilizar a mim mesma e me convencer de que estava tudo bem. Assim que tomei coragem para mover as pálpebras pude ver a tirolesa iluminada pela luz prateada da lua cheia.
Me dei conta que eu tinha que sair dali, FZ provavelmente já estava na tirolesa. Rolei para o lado, em direção a borda da rede, percebendo que eu tremia da cabeça aos pés e o meu cabelo estava mais desgrenhado do que nunca. Tentei ficar de pé, e admito, eu parecia uma bêbada tentando me equilibrar.
Depois de um tempinho dei um jeito nas minhas pernas bambas e pude finalmente me manter de pé. Ainda vacilante, andei alguns passos para trás. Pude ver uma pequena figura deslizando pelo cabo de aço enquanto eu tentava regularizar a minha respiração.
Alguns minutos torturantes se passaram comigo tonta e alucinada. Sim, eu havia gostado, mas choque era pouco para o que eu estava sentindo.
Só pude me sentir estável novamente quando os seus braços envolveram meu corpo naquele abraço que só FZ podia me dar. Ele se livrou das alças com uma facilidade relativamente maior do que a minha e, com um sorriso no rosto que não aparecera no meu, nem antes, nem agora.
Logo que FZ saiu da rede ele percebeu que havia algo de errado comigo e veio ao meu auxilio sem a menor hesitação, como sempre, pronto para salvar o dia. Não sei se era porque eu estava tremendo e parecendo desesperada ou porque ele sentiu que eu precisava de um abraço.
Então, sim, FZ me abraçou exatamente como eu queria, inclusive se abaixando para ficar da minha altura e eu não ter que subir na pontinha do pé. E nem o meu sorriso fingido de “Não precisa, está tudo bem” funcionou daquela vez.
Eu estava tremendo em seus braços fortes e musculosos. Encostei o ouvido em seu peito para poder ouvir seu coração batendo, quase tão agitado quanto o meu. Fui tentando normalizar a respiração enquanto ele continuava com os braços em volta de mim.
Aqueles braços fortes, quentes e musculosos. Aquela sensação de calmaria depois da tempestade que o seu abraço me trazia. Aquele temor e angústia acalmados apenas por uma volta dos seus braços em meu corpo. Aquele abraço único, mas que não podia deixar de ser comparado com outro.
Logo depois que FZ me envolveu em seu abraço, como se aquilo pudesse mudar o mundo, ou pelo menos o meu mundo, lembrei-me instintivamente de Tobias me abraçando depois que eu pulara do telhado. As duas situações assustadoras, os dois homens que mais marcaram a minha vida e dois melhores abraços do mundo. Não havia jeito de não comparar.
– Anna – ouvi FZ me chamando enquanto sentia o seu queixo encostado na minha cabeça. De novo aquele jeito que ele disse o meu nome me fez derreter. – Você está bem? – completou com uma preocupação aparente enquanto eu tomava ar para responder.
– Só um pouco assustada – respondi com uma voz incrivelmente firme. Sem poder me conter soltei um pequeno riso. Não de zombaria, mas sim de felicidade e que passava um claro recado “Não se atreva a me soltar”. Recuperando o fôlego eu fiquei na pontinha do pé pra poder sussurrar em seu ouvido. – Ainda bem que você me protegeu. – senti seu coração batendo mais rápido e logo acrescentei, me afastando um pouco para falar. – Bom, eu teria conseguido sozinha, mas...
FZ soltou um riso curto exibindo aquele sorriso encantador que fazia a até a lua ser humilhada no quesito brilho. Então ele me afastou um pouco de seu abraço, segurando-me pelos braços e me forçando a olhar em seus olhos. Minhas pernas ficaram bambas no mesmo instante e o meu coração já estava fora do compasso fazia horas.
– Eu sei Anna – ele disse, dando de ombros enquanto esgueirava suas mãos até a minha cintura. Soltei um suspiro bem audível, loucamente confusa e realizada. Por fim, tomei coragem e apoiei minhas mãos em seus ombros largos, mesmo sabendo que elas estavam tremendo.
FZ foi me puxando mais para perto dele e aumentando os sorrisos nos rostos de nós dois. Suas mãos eram delicadas, firmes e gentis ao mesmo tempo, em resumo, apaixonantes. Eu estava tremendo e suando, mas ele parecia não se importar.
Então praticamente não havia mais espaço entre nós. FZ foi se inclinando para frente com um objetivo claro. Mesmo que a situação não fosse a mais normal do mundo, em nenhum memento eu hesitei, temi ou vacilei. E nem desviei o rosto.
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