Anna Júlia - Quisera Eu
11 Capítulo 11 - SURPRESAS
Notas iniciais
Eu era um cachorro, que ladrava; dava latidos que fazia um arrepio correr na espinha daqueles que se dizem corajosos e, claro, dava o bote com uma mordida fatal. Contigo não poderia ser diferente, menina. Era minha “missão” te morder, mas eu não queria te machucar. Se o fiz não foi por desejo, foi por tropeço. E quando eu te mordi tu foi lá e passou teu mertiolate, encobriu as dores que eu te causava com um remédio qualquer e se deixou levar pelo sentimento que tinha por mim. Eu tinha cumprido a minha promessa, Júlia. Você caiu, só não imaginei que eu fosse cair junto. E essa, talvez, tenha sido a maior estupidez das nossas vidas.
Depois de um dia cansativo no colégio, eu te puxei pelo braço no intervalo e disse que te levaria para casa após o final da aula. Intrigada, você me perguntou por quê.
— Tu quer mesmo encontrar o meu pai?
— Não ligo.
— Hm. Então tá – me deu um selinho e saiu.
Assim que o sinal tocou eu fui contigo pra casa. Pra minha sorte teus pais não estavam por lá e você, assim que se encostou em tua cama dormiu. Fiquei boa parte da tarde apenas te observando. Eu nunca me vi importante na vida de ninguém, nunca precisei estar vivo na manhã seguinte porque alguém sentiria minha falta. Nunca liguei se minha existência faria falta ou não pra alguma pessoa. E agora eu te tinha ali, toda vulnerável, dormindo em meus braços e se contorcendo ao sentir o meu toque. Você era mais viciante que heroína, e eu adorava uma droga nova. Por isso me esforcei tanto para ser um cara melhor, pelo menos quando o assunto era você. Porque eu queria ser o cara que tu sentia orgulho em contar para as amigas e não tinha medo de falar sobre com os pais; que um sorriso bobo brotasse em teu rosto só de lembrar de mim ou de algo que eu havia dito. Porque era exatamente isso que acontecia comigo só de lembrar o teu nome. No fundo eu sabia que não merecia tudo que tu era pra mim, mas era só olhar nos teus olhos que eu me esquecia disso.
Você acordou e me pegou ainda te olhando.
— Tu não pode fazer isso – disse sonolenta.
— O quê? – perguntei desentendido.
— Ficar me olhando assim. Dá medo.
— …
— Me faz até gostar um pouquinho mais de ti.
Foi impossível não sorrir, Júlia. Ouvir aquilo era o mesmo que colocar o CD do Alice in Chains para tocar – tu sabe o quanto gosto dessa banda.
Te dei um selinho e continuei fazendo carinho em teus cabelos.
— Por que tu não foi pra casa?
— É teu aniversário.
Você se levantou do meu peito antes de falar.
— Amanhã. Amanhã é o meu aniversário.
— E eu quero passar ele contigo.
Você bufou, se sentindo contrariada e se deitou, ficando em silêncio.
— Eu vi minha mãe traindo meu pai – falei depois de um bom tempo, o que te fez levantar novamente e me encarar perplexa. — Pois é.
— Por isso tu não foi pra casa?
— Eu não ligo. Tipo, de chegar em casa e ver minha mãe com outro cara. Meu pai não merece mesmo a mulher que ela é. Mas sei lá, é estranho.
— É claro que tu liga, Jer. Ninguém gosta de ver o casamento dos pais se acabando.
— O do teus pais não acabou – falei pensativo.
— E espero que nunca acabe. Eles me fazem acreditar fielmente nessa história de amor.
— Ehh… Eu só acho estranho, tá ligada? Ter que ficar indo em um monte de evento de gala com os dois pagando de casal perfeito, que se ama profundamente quando tudo não passa de uma farsa.
Você não sabia o que responder e eu só queria falar… Desabafar pela primeira vez sobre os problemas que eu tinha — e que eram muitos.
— É por isso que eu odiava tanto a máscara que tu insistia em vestir antes de falar comigo.
Dizer isso te fez se sentar na cama e olhar no fundo dos meus olhos.
— No dia que eu descobri sobre a minha mãe a pessoa que eu fui atrás foi você, Júlia. Eu não procurei o Lê, muito menos a Laura pra me fazer esquecer daquilo, eu vim direto pra tua casa, vim correndo pro teu abraço.
— Sou tão importante assim pra ti? – você perguntou com certa fração de medo na voz.
— Não sabia que tu era – te respondi, também com medo. — Foi a primeira vez que a gente ficou – disse, me recordando daquele dia. — Eu nunca vou esquecer que tu transformou o pior dia da minha vida num dos melhores.
— Tu fugiu aquele dia – você disse com ar pensativo, parecendo se esforçar para lembrar do dia em questão.
— Tu nunca quis que eu ficasse… Na verdade, tu nunca me pediu pra ficar. Tu nunca quis minha bagunça.
— E agora eu virei uma – você me cortou e junto disso, cortou minha fala. — A máscara caiu…
— Tu fugia tanto, Júlia. Mesmo sabendo que eu poderia estar com qualquer outra guria e que tudo que eu já tinha te falado pudesse ser mentira, tu continuava fugindo. Porque tu também sabia que eu era problema demais e tu nunca poderia ser minha solução. Acontece que tu foi, que tu é, e fugir não era mais uma opção.
Você me puxou e me beijou. Agarrou meu pescoço com força e me beijou mais forte ainda. Tu tinha gosto de coisa ardente; de desejo, de quero mais e eu era um cara de menos. Era você quem continha todos os meus excessos, quem compensava tudo aquilo que me faltava. Talvez foi por isso que não demos certo, porque eu nunca pude completar nada em ti. Porque tu já era o mundo e eu só consegui te mostrar uma cidade.
— Fugir deixou de ser opção quando quem nunca foi meu tipo virou quem eu mais queria ver no dia.
Meu relógio apitou.
00:00.
— Feliz aniversário – sussurrei.
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