Anna Júlia - Quisera Eu
7 Capítulo 7 - NO MASKS, NO GAMES
Meu sangue ferveu na hora, Júlia. Se ele já tava quente por causa da correria, agora ele entrava em ebulição. Foi instantâneo. Foi sem pensar. Foi eu, sendo eu. Só acordei quando senti alguém me puxando e te vi parada no alto da escada, me olhando sem acreditar no que estava vendo. Eu tava bêbado, alucinado por causa daquela pinga ruim e de tudo que já havia acontecido naquela noite. As palavras da Laura ressoavam em minha cabeça como um mantra.
“Qual a chance que tu tem de encontrar uma pessoa que goste de ti, assim como tu gosta dela?”… “Se ela te deixou entrar é porque no fundo ela também gosta, mesmo que não demonstre isso”… “Que tu tem um coração”.
E isso fazia minha cabeça estourar de dor. Fechei os olhos com força e como resposta automática do meu cérebro, minhas mãos foram parar nos extremos da minha cabeça, a pressionando com mais força ainda. A dor não sumiu. Aquela cena do guri abrindo a porta não sumiu. A única coisa que sumiu foi a minha esperança, foi aquela chaminha que a Laura tinha acendido. Assim que abri os olhos novamente, minha visão estava completamente embaçada e só se focou quando ouvi teu grito.
— JERRY!
Me acordando de toda a brisa.
Teu pai me segurava de novo, mas dessa vez ele me jogava pra fora da tua casa, como se eu fosse um lixo. E era isso mesmo que eu era, Júlia. Um bosta. Algo completamente descartável pra ti.
Eu fazia força para continuar dentro da casa e enquanto isso passava os olhos por toda a sala. A mesa do centro estava quebrada, alguns quadros da parede haviam caído no chão; você já se encontrava ao lado do garoto sem nome que eu tinha esmurrado… O nariz dele sangrava. Muito. Eu sorri. Você me olhou sem entender.
— Essa tua máscara nunca vai cair, né? – falei antes de ser atirado no meio da rua e ver a porta sendo fechada com raiva.
Senti algo pesar no meu corpo, como se me empurrasse cada vez mais pro fundo do poço. Sentei naqueles degraus da entrada da tua casa e fiquei ali por um bom tempo, com a cabeça entre os joelhos, morrendo de tanta dor. Desejei que o mundo explodisse, que um meteoro caísse ali, naquela rua, no lugar em que eu me encontrava. Imaginei a rua inteira desabando até chegar em mim e me puxar junto com os escombros. Pensei em mil e uma maneiras possíveis de morrer só pra não ter que suportar aquele peso nas costas. Eu tenho essa mania estúpida de que sempre que algo de ruim acontece comigo eu espero que o mundo acabe só pra não lidar com a dor. Só pra não encarar os problemas de frente. Nunca dava certo, e eu sempre ia parar em algum bar. Acho que esse era o meu máximo de “fim do mundo”.
— Qual máscara? – assustei ao ouvir tua voz.
Levantei a cabeça aos poucos e te vi sentada ao meu lado. Te olhei no fundo dos olhos antes de responder.
Será que a Laura tava certa?!, pensei.
“Se ela te deixou entrar é porque no fundo ela também gosta, mesmo que não demonstre isso”…
Me agarrei a isso antes de te responder.
— Como tu sabia que eu ainda tava aqui?
— Te vi pela janela – você respondeu rápido demais, como se quisesse acabar com aquilo de uma vez por todas. — Qual máscara? – repetiu, sem tirar os olhos de mim.
— Essa que tu veste toda vez antes de falar comigo. Essa tua armadura de menina durona que não tem coração. Mas eu sei que tu tem, porque até eu tenho.
“Que tu tem um coração…”, ouvi a Laura repetindo para mim.
— Eu tenho um coração, só não é por você que ele dispara.
E tu conseguiu me quebrar, tu sempre conseguia.
— É pelo cara que tu trouxe pra casa hoje? Esse é o Matheus? Teu namorado – recriminei aquela última palavra.
Você balançou a cabeça. O movimento de concordância que ela fez funcionou como o tiro de uma arma em que a bala se alojava no meio do meu peito. Tu não tem ideia do quanto doeu, Júlia.
— Tua indiferença me enlouquece, guria. Mas no fundo eu sei que o que tu tem é medo.
Sinto muito, Júlia. Foi esse o nosso começo se é que tu lembra. E só começou porque eu nunca acreditei em tuas palavras naquele dia. Eu acreditei naquilo que a Laura havia me dito e que, durante a nossa conversa, não parava de aparecer em minha mente. Eu acreditei em mim mesmo, assim como eu acreditava toda vez que ia chegar em alguma mulher. Foi a primeira vez em toda a minha vida em que eu me senti sendo um homem de verdade.
— Medo? – você riu.
— Medo do que tu possa sentir por mim, medo de se tornar uma daquelas meninas que tu tanto odeia. As que babam por mim e não pensam em outra coisa a não ser ficar comigo. Só que tu é diferente, guria. Tu tá longe de ser uma dessas meninas. Tu é baixinha e magrinha e teu cabelo é na altura dos teus seios, diferente de todo tipo de guria que eu já tenha ficado, ou tive vontade de ficar. Mas mesmo assim eu queria… Sei lá o que eu queria, Júlia. Tu mudou minha escolha de mulher, meu tipo agora inclui algo que eu pensava não gostar e acabei gostando. Mas tu é mais covarde do que eu.
— Sou tudo que tu nunca quis ter e de repente tá querendo. Não vale a pena arriscar.
Te olhei desacreditado.
Tua máscara tinha caído, Júlia. Tu percebeu isso?
Foi por notar isso que eu arrisquei todas as minhas chances naquele raro momento.
Segurei tuas mãos e aproximei meu ouvido do teu peito. Teu coração batia mais forte do que eu imaginava. Um sorriso indiscreto brotou em meu rosto e eu levantei o olhar pra ti, que tremia. Foquei minha visão em teus lábios, que eram tão vermelhos quanto sangue e pareciam exprimir o desejo. Fui me aproximando aos poucos de ti, e assim que percebi que você não recuava a chama se acendeu de novo. Todas as emoções mais fortes que existiam pareciam ter se concentrado em nós dois. Passei a mãos em teu cabelo, o colando atrás da tua orelha, sem desviar o olhar de ti por um segundo sequer. Você passou a mão em meu rosto e, sentir o teu toque era como conhecer um anjo do céu, guria.
Como num instinto repentino segurei teu rosto e te beijei. Passei a mão em teu rosto, nuca, cabelo, e por um segundo tive a sensação de que você sorria enquanto a gente se beijava e se aproximava cada vez mais de mim, para que pudéssemos nos abraçar. Nosso beijo era lento e funcionou de uma maneira muito boa pra mim. Era como se todas as merdas que tinham acontecido naquele dia desaparecessem, e a única coisa que importava era nós dois. Era aquele beijo que eu queria transformar no melhor da tua vida, igual estava sendo para mim. Eu não consegui me afastar e nem parar de te beijar, porque não sabia o que iria acontecer depois, Júlia. Não sabia se tu iria continuar ali comigo ou me dar um tapa na cara e voltar correndo pro Matheus, e eu não queria que a segunda opção acontecesse. Mas, infelizmente, a gente não podia ficar se beijando pra sempre.
Eu sorria. Você me olhava assustada.
— Admite que teu coração dispara quando tu pensa em mim – sussurrei.
— Admite que sou só mais uma na tua coleção.
— Sem máscaras, Júlia.
— Sem joguinhos, Jerry.
— Eu prometo.
— Eu prometo.
Te beijei novamente, feliz por tu ter escolhido a primeira opção e aceitado de uma vez por todas o que sentia por mim.
Eu te deixei me conhecer de uma forma que ninguém jamais havia conseguido e você me permitiu descobrir algo em ti que nem tu mesma sabia que existia. Era o nosso começo, minha menina. Pela primeira vez eu estava acreditando em Deus e pedindo a Ele para que desce certo.
Quisera eu poder ler o futuro, ou consertar o passado.
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