Anna Júlia - Quisera Eu

6 Capítulo 6 - ESTILO CACHORRO.


Saí da balada de mãos dadas com a Laura, mas assim que chegamos na rua soltei a mão dela e fiquei andando sozinho a procura de um bar. Ela veio logo atrás.

— Tá tudo bem? – me perguntou ao me alcançar.

Não respondi.

Continuei andando até que encontrei um desses bares copo sujo numa esquina, entrei nele e comprei a garrafa da pinga mais barata que havia por lá.

— É, acho que não hein – ela voltou a falar.

Assim que paguei o dono, saí e me sentei numa sarjeta qualquer e comecei a beber. Cada gole descia rasgando minha garganta e embrulhava meu estômago, de tão ruim que ela era. Mas era aquilo ou encarar os meus problemas de frente e, no momento, eu não tinha muita disposição pra isso. Essa Júlia, foi a primeira vez, literalmente, que você fodeu comigo. Foi quando tudo que eu já desconfia virou algo concreto. Eu tava me embriagando pra te esquecer. Pra apagar, ou esconder no lugar mais profundo da minha memória, que eu tinha te visto com outro cara… Que eu tinha te visto sendo feliz perto de outro cara. Eu tava com raiva, Júlia. Eu te odiei alguns segundos por causa daquilo, mas odiei mais ainda aquele cara e senti muita inveja dele, porque por mais que eu tentasse e por mais que eu quisesse eu nunca iria conseguir ser ele. Eu nunca fui bom pra você, Júlia. E tu sabia muito bem disso.

— Jer – ela insistiu.

— Não quero nada contigo, Laura. Tu pode ir embora – e eu explodi.

Ela ficou me olhando desentendida. Eu ignorei. Olha que bosta de ser humano eu sou, Júlia. E nem vou colocar a culpa em ti agora. A culpa era minha mesmo, eu que sou um babaca e escroto, que trata as mulheres mal, que faz uma guria linda como a Laura chorar por um idiota como eu.

— Porra… – disse quando a vi chorando. — Não chora por minha causa, mano. Pelo amor de Deus.

— Não é – ela limpou o rosto com a palma das mãos. — Não é por tua causa, Jerry. É porque eu sou burra.

Dei um gole intenso na garrafa pra suportar aquilo e a ofereci.

— Eu gosto de ti, e queria ser essa guria que tu tá curtindo.

— Hã?! Não viaja.

— Ah, claro Jerry – disse irônica. — Tu tá bebendo esse lixo às quatro da madrugada — pegou a garrafa e se sentou ao meu lado — numa sarjeta imunda e fedida porque não curte ninguém. É óbvio.

Fiquei em silêncio.

Infelizmente a Laura me conhecia bem demais.

— E a gente não tá transando. Isso significa que essa guria mexe muito contigo. Tu nunca foi assim.

— É justamente por isso que ela mexe comigo – não pude conter. — Porque eu nunca fui assim com ninguém, nem contigo. Mas sou com ela.

— Acho que por mais que me doa saber que tu curte outra pessoa e não eu, eu fico feliz com isso – ela falou enquanto bebia, sem tirar os olhos de mim. — Sabe, que tu tem um coração.

— Todo mundo tem um.

— Mas nem todo mundo gosta de demonstrar que tem.

Pff..

— Eu sempre te vi como um garoto que nunca iria se apaixonar por alguém, Jer. Quando eu parava pra pensar no futuro, eu tentava te ver comigo, mas não conseguia. E não te via com nenhuma outra pessoa também. Mas agora tem essa guria sem rosto em minha imaginação.

Sorri sem jeito antes de falar.

— Ela não gosta de mim, Laura. Ela pouco se fode pra mim, então é capaz desse teu futuro aí não existir.

— Como tu sabe que ela não gosta?

— Como eu sei? – ri antes de beber de novo. A coisa mais difícil, depois de admitir que eu gostava mesmo de ti, era falar sobre você com outras pessoas, Júlia. — Porque eu já fiz de tudo pra que ela demonstrasse qualquer tipo de sentimento por mim, e ele sempre foi ódio.

— Tu tem certeza?

— Pode crer que sim – me embolei nas palavras, sinal de que a pinga fazia o seu efeito. — Eu cansei de correr atrás dela, cara. De sempre ir atrás, de falar o que eu tava sentindo, essas porras que eu nunca fiz com ninguém.

— E ela sempre te atendeu?

— Sim.

— Jer…

— Sempre me atendeu pra me xingar.

— Ou pra ouvir o que tu tinha a dizer. Jerry, tu sempre foi o cara de todas elas, não é estranho que essa guria tenha certa insegurança.

— Não é assim, Laura. Não é insegurança da parte dela, é porque ela não quer mesmo.

— Tu tá tão preso nessa ideia que não consegue abrir tua cabeça pra olhar outras opções – pegou a garrafa das minhas mãos e bebeu. — Tu devia tentar de novo.

Dei de ombros.

— Não sei o que é pior, tu ter gostado tanto de mim, que não gostava de ti, ou eu gostar de alguém que não gosta de mim.

— Acho que chamam isso de karma.

Sorri.

— Essa parada de amor deveria ser recíproca e completamente proibida se não fosse.

Eu gostava da Laura por causa disso, porque não tinha cobrança entre nós dois. Por mais que ela gostasse de mim, ela nunca foi aquela guria de ficar no pé, enchendo o saco e me atrapalhando com outros rolos. E apesar disso, não foi por ela que me apaixonei, mas talvez, Júlia, e esse é um talvez bem pequeno, se eu pudesse escolher, teria escolhido ela.

— Eu nunca te vi assim com ninguém, Jer, e olha que nos conhecemos a bastante tempo. Tu não devia perder essa chance. Tu devia ir até ela mais uma vez. Uma última vez, sei lá.

— Não dá, Laura.

— Por que, cara? Tá escrito na tua testa que tu tá louco pra ir.

— Porque já tem outro cara na vida dela.

— Até parece…

— Porque sempre teve outro cara na vida dela — ignorei o que ela tinha dito. — Eu não vou atrás dela pelo mesmo motivo que tu nunca veio atrás de mim. – a encarei. — Pra não vê-la sofrer.

Ela pensou alguns segundos, me olhando intrigada.

— Jer, se ela abriu a porta pra ti em todas as vezes não vai ser agora que ela vai fechar.

— Ela não é você que sempre me deu garantia de que eu iria entrar, Laura.

— Não importa, se ela te deixou entrar é porque no fundo ela também gosta, mesmo que não demonstre isso.

Não respondi.

— Jer, me diz qual a chance que tu tem de encontrar uma pessoa que goste de ti, assim como tu gosta dela?

— Quase zero.

— Pra mim isso já é motivo suficiente, pra mais uma vez, você ir atrás.

A olhei curioso e ao mesmo tempo feliz por ela ter me dito aquelas coisas, isso me deu certa esperança, Júlia.

— Tu quer mesmo que eu vá quebrar a cara de novo né?!

— Eu quero que tu seja o cara que encontra o amor e salta nele sem medo de quebrar a cara.

— Beleza – peguei a garrafa das mãos dela e dei outro gole bem profundo, que rasgou até minha alma.

Dei um último aceno pra Laura e corri feito louco até a tua casa, Júlia. Começou a cair uma chuva insuportável, mas eu nem importava mais. Eu só pensava em correr, mais e mais rápido pra poder te ver. A Laura tinha feito isso, tinha acendido a chama da esperança de novo. E só tinha a imagem do teu rosto em minha cabeça e tudo que eu queria finalmente te dizer. Não interessava se tu fosse me xingar, se tu não abrisse a porta, ou se tu me ignorasse completamente, eu ia tentar uma última vez. Porque eu já tinha “namorado” todo tipo de guria. Branca, negra, morena, oriental, baixa, magra, gordinha, a do cabelão e a do cabelo de João. Já tinha ficado com meninas que só saíam comigo se eu indicasse um restaurante chique, e com outras que um convite pra minha casa era suficiente. Segundo a opinião dos meus amigos quanto a beleza das mulheres que já havia beijado, elas já foram feias, bonitas, gostosas e sim, muita areia pro meu caminhão. Eu já tive que me esforçar quase 3 dias pra conseguir transar com algumas, indo a lugares que eu odiava e conversando sobre livros que nunca tinha lido. No entanto, transei com muitas no primeiro encontro, também. Mas, repare bem, Júlia. Eu disse 3 dias. Três. T-R-Ê-S. Esse era o meu mínimo de encontros. Era quando minha paciência chegava ao limite e eu me cansava do insuportável “cu doce” e partia pra próxima, porque sempre tinha uma próxima na fila. Ela era interminável, até o dia em que você foi lá e a furou. O dia em que tu meteu teu pé na frente de uma loirinha gostosa e me olhou com as sobrancelhas arqueadas tentando demonstrar tua superioridade a mim. Isso foi o suficiente para que 3 dias se tornassem 30. E nesses 30 eu já nem sei em qual deles eu me perdi em ti a ponto de não conseguir me encontrar. Chegando a esquecer o cara que eu era, esquecer todas as outras e todas as que poderiam vir, por tua causa.

O problema, Júlia é que tu nunca correu atrás de mim, como eu corria atrás de ti, porque eu tinha muito mais a perder do que você. Enquanto tu perderia um cara, eu perderia toda a estabilidade da minha vida ao te deixar ir. Acho que é por isso que nunca te deixei realmente sumir de mim, Júlia. Porque tu sempre foi, e ainda é, a minha âncora. Aquilo que é capaz de me manter estável e pensar antes de fazer alguma besteira, exceto quando quem abre a porta da tua casa é o cara que eu queria ser.