Anna Júlia - Quisera Eu
15 Capítulo 15 - DOIS ANOS
Eu tinha te dito aquelas coisas, mas no fundo não sabia como seria, Júlia. Muitas coisas acontecem em um único dia, quem dirá em anos. E anos se passaram. Para ser mais preciso, 2 anos.
Logo após o ensino médio eu entrei na faculdade e como tu sabe, meu pai me deu um apartamento e um carro de presente. Eu ainda era um moleque mimado e não pude rejeitar. Você tava longe e eu gostava de ti, mas a ideia de que eu iria pegar muitas gurias com isso não sumiu da minha cabeça, e eu realmente peguei e tu sabe sobre cada uma delas.
Acontece que viramos amigos, Júlia. De um jeito que eu nem imaginava que seríamos. Não existia cobrança entre nós dois. Você não brigava comigo quando eu te ligava bêbado dizendo que tu era a mulher da minha vida, e eu não brigava contigo quando via alguma foto tua com outro cara, mesmo morrendo de raiva. Fomos encobrindo esse tipo de sentimento e deixando levar... Até ficar insuportável.
No início, logo que tu foi embora, doeu pra caralho a ponto de parecer que eu estava morrendo, mas depois de um tempo a dor foi se ajustando, ao tempo e à distância. É claro que tinha dias melhores que outros, mas toda vez que eu conversava contigo, fosse por telefone fosse por Skype, a saudade me matava um pouquinho mais. Te ver sabendo que eu não poderia te tocar e ouvir tua voz distorcida por causa da ligação ruim dessas linhas telefônicas era pior que qualquer doença.
E aí se passou 1 ano... Um ano vivendo a vida universitária e mesmo assim sentindo saudades de ti.
1 ano ouvindo o meu pai me enchendo o saco, dizendo que ainda me sustentava.
1 ano sabendo que eu não te tinha ali pra me apoiar ou só me ouvir reclamar.
1 ano sem você que pareceram mil.
Foi quando arrumei um emprego, passei a pagar minha faculdade e me vi livre das cobranças do meu pai. Um dia eu pagava o apartamento e o carro, mas antes disso eu queria te ver, porque eu não aguentava mais de saudade. Não suportava mais só ouvir tua voz por telefone ou te ver por uma tela de computador. Eu queria te ver, passar o dia contigo vendo filme e comendo brigadeiro. Queria passar as mãos em teu corpo e te beijar tão forte que só fosse capaz de parar quando eu precisasse realmente respirar. Queria sentir o meu coração palpitar de euforia de novo, o que nunca mais aconteceu desde que tu foi embora.
Tu sabe bem que eu era o babaca que ficava com uma, duas, três, quatro... Dormia com uma e acordava com outra sem nem lembrar seu próprio nome e contava vantagem sobre isso. Eu era o cara que tratava mulher como objeto de uso, o qual eu me lambuzava e quando cansava descartava feito folha rabiscada. Aquele cara sentado numa mesa de bar com alguns amigos, todos bêbados, rindo e comentando sobre qual guria tem o peito mais avantajado ou qual deveria ser melhor na cama. Mas isso tudo foi antes de tu aparecer em minha vida. Isso foi bem antes de você entrar no meio da fila de mulheres que eu ainda tinha pra pegar. E foram tuas pequenas coisas que me desviaram desse caminho. Foi teu sutiã esquecido na beirada da cama, o almoço de domingo que tu preparava com todo zelo… E tu nem sabia cozinhar. Tu mudou tudo em mim, até minha maneira de piscar. Eu não merecia tudo que era para mim, mas só de olhar em teus olhos eu me esquecia disso. Minha felicidade tinha passado a ter nome, endereço, olhos muito castanhos e pose de durona. Um homem muda por amor ou ódio, Júlia, eu mudei por você.
No meio disso tudo, passaram-se dois anos e eu continuei sendo o cara que trocava os 200 milhões da mega da virada por um beijo teu. Por isso, criei zilhões de filmes em minha cabeça sobre como seria que tu iria reagir ao me ver de novo. Suei frio pensando nisso, sonhei com isso, me imaginei chegando e te agarrando e você devolvendo o meu beijo com o desejo que eu esperava. Fantasiei ouvir você dizendo que me amava e que, realmente, o sentimento não tinha diminuído mesmo depois de tanto tempo.
O problema de se criar esse tipo de expectativa, Júlia, é elas não acontecerem de verdade. Porque no fundo, ninguém tem culpa de não fazer aquilo que tu quer. Existe uma linha muito tênue que divide o que a gente quer daquilo que acontece de verdade, e eu só descobri isso hoje.
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