Anna Júlia - Quisera Eu

1 Capítulo 1 - APOSTAS


Como funciona isso? Eu conto nossa história e só? Transformo em palavras tudo que senti por ti?! Bom, eu acho que seja meio impossível alguém chegar perto de entender tudo que eu senti por você, mas vamos lá. Aceito teu desafio, porque o maior de todos eles, foi te amar.

Não lembro o dia exato em que nos conhecemos. Quer dizer, o dia em fomos apresentados um ao outro, já que tu já me conhecia a bastante tempo. Meu dia havia começado um tanto quanto diferente. Eu acordei perdido, como sempre, mas foi só abrir os olhos para eu não reconhecer aquele lugar. O mundo de repente tinha sido pintado de rosa e tinha várias bonecas barbies nele. Olhei confuso para o lado e vi uma bunda maior que o corcovado virada para cima. Aproximei meu rosto do da guria que ainda dormia e, franzindo as sobrancelhas tentei reconhecê-la. Não deu. Deixei aquilo para lá, catei minhas peças de roupa que estavam jogadas no chão do quarto e saí, pulando a janela. Eu sou um otário, mas não sou burro né. Pra mina ter um quarto dessa cor e aquele monte de boneca em prateleiras só podia significar que ela ainda morava com os pais. Enfim, fui andando até chegar no colégio para mais um dia tedioso numa escola tediosa e assim que cheguei encontrei o Lê na entrada fumando um cigarro e pedi um trago.

— Eaí – falei soltando a fumaça. — Onde tu te meteu ontem?

— Meti numa mina muito gostosa – respondeu rindo.

— Também.

— Ah, isso aí – levantou a palma da mão para darmos um high five. — Hoje o dia até amanheceu mais bonito.

— Tu não sabe o quanto – ri. — Assim que abri meus olhos eu vi a bunda da guria em minha frente.

— COMO ASSIM? — ele caiu na gargalhada. — TU DORMIU COM A MINA?

— Pode crer – respondi rindo, também. — Sepá eu caí no sono, Lê. Sei lá. Só sei que quando eu acordei tinha aquele monumento em minha frente.

— E tu simplesmente vazou largando a mina lá?

— Uhum.

— Tu é podre, parceiro.

Ele voltou a rir e o sino tocou, anunciando nossa primeira aula. Apaguei o cigarro na sola do sapato e entrei no colégio com ele. Foi instantâneo, assim que sentei em minha carteira, no canto da parede, ao fundo da sala, eu dormi. E permaneci desse jeito até o Leonardo me acordar dizendo que era intervalo. Nós ficamos sentados na arquibancada da quadra falando sobre qualquer merda e quando voltamos pra sala eu dormi de novo. Incrível essa minha capacidade de dormir tanto, sério, até eu me assusto às vezes. Já era quase o fim da última aula quando eu levantei a cabeça e vi o professor falando sobre sua prova, que seria na próxima terça-feira. Ignorei e já ia dormir novamente quando o Lê virou para trás, falando comigo.

— E a festinha da Laura hoje hein?

— Porra, eu nem lembrava que hoje era sexta!

Nós dois saíamos todos os dias praticamente, então isso tornava todos os dias da minha semana um eterna sexta-feira. A Laura, guria que vai dar a festa, estuda com a gente e sem sombra de dúvidas é uma das minas mais gostosas da nossa sala. Ela é bem patricinha e só anda com patricinhas também, mas todas gatas. Acho que mulher bonita só anda com mulher bonita também. O importante aqui, Júlia, é que a Laura era a minha ficante “regular” por assim dizer. O tédio batia, e ela vinha bater uma pra mim. As festas acabavam e eu se eu acabava sem ninguém, ela estava ali. Simples. Era assim que funcionava entre nós dois, menos nessa sexta-feira.

— E a nossa aposta?

Por causa disso. O motivo pela Laura não ser a minha garantia de sexta e de você ter cruzado o meu caminho: a maldita aposta.

Eu e o Lê, tínhamos apostado quem pegaria a Bruna — uma das amigas da Laura — primeiro. Assim como eu, ele sabia que eu ganharia a aposta. Ele tinha feito isso de pura sacanagem, porque a Bruna (assim como todas as outras amigas da Laura) era louca pra ficar comigo. E nem é me gabando, Júlia, tu sabe que é verdade porque tu não se incluía nessas gurias e observava de fora. Enfim, eu sempre pegava uma ou outra na escondida, não queria perder minha fodinha com a Laura muito menos fazer ela brigar com as amigas por minha causa, eu ainda tinha uma reputação a zelar. Porém, ficar com a Bruna, na festa da Laura, na frente de todo mundo… Ah, isso seria assunto pra mais de um ano nesse colégio.

— De pé.

— A Laura vai te odiar pro resto da vida, cara – ele riu baixo.

— E eu vou ganhar 100 pratas pra fazer ela sair comigo de novo e comer ela – suspirei. — De novo.

Ele se virou para frente rindo e eu esperei a aula acabar, o que passou rápido. Fui direto pra casa e passei a tarde fazendo um monte de nada até dar a hora da festa. Assim que cheguei na casa da Laura, eu fui pro bar, intencionado a ficar ruim, muito ruim, pra fazer aquilo e nem me lembrar depois. E, assim que consegui isso, também consegui pegar a Bruna. E o Lê viu. E fez questão de chegar perto da gente enquanto nos beijávamos e me entregar uma nota de 100 dizendo “Tu é o cara mais foda que conheço” rindo. Ela me olhou com muito nojo, a Laura apareceu, começou causar em meu ouvido, mas eu já estava bêbado demais pra ligar. Eu era esse escroto, Júlia. Esse cara babaca que tu sentia nojo, mas passou a gostar. Eu era o “não” do teu dicionário que acabou virando “sim”.

— Beleza, nova aposta – o Lê falou assim que a Bruna e a Laura me deixaram em paz e foram chorar no ombro das amiguinhas. — Aquela guria.

Ele apontou para você. E você olhava para mim como se soubesse que ele iria apontar para você. E eu te encarei de volta, mas você revirou os olhos e saiu da sala.

— Quem é ela?

— Sei lá. Da nossa sala, eu acho. Já vi ela por lá.

— Gatinha, mas não é meu tipo.

— Tu tem um tipo de mulher agora?

— Sempre tive.

Sim, Júlia. Sempre tive. E meu tipo de guria não incluía você, e agora eu não tenho outro tipo a não ser você.

— Foda-se. Você vai arregar?

— Não tenho nada a ganhar ficando ou não com essa menina, Lê.

Disse e saí de perto dele, pra fazer sabe o que?! Ir atrás de ti. Aquele teu olhar com desprezo, teus olhos se revirando e tua saída espetacular da sala, parecendo que iria vomitar por ter me visto, me deixou muito puto. Eu queria te confrontar pra saber que merda tinha sido aquela, porque tu, que era tão diferente de todo mundo que estava na festa, não era igual em também ser afim de mim. Eu não queria a grana do Lê, Júlia. Dessa vez, era questão de provar para mim mesmo que eu podia sim ficar com quem eu quisesse. Confirmar minha teoria de que todas as minas do Epic eram loucas comigo e que eu tinha todas elas aos meus pés. Tu acabou vindo de brinde.

Te procurei em todos os quartos, cantos, e esconderijos da casa e só te achei quando você já estava indo embora.

— Te acompanho – disse te assustando e fazendo com que seus olhos revirassem novamente ao notar que era eu.

— Não precisa – você respondeu rápido demais e continuou andando.

Fiz questão de ficar do teu lado e te seguir. Em partes era para te irritar, mas por outro lado, tu tinha mexido mais ainda comigo no momento em que me disse “não”.

— Aonde tu mora? É muito longe?

Você me ignorou.

— Porque se tu quiser a gente pega o carro.

Você parou de andar, me encarando furiosa.

— Eu nem queria que tu me acompanhasse e agora tu acha que eu quero carona tua? Me poupe – voltou a caminhar, me ignorando completamente.

— Por que tu é assim?

— Assim como?

— Assim… Diferente.

Você me olhou desentendida, balançando a cabeça.

— Não sou da tua laia, só isso.

— Da minha laia? – perguntei indignado. — O que seria, ser da minha laia?

— Esquece.

— Gosto de ti – falei após um tempo.

— Por que? Tu nem me conhece.

— Porque a maioria das gurias morreriam por isso daqui. Pra eu estar levando elas em casa e enquanto isso tu é a sorteada, mas não faz a menor questão.

— Eu disse que não era da tua laia.

— Como que tu chama?

— Não te interessa.

Dei de ombros.

— Como eu faço pra te encontrar de novo?

— Se tu tiver bastante sorte não vai me ver nunca mais em tua vida – você me respondia por pura obrigação, Júlia, ou educação, ainda não sei direito qual dos dois escolher. Só que parecia forçado. Tu nem me conhecia e já fazia questão de deixar por isso mesmo. Você era esperta, bem mais do que eu jamais fui.

— Aí seria azar.

Continuamos caminhando em silêncio, até ficar insuportável. Aquilo já tava me matando por dentro.

— Eu não arranco pedaço, sabia?

— Até parece – você riu, irônica, me cortando a fala, fazendo com que um sorriso de lado brotasse em meu rosto, esperando tua continuação.

— Você acha que eu tiro pedaço? – acabei perguntando.

— Me responde você.

— Só quando eu quero.

— E agora? Você quer?

— Tirar um pedaço teu? – indaguei confuso e você confirmou. — Seria interessante.

— Bom saber.

Parei em tua frente, impedindo que você desse mais um passo antes de me explicar aquilo.

— O que você quis dizer com isso? – perguntei olhando no fundo dos teus olhos.

— Que você realmente é um cachorro. Daqueles que ladram, latem e realmente mordem. Pra machucar – você falava com bastante firmeza, e pela segunda vez tinha me deixado sem fala. Você era estranha, Júlia. Diferente… E eu gostava disso.

— Continuo sem entender.

— Não falo nada enquanto você não sair da minha frente.

Fui para o lado, o que te fez voltar a andar e eu ir atrás.

— Tu viu o que tu fez com aquela menina?

— Quem? A Bruna? – uma risada me escapou. — Ela é uma vadia.

— Não importa o que ela seja, tu não podia ter feito o que fez.

— Não acredito nisso.

— Em que?

— Que tu tá aí toda marrenta, cheia de mimimi pra cima de mim por causa de alguém que tu nem sabe quem é. Aposto que não sabe nem o sobrenome!

— Até onde eu sei tu também não me conhece e mesmo assim quer me levar até em casa.

Minha garganta se fechou de novo, seu argumento era bom demais.

— Aliás eu já cheguei, tu já pode ir – você falou, apontando pra porta da tua casa e subindo os degraus.

— Eu ainda vou conseguir, tu vai ver.

Você me olhou desentendida e eu prossegui.

— Fazer essa tua armadura cair. Fazer tu conversar comigo sem ser pra me dar lição de moral.

— Lição de moral? – você desceu os degraus. — Você acha mesmo que eu o que eu quero é te dar uma lição de MORAL? Porra – abriu os braços se expressando. — Para pra pensar um segundo no que tu fez, guri. Tu mesmo me disse que todas as minas do mundo morreriam por isso daqui, e eu juro que nem entendia o porquê, mas aí tu me fez ver depois de hoje, de ter feito o que fez. Mas será que tu sabe? Me diz se tu sabe, guri. Se tu sabe porque elas morrem de amor por ti. E eu te garanto que não é porque tu é bonito.

— Sempre pensei que fosse – te respondi meio perdido.

— É porque você é um idiota.

— Se eu só ganhei até agora com isso, o que tem de ruim?

— Não existe um pingo de remoço em teu coração em ter feito aquilo?

— Que porra de remoço, mano. Eu ganhei 100 reais do meu melhor amigo só pra beijar a boca de uma mina que sempre quis isso, me parece mais como bondade e não motivo pra ter remoço.

— Tu é mais podre do que eu pensava.

— E tu não conhece elas igual eu. Tu acha que elas vão ficar na bad, porque tu ficaria, mas elas não vão. Eu tenho certeza que se eu mandar uma mensagem pra qualquer uma das duas agora, elas vão querer me encontrar.

— Aé? Então manda.

— Oi?

— Manda a mensagem. Pega teu celular e manda.

— Foda-se — falei pegando o celular. Digitei um texto pra Laura “me encontra no píer” e cliquei em enviar, mostrando para você. A respostas veio segundos depois: “Vai se foder”.

— Deixa eu ver – você falou e tentou tirar o celular das minhas mãos, mas eu te impedi. — Ela te xingou, não xingou?

Fiz cara de bosta pra ti.

— Não é da tua conta.

— Eu sabia! – você riu, me deixando puto de raiva, mas ao mesmo tempo, curioso.

— Como? – perguntei, te fazendo parar de rir. — Como que tu sabia?

— Mulheres… Nem sempre estão aos teus pés.

— Tu nunca esteve.

— E espero nunca estar – você virou as costas e subiu os degraus de tua casa, de novo.

— Jerry – falei, mesmo sem você ter perguntado.

— Eu sei – disse ao fechar a porta, cortando mais uma vez a minha fala.