Ann? - questionou Meritíssimo

1 Nós não somos grudados, Ann


— Meritíssimo, venha. Venha logo, nossa cabana está pronta. Agora podemos nos abrigar nessa floresta. Saia já desta árvore antes que caia e se machuque! Eu não quero ter que cuidar de um monstro ferido! – “isso sempre acontece” pensou.

Seu fiel amigo pulou. Sua grandeza fez com que a altura em que estava fosse boba. Os dois entraram então na cabana.

— Ann, o que você está fazendo?

— Preparando nosso jantar ué. Eu encontrei essas frutas andando por entre galhos e plantas. A água achei em um lago aqui perto. Afinal, o que você fez esse tempo todo?

— Eu brinquei oras!

— Com quem se eu estava cuidando das coisas por aqui?

— Comigo mesmo. Ann, nós não somos grudados!

— Eu sei eu sei... Mas é que... Ah, esqueça.

Ann distribuiu as frutas e a garrafa que enchera com a água do lago, pôs no meio da cabana no alcance dos dois. Ela espiou pelo pano que pendia sobre os galhos de uma árvore e os mantinha protegidos. A noite estava linda, com muitas estrelas. Uma visão impossível no apartamento em meio à cidade em que moravam. A lua brilhava intensamente. Era bom poder estar longe de tudo junto de Meritíssimo, seu companheiro de sempre. Ele a acompanhava desde seus 6 anos de idade. Agora já estava com 11.

— Ann – chamou Meritíssimo – O que vai acontecer quando crescermos?

— Por que você está pensando nisso agora?

— Eu não sei, acho que é porque o futuro está se aproximando cada vez mais.

Ann se calou, não sabia o que responder a seu amigo.

— Ann?

— Bom, não quero pensar sobre isso agora, ok? Vamos só jantar.

***

— Ann...

— O que houve Meritíssimo?

— Acho que está na minha hora de partir...

— O que? O que você quer dizer por isso?

— Todo esse tempo ao seu lado foi muito bom, mas talvez esteja na hora de terminar.

— Você se cansou de mim? – uma lágrima começava a se formar no olho daquela criança.

— JAMAIS! NUNCA DIGA ISSO! É só que... É só que tudo tem um fim e acho que esse é o nosso. Sinto que está na minha hora de partir...

Ann se sentia triste por aquilo, mas sabia que seria inevitável. Uma hora Meritíssimo cresceria. E ela também.

— Acho que isso é uma despedida então. – ela não conseguia olhar nos grandes olhos de seu amigo.

— Ann? – ela então o abraçou. Era quase inteira coberta por seus pelos, sumia nos braços daquele grandão. – Eu te amo. Não se esqueça disso.

— Eu também te amo, Meritíssimo.

Ela saiu da cabana e acendeu a luz do quarto. Desmanchou o forte criado pelos lençóis estendidos em cima de cadeiras. Arrumou tudo e se deitou na cama para dormir. Fechou os olhos e sonhou com memórias de um passado nostálgico.

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