Notas iniciais
No último capítulo... Antony e Isabela quase foram queimados vivos, escapando praticamente por um triz: conseguiram adentrar e escapar pelo Monte da Vida, quase morrendo (de novo) afogados. Agora, neste exato momento em que você lê isso, eles estão sendo levados pelo rio. Aonde chegarão? Ninguém sabe... (mentira, eu sei :v)

Antony e Isabela estavam mais tranquilos, embora temerosos que os Mids resolvessem ir atrás deles. Por sorte, a correnteza era veloz o suficiente para que os dois pudessem seguir com uma relativa tranquilidade, sem precisar nadar para fugir. Aparentemente, isso não seria necessário: era tarde demais para iniciar uma perseguição.

A profundidade do Rio Norte, onde as crianças estavam, era grande o suficiente para que os seus pés não conseguissem tocar o chão. Então, elas mantinham a cabeça para fora d’água, batendo os braços e as pernas incessantemente. Não era confortável, de jeito nenhum, mas pelo menos Isabela não se incomodava. Ela havia prometido a si mesma que não se permitiria ficar confortável até estar em casa.

Os rios serviam de fronteira para as províncias da Tribo de Rackismid, pois não existia apenas o Rio Norte brotando do Monte da Vida: havia também o Rio Sul, o Rio Leste e o Rio Oeste. O Rio Sul separava as províncias de Analexa e Rhavid. O Rio Leste, as de Analexa e Horan. O Rio Oeste, as de Rowle e Rhavid. E o Rio Norte, as de Rowle e Horan.

Na Tribo de Rackismid, muitas vilas aglomeravam-se ao redor do Rio Norte. Apesar disso, as crianças não foram notadas por ninguém mais: todos os Mids se reuniam nos centro dos povoados com seus líderes para manter aceso o fogo do ritual. Quando o sacrifício acabasse, eles voltariam para suas cabanas, para festejar o novo ano com a família, tendo direito a muita música, comida e presentes — a única comemoração do ano requeria que todos ficassem felizes. Assim, quem é que daria importância ao rio?

Ah, mas se soubessem que as crianças do ritual estavam escapando, passando a poucos metros de suas casas, abandonariam a festa sem nem pensar duas vezes para procurar os fugitivos. O sacrifício de Rackismid era o que havia de mais sagrado para os Mids, à exceção do próprio deus. Como Rhavid dissera para as crianças, o não cumprimento do ritual de novo ano trazia graves consequências, e os Mids sabiam disso por experiência própria.

Antony e Isabela ficaram um bom tempo sem se falar, apenas concentrando-se em respirar. Antony notou que o rio já estava há bastante tempo atravessando uma floresta, sem nenhum sinal de Mids por perto. Juntando todo o fôlego que tinha — e ainda não sendo o suficiente — disse:

— Isa... acho que já podemos... sair do rio. Já devemos estar... bem longe do planalto.

— Parece... que sim. — Sem esperar resposta, ela começou a nadar em direção à margem direita. A correnteza, agora tranquila, não a atrapalhou enquanto erguia-se para fora do rio.

Antony a seguiu. Logo, os dois se encontravam deitados sobre a terra, olhando para cima, os pulmões felizes por poder voltar a respirar normalmente.

— E agora? — Isabela perguntou, fitando os galhos de árvore acima dela.

Antony parou de respirar por um instante para pensar, e logo em seguida respondeu:

— Não sei.

Eles se encararam. Os olhos de ambos estavam mais abertos de preocupação.

— Minha irmã me ensinou a analisar situações — comentou Antony, voltando a olhar para cima. — Ela diz que, não importa o que aconteceu, nós temos que seguir em frente e resolver o problema, ao invés de ficar remoendo o que aconteceu.

— O que é remoer?

— Tipo... ficar lembrando de algo que já passou e se irritar sem necessidade por causa daquilo.

— Ah, tá. Continue.

— Primeiro, temos que analisar o que aconteceu, porque pode nos dar uma pista para onde seguir ou podemos descobrir onde erramos, para não errar de novo. Começando a história: fomos sequestrados no meio da noite por uns bichinhos chamados Mids. E depois?

— Eles nos levaram para a tribo deles pra nos matar.

— Nessa tribo, acho que nesse mundo também, existe mágica. Foi com a ajuda dela que eles queriam nos sacrificar...

— Por causa deus ridículo deles. — Os lábios de Isabela se curvaram para baixo, em uma clara expressão de desprezo.

— E enquanto estávamos sendo queimados vivos, conseguimos cair dentro do Monte da Vida. Essa é a parte mais curiosa... — Antony franziu as sobrancelhas e começou a pensar alto. — Como aquela terra no planalto se sustenta sozinha, sem estrutura ou nada embaixo? E porque nós não desabamos lá assim que fomos presos à madeira? E de onde vem toda aquela água? Eu aprendi na escola que os rios nascem de lençóis freáticos, rios subterrâneos que são formados a partir da água das chuvas infiltradas no solo. Só que lá no planalto era mais um lago subterrâneo, toda a água acumulada. Além disso, tinha como se fosse um gêiser no meio! Pra ter tanta água assim, teria que haver bastante chuva e constantemente, o que não parecia acontecer lá, porque eu notei que a terra da trilha era seca. E se chovesse a quantidade necessária em cima do planalto para formar um rio, ou encher o lago, a água já teria feito a parte de cima do Monte desabar, por causa da finura dele. Concorda?

Isabela demorou um pouco para responder, tentando processar tudo o que o garoto disse. Alguns segundos depois, ela falou:

— Faz sentido. Mas, segundo a lógica que a sua irmã te ensinou, o que aconteceu não importa muito, não é? Podemos pensar sobre o planalto depois.

— Muito bem lembrado. Acho que você já pegou o raciocínio. Então, isso nos leva à nossa situação atual, que seria aonde o rio nos trouxe. Não sabemos onde estamos...

— Então temos que saber, ué! — Isabela o cortou. — Como fazemos isso?

— Eu sei como ver as horas mais ou menos pela posição do sol e também como descobrir os pontos cardeais. Só que, aqui, em um mundo diferente, as horas podem ser diferentes.

— Mas os pontos cardeais continuam sendo os mesmos, não é?

— É... tá bem!— Antony levantou-se e saiu da sombra da árvore. Olhou para o céu azul, onde a grande estrela daquele mundo brilhava, igualzinho ao da Terra. — Acho que é mais ou menos meio-dia. O sol está bem no meio do céu.

— E os pontos cardeais?

— Com o sol no meio do céu, não dá pra saber. Vamos ter que esperar ele baixar para saber aonde fica o leste e o oeste.

— Eu sempre confundo os dois.

— Minha professora me ensinou um negócio pra decorar a rosa dos ventos. É uma frase: “Não Leio Sem Óculos”. Seria Norte, Leste, Sul, Oeste, daí você distribui as palavras em sentido horário.

— Não Leio Sem Óculos... entendi! É engraçado.

— É justamente por isso que você se lembra!

Eles ficaram em silêncio por alguns instantes, procurando o que falar.

— Então nós esperamos? — Isabela indagou.

Antony começou a perceber que ela não sabia como agir. Não que ela estivesse ou mesmo fosse tímida, não era essa a razão, mas parecia que dependeria do garoto para sobreviver em Ankward. Então, pela primeira vez, Antony teve tempo para pensar sobre o que seriam dos dois naquele mundo desconhecido, aparentemente inofensivo. Seria mesmo um lugar tão tranquilo assim? Desconfiava que não. Os Mids ainda viriam atrás deles? Muito provavelmente.

— Acho que podemos seguir o rio — respondeu, após alguns segundos, nem tão usados para analisar qual seria a melhor alternativa. — Ele é o único caminho seguro.

Isabela balançou a cabeça positivamente e se levantou. Os dois puseram-se a andar sob a sombra das árvores, plantas de todos os tipos, que pareciam seguir um interessante padrão: as mais altas tinham folhas mais escuras e menores, e as mais baixas eram claras, de folhas e troncos largos. Raramente encontravam-se flores ou frutos, o que tornava a floresta um lugar excessivamente verde.

— Não vimos nenhum animal até agora — observou Antony, alguns passos depois. — Será que tem algum aqui? Ou só saem à noite?

— É verdade... que estranho. Eu não sei — disse Isabela, que observava a vegetação enquanto caminhava. Seus olhos focalizaram em algo um pouco indefinido à distância, preso às raízes de uma árvore. Aproximando-se um pouco mais, exclamou: — Ei, olha que flor diferente!

A garota deu alguns passos em direção ao tronco de uma árvore alta e larga, as enormes raízes se estendendo em todas as direções. Entre elas, várias flores em forma de pompom, com pétalas brancas na base e cor de rosa no topo, cresciam.

Antony se agachou para observá-las de perto. Notou que tinham uma base com algumas folhinhas verde-escuro e finas raízes que se prendiam às da árvore, perfurando-a. Comentou isso com Isabela, que torceu o nariz.

— Então elas roubam seiva da árvore?

— Ou podem dar algo em troca também, vivendo em harmonia com ela. Isso se chama mutualismo.

— Mu... o quê?

— Mutualismo é quando dois seres vivos de espécies diferentes vivem juntos, em harmonia, um oferecendo algo que outro precisa, criando um vínculo de dependência — explicou, recitando o que havia decorado do livro de ciências. — Por exemplo, o cupim não digere a celulose da madeira, mas uma bactéria que vive dentro dele, sim. Então, enquanto o cupim dá abrigo à bactéria, ela digere a comida pra ele. Um não viveria sem o outro.

Isabela apenas soltou um “ohhh” de entendimento.

— Você já aprendeu tudo isso na escola? — Ela questionou, surpresa com o quanto o garoto sabia.

— Já. Eles dão bastante coisa para estudar.

— E você consegue lembrar de tudo?

— Só o que eu acho interessante.

Eles novamente caíram em silêncio.

— Será que essas flores têm cheiro? — Isabela perguntou, mais para si mesma do que para Antony.

Ela enfiou o nariz na flor mais próxima e inspirou profundamente. As pétalas faziam cócegas na sua pele, e o cheiro... era doce, familiar, parecia acariciar o olfato de Isabela. Instantaneamente, ela foi sentindo-se sonolenta. Pouco antes de pousar a cabeça no chão e apagar, lembrou-se por que parecia que já havia cheirado aquela flor antes.

Porque, de fato, ela havia.

Notas finais
O que achou do capítulo? Do final dele? Estava muito curto? Estava muito comprido? Estava chato? Ou você achou interessante? Por favor, me diga. Preciso muito de críticas, reviews, WHATEVER, para que a escrita e até a maneira como o enredo se desenvolve melhorem, que ler essa história seja cada vez mais prazeroso para o leitor (e para a autora também :v) Um abração e um bom dia/tarde/noite/madrugada para quem leu até aqui. Tchau!