Ankward: Mundo Guardado
3 Antony e Isabela
Antony saltou ao ouvir o grito agudo da garota. Ele não reparou que ela havia acordado. O ser que os vigiava também se assustou. Quase voou em direção à menina, tapando a boca dela com a mão, e os olhos, que já eram grandes, arregalados como se implorassem que ela calasse a boca. Isabela ficou mais apavorada ainda, o que fez com que gritasse ainda mais alto, até se acalmar.
Quatro outros seres surgiram, escancarando a frágil porta feita de galhos da cabana. Eram semelhantes ao ser que vigiava as crianças, porém pareciam adultos. Ao que parecia, eram duas mulheres e dois homens. As mulheres usavam vestidos coloridos e enfeitados, feitos de maneira rústica. Os homens usavam calças brancas e simples, amarradas na cintura, ou a região do corpo que deveria corresponder a ela, com um cordão. Todos os quatro estavam descalços, seus pés eram estreitos como o resto do corpo e tinham cinco dedinhos compridos e finos.
Porém, Antony e Isabela não prestaram atenção a esse último detalhe. Seus olhos mostravam confusão, pavor, um pouquinho de horror... eles não sabiam nem como reagir.
O ser que os vigiava levantou-se e tentou se explicar, mas com um gesto de mão, uma das mulheres dispensou a fala do rapaz. Um dos homens disse alguma coisa para ele, que tratou de correr para fora, apressado.
O grupo entrou. Tanto Antony como Isabela sentiram o coração bater mais forte e uma vontade incontrolável de correr, não fosse o medo e as amarras. Observaram enquanto os seres concentravam energia mágica nas mãos, formando pequenas bolinhas brilhantes e em seguida, dizendo algumas palavras em sua língua nativa. As bolinhas tornaram-se mais translúcidas. Os quatro esfregaram as mãos ao mesmo tempo e as passaram com as palmas abertas na frente das crianças, formando uma parede quase invisível.
Eles só ficaram mais confusos com isso. Parecia difícil de acreditar, mas sabiam muito bem o que estavam vendo: magia.
Antony tentou processar toda a situação:
“Fui sequestrado por alienígenas, provavelmente. Eles me trouxeram para o planeta deles, que tem mágica. Então...”
Bem, pelo menos tentou.
Isabela, por sua vez, nem fazia questão de pensar. Por mais confusa que estivesse, deixou-se admirar pelo que via.
O homem com a calça de cordão dourado falou primeiro. Suas palavras, no seu idioma nativo, se transformaram ao atingir a barreira de energia, sendo traduzidas para o português:
— Sei que estão confusos e assustados — sua voz era paternal, suave. Isso acalmou um pouco as crianças. — Mas não tenham medo. Nós não faremos mal algum a vocês. Aliás, foram escolhidos para uma tarefa muito honrosa! — Ao ouvir isso, Isabela pressentiu algo ruim. Ninguém sequestrava pessoas para dar-lhes tarefas.
— Rhavid, você esqueceu de dizer a apresentação! — interferiu a mulher que usava um vestido verde. Antony a observou curiosamente. O que diferenciava ela e a outra mulher dos homens, além das roupas, eram suas feições, mais delicadas, e a pele, ligeiramente mais clara. Fora isso, até a falta de cabelos era igual.
— Ah, sim! Obrigado, Analexa. Meu nome é Rhavid e o dela é Analexa, como devem ter notado. — Analexa reprimiu uma risadinha. Rhavid continuou, apontando para o seu companheiro e a outra mulher. — Este é Horan e esta é Rowle. Nós somos os líderes deste local, que é chamamos Tribo de Rackismid.
Era difícil para as crianças processar tantos nomes difíceis.
— A tribo tem esse nome, pois foi o próprio Rackismid que a criou — prosseguiu Rowle. — Apesar disso, nós nos autodenominamos Mids. Somos um pouco numerosos demais para uma simples tribo, aliás, até formamos vilas, mas foi assim que Rackismid nos criou e assim continuaremos sendo chamados. Amamos nosso criador acima de tudo, porque além de nos dar a vida, ele nos deu fantástico conhecimento da magia, como podem notar pela parede tradutora à sua frente.
A cada palavra, Antony se lembrava cada vez mais das aulas de história. Recordou-se da lenda de Prometeu, que havia mostrado o fogo aos homens.
Aos poucos, a situação se transformava a seus olhos.
“Então, esses alienígenas nos sequestraram, nos levaram para o mundo deles e estou conhecendo sua cultura. Incrível!”
— Portanto, nós fazemos nossa maior demonstração de gratidão no começo do novo ano — continuou Horan, e em seguida deu um suspiro, sabendo o que aconteceria após a frase seguinte. — E ela inclui o sacrifício de nobres crianças, escolhidas pelo próprio deus.
O sangue dos dois pareceu se esvair do rosto. O estômago de ambos deu um nó. A expressão de Antony, que antes era de puro interesse, se desfez em puro choque, assim como a de Isabela.
Lágrimas gordas se formaram nos olhos da menina, ao pensar em abandonar a vida. Não era apenas partir para o infinito. A morte era abandonar tudo o que amava, o futuro que sonhava em ter. Ao ver a possibilidade diante de si, não conseguiu se conter.
Analexa esforçou-se para manter a expressão neutra diante da reação da garota, porque, por dentro, ela contorceu-se de pena.
Antony se sentia apenas pasmo. Errara enormemente sobre a sua sorte.
Horan estava indiferente à reação das crianças. Apenas deixou seu companheiro continuar.
— Vocês serão sacrificados pelo fogo mágico. Escolhemos esse elemento porque só é produzido com a ajuda de todos na tribo. A coletividade mostra que todos os Mids são gratos a seu deus.
— Como já acordaram e estão cientes de sua importância — disse Rhavid —, serão aprontados agora mesmo para o ritual. Analexa, Horan, vocês ficarão encarregados dos nossos.
— Espere! — Isabela quase gritou. Estava tentando ganhar tempo. — Mas... a gente não concordou com isso! E nem acreditamos no seu deus! Vocês não têm o direito de nos levar embora por alguma coisa que nem têm certeza que existe! Eu quero voltar pra casa agora!
Antony lançou-lhe um olhar de “o que vocês está fazendo?!”, no entanto a menina se manteve firme, com a expressão enfezada. Custou a mantê-la, pois os Mids pareciam profundamente ofendidos, o que a fazia querer rir de suas caras. Cada um tinha uma reação diferente, e ao mesmo tempo, semelhante: Analexa parecia não compreender a raiva da garota, por mais que tentasse, Rhavid estava estupefato, Rowle tinha uma expressão clássica de ultraje, e Horan fechou a cara, com seus grandes olhos castanhos parecendo estar em chamas.
Por um segundo, a cabana permaneceu assim. Até que Rowle se pronunciou:
— Não diga o que não sabe, garota. Nós temos sim certeza da existência de Rackismid. E talvez não tenhamos mesmo o direito de levá-los, porém não nos resta escolha. A vida e segurança de toda a tribo dependem disso.
— Por que não levam outro, então? Me levem de volta e peguem, sei lá... — as opções de pessoas descartáveis passavam pela mente de Isabela. A primeira foi seu pai, mas sentiu que era melhor não citá-lo. — Alguém que deseje morrer! Não seria muito mais agradável para os dois lados?
Horan que quase não resistiu a revirar os olhos.
— Não é tão fácil, garotinha — ele explicou, com um certo desprezo na voz. — O próprio Rackismid escolhe quem ele quer para habitar seu palácio — Antony e Isabela não entenderam o que isso significava. — As bússolas encantadas de Rhavid e Rowle apontaram para vocês, logo, são vocês que devem ser sacrificados.
— Horan — Analexa chamou —, eles não entenderam nada do que você quis dizer. Eles não são daqui, você sempre se esquece disso.
O Mid suspirou e começou a explicar detalhadamente:
— Como disse, o próprio Rackismid escolhe as crianças. O método, tanto para as da tribo quanto para as de outros mundos é o mesmo.
— Crianças da tribo?! — Isabela disparou, ao mesmo tempo em que Antony perguntou:
— Outros mundos?!
Vendo que a paciência de Horan estava diminuindo, Rhavid continuou a explicação:
— As crianças da tribo têm seu valor. Separando-nos delas, mostramos que nosso amor ao deus é maior do que o que temos pelos nossos filhos — Antony sentiu um intenso arrepio ao escutar isso. — E, mostrando que dominamos a magia nos ensinada, abrimos um portal para outro mundo que tenha as crianças que Rackismid quer.
— Então — interrompeu Isabela, com deboche —, vocês também cometeriam crimes pelo seu deus?
— Somos seus servos. É nosso dever, e se não cumprirmos com ele, sofremos as consequências de nossa falha — dessa vez, foi Rhavid quem se arrepiou, chegando a tremer. Instantaneamente, Isabela já soube que algo havia acontecido e sem perceber, estreitou os olhos, apesar de não questionar nada. — Sabemos quem são as crianças escolhidas por causa das bússolas mágicas. Nós fazemos uma oração somada a um encantamento, que faz a bússola apontar para as crianças escolhidas.
— E por que fomos nós dois? — Antony indagou. Na sua própria visão de si mesmo, não tinha nada de especial, apenas de diferente da maioria dos garotos de onze anos. Por exemplo, eles não gostavam de estudar.
— Isso está além de nosso conhecimento — respondeu Analexa. — Mas é fato que ser escolhido é uma honra grande. Após o sacrifício, seus espíritos habitarão o palácio do próprio Rackismid, até voltarem à terra novamente. Esqueci de dizer algo?
— Não, isso foi mais do que suficiente — Horan disse e pôs a cabeça para fora da barraca, verificando a posição do sol. — Estamos atrasadíssimos.
“Como essas crianças dão trabalho!”, acrescentou mentalmente.
Analexa e Rhavid desfizeram a barreira tradutora de magia, desamarraram as cordas dos tornozelos das crianças e as levantaram. Antony deixou-se levar, atentando seus olhos para qualquer brecha pela qual pudesse fugir, apesar de estar extremamente inseguro quanto ao seu sucesso. Já Isabela resistiu, esperneou e usou tudo o que tinha de força para tentar escapar. Precisou que amarrassem suas pernas novamente e a carregassem.
Antony se distraiu ao sair da cabana. Até Isabela aquietou-se para ver a paisagem.
Não era algo paradisíaco, porém as crianças estavam curiosas para ver a natureza de outro mundo. A cabana estava em um pequeno espaço aberto no meio de uma floresta verdíssima, reluzente sob a luz do sol, ou seja lá qual estrela aquele planeta orbitasse. Flores coloridas, muito diferentes do que Antony e Isabela jamais viram, eram abundantes nas árvores mais baixas. As mais altas tinham galhos notáveis, sendo compridos e bem grossos no alto e algumas vezes até contendo frutas, enquanto os mais baixos não eram tão compridos, porém serviriam muito bem de escada.
A Antony, era surpreendente que a flora daquele mundo fosse semelhante ao seu. Ele se sentia sedento para saber mais sobre aquele planeta, porém lembrou que contava com um tempo de vida limitado demais para descobrir.
Isabela apreciou mais poder ver a natureza. Estava muito habituada a casas, edifícios e asfalto de sua cidade, e as árvores de lá sempre estavam em espaços pequenos, sempre aparentando ter sido plantadas pelo homem mesmo. Nunca viajou para a praia. Então, ver uma floresta era algo novo, e na opinião dela, era bonito, como se aquilo tivesse sido feito para nunca ser perturbado. Quase se sentia incomodada de estar ocupando aquele espaço.
Os Mids não pararam para admirar a paisagem, pois a viam sempre. Logo ao lado da primeira cabana, de onde haviam saído, havia outra, maior e mais bem-feita. Era larga, totalmente feita de madeira escura, provavelmente a mesma das árvores ao redor e contava com janelas cobertas com uma tela feita de finíssimas tiras de madeira trançadas.
— Foram vocês mesmos que construíram essa casa? — Antony perguntou, numa frustrada tentativa de distrair as criaturas. Nenhuma delas criou uma barreira tradutora para entender o que o garoto dissera, mas Rhavid o teria feito, se não estivesse ocupado demais carregando Isabela. Achou, a princípio, arrogante a atitude dos colegas, contudo logo compreendeu o motivo de terem ignorado o menino. Porque ele estava tentando ganhar tempo. Revisando a memória, sua voz soava estranha e esganiçada, mais do que deveria ser normal.
A cada passo que os aproximava da cabana, Isabela se contorcia cada vez mais violentamente. Rhavid teve de segurá-la bem forte, apesar do receio de machucar a menina.
Rowle abriu a porta da cabana, que era mantida fechada por uma rústica fechadura, do lado de fora. Aparentemente, assaltos não deveriam ser uma preocupação para os Mids. De fato, não eram. Os seis entraram. A cabana cheirava a lugar velho e um pouco azedo. Tinha uma prateleira com alguns potes, um pequenino armário e duas macas feitas de algo semelhante a bambu. Isabela e Antony se surpreenderam um pouco. Ambos esperavam, no mínimo, que houvesse cheiro de sangue no lugar.
Antony ficava cada vez mais nervoso. A cada segundo que passava, era um segundo a menos para escapar. Obrigou-se a ficar calmo, sem sucesso.
Analexa delicadamente disse algo aos dois homens, que assentiram e foram para fora da cabana. Ao saírem, ela restaurou a barreira tradutora, enquanto pedia para Rowle que conjurasse cordas mais finas e que machucassem menos as crianças. Ela tentou trocar as amarras delas, sendo impedida por Analexa, alegando que elas as trocariam depois de colocar as roupas do ritual nas crianças.
Isabela lançou um olhar torto para as duas Mids ao ouvir essa última parte. Agora entendia porque Analexa havia mandado Rhavid e Horan embora, mas isso ainda não a deixava confortável. Aliás, prometeu para si que não se sentiria confortável até estar em casa. E pretendia passar o mínimo de tempo no desconforto.
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