Anjos também merecem o Amor - Ezkai
4 Porque anjos também merecem o amor

Ezreal sabia que era o dia do tal enterro, ele queria não pensar muito no assunto, já que se tratava do ex-namorado de Kai’sa. Havia motivos para ter ciúmes? Não, não havia. Ela só foi por educação, quando ela aceitou o convite parecia estar um pouco incomodada, ou será que era apenas porque estava frente a frente com o homem que ela abandonou? Kai’sa fora sincera ao contar que não se orgulhava de tê-lo deixado para trás, todavia não demonstrava nenhum interesse real de reatar com Jayce Talis, ela estava com Ezreal, mesmo que não fosse oficialmente num namoro. O Lightfeather era inseguro nesse quesito, seu passado como mulherengo lhe atormenta, Kai’sa já demonstrou repúdio pelos seus atos anteriores, tanto é que, na primeira brecha, avisou que não rolaria nada de especial entre os dois se ele continuasse com aquele comportamento. Quer dizer, não foi exatamente com essas palavras, mas foi o que ele entendeu. E depois de se redimir e mudar tanto, a única coisa que ele queria ouvir era um “Eu te amo”, proferido pela boca dela, com sinceridade.
E não foi isso o que ele ouviu naquela tarde. Primeiro Seraphine ligou pra ele, perguntando sobre Kai’sa, assim, fazendo-o descobrir que horas se passaram desde o tal velório que ela foi e nada da Cellest retornar ao seu lar. Segundo, o desespero lhe acometeu ao perceber que, se ela não estava em casa e nem com ele, tampouco na pista de gelo, deveria estar com Jayce Talis e isso não era bom sinal.
Quando abriu a porta, ouviu gritos provindos do térreo do hotel, onde ficava o restaurante. Desceu mais que depressa até o andar e ficou em choque ao se deparar com a seguinte cena: Akshan brigando com Jayce, rolando no chão, enquanto Kai’sa gritava com a voz esganiçada para os dois pararem.
— VOCÊ DEU BEBIDA PRA ELA, DESGRAÇADO? — o barista socava o rosto do Talis enquanto gritava — ÃH? FEZ ELA BEBER ATÉ FICAR NESSE ESTADO?
— AKSHAN! — Ezreal foi na direção dos dois e separou o indiano do outro rapaz, nisso Jayce partiu para cima do Lightfeather e a briga se tornou um caos total, Kai’sa só chorava em desespero, até que alguém que estava no Sunshine Hotel acabou ligando pra polícia e os três foram detidos.
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Ela abriu os olhos com dificuldade, a cabeça latejava – coisa que não ocorria há muitos anos –, aos poucos foi se acostumando a claridade do local que descobriu ser seu antigo quarto, na casa de sua mãe. E por falar nela, Bel’veth estava sentada na beirada da cama, lhe encarando.
— O que aconteceu? — perguntou desnorteada, não entendia como foi parar ali. Aliás, Bel’veth saiu da clínica quando?
— Você teve uma crise. — elucidou a mais velha, oferecendo um copo d’água — Beba.
Ainda confusa, Kai’sa se sentou na cama e bebeu todo o líquido, só agora percebendo que sua garganta ardia de tão seca, a dor de cabeça que lhe martelava era um lembrete dos tempos em que vivia de ressaca, e pensar em ressaca lhe fez compreender o que sua mãe quis dizer com “crise”.
Ela bebeu e surtou, da mesma forma que fazia quando estava em depressão.
— O que eu fiz?
— Seraphine não soube me explicar os detalhes, mas... Você foi ao velório do avô do Jayce, e aí parece que os dois se embebedaram e acabou numa briga. — suspirou — Kai’sa, minha filha, você falhou de novo.
— Isso não tá ajudando, mãe! — bronqueou, irritando-se de imediato.
— Acha que eu gostaria de dizer isso de novo? Voltei recuperada, pronta para tentar mais uma vez me redimir, e ao invés de ser recebida com boas notícias, descubro que você enfiou o pé na jaca e bebeu todas, com o seu ex! — retruca calmamente — Kai’sa, não digo isso pra você se sentir péssima, já fiz muito isso e não pretendo ser uma mãe babaca novamente. — suspirou — Mas você errou e eu preciso te contar o quanto errou.
Kai engoliu em seco.
— Seraphine pode te contar todos os detalhes, tudo o que sei é que você foi o motivo de Ezreal e Akshan serem presos junto com o Jayce.
— Eles foram presos? — ergueu-se da cama, chocada — Ezreal e Akshan estão presos?
— Sim, mas acho que os pais de Ezreal conseguem livrá-los dessa. Mas não sei dizer se Akshan vai continuar com o emprego, a atitude dele não foi profissional... — lamentou Bel’veth — Kai’sa, esteja preparada para enfrentar consequências desastrosas, não vai ser fácil, mas Seraphine e eu estamos aqui por você, ok? — tocou-lhe o braço numa tentativa de confortá-la.
— Como é? — as duas não tinham percebido que Sera estava parada ali na porta do quarto, ouvindo todo o diálogo — Ela faz besteira e eu ainda tenho que ficar do lado dela?
— Seraphine! — Bel’veth encara a caçula, brava.
— Olha, eu cansei! Vivi a vida toda com duas loucas, é demais pra mim! — a garota encara Kai’sa com desprezo — Vocês duas me decepcionam.
Deu as costas para mãe e irmã, sentindo-se exausta. Kai sentiu os olhos se enchendo de lágrimas, ouvir aquilo de sua irmã lhe machucara, toda aquela situação a deixava com vontade de chorar e estapear a si mesma, como pôde ser tão idiota? Sua mãe tinha razão; ela falhou.
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— Ash! — chamou assim que o viu atrás da bancada do bar, ele estava com uma feição indiferente — Eu sinto muito! Não queria te envolver numa confusão!
— Fui expulso do esqui. — revelou simplesmente, deixando a amiga sem palavras — Disseram que não queriam um bagunceiro no time e eu já desisti da faculdade, não posso mais voltar.
— E-eu sinto mui-
— Kai’sa, para! Só para, tá legal? — interrompeu-a — Eu tô’ chateado com você, decidiu beber com o Jayce e tudo isso acabou com o que eu tinha, tudo porque eu me importei com você. — desviou o olhar, suspirando — Talvez seja melhor eu parar de esperar que você melhore.
As palavras do Amir aprofundaram ainda mais as feridas que ela possuía, como se alguém passasse uma lâmina pela segunda vez em cada abertura mal cicatrizada. Kai’sa engoliu o choro, tinha que respeitar a vontade de Akshan de se afastar e não tinha o direito de pedir perdão, por sua culpa ele perdeu a vaga na equipe de esqui que tanto almejou, quase perdeu o emprego, pedir desculpas não resolveria nada.
Mas o pior ainda estava por vir. Seu mundo feliz ainda viria a ser desmoronado por completo.
— Kai’sa, eu reconheço seu talento, mas não posso treiná-la mais. Os Lightfeather não vão mais custear seu tempo na pista, não posso fazer nada sobre isso. — Fiora explicava do outro lado da linha, Kai não conseguiu dizer nada – pela terceira vez naquele mesmo dia – e apenas desligou o telefone.
Tudo. Ela perdeu tudo o que tinha.
Rely ♥:
Você realmente fez isso?
[12:24]
Você:
Eu não queria fazer isso
Jayce insistiu tanto que eu não consegui recusar
[12:25]
Rely ♥:
Kai’sa
Eu te apoio em qualquer coisa e você sabe disso
Mas agora eu nem sei o que te dizer
Estou com raiva de você
Lutamos tanto pra te tirar dessa vida e na primeira oportunidade você faz merda
Sinceramente, cansa!
[12:25]
Você:
Rely
[12:26]
Rely ♥:
Você tinha escolha, Kai’sa! E escolheu errado!
Não posso passar a mão na sua cabeça e dizer que vai ficar tudo bem, porque não vai!
Seja adulta pra pelo menos enfrentar as consequências dos seus atos
[12:26]
Você:
Irelia
Por favor
[12:27]
Rely ♥:
Kai’sa
Você vai passar por uma situação horrível agora
E eu não posso te ajudar
Você já se afundou
Não quero me afundar junto
Mais do que já afundei
[12:27]
Você:
Do que está falando?
[12:28]
Rely ♥:
Você nunca percebeu
Eu tinha inveja de você
Quando éramos crianças e patinávamos juntas
Você sempre ficava em primeiro, não importava o quanto eu desse duro
[12:28]
Você:
Eu não sabia que se sentia assim
[12:29]
Rely ♥:
Não é culpa sua se eu fui uma criança invejosa
Eu paguei pelo meu erro de querer ser melhor do que você
Não posso mais patinar, tenho sorte de ainda conseguir andar depois de tantas quedas feias
E sabe o que me frustra?
Você também não merece patinar
E eu te apoiei mesmo assim
Kai’sa, não sei como você vai enfrentar isso
Mas precisa ter noção da merda que fez
Você não merece patinar agora, precisa crescer primeiro
E eu vou torcer pra isso acontecer
Mas precisa partir de você, entende?
[12:30]
Você:
Eu entendo
Eu sinto muito Irelia
[12:30]
E então chegou o momento que mais lhe causava angústia: falar com Ezreal. Ele, mais do que todos, estaria com raiva de seus atos.
— Não posso te perdoar, Kai’sa. — disse, claramente irritado — Não posso te perdoar por ter me feito de idiota, esse tempo todo! Você, por acaso, se importou comigo em algum momento?
— É claro que sim! Ez... — a vontade de chorar retornou pela quarta vez, sentiu-se destruída quando ele não lhe chamou de “pesseguinho” — Eu não queria que nada disso tivesse acontecido!
— Só me responda uma coisa, Kai’sa Cellest! — Ezreal proferiu seu nome completo com um ar sarcástico que não era do seu feitio e isso a deixou assustada, seu erro acabou mudando completamente a forma como ele a trata — Você me ama?
Silêncio. Ela abriu a boca mais de uma vez e não conseguiu lhe responder. Sabia o que ele queria ouvir, porém não tinha certeza do que queria dizer. E diante da falta de palavras dela, Ez sorriu triste:
— Vai embora, Kai’sa.
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Perdida. Kai’sa estava completamente perdida, sem rumo. Trabalhar no Sunshine era insuportável, Akshan não falava direito com ela, ainda chateado. Irelia estava sumida, agora que Kai’sa perdeu sua posição como parceira de Ezreal, ela não ia mais ao Icycreek, portanto, não havia motivos para que a taiwanesa fosse torcer por ela, se não mais competiria. Seraphine ficou de birra por alguns dias, no entanto, relevou a mancada da irmã e se tornou um dos poucos alicerces que ainda mantinham Kai’sa sã, juntamente de sua mãe que, inesperadamente, parecia bem melhor depois da temporada que passou na clínica, o tratamento deve ter surtido algum efeito e, mais do que nunca, Kai’sa precisava de uma família que a compreendesse.
E nada poderia ser mais doloroso do que ter se afastado de Ezreal. Deus, como ele lhe fazia falta, mais ainda do que a patinação. Ela se arrependia de tudo, de ter aceitado ir naquela porcaria de velório, de ter dado corda para as loucuras de Jayce – que voltou para os Estados Unidos – e, mais do que isso, Kai’sa se condenava e se odiava por ter magoado as pessoas mais importantes de sua vida.
Talvez anjos como ela não merecessem o amor.
— Filha, o jantar está servido. — Bel’veth adentra o quarto de sua primogênita, Kai’sa não queria ficar sozinha, então se mudou temporariamente para a casa das Cellest.
Nem mesmo fome ou vontade de chorar ela conseguia sentir, Kai’sa tinha perdido o brilho em seus olhos, não sorria mais e parecia transtornada, como se sombras tivessem se apossado de seu corpo e mente, era quase como uma morta-viva, fazia tudo no automático e não ligava pra quase nada. Estava claro para todos que a vissem que aquela tristeza profunda não era simplesmente tristeza, e isso era perigoso.
— Kai’sa, eu sei que não está sendo fácil, mas se tem uma coisa que eu aprendi, é que não podemos esperar sentados, os problemas não se resolvem sozinhos. — aconselhou, se sentando na beirada da cama e fazendo um carinho nos cabelos escuros — Você pode tentar mudar, tanto por você quanto pelos outros. Existem certas lições que só aprendemos com a dor, e se você está tão arrependida, não acha que tem um bom motivo pra querer consertar as coisas?
— Eu não sei como consertar isso... — murmurou, se encolhendo no abraço da mãe.
Um abraço que ela mal sabia que sentia falta, também.
— A resposta talvez não esteja muito clara ainda, mas ela chegará, Kai’sa. Só que você também tem que procurá-la! O que você tem a perder? — riu, dando um beijo na testa da filha — E você precisa comer, se quer realmente fazer algo a respeito.
— Obrigada, mãe. — agradeceu num murmúrio contido, nunca pensou que essa cena aconteceria na vida real, sempre imaginou que suas fantasias de ter uma mãe melhor jamais se realizariam.
Pode ser que Kai’sa esteja errada sobre muitas coisas, precisava se corrigir de algum jeito.
— Nunca é tarde pra mudar, e tenho certeza de que você consegue. — sorriu por fim, ajudando a filha a se levantar — Você viveu momentos angustiantes, Kai’sa. Perdeu a chance de disputar vários campeonatos que a levariam ao seu sonho das Olimpíadas, aquele acidente no gelo não significa que você é uma fracassada, nem a sua briga com o Ezreal. Você é ótima patinadora, a melhor, e se não fosse, por que Ezreal teria insistido para que aceitasse a parceria, hm?
— É verdade, ele insistiu muito. — soltou o ar como se fosse um riso.
— Você é forte, Kai’sa, e pode enfrentar mais uma tempestade. Agora, seja sincera, o que você sente pelo Ezreal?
Antes que ela pudesse tentar responder o questionamento da mãe, Seraphine bateu na porta, berrando que o jantar vai esfriar e ela vai comer sozinha.
— O que você ia me dizer... Diga ao Ezreal quando estiver pronta, ele a ouvirá! — afirmou com um sorriso terno — Vamos comer!
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Dedico esta epístola à todas as pessoas que magoei recentemente.
Akshan, eu não queria que você tivesse perdido sua chance na equipe de esqui, eu realmente sinto muito por tê-lo envolvido numa briga, fruto da minha inconsequência de ficar bêbada, quando prometi a você que nunca mais ficaria nesse estado. Você tem total razão em me odiar por ter estragado tudo, mas eu quero pedir mais uma chance de me redimir. Você é meu melhor amigo e tem sido insuportável não falar contigo, mesmo que passemos horas ao lado um do outro no Sunshine.
Para Irelia, eu sinto muito por ter feito besteira mais uma vez, você também tem seus motivos para me abandonar. Nessa situação, eu mesma me abandonaria se pudesse. Eu falhei, várias e várias vezes, não fui a melhor amiga que, de longe, você foi pra mim por todo esse tempo. Não vivo sem você e preciso que volte pra mim, é a minha melhor amiga. Sinto muito por frustrar seus anseios do primeiro lugar na infância, nunca percebi que se sentia inferior a mim. E você não é inferior a ninguém, muito menos a mim! Você é a melhor amiga que alguém pode ter e uma pessoa muito melhor do que eu, e merece toda a felicidade do mundo por ser desse jeitinho.
Para Seraphine, minha amada irmãzinha, eu sinto muito por ser a pior irmã mais velha, por não ter conseguido pagar para que você voltasse a treinar e não ter sido a melhor companheira, por ter lhe deixado sozinha diversas vezes no meu apartamento, quando você mais precisava de companhia. Eu lamento por não ter assistido (ainda) aquela série que me recomendou, espero que ainda possamos fazer isso juntas futuramente. Me perdoe por ser uma imbecil.
Para minha mãe, peço desculpas por não ter acreditado na sua melhora, todo mundo pode mudar e você conseguiu! Eu nunca admiti isso, mas sempre senti falta de ter contato com uma mãe que me ama, e essa mãe é você. Obrigada por ter me apoiado depois de tantas brigas e situações desagradáveis que vivenciamos. Eu te perdoo pelos seus erros, pois, você me perdoou pelos meus igualmente.
Para os senhores Lightfeather, eu sinto muito por falhar como parceira do seu filho, fui irresponsável e estraguei tudo, agradeço por pagarem pelas minhas horas na pista de gelo e pelos meus figurinos. Não vou pedir que o façam de novo, já tive minha chance e a desperdicei. Eu peço que não descontem em Ezreal pelos meus erros, ele não tem culpa de ter escolhido uma parceira ruim.
Para Fiora Laurent, obrigada por ter me ensinado tantas coisas, por ter me feito amar a patinação novamente e por ter visto potencial em alguém que não soube valorizar suas aulas. Eu espero que você tenha encontrado uma boa substituta e que ela saiba apreciar os treinos que você passar para ela e o Ez.
E para você, Ezreal Lightfeather, eu não mereço o seu amor. Você enxergou tantas virtudes em mim, muitas delas irreais, e eu lhe decepcionei mais do que a todos. Eu realmente queria ficar ao seu lado, mas sei que isso não é possível agora. Me odeio por ter permitido que uma pessoa tão boa fosse embora da minha vida, você não tem ideia do quanto sinto sua falta. Do quanto você me amava e não fazia questão de esconder o que sentia por mim. Sinto falta das suas cantadas idiotas, dos nossos momentos como dupla, nossa dança sobre o gelo, na confiança que eu sentia quando tínhamos que fazer uma manobra mais arriscada, quando você me garantia que eu estava indo bem nos treinos e que continuaria sendo o anjo perfeito das pistas. Sinto falta de ser acordada por você, no seu quarto. Sinto falta dos seus sorrisos e do olhar de admiração que me direcionava, era um olhar bobo e eu me encantava sempre que você me olhava assim. Sinto falta de quando eu podia te amar sem culpa, ainda que não conseguisse dizer em voz alta o quanto te amava. Ez, eu não quero que me dê outra chance, eu não sou um anjo perfeito e você descobriu isso da pior maneira, eu lhe feri e acabei com o que tínhamos antes de dizer a verdade.
Eu te amo, Ezreal Lightfeather, e agora é tarde demais pra te dizer isso. É covarde da minha parte só falar isso tardiamente e por uma carta! Mas, se você ainda me quer mesmo com todas as minhas falhas, venha me encontrar no Icycreek quando todos forem embora do treino da noite e traga seus patins. Irei provar que a nossa química ainda existe.
Vou estar lhe esperando.
—K.C.
A noite caiu e Kai’sa estava ansiosa, os outros patinadores foram saindo um por um da pista de gelo, ela ficaria aberta apenas por mais algumas horas e se Ezreal não aparecesse nesse meio tempo, significaria que não conseguiu lhe convencer. Tinha sido sincera em sua carta, não apenas com ele, como com todo mundo. Quando enviou para cada uma das pessoas que devia desculpas, recebeu um abraço apertado de Seraphine e o seu perdão, um abraço e um beijo no rosto de sua mãe, mensagens de texto de Irelia dizendo que chorou lendo tudo aquilo e que Kai’sa era a melhor amiga de todas, uma ligação de Akshan dizendo que ele conseguiu se acertar com os investidores e pôde retornar ao time de esqui, e que agora estava tudo bem entre eles. Falar normalmente com sua família e seus melhores amigos era uma benção.
O pai de Ezreal aceitou seu pedido de desculpas e Cristina, sua esposa, afirmou que não brigaram com o enteado e que Kai’sa poderia ficar em paz em relação a esse assunto. Fiora também aceitou suas desculpas e disse que, se dependesse dela, voltaria a treiná-la e a levaria às Olimpíadas, como havia prometido.
Restava apenas uma pessoa, e essa era a mais importante, aquele que Kai’sa mais decepcionou.
Ezreal Lightfeather.
Depois de esperar quarenta minutos sentada com os patins guardados dentro de uma bolsa, Kai’sa ouviu a voz suave do antigo parceiro.
— Pesseguinho. — ser chamada pelo apelido causou arrepios nostálgicos na Cellest, como se fizessem anos desde que Ezreal lhe chamara assim — Você queria me ver...
Vê-lo novamente lhe causou uma sensação de euforia, coisa que ela definitivamente nunca sentiu com ninguém antes, nem mesmo Jayce Talis. Ele estava com uma feição séria, porém continuava lindo como sempre e Kai’sa se pegou admirando a face bela do homem que ama, lhe encarando e esperando que dissesse alguma coisa. Era hora de acertar as coisas, juntou toda a coragem que possuía e começou a falar:
— É, eu queria sim... — encarou-o apreensiva — Quer dizer que você leu a carta...
— Li dezenas de vezes. — confessou — Acho que fiquei surpreso demais pra acreditar.
— Não lhe culpo, nem eu sabia que podia escrever uma carta daquelas. — riu, claramente nervosa.
— O que você tem pra me dizer, que não conseguiu escrever em carta? — perguntou sério.
Kai’sa respirou fundo, limpando as mãos suadas na calça, deu um passo à frente, agradecendo o fato de o Lightfeather não ter recuado quando ela ousou se aproximar um pouco dele.
— Você me perguntou naquele dia se eu te amava. — iniciou, olhando profundamente nos olhos dele — Eu não consegui responder. Algo em mim me impedia de te dizer o que eu sentia.
— Esse algo ainda existe? — perguntou ele, Kai’sa nega com a cabeça.
— Eu não tenho mais medo. — sorriu — Ezreal, eu te amo.
— E você descobriu isso só agora? — questionou.
— Não, eu já sabia muito antes. Só não queria admitir... — desviou o olhar, um pouco desconcertada — Tudo o que eu disse na carta é real. Eu amo patinar e não me vejo sem fazer isso, só que... Eu não me importo em patinar ou não, desde que eu possa te amar também! — sorriu mais ainda — Eu não sou um anjo perfeito, mas acho que posso amar, Ez. E quem eu amo é você!
Ezreal não disse nada, queria fazer pose de durão por mais alguns minutos, mas diante daquele sorriso tão meigo, vacilou e sorriu junto com ela, rindo da sua própria falta de postura.
— Eu também amo você, pesseguinho. E, sabe? Acho que até anjos merecem amar também, mesmo que não sejam perfeitos.
Alguns romances possuem seus percalços, porém o que motivava esses dois a persistirem em seu amor vai muito além da compreensão humana. Ali, sozinhos na pista de gelo, os dois amantes patinaram mais uma vez para se recordar de seus melhores momentos, juntos e em sintonia, trocando sorrisos e beijos na escura e isolada Icycreek, fazendo juras de amor que somente verdadeiros apaixonados possuem o privilégio de dizer em voz alta.
E quem diria? Até mesmo anjos imperfeitos como Kai, ou melhor, Kai’sa Cellest, merecem o mais genuíno e puro amor.
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