Anjos enfeitiçados
5 Capítulo 4 - Inesperado
Scarlett foi a última a sair do barco enquanto Alissa esperava lá fora apenas esquentando no sol.
–Foi incrível. -Declarou. Apesar de ter ficado chocada em alguns momentos, o passeio foi de todo agradável.
–E vai ficar melhor... -Scarlett respondeu dando de ombros se virando e caminhando para longe dela. Alissa não entendeu o que ela quis dizer. Quando deu o primeiro passo alguma coisa a agarrou pelo pulso. Ela instantemente arregalou os olhos virando-se para ver a pessoa que a puxou.
Era Joseph, aquele quem mandou chama-lo de Joe, aquele com um incrível cabelo preto. Ele estava vermelho por causa do sol e de imediato entendeu o que Scarlett falou.
–Desculpa. -Disse Joe hesitando. Seus olhos também estavam arregalados e o verde deles dançava pelo rosto de Alissa.
–As pessoas tem costume de se desculpar depois que o mal já foi feito. -Respondeu. Joseph olhou para o braço de Alissa e recuou.
– Eu... -Começou com a voz mais calma do mundo. — Percebo o erro só depois que cometo. — Havia franzido o cenho olhando para baixo com a cabeça levemente virada.
–Não precisa se desculpar. -Alissa se arrependeu por ter sido um tanto grossa. -Fui dramática demais...
–Está melhor? — Joe perguntou erguendo uma sobrancelha.
No princípio ela achou que ele se referia ao pulso que ele havia apertado, mas ela viu a expressão do rosto de Joe e entendeu de imediato.
–Pela morte? -Ela estava de frente para ele, não muito perto, porém podia sentir seu hálito. Hortelã e ele cheirava a madeira, perfume masculino e... E... Alguma fragrância que não conseguia desvendar.
–Ninguém se importa realmente com a morte de um desconhecido. Às lágrimas são passageiras, até para aqueles que de fato perderam. Porém, a dor só permanece naquele que de alguma forma era ligado à pessoa. -Ele havia empalidecido e ela prosseguiu. -Não era próxima daquele animal para chorar por ele, minhas lágrimas seriam uma mistura de mentira e de verdade...
–Jogamos para fora através de lágrimas toda a tristeza que o mundo nos trouxe, acidentes antigos, assassinatos... Tudo você despeja. -Interrompeu-a entendendo o que ia dizer e concluiu. -Mas, realmente... Você não se importa.
Ela se impressionou, ele entendeu seu pensamento a ponto de concluir. Não achava que um comandante de um pequeno barco mundano e ainda jovem poderia entender e pensar da mesma forma. Tolo, achava que ele era tolo.
–Exato. — A voz de Alissa falhou ao falar.
–Se eu te chamasse para sair comigo, sairia? Poucas meninas recusariam sair com um rostinho tão lindo. — Quando Joe falou ele estava sorrindo discretamente. Ele mudou sua expressão quando Alissa não respondeu. -Sabe que estou brincando, não é? So-sobre as meninas...
–Não -Respondeu Alissa erguendo as sobrancelhas.
–Sabia! Muitas meninas nunca recusariam... -Disse o rapaz com um ar sarcástico.
–Entendeu errado. Eu não sairei com você, não o conheço, desculpa. -Ela resolveu explicar a situação, Joe havia entendido outra coisa que quase a fez sorrir.
Joe não mudou a expressão, como se já soubesse a resposta. A menina virou-se a procura de Scarlett e lembrou o que ela havia dito para ela. Ela acharia compaixão e bondade nos humanos que não acreditara que todos mundanos eram seres do mal.
Lembrou também que no barco o único que percebera seu desespero foi Joseph, e que viu tristeza nos olhos dele ao olhar para o animal morto no rio. Ela voltou-se para o rapaz de olhos aflitos, tão verdes que parecia que foram pintados.
–Como quer conhecer a humanidade se não quer conhecer a mim? -Joseph parecia desapontado.
–Como sabia? -Se lembrava muito bem de tudo que conversou com Joe e não lembrava de ter comentado nada sobre “Ela querer conhecer a humanidade.”
–Scarlett... -Ele esquivou-se um pouco e olhou além dela.
Ela ruborizou. Scarlett não podia ter falado isso para um desconhecido. Rodou com os olhos arregalados e um pouco furiosa.
–Scarlett! -Gritou. Ela estava encostada em uma árvore. Mesmo de longe pode ver o rosto de sempre sarcástico de Scarlett.
–Só aceita. -Gritou Scarlett.
Ouviu uma rápida tosse e quando virou Joe estava pálido e o que se destacava em seu rosto era o rubor das bochechas.
Ela mordeu o lábio e soltou o ar que nem sabia que estava segurando.
–Eu aceitaria sair com você.
–Finalmente! — Pode ouvir Scarlett falando baixo mas ainda sim, audível. Como ela é intrometida, pensou
* * *
Joe estava feliz. Pensar que sairia com alguém que acabou de conhecer era estranho, porém Alissa era misteriosa, ela tinha compaixão e ele queria saber mais sobre ela.
Estava quase chegando em casa, só queria desabar na cama e dormir um pouco. Uma névoa apareceu ao redor de seu carro e achou estranho, pois nem frio estava.
Abriu a janela do seu carro e foi interrompido por um excesso de tosse, foi ai que percebeu que não era névoa, mas fumaça.
Saiu do carro e ao olhar para frente havia uma casa grande em chamas altas espalhadas por toda parte, bombeiros jogavam água e gritavam para as pessoas se afastarem. Era sua casa, sua casa estava em chamas amarelas e vermelhas. Olhou para o lado a procura de alguém conhecido e encontrou Carolina caída chorando no chão encostada a parede. Ele correu para Carolina que estava suja e um tanto queimada, abaixou- se e disse.
–Carol o que aconteceu? O que aconteceu Carol? -Ela olhou para cima enquanto soluçava.
–Carol! -Continuou Joe -Onde esta o Max? Onde esta o Max Carol?
Ela começou a chorar ainda mais quase berrando.
–E-ele -Choramingou ela -Ele esta lá dentro... -Ela havia parado e ele entendeu o que aconteceu.
Tudo congelou, seu coração acelerou. Fúria, tristeza e desespero o invadiram.
–Ele esta lá dentro. -Repetiu Joe. -Pode estar vivo. — Ele criava esperanças, não podia acreditar que Max, o seu Max estava morto, tudo o que viveu com ele passou em sua mente, viu sua felicidade e tristeza, aquele homem forte que era apaixonado pelas namoradas, seu amigo Max não estava morto.
– Joe... Não tem mais... -Começou Carolina com a cabeça abaixada, chorando.
Joe tocou o rosto e percebeu que estava molhado, ele estava chorando, agora as lágrimas queimavam o seu rosto como o fogo queimando o seu coração.
Ele levantou-se e correu para sua casa, desviando-se do caminhão de bombeiros e logo um homem alto o barrou quase na porta de sua casa.
–Você não pode entrar senhor. -Apesar do alvoroço o homem disse calmamente.
–É minha casa –Berrou. Joe soube que mesmo sendo sua casa o bombeiro não o deixaria entrar, então ele o empurrou para longe do seu caminho. Cambaleando Joe chutou a porta, uma dor aguda invadiu seu pé, porém a força não foi em vão e a porta se abriu.
A casa estava em chamas, mobília caia do andar de cima, as paredes estavam rachando-se e a escada estava detonada.
Correu para a cozinha, era o lugar que Max mais gostava de ficar, fazer comida era um dos passatempos prediletos dele.
Era,Pensou. Afastou o pensamento, não ia agir como se ele já estivesse morto.
–Max! — Berrou Joe com a voz falhando.–Max!
Ouviu alguém tossir fraco e desta vez não era ele. Joe se curvou sobre a mesa de jantar e no canto da parede tinha uma pessoa com roupas queimada e suja de sangue. Era Max.
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