Lá estava eu naquela escura noite olhando para a brilhante lua e as estrelas que a cercavam, fazendo do céu um quadro radiante, de longe podia ver que algumas nuvens escuras se aproximavam indicando que logo choveria. Toda aquela paisagem fazia com que eu me lembrasse do meu pai e de como nós passávamos horas a fio sentados no gramado, apenas observando a noite passar, enquanto minha mãe preparava o jantar.

Alguns respingos começaram a cair do céu trazendo consigo um ar um pouco gélido, o que interrompeu brevemente meus pensamentos, a chuva estava chegando, assim como eu havia previsto mudando a visão do céu estrelado. Os poucos pingos gelados que caiam logo fizeram com que meus pensamentos voltassem a um momento nostálgico, me lembrando do dia em que meu pai faleceu. Estávamos todos em casa, era um dia frio e havíamos começado a ver um filme embaixo dos cobertores sentados na sala de estar. Eu estava com sede e queria tomar um chocolate quente, mas eu queria especialmente aquele que vendia na cafeteria da esquina. Robert, como o bom pai que era não hesitou em sair de casa e enfrentar uma bela ventania para satisfazer meu desejo, minutos após sua saída nós ouvimos um forte barulho que parecia estar vindo da calçada juntamente com os latidos raivosos de Bob o cachorro dos nossos vizinho, mamãe e eu fomos olhar pela janela para ver o que estava acontecendo, com um pouco de dificuldade conseguimos ver que dois assaltantes estavam tentando entrar na casa da frente, um dos homens estava caído no chão, creio que o barulho que escutamos era dele caindo do muro alto. Minha mãe foi correndo pegar o telefone para chamar a polícia, nossos vizinhos haviam ido viajar e de forma alguma nós iríamos tentar impedir os bandidos por conta própria. O cachorro era grande, seu dever era justamente proteger a casa, foi para isso que a família Leners o adotou, ele pulava alto, mas não tanto quanto o muro que cobria a casa, seus pulos só faziam com que a cabeça de Bob ficasse amostra. Minha mãe já estava falando com a atendente da polícia quando vimos meu pai voltando para casa, pela janela eu fiquei fazendo gestos para meu pai, pedindo para que ele parasse e se escondesse afinal os bandidos estavam armados, nós não sabíamos do que eles eram capazes, mas ele não estava entendendo os gestos que eu estava fazendo, apenas diminuiu o passo e cerrou os olhos tentando enxergar a janela. Nesse momento ouvimos o barulho de um tiro, eu virei instantaneamente a cabeça em direção aos dois homens e minha mãe veio correndo para perto da janela, os bandidos atiraram na cabeça do cão enquanto ele pulava no muro. Mamãe me tomou em seus braços e nós continuamos olhando pela janela.

- Ei, tem alguém ali... Quem é você? – Um dos bandidos gritou apontando a arma para meu pai que estava paralisado.

- Atire nele! Não podemos ter testemunhas e precisamos ir logo, já devem ter ouvido o tiro, não vai demorar muito pra mais alguém aparecer por aqui.

A essa altura meus olhos já estavam cheios de lágrima. O barulho do carro da polícia surgiu no ar, indicando que eles estavam chegando. Os bandidos olharam para todos os lados desesperados e saíram correndo, mas não antes de atirarem em meu pai que caiu bruscamente no chão. Saímos correndo para fora de casa, indo em direção ao corpo caído, ele já não respirava mais...

Novamente meus pensamentos foram interrompidos pela chuva que agora caia mais forte e se misturava com as lágrimas que invadiam meu rosto, pelo menos as pessoas que estavam fugindo da chuva não iriam notar meu choro. Aquele incidente aconteceu há dois anos atrás e eu não poderia nunca me esquecer daquele dia, porque eu nunca mais vi as pessoas como antes, daquele dia em diante eu só conseguia ver o lado ruim e brusco das pessoas e por isso as odiava, todas sem exceção, nem mesmo minha mãe se safava desse meu julgamento, depois que meu pai morreu o lado sereno dela foi junto com ele, deixando apenas a velha Rebeca drogada e alucinada de todos os dias. Olhei para o relógio, eram 21:00 em ponto, logo eu iria iniciar minha busca, enquanto isso permaneço na chuva, apesar dela estar caindo com força, ela me acalmava.

Sou fascinada por anjos da morte, o trabalho deles me admira demais, são eles quem estão com os humanos na hora de sua morte, são eles quem os leva e por isso eu os adoro, tiram desse mundo espetacular os seres humanos nojento que aqui vivem. Minha fixação por eles começou quando uma mulher que andava bêbada na rua foi atropelada por um ônibus e eu vi, pela primeira vez um anjo da morte com aquelas enormes asas beijando a jovem mulher e retirando sua alma, para sempre. Nunca mais vi nenhum outro, mas desde então eu venho procurando por eles, na esperança de poder velos novamente, conversar com um deles, ou até mesmo quem sabe me tornar um deles. É incrível como você pode encontrar quase tudo que procura na internet, basta saber procurar. Foi assim que cheguei tão perto de encontrar um anjo da morte, entrei em um site sobre anjos da morte e arranjei uma forma de chamar a atenção do criador do site por uma mensagem privada, então ele me disse que se nos encontrássemos hoje ás 22:00 ele me diria como invocar um anjo da morte, marcamos em um bar a umas duas quadras daqui, claro que eu não iria sozinha e nem desprevenida, um amigo meu, Luck, vai comigo, porém ficará do lado de fora apenas esperando que eu lhe ligue caso algo de errado aconteça e também irei levar em minha bolsa, algumas coisas que poderão ser úteis, afinal quando se quer invocar um anjo desses, não se deve mostrar o rosto de prontidão.

- Cassie, entre já, não vê que está chovendo... Vai ficar resfriada e eu não vou lhe comprar remédios!

- Já estou indo mãe!

Essa era minha maior preocupação no momento, minha mãe não vai me deixar sair, estou de castigo. Só espero que meu plano com ela funcione. Entrei em casa como ela havia mandado, ultimamente ando fazendo de tudo para que a gente não brigue. Fui direto pra cozinha preparar um leite pra ela, fiz do jeito que ela gosta quentinho para ela não perceber o gosto do meu ingrediente secreto, o Boa noite cinderela. Tá eu sei que não se deve fazer isso com a própria mãe, mas o que eu poderia fazer então?! Como eu não tenho certeza de quanto tempo dura o efeito disso, tripliquei a dose. Levei para ela que me olhou meio desconfiada, mas logo pegou e tomou o leite todo, de uma só vez. Olhei no relógio 21:40, Luck já devia estar chegando. Minutos depois ela apagou, apaguei todas as luzes e deixei um bilhete perto da porta de meu quarto , “Mãe, você dormiu tão rápido que nem pude te dar boa noite. Estou dormindo, não me incomode, ando com insônia” pro caso dela acordar antes da minha chegada.

Ouço uma buzina, deve ser Luck que veio me buscar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.