Anjos da Noite: O Despertar

11 Capítulo 9 - A visão


Notas iniciais
Gente, deu pra dar mais uma atualizada por hoje.
Enfim, espero que gostem.
Tudo vai começar a fazer sentido mais em breve. :)

Música sugerida:

http://www.youtube.com/watch?v=0f0dyATTURs

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Mais uma noite sem conseguir dormir direito. Eu já estava acostumado, meus pesadelos praticamente faziam parte de mim. Abri os olhos e percebi que o dia já estava perto de terminar. A luz do sol me deixava tão indisposto...


Aquele dia eu não pretendia fazer nada, além de ler algumas obras de Maquiavel e Sócrates. Quem sabe tocar no piano, tomar um vinho ou sair por aí. Desde aquele incidente, meus dias, longos dias, se resumiam a isso: não fazer nada.

Levantei da cama, bocejei e ajeitei meu cabelo que estava bagunçado. Fui até o banheiro e decidi tomar uma ducha. Queria a todo custo tentar tirar as cenas do meu sonho ruim da minha cabeça.

A água estava fria, mas eu não me importei.

Liguei a ducha no máximo e o jato era tão forte que massageava de maneira agradável as minhas costas. Encostei a testa na parede de cerâmica branca, cerrei os meus olhos e suspirei.

Minha vida não era nada além de um longo e infindo pesadelo. Acho que jamais iria esquecê-la ou me perdoar por a ter deixado sozinha aquele dia.

De repente, alguém tocou suavemente a porta do meu banheiro. Era a minha noiva, chata e pegajosa que eu suportava por pura pena e obrigação. Ela sempre vinha a essa hora.

Eu já estava de saco cheio.

– Querido, posso entrar?

– Sim. — Eu disse revirando os olhos. Continuei tomando o meu banho normalmente.

Sem pedir permissão ou me perguntar nada, ela ficou ali me observando.. Eu estava ficando incomodado.

– O que foi? O que você quer? — Eu disse me virando de frente pra ela.

Ela me encarou firmemente. Analisou meu corpo despido com olhos maliciosos e então voltou a me encarar.

– Eu quero você.

Ela sorriu torto e começou a tirar a roupa.

De fato, ela era linda. Isso, infelizmente, eu não podia negar. Seus olhos grandes e prateados iguais aos meus. Seus cabelos finos, lisos e castanhos um pouco abaixo dos ombros. Sua sobrancelha expressiva. Era como uma boneca, pequena e delicada.

Mas ela poderia ser uma garota bem cruel.

Por fim, ela tirou a bota, o vestido preto e cheio de detalhes, depois tirou sua meia calça preta e, por fim, suas roupas íntimas. Soltou os cabelos castanhos que antes estavam presos num coque e entrou no banho comigo.

Nós nos beijamos. Eu não me importava. Seria só mais uma transa com a minha irmã.

Eu não sentia nada, só queria me distrair. Deixar de lado meus próprios pensamentos que teimavam em me torturar.

Todos sempre me disseram que ela nascera para mim. E embora eu tenha crescido ouvindo isso, nunca pensei dessa forma.

Para mim ela sempre foi a minha irmã mais nova, chata e pegajosa.

– Eu te amo. — Ela disse enquanto eu a colocava contra a parede. Seu corpo estava suspenso e eu segurava suas pernas. Meu corpo estava entre elas.

A água continuava a cair forte. Ela parecia não se importar. Muito menos eu.

– Eu sei — Disse secamente.

Laura estava acostumada a ser tratada de maneira fria e seca. Ela não se importava nenhum pouco com as migalhas que eu dava para ela.

Ela me beijou ávida. Eu permiti.

Não gostava de beijá-la. Mas não queria mais ouvi-la falar que me amava. Isso me irritava muito. Fazia com que eu me sentisse culpado.

Para ela, nós estávamos fazendo amor. Para mim, era apenas sexo.

Transamos ali, por um longo tempo. Saímos do banheiro com nossos corpos molhados e em seguida fomos para o meu quarto, sem parar para nada no meio do caminho. Nossas transas sempre duravam horas. Quanto mais tempo durasse, mais eu poderia me distrair.

Eu a odiava. Ela havia me tirado o que eu tive de mais precioso um dia. Jamais a perdoaria.

Terminamos ali, já havia se passado quatro horas. Ela parecia exausta e satisfeita, pois descansava com um sorriso estonteante no rosto.

E eu estava exausto da presença dela, mais uma vez.

Me vesti e a deixei sozinha. Saí para o terraço do apartamento e abri as asas.

A noite era fria e barulhenta. Carros, humanos e anjos no mesmo espaço. Alguns estavam voando, outros só observavam a noite por cima de telhados de casas e prédios.

O mundo aos poucos estava se reerguendo. A guerra há muito tempo findada, estava deixando suas marcas para trás. Os humanos, criados por nós, se contentavam em nos servir sem espírito de revolta. A natureza se reverenciava a nosso favor. O destino também. O próprio Deus dos homens deveria estar se sentindo aliviado.

A crueldade ainda pairava no ar, com anjos caídos vivendo à custa de sangue humano. Mas esta era uma crueldade que não tinha maiores ambições. A nossa crueldade se limitava aos homens. Finalmente estávamos nos vingando da humanidade. Finalmente estávamos no controle.

Eu queria deixar toda aquela agitação e barulho para trás, então voei o mais alto que pude em direção ao oceano. Sem ver a cidade abaixo de mim, pude ter o meu momento de paz.

Eu queria desaparecer daquele Novo Mundo. Meu mundo sem Alice já não fazia mais sentido.

Como se não bastasse a dor que carregava em meu peito, as lembranças voltaram a me atormentar.

Eu estava lá, naquela sala da antiga casa em Hidden Springs. Havia acabado de recuperar a visão e os meus membros já não estavam mais quebrados. Finalmente pude me mover. A casa estava silenciosa e vazia. O coelho cinza de pelúcia estava largado no chão. O único vestígio que ela me deixara.

A única prova de que a sua curta existência não fora apenas uma mera ilusão.

Pela primeira vez, naquele dia, eu chorei.

Eu jamais tivera derramado uma lágrima sequer. Toda a minha vida eu fui frio, calculista e cruel. Toda a minha vida eu fui treinado para anteceder Azor. Eu tirei a vida da minha própria mãe e do seu amante, consequentemente, meu pai cometeu suicídio naquele mesmo dia. E ainda assim, eu nunca derramei uma lágrima sequer.

Matei milhares de homens sem hesitar. Eu queria ser como o meu avô. Eu deveria ser como ele.

E então, aquela estranha e frágil garotinha saiu do ventre daquele pobre e belo anjo recém-criado. Toda a minha vida eu soube que anjos mestiços não eram anjos, mas monstros que deveriam ser aniquilados. Foi por esse motivo que matei minha mãe. Porque era o certo a se fazer.

Mas por que Alice era diferente? Por que ela era apenas uma humana de olhos prateados? Os mesmos olhos do seu pai, William.

Aqueles olhos me hipnotizaram desde o instante em que eu os vi. Por sete anos, apenas sete anos, eu fui feliz. Uma estranha e incômoda felicidade em meio ao caos.

E então, arrancaram-na de mim. O único alguém que eu amei de verdade.

Desde aquele instante, em que pude enxergar novamente, eu jamais soube o que fizeram com ela. Naquele dia, eu aprendi a chorar.

E desde então eu tenho chorado sempre.

Com aquelas dolorosas lembranças, as lágrimas embaçavam a minha visão naquela noite de lua cheia. A lua iluminava e deixava rastros do seu belo brilho no oceano sob mim.

Olhei para o alto, parei de bater minhas asas e caí. Enquanto caía chorava cada vez mais.

Eu me penalizava tanto por ser um Volturi...

Por causa disso, seria impossível conseguir acabar com a minha própria vida.

Balas de madeira, prata ou qualquer outra coisa não eram capazes de nos matar.

Nós Volturi, só poderíamos morrer se arrancássemos e devorássemos o coração da única pessoa que amamos de verdade um dia. Somos cruéis até em nossa morte, arrastando para as trevas conosco o próprio ser amado.

Por isso éramos ensinados a não amar. O amor era a nossa fraqueza e perdição. Um Volturi que não amasse ninguém, era imortal.

E agora eu era imortal.

Alice já não estava ao meu alcance. E, se estivesse, eu não teria pensamentos suicidas.

Por isso Azor não poderia morrer. Ele não amava ninguém além de si mesmo. E ele jamais arrancaria e devoraria o seu próprio coração.

Ao cair na água pude sentir o forte impacto. A água estava gelada e aos poucos eu pude sentir o meu corpo ficando dormente.

Onde Alice estaria agora?

No paraíso, brincando com as flores e anjos celestes, certamente.

Sua gargalhada doce e infantil ecoava em meus ouvidos me atormentando. Minha vida se fora com a dela, treze anos atrás. Eu estava vazio por dentro.

Sendo sacodido pelo balanço suave do mar que estava agradavelmente calmo aquela noite, eu fechei meus olhos e dormi.

Quando acordei, vi os primeiros raios de sol despontando no horizonte. Eu havia sido arrastado até a praia.

Me levantei vagarosamente e com as minhas mãos, dei algumas batidas na minha camisa preta que ainda estava molhada e coberta de areia. Em seguida, fiz o mesmo com a calça branca. Caminhei até a estrada. Ainda não estava com vontade de voar.

Estava sedento. Fazia tempo que não bebia sangue.

Diferente da grande maioria, eu não criava humanos. Achava a companhia deles totalmente desnecessária. Pareciam meros robôs o tempo inteiro correndo para lá e para cá atrás de você, te mimando.

Eu odiava isso. Gostava de viver por conta própria.

Estava descalço então, quando finalmente cheguei à estrada abandonada de concreto, bati meus pés no chão. Estava me sentindo um pouco fraco.

Olhei para o céu que tinha nuvens por toda parte. Iria começar a chuviscar em breve. Abri minhas asas e me preparei para voar.

Então eu a vi.

Estava com um vestido preto soltinho, com detalhes em renascença. Era como uma boneca, pequena e delicada. Seus cabelos ligeiramente ondulados num tom loiro suave passavam da cintura. Eles pareciam dançar com o vento.

Seus olhos claros eram misteriosos. Sua pele era branca e seus lábios e bochechas apresentavam o rubor natural de um ser humano.

Que bela mulher.

Seu cheiro me alcançava com a brisa que o trazia até mim. Parecia querer me hipnotizar.

Era doce. Muito doce. Minha garganta coçava desejando seu sangue, mas eu não consegui machucá-la.

Ela caminhava em direção ao mar. Não parecia ter notado a minha presença.

E eu não queria que notasse.

Pensando nisso, rapidamente me escondi atrás de algumas vegetações ali perto. Rápido demais para que um simples ser humano pudesse se dar conta.

Então a observei.

Ao chegar à beirada do mar, com as ondas tocando seus pequenos pés, ela olhou ao seu redor como se estivesse conferindo se havia mais alguém presente. Se vendo ali sozinha, ela relaxou um pouco mais e sorriu.

Então ela se despiu completamente. Seu corpo parecia uma escultura de arte.

Era como se suas curvas estivessem me chamando para observá-las mais de perto, tocá-las.

A chuva começou a cair e ela olhou para o céu. Parecia agradecida e aliviada.

Um ser humano poderia realmente sorrir naquele Novo Mundo?

Ela me provava que sim. Entrou no mar e brincou com as ondas por alguns minutos.

Não parecia ter dono. Não parecia agir como um servo humano. Era como se estivesse... viva, acordada e consciente.

Ela repentinamente parou de brincar com as ondas. Olhou na minha direção com a expressão perplexa e assustada, correu até a praia, colocou o seu vestido que grudava em seu corpo molhado e com muita pressa, se foi em direção à estrada abandonada.


E desde então, eu nunca mais a perdi de vista.


Notas finais
Gente, que mistério.
Vocês provavelmente perceberam que esse capítulo foi narrado por outra pessoa, certo? Vocês estão curiosos? huahuahauhuahua

Muito mais coisas vem em breve e tudo vai começar a fazer mais sentido. :3

Espero que tenham gostado do capítulo.
Beijinhos e até a próxima atualização :3