Anjos da Noite: O Despertar
8 Capítulo 6 - Asas Negras
Notas iniciais
Aqui vai um capítulo novinho, estreando a segunda parte.
Espero que vocês gostem.
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Eu havia acordado com uma baita dor de cabeça. Meu corpo, braços e pernas estavam extremamente doloridos. O dia estava nublado e eu rezava para que fosse um domingo.
O mais estranho de tudo é que não me lembrava que dia era ou por que estava naquele apartamento enorme e luxuoso, de onde eu vim, para onde vou, se tenho sequer alguém no mundo, qual a minha idade ou até mesmo o meu nome.
Ainda estava deitada naquela cama enorme e macia. Estiquei meus braços para o alto e observei as minhas mãos. Minha pele era de cor branca. Muito branca. Olhei para baixo e percebi que os meus cabelos eram enormes e loiros. Meu corpo era magro e pequeno.
Levantei e caminhei até a cômoda. Acima dela havia um enorme espelho com detalhes em cristais. Eu era tão...
– Bonita. — Deixei escapar.
Nariz e boca pequenos, olhos grandes e claros. Eu realmente era muito bonita.
Não pude evitar o sorriso.
Apesar de toda essa loucura, eu estava calma. Tranquilamente calma. E me sentia “à vontade” naquele lugar, não sei por quê. Talvez realmente fosse o meu apartamento e no fundo eu torcia por isso. Caso fosse, no mínimo, significava que eu era rica. Muito rica. Após me observar no espelho, percebi que eu vestia uma camisa social masculina da cor branca. Ela praticamente me engolia, mas era curta o suficiente para mostrar boa parte das minhas coxas.
Fora a camisa, por dentro eu não usava nada.
Pensando nisso, meu rosto enrubesceu. Será que alguém morava ali comigo?
Desci vagarosamente, tomando cuidado para não ficar tonta e cair. Preparei um café numa máquina de café expresso que estava em cima do balcão da cozinha americana. Minha barriga fazia um ruído ensurdecedor e o relógio denunciava que era quase meio dia. Resolvi abrir a geladeira e não encontrei nada além de bebidas alcóolicas.
– Mas que droga é essa? Cadê a comida?
Minha barriga roncava cada vez mais. De qualquer forma, eu precisava manter a calma.
– Vou tomar café e depois eu tento descobrir de quem é este apartamento e como vim parar aqui – eu tentava me conformar sussurrando para mim mesma essas palavras como se precisasse fazer isso.
O que mais achei incrível é que, apesar de não saber quem eu era, eu sabia de tudo ao meu redor. Quero dizer, sabia o nome da cidade, Bridgeport, sabia o que era uma geladeira e para que servia uma privada, por exemplo. O que significava que eu não era como um bebê e não estava babando.
– Será que eu morri? – Fiz uma breve pausa e me peguei gargalhando em seguida – Pfff. Que pensamento estúpido é esse?
Pelo visto era mania rir da minha própria desgraça.
Uma voz grossa e suave surgiu de repente e eu quase derrubei o café no meu colo do susto que levei.
– Chegou perto... – Provavelmente aquele cara ouviu a minha pergunta estúpida. Aliás, quem era aquele cara? Ele parecia uma visão do paraíso que iluminava o local onde estávamos de tão claro. Seus olhos, sua pele, seus cabelos lisos e bagunçados na cor loiro platinado... Quase como um anjo. Ele era tão...
– Sexy.
Deixei escapar a última palavra. Cobri a boca com as mãos logo em seguida. O que posso fazer? Estava praticamente hipnotizada vendo aqueles músculos bem na minha frente, dentro daquela camiseta cinza rasgada e desbotada.
– O que disse? – O cara não havia entendido, ainda bem! Ou então fingiu que não entendeu pra evitar constrangimento.
– Onde estou? Por que... Não me lembro de nada? – Fiz uma pausa enquanto o silêncio tomava conta do ambiente – Aliás, quem é você?
O cara deu um sorriso torto. Ele parecia estar se divertindo com aquela situação. Fiquei irritada com isso.
– É sério cara. Não tem graça. O que aconteceu com as minhas memórias?
– Isso vai passar – Ele respondeu calmamente de imediato. – Relaxa.
– Relaxa? – Eu bufei. – Olha, eu sinceramente não vejo motivo pra “relaxar”. – Enfatizei a última palavra.
– Vai por mim. Senta aí. — Ele disse fazendo sinal com a cabeça para que eu me sentasse no sofá.
Eu o olhei firmemente com um ar de reprovação, mas no fim, assenti. Eu dependia daquele cara, algo me dizia isso. Quero dizer, o que mais eu poderia fazer? Ir pra rua gritar? E ele provavelmente sabia o que tinha acontecido comigo.
Andei em passos largos e sentei de qualquer jeito no sofá. Havia livros numa mesinha de centro. Livros grossos e velhos de capa dura.
Observei alguns. "Odisséia", "O Morro dos Ventos Uivantes", "A Divina Comédia". Peguei o último e comecei a folhear as páginas velhas e amareladas.
– Esse é muito bom. — Ele disse me observando silenciosamente.
Eu virei meu rosto para sua direção e fiz uma expressão de aborrecida.
Acho que ele não se sentiu ameaçado, porque ele riu. Eu decidi não deixá-lo me irritar naquele momento e voltei minha atenção para o livro. Ele tinha nas primeiras páginas o seguinte texto:
"A Divina Comédia propõe que a Terra está no meio de uma sucessão de círculos concêntricos que formam a Esfera armilar e o meridiano onde é Jerusalém hoje, seria o lugar atingido por Lúcifer ao cair das esferas mais superiores e que fez da terra santa o Portal do Inferno. Portanto o Inferno, responderia pela depressão do mar Morto onde todas as águas convergem, o Paraíso e o Purgatório seriam os segmentos dos círculos concêntricos que juntos respondem pela mecânica celeste e os cenários comentados num poema que envolve todos os personagens bíblicos do antigo ao novo testamento, são costumeiramente encontrados nas entranhas do inferno. Os personagens principais da Divina Comédia são o próprio autor, Dante Alighieri, que realiza uma jornada espiritual pelos três reinos do além-túmulo, e seu guia e mentor nessa empreitada é Virgílio o próprio autor da Eneida."
– Credo. — Comentei por fim, deixando o livro de lado.
– Por quê? – Ele perguntou curioso.
– Inferno, purgatório... Que coisa mais sombria.
Ele sorriu. Mas seu sorriso era meio desanimado dessa vez.
– Você pode me dizer que dia é hoje? — Perguntei finalmente.
– Isso importa?
Eu fiquei chocada. Ele realmente iria me esconder toda a verdade, até mesmo o dia da semana?
– Vai, por favor, me fala! — Eu disse exigente.
– Hoje é um domingo. — Ele finalmente respondeu.
– Ai, que ótimo! — Eu disse exageradamente alto.
Ele deu uma risadinha.
– Não ria, por favor. Já disse que não é engraçado.
– Ops. – Ele fez uma cara meio debochada. Eu tava me irritando com aquele cara.
– Agora me fala, eu te conheço? Quem é dono desse apartamento? Eu ou você? Por que eu perdi minhas lembranças, mas ainda consigo saber como se lê um livro?
De repente, me lembrei dos trajes que estava vestindo e acho que fiquei com as bochechas vermelhas, devido ao calor que senti nessa região.
– Vo-você que me vestiu com isso? — Eu disse apontando para a camisa social que eu usava.
– Calma pequena, uma pergunta de cada vez. — Ele pareceu ignorar completamente a minha reação, bem como a minha última pergunta.
– Não me chame de pequena com toda essa intimidade! — Declarei.
– Tá bom... – Ele disse com uma expressão de chateação. Deixou escapar essa perto do balcão da cozinha. Ele estava preparando um drink. Provavelmente pra ele.
– Olha, desculpa, é que... Poxa, se coloca no meu lugar por um segundo, por favor! – Daí eu desembestei a falar – Eu acordo num apartamento luxuoso, com um cara estranho, abro a geladeira e só vejo bebidas, que é que você é? Um alcóolatra?
O cara começou a rir. Não, é sério! Ele tava dando gargalhadas na minha frente na maior cara de pau. Foi a gota d’água pra mim.
– Grr, pra mim chega! – Grunhi. Então, levantei do sofá e pisei duro até ele, que só ficou me observando com aquela cara de deboche. Parei na sua frente e, com esforço, já que ele era muito mais alto do que eu, o encarei. Meus olhos tentavam o ameaçar, mas ainda assim, ele só fazia rir. Com isso, dei um soco no meio do nariz dele.
Pra o meu azar quem se machucou não foi ele. Fui eu.
Eu gritei de dor.
Minha mão estava sangrando muito. Pensando que aquilo não era normal, eu comecei a ficar assustada.
– Mas o que... – Fui interrompida.
– Sua louca! Você tentou me dar um soco? – Ele fez uma cara de espanto e raiva – Bem feito, tá vendo? Vem cá, me deixa ver como tá isso aí... – Na mesma hora ele me pegou pela cintura e me suspendeu, me sentando em cima do balcão. Era como se eu fosse feita de papel. Ele realmente parecia preocupado. Quero dizer, ele estava bravo... Mas também preocupado.
Mas eu não quis saber.
– Não, sai daqui! – Eu relutei, descendo do balcão. Queria distância daquele homem. Qual é! Eu dei um soco nele e quem se machucou fui eu?
– Calma! Calma! — Ele disse segurando meu braço que não estava machucado.
– Sai de perto de mim! – Eu soltei sua mão do meu braço e corri até a porta da frente. Eu queria dar o fora dali o mais rápido possível. Mas não cheguei até a porta a tempo.
Ele simplesmente apareceu na minha frente como num passe de mágica e me empurrou contra a parede com força. Seus olhos estavam negros. Completamente negros. Só sua íris permanecia da mesma cor. Era horrível. Um pouco abaixo dos olhos estava rachado... Como se seu rosto estivesse rachando. Sua boca estava perto demais de mim e nela havia dentes enormes. Da água pro vinho, o rosto de anjo se transformou em um rosto de demônio.
Eu me encolhi como pude. Estava apavorada.
– Por favor... Não... Não me machuque... – Implorei. Lágrimas caíam dos meus olhos sem parar.
Percebendo o que estava fazendo ele se assustou e se recompôs. Seu rosto voltou ao normal logo em seguida.
– Desculpa... – Ele me soltou e se afastou. – Só não... Só não sai daqui, tá legal? Lá fora é perigoso pra você agora.
– Perigoso? Lá fora? – Eu olhei rapidamente pela janela... Era dia e estava chovendo. Como havia de ser perigoso se era só a rua? Eu estava com medo daquele cara.
– Desculpa... Eu comecei isso errado. Eu vou contar tudo o que você precisa saber, mas primeiro, prometa que vai escutar sem entrar em pânico, tá bom? – Ele pediu humildemente.
Meu cérebro estava reagindo muito rápido com tudo aquilo e eu não tinha parado pra pensar direito. Eu precisava sair dali logo. Então eu lembrei que todos os banheiros geralmente tem uma entrada de luz.
– Tá bom. Você pode pegar um pouco de água pra mim enquanto eu vou ao banheiro?
– Tudo bem. – Ele concordou.
Caminhei até o banheiro que ficava um andar acima de nós.
“Tá. Agora eu só preciso dar um jeito de dar o fora daqui sem ele notar.”, pensei.
O banheiro realmente tinha uma entrada de luz de vidro que se abria. Era minha chance.
Subi na pia e me esgueirei até alcança-la. Então, sem muito sucesso, escorreguei e caí.
Como ele ouviu, eu não sei, pois não havia feito tanto barulho.
– Tá tudo bem aí? — Pude ouvi-lo falar do andar de baixo.
– Tá tudo bem, foi só um descuido. — Eu respondi tentando ser gentil.
Esperei alguns segundos e tentei novamente. Dessa vez, consegui chegar até o telhado do apartamento com sucesso. Era uma cobertura e eu estava no mais alto lugar daquele edifício. Estava ventando muito e eu não sabia mais o que fazer. O cara já devia ter notado minha demora. Eu queria chorar.
Me esgueirei um pouco e pude ver pessoas andando lá em baixo, todas no mesmo ritmo. Havia pessoas, carros, era uma cidade agitada comum. Então, parei pra prestar atenção a alguns detalhes... Haviam algumas pessoas que...
– Asas? — Eu perguntei a mim mesma, fazendo uma careta de dúvida e espanto.
Mas antes que pudesse enxergar melhor, ele apareceu atrás de mim. Como pôde surgir ali tão rápido? Que raios de lugar era aquele? Que tipo de monstro ele era?
Antes que pudéssemos trocar quaisquer palavras, eu me desequelibrei e caí.
Eu nunca pensei que fosse morrer daquele jeito. Sem saber ao menos o meu nome.
Eu estava triste. Não queria ter caído. Não queria morrer assim.
Então, simplesmente resolvi fechar meus olhos.
De repente eu senti alguém me abraçar com toda a força.
– Sua teimosa! – Ele dizia com raiva ao meu ouvido.
O cara se jogou pra morrer comigo?
Eu estava assustada. Um rápido pensamento me veio em mente. E se aquele cara fosse um conhecido? E se ele fosse meu namorado ou marido?
Eu não queria admitir, mas no fundo, também torcia por isso.
Mas, de fato, se não fosse isso, o que o levaria a morrer comigo?
Foram pensamentos que passaram em segundos até eu sentir o impacto suave do chão sob os meus pés descalços.
Nós voamos?
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Ele me segurava fortemente. Os braços dele me aqueciam e me confortavam. Quando abri os olhos, percebi que asas negras enormes estavam ao nosso redor. Elas saíam das costas dele.
Estranhamente ele não parecia ameaçador pra mim. Não mais. Eu não estava mais com medo.
Ao me dar conta de que havia sobrevivido e de que aquele homem não era um humano, eu inevitavelmente comecei a chorar. Chorava como um bebê.
– Shiu. Vai ficar tudo bem agora. Apenas durma. – Foram as últimas palavras que eu o ouvi sussurrar para mim.
Então tudo ficou preto de novo.
Notas finais
Mas calma. Ainda tem muita coisa pela frente...
Depois eu garanto que vocês irão entender.
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