Notas iniciais
Uma tempestade se anunciava no céu, com raios e trovões. A lua ocupou seu lugar, quase invisível, coberta pelas nuvens cinzentas. Todos já haviam se recolhido no condomínio Palmácia, situado num bairro nobre da capital do Ceará. Um jovem casal aguardava, ansiosamente, pela visita que estava para chegar. Lá fora, o carro preto de vidros escuros parou na frente do condomínio. Uma mulher, alta e bem vestida, sai de dentro dele carregando um pequeno pacote em seus braços que logo se revelou sendo um bebê. Ela ninava a criança, sorrindo, enquanto entrava no condomínio pelo pequeno portão de ferro. Era um lugar imenso, emoldurado pela beleza de árvores da floresta que havia atrás das casas. Eram casinhas charmosas, belas por sua simplicidade, típicas “casinhas dos sonhos” que vemos na TV. Em cada uma, havia cercas e um pequeno quintal com gramado na frente. Uma varanda com um balanço e uma pequena escada com acesso a porta da frente.
A mulher entrou, sem delongas. Atravessou o pequeno quintal e, chegando a porta da frente, bateu suavemente três vezes. Um trovão ecoou pelo céu com um som estrondoso. A criança chorou baixinho. A mulher a acalmou. A porta se abriu.
Simone olhou encantada para aquela pequena criança de pele alva e lábios rosados nos braços de Miranda. Ela sempre sonhou em ser mãe. Bem, não era exatamente daquela forma que ela pretendia ser. Mas se seu Mundo precisava dela para cumprir aquela missão, assim ela o faria.
Fazia alguns meses desde que receberam a visita do Conselho que lhe destinou a cumprir a missão de adotar aquela criança e dá-la uma vida distante de toda a verdade sobre sua real identidade. Ela faria isso ao lado de seu companheiro Emanuel, com quem estava junto já há alguns anos.
Eles não disseram nada sobre a identidade verdadeira da criança, ou sobre sua breve história no Mundo Oculto. Mas, é claro, eles ouviram vários boatos. No entanto, não se importaram muito com isso, apenas aceitaram a missão.
Miranda entregou a criança para Simone. Olhou-a de cima a baixo, depois procurou por Emanuel dentro da casa e também o olhou da mesma forma. Segundos depois, ao som do vento e da chuva, ela falou somente:
— Devo ressaltar que esta missão, da qual vocês se tornaram parte essencial, não deve jamais ser revelada para outras pessoas. Obviamente, também nada deve ser dito para esta criança... Até segunda ordem do Conselho se, é claro, houver uma. Se desobedecerem, serão punidos severamente, de acordo com as regras do Mundo Oculto, sob a acusação de traição.
Alguns segundos de silêncio se seguiram. Simone fez um leve aceno com a cabeça, em sinal de compreensão. Ainda balançava a criança em seus braços. Emanuel imitou o ato da esposa aproximando-se dela e abraçando-a pelos ombros. Enquanto isso, Miranda retirou-se e foi embora, sem dizer mais nada.
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