Anjos Turvos
3 Capítulo 3 - Lembranças Amargas
(...)
- Edward? O que foi? – insisti.
Com uma expressão profundamente assustada, Edward abaixou a cabeça, encarando meu prato. Depois de um tempo arfando pesadamente, ergueu a cabeça, e olhando profundamente em meus olhos, sussurrou:
- Isabella Swan.
(...)
Pisquei os olhos repetidamente com força, atônita. Não me lembro de ter lhe falado o meu sobrenome. Eu não costumo dizer meu sobrenome quando me apresento. Como Edward sabia o meu nome?
- Edward, o que está acontecendo? — perguntei pausadamente, esperando qualquer reação brotar de sua face — Como sabe meu nome? – perguntei devagar, esperando uma resposta coerente.
Ele ofegou mais uma vez, desviando o olhar de meu rosto e eu comecei a sentir o peso do erro de abrir minha vida a um estranho.
- De-Desculpa. – falou rapidamente, gaguejando. – Me desculpe Bella, eu só... Lembrei de uma coisa, não era minha intenção te assustar.
Baixei meu olhar para o meu prato a minha frente, não querendo encará-lo, apenas digerindo seu pressuposto.
- Edward, como você sabe o meu nome? – perguntei novamente.
Passou as mãos pelos cabelos, nervoso.
– Acho que já ouvi algo sobre você. Só isso. – afirmou olhando em meus olhos.
Franzi o cenho tentando entender aquela situação. Ao notar minha aparente descrença Edward continuou.
- Você sabe. De Miami. Acho que já tivemos amigos em comum ou algo assim. – sorriu amarelo.
— E por que essa reação? – perguntei ainda desconfiada.
Edward permaneceu imóvel com a boca levemente aberta. Por um momento pensei seriamente em pegar minha bolsa e sair dali. Mas logo um sorriso bobo apareceu em sua face.
- Bella, estou falando sério. Não foi nada. – falou sorrindo enquanto batia em minha mão.
- Suas mudanças de humor me assustam. – falei incrédula.
Edward gargalhou com um sorriso zombeteiro no rosto. Resolvi ignorar aquele episódio, pois já estava ficando com dor de cabeça ao tentar entender aquele homem.
- Então o seu namorado foi vítima de um acidente? – retomou o assunto, novamente sério.
- Aparentemente. – afirmei com pesar.
- O que quer dizer com “aparentemente”? – perguntou Edward, erguendo levemente uma sobrancelha.
- Bem... Naquela noite Jacob estava atrasado para chegar em casa. Liguei para ele e para todos os nossos conhecidos atrás dele, a noite inteira. De madrugada já estava desesperada, então acionei a polícia. Não dormi naquela noite. Na tarde seguinte encontraram sua moto destruída na ponta de um mirante, nos limites de Palm. Jacob estava desaparecido. Tudo indica um acidente, mas nunca encontraram seu corpo. Provavelmente estaria no mar. A polícia não conseguiu nada sobre o caso. Eu sinceramente nunca acreditei no acidente, eu estava desconfiada há mais de uma semana antes do ocorrido de que Jacob recebia ameaças. Infelizmente, nunca tive provas. Mas por favor, eu preferia não falar mais nada sobre isso. – conclui, sentindo a angústia me invadir lentamente.
Mesmo sendo angustiante contar tudo, estava sentindo uma ponta de alívio por falar sobre aquilo com alguém pela primeira vez. Sentia parte de um peso sair de minhas costas. Estaria disposta a falar mais sobre isso, mas não queria que ele soubesse pelo que passei quando Jacob morreu. E eu nem ao menos sabia o que estava se passando por sua cabeça. Perguntar o que estava acontecendo não adiantou então o que me restou foi pensar e tentar entender. Cheguei à conclusão por fim de que talvez Edward já tivesse passado por algo parecido com a minha história. Edward pareceu digerir as minhas palavras por alguns minutos.
- Sinto muito. – murmurou olhando para baixo.
- Já faz quase oito meses. – sussurrei me dando conta de que já havia se passado um bom tempo.
- Se desde então não tem amigos, por que não voltou para Miami? – perguntou curioso.
- Bom, eu já havia conseguido minha estabilidade com o emprego aqui, então resolvi me contentar com o que tinha e reorganizar a minha vida por um tempo. – respondi baixinho.
A boca de Edward estava entreaberta, como se quisesse falar algo, mas ele ficou um tempo apenas me observando.
- Eu não te entendo. – murmurou por fim.
Sorri.
- Então é isso? Há oito meses não sabe o que é diversão? — perguntou ainda insistindo naquele assunto.
Apenas assenti.
- Ok Bella, eu vou à casa de um amigo agora. Esteja pronta às 22h00min. – falou rapidamente, me pegando de surpresa.
Levantou-se com pressa tirando o casaco e jogou uma nota em cima da mesa. Andou rapidamente até a porta do estabelecimento e em segundos, desapareceu entre as ruas de Palm.
Fiquei atônita com seu comportamento, mas quando dei por mim, já estava começando a me acostumar. Deveria estar se referindo ao clube.
- Esquizofrenia é coisa séria... – murmurei para mim mesma, maneando a cabeça.
Pedi a conta e voltei para casa, ansiosa por hoje à noite.
Narração — Edward Cullen
Os miseráveis não têm outro remédio a não ser a esperança. E é nela que me sustento a cada dia quando acordo pela manhã e vejo a foto de minha filha Louise em meu criado mudo. A esperança. Como o meu pai sempre me disse: “A persistência é o caminho para o êxito.” E é na persistência, força de vontade e esperança que me agarro diariamente para procurar a minha menina, a minha Lola.
Mas as pedras em meu caminho se tornam cada vez mais insuportáveis. Ontem eu sabia que estava chegando perto. O meu peito encheu de esperança quando ontem pela tarde recebi a carta anônima informando que Jacob Black estaria no evento à noite. Sendo impulsivo, não pensei duas vezes antes de correr para Palm. Pensei que ele realmente estaria lá, que poderia encontrá-lo e acertar as contas com ele. Pensei que conseguiria tirar a minha menina de seus braços.
Toda vez que eu pensava em minha filha vivendo com Jacob eu sentia mais raiva daquela vagabunda! Bellize Anthonietta Dwyer. Minha ex-mulher. Meu primeiro amor. Sentia-me tão estúpido ao me lembrar de tudo que passei com ela... Por ela. Foi por ela que abri mão de meu amigo de infância, Jacob Black. Foi por causa dela que ele se transformou naquele monstro. Éramos melhores amigos, quase irmãos. Mas ela me escolhera. Escolhera-me para ser seu amor, seu amante, seu marido. No entanto, há quase oito meses eu descobri toda a verdade por trás de sua doce máscara angelical.
18/12/2011 — Miami, Flórida.
Doze minutos para dez da noite. Olhava ansioso o ponteiro do relógio pendurado na parede de meu escritório, movendo-se lentamente. Mal podia esperar para largar de meu expediente e ir correndo para casa celebrar nosso aniversário de dois anos de casamento. Quando Louise nasceu, ainda não estávamos oficialmente juntos, pois Lizzie ainda amava Jacob. Lola já estava perto de completar seis anos. Mesmo muito jovens, sempre cuidamos de nossa filha. Isso sempre fez parte de mim. Entregava-me de cabeça a minhas paixões, sem hesitar.
Havia preparado com a ajuda de meu irmão Emmett um jantar ao ar livre em um dos mirantes mais belos da cidade. Sabia que aquele era o local preferido da Lizz em Miami. Pedi para Lizzie levar Lola à casa de sua avó, para que pudéssemos passar a noite juntos, só nós dois. Estava ansioso para ver a sua expressão surpresa quando chegássemos ao local. Saí apressado do trabalho, sem me despedir de ninguém, com um sorriso bobo no rosto. Cheguei ao nosso prédio e subi as escadas correndo, impaciente demais para esperar o elevador. Mas ao chegar ao corredor de nosso andar, ouvi gritos. Gritos vindos de nosso apartamento. Corri até a porta desesperado, procurando pela chave, quando reconheci uma voz.
- Você precisa contar a ele, Bellize! Já chega para mim! Esse é o meu limite! – ouvi os berros de Jacob ecoando no corredor.
- Não! Não! Você não tem autoridade para me dizer o que fazer! Eu não posso estragar a estabilidade que conquistei, por você! Não é só sobre a minha vida de que falamos aqui! Estamos falando da Louise, do bem-estar de uma criança! – escutei os gritos chorosos de Lizz mais próximos da porta.
Ouvi a tudo atentamente, estacado em frente à porta, atônito demais para me mover. Perguntei-me, esperando encontrar uma explicação convincente para o que Jacob fazia ali. Do que eles estavam falando? Expirei o ar com força, me forçando a respirar novamente, e abri a porta. Minha boca escancarou em choque ao ver a minha esposa nua, enrolada em um lençol. Seus cabelos louros completamente bagunçados e lágrimas escuras escorrendo por sua face. Jacob vestia apenas uma calça jeans e segurava com força os braços de Lizz.
- EDWARD! – Lizzie gritou em choque a me ver ali, parado diante da cena. – Edward, me ajuda meu amor, ele está completamente louco! – falou rapidamente em desespero correndo até mim e puxando os meus braços.
Desvencilhei-me rapidamente de seu toque.
- O que está acontecendo aqui? – falei baixinho, num sussurro, tentando controlar o choque em minha voz.
Minhas mãos tremiam com a vontade de quebrar a cara do bastardo na minha frente.
- Edward, eu não fiz nada, ele veio até aqui e me forçou a... – Lizzie começou, logo sendo interrompida por um Jacob furioso.
- NÃO FORCEI A NADA! CONTE TUDO A ELE BELLIZE! ANTES QUE EU O FAÇA! – gritou Jacob, puxando-a pelo braço bruscamente, afastando-a de mim.
Lizzie caiu no chão com a força do puxão de Jacob e começou a chorar mais forte, com as mãos na cabeça. Eu estava imóvel, meus músculos, travados. Queria poder reagir àquilo tudo, mas o meu corpo não me obedecia. Jacob foi até Lizzie no chão a sua frente, e pôs suavemente as mãos em seu queixo. A proximidade dos dois e o olhar que ele lançava para ela fizeram chamas acenderem em fúria por todo o meu corpo. Jacob começou a falar algo para Lizz, mas a raiva tomou conta de mim. Corri até Jacob e soquei seu rosto com muita força, deslocando sua mandíbula. Jacob massageou a face com ódio já se preparando para contra-atacar, mas fui mais rápido e chutei sua barriga. Sentia o ódio fluir ardendo por minhas veias. Jacob havia ultrapassado todos os limites.
- O que você fez com ela?! – gritei exaltado em sua direção.
Jacob estava no chão massageando a barriga, ao lado de Lizz, que foi em sua direção ajudá-lo. Olhei a cena, embasbacado, sem entender nenhuma reação de ambos.
— EDWARD! O que você fez? – perguntou desesperada ao ver o sangue escorrer do nariz de Jacob.
- É ISSO! PARA MIM, CHEGA! VOCÊ JÁ TEVE A SUA CHANCE! – gritou Jacob para Lizzie, empurrando-a para o lado e se levantando bruscamente. – Louise é minha filha, Edward! Essa vadia mentiu para o babaca aí esse tempo todo! E nós vamos embora daqui. Vamos levar Lola conosco. – gritou andando em minha direção. – Bellize e eu estamos juntos. – afirmou respirando pesadamente, com uma mão no nariz. — Sempre estivemos. Desde o primeiro ano da universidade, depois, quando Louise nasceu, até hoje. — concluiu.
Fiquei imóvel proferindo suas palavras. Eu não acreditaria naquilo, nunca seria capaz de acreditar naquilo, pois Bellize me escolheu. Ninguém a forçou a nada. Por um longo período na faculdade tivemos nossas desavenças por Lizzie amar a ambos, e vice-versa. Mas ela me escolheu. Não queria acreditar, mas diante dos fatos, diante daquela cena ali a minha frente, eu não conseguia imaginar outra explicação para o que estava acontecendo. Ela era a Lizzie. A minha Lizzie estava ali, no chão, enrolada em apenas um lençol, agarrada ao braço de Jacob. Coloquei as mãos na cabeça, bagunçando os meus cabelos com força, encarando Lizzie, que estava com a cabeça baixa, soluçando. Eu queria protegê-la, mas eu precisava saber a verdade da boca dela. Eu nunca a perdoaria se Louise não for minha filha. Ele só podia estar mentindo.
- Lizz, diz-me que ele está mentindo. – pedi de olhos fechados.
Eu estava completamente alterado. Era aquilo o que eu queria ouvir, tudo o que eu mais queria era que tudo aquilo fosse apenas um pesadelo, que ao abrir os olhos eu encontraria a minha doce Lizz esperando-me, bela como sempre fora, para irmos ao nosso jantar de aniversário. Teríamos uma noite maravilhosa, entregar-nos-íamos à forte paixão que nos envolvia a cada beijo trocado, cada carícia e palavra proferida. Amanhã buscaríamos Lola e iríamos à praia, admiraríamos o sorriso de nossa pequena ao brincar na areia e ao sentir a água morna do oceano. Como uma família.
Mas infelizmente, nem tudo é como a gente pode esperar. Ao ouvir seu choro desesperado no chão, sua cabeça baixa de vergonha, sem coragem para me encarar, eu soube. Não pude aguentar o grito agudo de seu silêncio. Impaciente, fui ao chão e puxei seus cabelos com força, obrigando-a a me encarar.
- RESPONDE, VADIA! – gritei, fitando seus olhos culpados.
- Desculpe-me Edward, me perdoe, eu não...
Soltei seus cabelos com violência, corri até Jacob e empurrei-o contra a parede, produzindo um estrondo alto.
- Você não vai levar a minha menina. Quer essa vadia? Pois a leve com você, mas na minha filha você não colocará suas mãos imundas. – sussurrei, apertando o pescoço de Jacob, que se debatia, tentando me afastar.
- CADÊ ELA? LOUISE! – gritei, correndo em direção ao seu quarto.
- Ela não está aqui, Edward. – murmurou Lizzie.
- Eu criei essa garota, eu sou o pai dela! – cuspi na cara de Jacob, que me encarou com ódio, se aproximando de mim.
Estava nervoso demais para pensar com coerência. Eu precisava de meu anjinho ao meu lado. Nunca senti tanto medo em minha vida. Medo do que Jacob pudesse ter feito com ela, ou do que ele faria.
- Onde está a minha filha? – perguntei impaciente para Lizzie.
Não obtive resposta.
- ONDE ESTÁ A MINHA FILHA?! – gritei exaltado novamente em sua direção.
- Ela está na casa da avó, Edward; Edward, por favor, não... – disse Lizzie, mas eu a interrompi.
- Foi por isso que você me escolheu, não foi? Foi por isso que quis casar comigo! Você só queria o meu dinheiro! Você não passa de uma vagabunda! – cuspi as últimas palavras na cara de Lizzie e saí do apartamento completamente alterado.
Desci as escadas do prédio correndo e entrei em meu carro. Minhas mãos tremiam e minha cabeça estava estourando. Ignorei e pisei fundo rumo à casa da mãe de Lizzie, no intuito de pegar a minha filha antes que Jacob cumprisse sua promessa. Precisava dela junto a mim agora. Ao chegar à casa da Sra. Dwyer, constatei que Louise não estava ali. E nunca estivera.
- Sinto muito. – foi tudo o que a mãe de Lizzie quando invadi sua casa gritando por Lola.
Ainda insisti por mais informações. Mas ela alegou não saber o paradeiro da filha. Parecia tão entristecida quanto eu.
Dei meia volta correndo em direção ao meu carro, e ao entrar, puxei meus cabelos com força, esperando que aquela dor física amenizasse a dor em meu peito. Então chorei. Chorei com tanta força que meu corpo tremia com os espasmos. Ao me recompor, voltei para casa, e como já esperava Lizzie já não estava mais lá. Nem Lizzie, nem Jacob, nem minha Louise.
Recordei-me que Jacob morou em Palm Beach todo o tempo em que eu e Lizzie estivemos juntos. Sem nem ao menos considerar outra opção, pisei no acelerador em direção à Palm. Não sabia onde Jacob morava. Não sabia se estariam lá. As pistas na estrada estavam escorregadias por conta da chuva à tarde. Não conseguia enxergar muito à minha frente. Talvez porque os faróis de meu carro não estavam funcionando, mas a minha visão estava embaçada por causa das lágrimas que insistiam em cair. Não sei bem o que aconteceu, estava no meio da rodovia principal a caminho de Palm, quando meu carro colidiu contra uma caminhonete. Desmaiei na hora do impacto.
(...)
Acordei no dia seguinte numa cama de hospital. Emmett e meu pai, Matthew foram informados do acidente, e estavam em meu quarto. Contei a eles tudo o que aconteceu. A batida não me machucou muito, graças aos meus dons. Os cortes superficiais haviam desaparecido. Minha perna esquerda foi perfurada profundamente pelas ferrugens de meu carro. Fizeram uma cirurgia na noite anterior, e costuraram trinta pontos. Mas os ferimentos já haviam desaparecido. O que continuava aberta era a ferida em meu coração. Como eu queria que a minha alma curasse na velocidade de meu corpo. Tudo seria mais fácil.
Queria colocar toda a polícia do país atrás de Lola, mas depois de um tempo, minha família me convenceu do contrário. Jacob estava perturbado. Mais do que perturbado. Não consigo nem imaginar o que aconteceria com Louise se eu colocasse a polícia atrás dele. Eu precisava encontrar Jacob por mim mesmo, e eu sabia que ele não machucaria Louise até então. No fundo de meu peito, tinha esperanças de que Lizzie se arrependeria, e voltaria com a minha menina em seus braços.
Bellize Anthonietta Dwyer. Fala como um anjo; anda como um anjo; sorri como um anjo, até o seu nome é angelical. Mas é o diabo disfarçado. Desde que me recuperei do choque de sua traição, eu tentava a todo custo encontrá-la e pegar minha filha de volta. Já havia ido a Palm incontáveis vezes atrás de informações sobre Jacob. Eu sabia por Tom, contato fiel próximo a Jacob, que antes de fugir com Lizzie ele não só freqüentava, mas como também organizava os eventos de sadomasoquismo da cidade, em parceria com um clube de motociclismo conhecido pelo tráfico de armas e drogas na Flórida. Fazia aquilo pelo dinheiro, faturava uma grana alta com o contrabando e os eventos que aconteciam no balcão do moto clube.
Quando eu cheguei a Palm ontem à noite, os homens de Jacob me abordaram. Levaram-me para o show e me torturaram. Não só fisicamente, como emocionalmente, alegando que a minha filha estava morta. Eu não acreditaria, pois mesmo sendo uma cobra de gênio ruim, Lizzie é mãe, e ama a filha. Não duvido que me matariam depois do evento se a garota Isabella não tivesse os impedido.
Isabella Swan. Desde que entrara naquele apartamento, eu soube que havia algo estranho com aquela garota. Suspeitei sobre quem ela seria quando vi o lobo de madeira de Jacob ao lado do sofá em seu apartamento. Jacob o fizera. Só ele o tinha. Estaquei diante da visão, mas como estava muito abalado, frustrado, e dolorido ontem à noite, acabei por deixar de lado, alegando a mim mesmo insanidade mental. Mas quando ouvi sua história sobre seu namorado Jacob Black, minhas suspeitas se confirmaram.
Tom já havia me falado sobre ela. Isabella Swan, a pobre garota enganada por Jacob. No mínimo uma isca ou algo parecido. Todas as datas se batiam perfeitamente, e ao vê-la assentir ao ouvir seu nome, não tive mais dúvidas. Meu maior choque foi quando percebi que ela acha que Jacob morreu. Senti pena da garota. Ela foi tão boa comigo me salvando e me abrigando esta noite. Queria retribuir o que ela fez por mim. Queria poder ajudar Bella diante de sua dor.
Saí do restaurante em direção ao apartamento de Tom, que não ficava muito longe dali. Resolvi ir andando. Minha moto foi destruída pelos capangas de Jacob. Queria poder correr para chegar mais rápido, mas meu peito ainda doía. Já fazia um dia e os hematomas ainda pulsavam. Isso nunca aconteceu antes, devido a minha linhagem, qualquer lesão em meu corpo é curada em poucos minutos. Mas eu sabia que com a idade estava ficando menos resistente e perdendo cada vez mais a parte sobrenatural de meu sangue. Fiquei com medo de Bella perceber minha súbita recuperação. Quando ela falou sobre como pessoas normais estariam em uma cama de hospital, quase fiquei mudo, mas mantive a calma e agi com naturalidade.
Saí do café com pressa porque não queria continuar encarando Bella logo após ter descoberto sobre sua relação com Jacob. Senti-me culpado por não contá-la a verdade, mas eu soube que era o certo a fazer. A verdade seria mais dolorosa do que a mentira. Talvez pensar que seu namorado está morto fosse melhor do que descobrir a espécie de homem que ele é.
Andei mais um pouco pelas ruas silenciosas de Palm e logo avistei o luxuoso prédio de Tom. Fazia quase um ano que eu não o via. Tom estudou comigo e com Jacob na faculdade e continuou sendo nosso amigo após o término dos estudos, indo trabalhar comigo em minha editora, a Lokhard Publishing Home. Eu e meu irmão Emmett a herdamos de nosso pai quando Lola nasceu e ele resolveu se aposentar, passando a editora para nossos nomes.
Tom costumava trabalhar em nossa empresa como um escritor e editor, mas ficou apenas escrevendo quando resolveu se mudar para Palm com a namorada. Pouco tempo depois de Lizzie resolver ficar comigo, Jacob se mudou também. Pensei que ele fosse morar com o Tom, mas logo descobri que Jacob havia se mudado com uma garota. Isabella. Eu sabia que Tom conhecia Bella, por isso achei melhor conversar com ele.
Tom sempre foi o mais mulherengo dos três. Mais desleixado também, mas nunca deixou de ser um ótimo amigo. Nos tempos de faculdade, eu e Jacob estávamos em crise, brigando constantemente, o que me aproximava mais de Tom. Tom é a única pessoa fora da família que sabe sobre os meus antepassados e meus pequenos dons. Sem sombra de dúvidas, Tom foi o meu melhor e mais fiel amigo.
Adentrei o prédio e subi após falar com o porteiro. Parei a frente da porta do apartamento de Tom, e antes de tocar a campainha, busquei pelo meu cordão nos bolsos de minha calça. Suspirei aliviado. Tirei o colar de meu bolso, estava um pouco sujo de lama. Ontem, ao me abordarem, um dos capangas de Jacob puxou a peça de meu pescoço com força. Foi ao chão. Achei que iria perder-lo. Ou por estar jogado em algum canto na rua escura, ou por roubarem ele de mim. O pingente de anjo era feito de ouro branco. Mas eles não queriam bens materiais, só destruíram a mim. E à minha moto. Tirei o excesso de sujeira do pingente com a ponta do dedo. Era o arcanjo Metatron, o príncipe dos serafins. Minha avó materna deu-me em seu leito de morte. Ela ensinou-me que segundo as lendas hebraicas, Metatron não era um anjo, mas sim um homem, descendente da sétima geração de Adão. Dizem que depois de sua morte, ele foi transformado em anjo por Deus devido ao seu comportamento santo e moral correta.
Minha mãe morreu em meu parto, então a minha avó sempre foi como uma mãe para mim. A melhor que eu poderia ter tido. Claro que sempre carreguei a culpa por minha mãe perder a vida em meu parto. Quando era mais jovem, me crucificava todo dia por ter matado-a. Mas com o tempo, minha avó Esme me ensinou valores que realmente importavam. O valor do amor de minha mãe por mim, por exemplo. Ela morreu por mim, deu lugar de sua vida à minha. Ensinou-me a acreditar no destino. Aquela era a hora de minha mãe, Elizabeth. Não havia muito que fazer.
Esme me deu seu colar com o pingente de anjo, quando eu tinha dezoito anos, em seus últimos dias de vida. Ela estava com câncer terminal. Esme sempre o usou, mesmo antes de eu nascer. Ela me disse para protegê-lo como minha própria vida, pois aquele pingente tinha um significado extremamente importante para ela. Perder Esme foi uma das piores dores que senti em minha vida. Nunca me separei de seu arcanjo. Com o tempo entendi que não havia perdido-a. Com o tempo entendi que ela não estava distante de mim. Ela estava olhando para baixo, acima de mim. Assim como minha mãe esteve a minha vida inteira. Esse é um dos ensinamentos que Esme fez questão de me passar.
Pus o pingente com a corrente quebrada de volta ao bolso. Toquei a campainha e logo uma figura alta, descabelada, com um roupão de banho e duas taças de champanhe na mão abriu a porta. Sorri ao ver sua cara de descrença ao ver-me.
- Edward Cullen? É você? – perguntou com a boca aberta. – Quem é vivo sempre aparece! – exclamou sorrindo.
- Recepção completamente adequada! Estava mesmo com sede. – falei, pegando uma das taças de sua mão.
- Oh! Essa era para a minha garota. – falou, apontando para a morena deitada de lingerie no sofá que logo me mandou um aceno com a mão, sorrindo.
- Aquela é a sua namorada? – sussurrei apontando para a garota, com descrença.
- Oh! Claro que não, você sabe que o garanhão aqui não se prende na coleira por muito tempo. – falou sorrindo debochado.
Bufei.
- Posso voltar outra hora. – falei, já me retirando.
- O quê? Claro que não! Não vejo o meu amigo há séculos, isso pode ficar para outra hora. – falou, se virando na direção da garota.
- Você! Vaza! – falou apontando para a garota e para a porta do apartamento, consecutivamente.
Para a minha surpresa a garota apenas levantou sorrindo, colocou um vestido, pegou a bolsa e saiu dando um último beijo em Tom.
Franzi o cenho, incrédulo.
- Onde você consegue garotas assim, hein? – perguntei.
Tom deu de ombros, se jogando no sofá.
– Senta aqui e me conta qual o motivo de sua ilustre presença.
Bebi o champanhe, fechei a porta e me sentei no sofá ao lado de Tom.
- O que aconteceu com você? – perguntou, apontando para o meu peito nu enfaixado e os roxos em meu rosto.
- Longa história. – suspirei.
- Estou todo a ouvidos! – respondeu sorrindo e se virando no sofá.
Suspirei, entornando a taça em minhas mãos, e comecei a falar.
- Ontem recebi uma carta anônima, informando que Jacob estaria no último evento do clube, que ocorreu noite passada. – comecei, observando a expressão de surpresa se formando no rosto de Tom.
Contei tudo, desde quando me levaram para o evento, até quando descobri que dormi na casa de Isabella Swan.
- E o que ela fazia no evento, já que ela acha que Jacob morreu? – perguntou Tom.
- Ela não quis me dizer, já que não gosta de falar nada relacionado à Jacob. A primeira coisa que se passou em minha cabeça foi que talvez ela tenha recebido uma carta como a minha. Suspeito que ela não saiba do envolvimento de Jacob com os foragidos.
- Você tem alguma ideia de quem mandou a carta? – perguntou curioso.
- Talvez mesmo o Jacob tenha mandado a carta para mim, com essa intenção. Ele queria que eu fosse até o evento para me torturarem e talvez até me matarem depois. Ele sabe que eu estou atrás dele. E ele conhece o meu temperamento, sabe que sou impulsivo. Mas isso descarta a possibilidade de Bella ter recebido uma carta igual a minha. – respondi concentrado em cada suposição.
- Antes de sair de Palm, Jacob era o organizador dos eventos. Segundo ele, era grana alta e fácil. – afirmou Tom.
- Você conhecia Bella, certo? – perguntei.
- Não cheguei a conhecê-la. Só falava com Jacob vez ou outra quando nos encontrávamos por acaso. A vi de longe uma vez num bar, mas nunca cheguei a falar com ela. – murmurou. — Edward, você contou a verdade sobre Jacob a ela? – perguntou preocupado.
- Claro que não! – respondi exaltado — Acho que ele pareceu ser bom para ela, já que ela aparenta sofrer muito a perda dele. Talvez seja melhor que ela continue a achar que ele está morto. – concluí.
- Por que você não bota a polícia atrás deles, Edward? – perguntou Tom franzindo o cenho.
- É muito complicado Tom. Confesso que à medida que Louise crescia, eu percebia que ela estava assumindo alguns traços de Jacob. Seus cabelos negros nunca negaram, já que eu e Lizzie somos loiros. Eu nunca quis enxergar a possibilidade de Louise não ser minha. E mesmo numa linhagem muito improvável e pequena do que sou, ela nunca assumiu nenhum dom. Éramos muito jovens naquela época, você lembra como tudo era confuso... Ela não é minha filha biológica, Tom. – suspirei frustrado. – Por mais que seja minha filha, não tem meu sangue. Tem o de Jacob. E eles são uma família, a mãe dela está com ela. Eu nunca conseguiria a guarda de Louise, ao menos que conseguisse provar o envolvimento de Jacob com os eventos fora da lei. Jacob não está normal Tom. Eu tenho medo, não sei mais do que ele é capaz. O que ele faria com a minha menina se eu envolvesse a polícia? – suspirei — Lizzie só estava comigo pelo meu dinheiro. Depois que Jacob enriqueceu com seus negócios sujos, ele resolveu por fim assumir que sempre estiveram juntos, para viverem livres de mim. – fechei meus olhos, espremendo-os com força. – O pior de tudo é que eu ainda sou apaixonado por aquela vadia! – confessei apertando a cabeça, com ódio.
Mais ódio de mim, do que dela. Tom se aproximou dando leves tapinhas em minhas costas.
- Está tudo bem Edward, você ainda vai encontrar sua filha, e Lizzie vai pagar por tudo que fez. – disse tentando me consolar. — E... Já que tocou no assunto... – falou hesitante, apontando para alguns roxos não cobertos pelas gazes em meu tórax e tocando meu olho meio inchado e escuro com o indicador.
- É, eu sei. – assenti. – Já havia percebido isso. Acho que com a idade estou perdendo a resistência.
- Não é só isso. Você foi espancado ontem. Antigamente não demorava mais de uma hora para sua pele se reconstituir. – afirmou.
- Eu sei, mas não tenho como entender se isso é normal Tom. A quem vou perguntar? Meu avô morto? Não dá. Meu pai nada sabe sobre isso. Meu irmão não assumiu a genética como assumi. – afirmei exaltado. – É melhor ignorar mesmo. Ao menos o meu nariz sarou em pouco tempo. Estava quebrado, mas antes de Bella me examinar já havia voltado ao normal. Ao menos o suficiente para ela não perceber. – concluí.
- Sinto muito, cara. Você levou pontos? – perguntou apontando para o meu peito enfaixado.
- Sim, Bella ela é médica cirurgiã. Não tenho certeza se já fechou, mas se sim, não vou poder tirar, de qualquer forma. – assenti.
De repente Tom pareceu notar algo em meu peito, e observou o meu pescoço.
- O colar... – começou.
- Quebraram a corrente ontem. Vou precisar de sua ajuda com isso.
Passamos o resto da tarde conversando e bebendo cerveja, apenas colocando o papo em dia. Mais tarde trocamos o cordão do anjo de Esme. Olhei no relógio e constatei que já passavam das 20h00min da noite.
- Marquei de levar a Bella a um clube hoje às 22h00min. – falei, apontando para o relógio em meu pulso. – Você vem com a gente? – perguntei.
- Só se eu escolher o local. – falou sorrindo. – E se você tomar um banho também. Coisa que você não deve fazer há dias. – falou com a mão no nariz.
- Ah! Vou precisar de umas roupas suas. – falei na cara dura. – E do banheiro também.
Tom gargalhou.
- Tudo bem, senhor mendigo! Leve o que quiser, só não tire a minha vida. – exclamou. – Pode deixar, a casa é sua. – falou com um gesto teatral direcionado a casa.
— Vai pensar na proposta de voltar à editora em Miami? – perguntei ansioso retomando o que propus hoje à tarde.
Seria realmente muito bom ter meu amigo de volta.
- Já está pensado, meu caro! Cansei da boa vida pacata de Palm, não vejo a hora de voltar a Miami. – falou debochado. – Só preciso de um mês para resolver algumas coisas por aqui. – concluiu.
- Fechado! – falei sorrindo, e apertamos as mãos. – Preciso tomar logo um banho. – declarei.
- Pode ir para a minha suíte e pegar qualquer roupa no closet. Vou ligar para uns amigos para ver o que temos de bom para hoje. – falou dando uma piscadela.
Gargalhei satisfeito e fui até o quarto. Estava com saudades de meu amigo e o seu tão alto astral. Com tantos problemas em minha vida, já não lembrava o quanto que ele fazia falta.
(...)
Continua...
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