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- Então... Qual seria o melhor modo de... “morrer”? – Disse a garota enquanto olhava para o chão. Sua expressão estava visivelmente abatida, o tom triste e desempolgado da voz entregava seu estado de espírito. O cabelo negro repicado caia de forma suave até o meio das costas e a franja lhe cobria parte do olho direito. Os olhos azuis lembravam o mar. Eram lindos, tinham um brilho encantador, mas escondiam algo muito misterioso. Talvez um grande poder ou simplesmente uma mágoa que o tempo ainda não pôde apagar. As roupas, calça jeans rasgada e desbotada pelo tempo e uso, e, uma blusa que parecia ter o logo de algum tipo de banda de rock, estavam cobertas de poeira e lama. O que quer tenha feito antes de parar ali, com certeza lhe rendeu uma boa história para contar.

Parecia que o mundo havia perdido todo seu brilho de um segundo para o outro. O céu era acinzentado, e no por do sol tornou-se totalmente negro muito mais rápido do que o de costume. O vento soprava calmamente, congelando ainda mais a alma das poucas pessoas que vagavam pela rua. Além do frio insuportável, aquele vento carregava uma garoa fraca. Fraca, mas que era atingia a pele pálida e macia do rosto da menina como agulhas.

- Lá está ela! Peguem a menina! Se ela não nos conceder o que precisamos, perdemos essa guerra muito facilmente! – Gritou uma voz rouca de longe. O dono era um homem alto e musculoso até demais. Parecia um daqueles atores de comercial que oferecem “shakes” para aumentar os músculos e outras coisas mais. Tinha a pele morena de sol e os olhos eram castanhos, puxados para um vermelho. Pareciam queimar a alma de quem o fitasse, como fogo.

Sem pensar duas vezes, ela correu. Esbarrou no ombro de algumas pessoas durante seu caminho, virou a direita na loja de doces do senhor Wyler, que estava fechada e totalmente quebrada, e depois a esquerda em frente a uma casa onde crianças brincavam meio desanimadas no jardim da frente, até que chegou a uma rua sem saída. A garota entrou em desespero; não sabia porque estava correndo, de quem estava correndo nem o que faria a seguir. Sua respiração era ofegante e seu coração batia muito forte.

- Entregar... Entregar... Entregar...?! Eu... O que eu deveria ter para entregar de tão valioso àquele homem? – Repetia incansavelmente, baixinho, consigo mesma.

- E ai está nossa pequena fugitiva! Agora... Facilite as coisas para mim, está bem? – Sem enrolar ou dar chances para ela reagir o homem a acertou na cabeça com o que parecia ser um pedaço de madeira.

Quando acordou, a garota estava em uma sala muito mal iluminada. Sentia uma enorme dor na cabeça, resultado da pancada. Estava sentada em uma cadeira, amordaçada, com as mãos presas com correntes na cadeira. Outras correntes saiam do chão, prendendo os pés da menina. Aos poucos, ela retomou a consciência. Olhou em volta, percebeu que estava em um lugar onde muitos já deveriam ter sido torturados, ou algo do tipo, tendo em vista alguns “brinquedinhos” que estavam lá, como alicates sobre uma mesa, pregos e martelo, armas de choque, e, claro, o sangue que se espalhava pelo chão e manchava as paredes em formato de pequenos jatos.

- Senhorita Mary Valentine, vejo que já retomou sua consciência. – A mesma voz do homem que perseguira e sequestrara a menina ecoou pela sala através do que pareciam ser alto-falantes – Isso é bom, muito bom. Agora me responda: onde ele está?

- Eu... Ele... Senhor, porque você está fazendo isso comigo? Eu não sei onde este tal “ele” está! E... Quem é você? Aliás, o que é “ele?!”.

Imediatamente a menina levou um choque. A onda elétrica percorreu todo o corpo de Mary, fazendo-a sentir seus olhos e seu cérebro queimarem. Parecia que seus órgãos estavam sendo fritos e que seus olhos poderiam saltar para fora a qualquer instante. Era agonizante, era a pior sensação que ela sentira em toda sua vida. Quando conseguiu respirar novamente, assim que a tortura cessou, percebeu que as algemas que prendiam seus pés eram feitas de cobre e estavam ligadas ao que parecia ser mais um mecanismo de tortura.

- Mary, querida... É a última vez que vou lhe perguntar. Caso você não me responda, você será inútil para mim e para ele. Sabe o que fazer com inúteis por aqui? Não é nada agradável, acredite. Agora me responda... Onde ele está?

- Eu não sei! Eu sequer sei o que é este seu maldito ele! – Gritou ela enquanto tentava limpar o sangue que escorria da própria boca com a língua. Mary fechou os olhos e começou a sibilar uma oração, talvez. Uma certeza apavorante de que a qualquer momento ela iria morrer tomou conta de sua mente e de seu coração.

Tudo o que ela conseguia pensar ali, naquele momento, era em sua mãe. Como ela havia sido boa para ela a vida inteira, como o cheiro do macarrão que ela fazia agradava a menina. Mas isso era tudo o que ela conseguia lembrar. Nem o nome de sua mãe ela se lembrava, não sabia nem se “Mary Valentine” era mesmo seu nome verdadeiro. Deu-se conta então de que havia perdido a memória.

Um grito estridente de dor ensurdeceu a menina. Vinha do alto falante e era sem dúvidas a voz do homem forte, o tal sequestrador. Mary suspirou e foi tomada por uma sensação de alívio. Mas logo sua mente foi tomada por um pensamento único: se alguém matou o sequestrador podia mata-la também, e isso fez o coração da menina acelerar-se novamente. Ela estava fraca e tinha perdido muito sangue, por isso sua visão estava embaçada e ela estava quase desmaiando. Ouviu um barulho, como algum objeto feito de metal houvesse caído, e sentiu suas mãos sendo desamarradas da cadeira assim como a mordaça sendo lhe retirada da boca e as correntes dos pés.

- Nossa você está mesmo acabada! Fique tranquila, sou um amigo e tudo vai ficar bem. – Foi a última coisa que ela conseguiu ouvir antes de desmaiar. Quando acordou, Mary estava deitada em uma cama confortável. Estava em um quarto bem iluminado, o sol trazia vida, alegria e cor a todo o cômodo. As janelas eram grandes e de vidro, cobertas apenas por uma cortina branca de seda. Mary estava tão fraca que resolveu que não se levantaria da cama. Tinha medo de cair e ficar no chão ao invés de em sua cama confortável por horas.

A maçaneta de ouro da porta, girou lentamente. Um rapaz desajeitado estava à porta, tentando entrar no quarto com o que parecia ser uma bandeja muito bem feita de café da manhã. Ele usava uma camiseta cinza e uma calça preta, tênis da mesma cor. Tinha entre dezessete e dezenove anos, mas tinha um corpo bem trabalhado para sua idade. A pele branca do rosto estava tomada por um tom avermelhado bem forte, talvez por conta de sua dificuldade para adentrar o local. Os cabelos negros e desgrenhados do rapaz contrastavam com os olhos verdes como esmeraldas, que pareciam brilhar intensamente à luz do sol.

- B-bom dia Anne... Você... Se sente melhor? – Disse ele assim que conseguiu passar pelo terrível monstro-porta. Ele sorriu calorosamente para a menina, como se já a conhecesse há muito tempo, e colocou a bandeja em cima de um criado mudo, ao lado da cabeceira da cama dela.

Mary estava atordoada. Há algumas horas estava apenas passeando pela cidade, após acordar no meio de uma floresta. Estava totalmente desamparada, não sabia quem era nem de onde veio, ou porque estava suja, ou o que lhe aconteceu. Então, um maníaco psicótico apareceu e a sequestrou, torturou e agora ela estava ali. Estava deitada na cama de um estranho, que agora a chamava de Anne.

- Por favor... Quem é você? Quem sou eu? Onde estou? Quem era aquele ho...

- Hey, calma menina! – O garoto riu. Pareceu achar graça na atitude da menina diante de tudo aquilo. Ele ficou encarando-a com um sorriso bobo por alguns segundos, até que finalmente suspirou e começou a explicar tudo:

- Meu nome é Oliver Campella. Tenho 18 anos. Sou seu irmão. E você é Anne Valentine. Você tem 17 anos. Aquele homem... Queria algo muito valioso que só você tem, meu bem. O nome dele é Marcus Von Stuff e ele trabalha para uma “organização secreta”, assim por se dizer. Você está na nossa casa de praia, está segura agora. Passaremos alguns dias aqui e partiremos de volta à Inglaterra. Existem assuntos que ainda temos que resolver por lá...

- Espere... Mas o que é que eu carrego de tão importante que fez aquele homem querer me torturar? E... Eu sou apenas uma adolescente comum que estava passeando e de repente... – a menina colocou as mãos sobre os olhos por alguns segundos. Parecia estar realmente tentando entender tudo aquilo, mas não conseguia. – De repente fui sequestrada. E vim parar aqui.

Oliver ouviu atentamente a tudo o que ela tinha a dizer, parecia estar realmente interessado. Mas, assim que ela conclui seus pensamentos ele não conteve um riso que poderia soar um tanto quanto debochado.

- Você não vê? Você não sente? Sua alma é especial. Você percebeu que, quando rezou, o tempo parou? Você percebeu que suas preces foram atendidas? E que agora você está aqui, sã e salva, em um lugar que parece um verdadeiro... – Ele hesitou antes de dizer a última palavra da frase, a qual mesmo assim falou bem lentamente –... Paraíso? Diferente de toda a dor e monocrômia que você viu ontem?

As coisas faziam até sentido na frase do rapaz. Realmente algo muito estranho aconteceu lá, dentro da sala de tortura. Anne ficou em silêncio por alguns segundos, tentando se lembrar do que havia pronunciado. Passou a mão entre seus fios de cabelo e percebeu que não havia nenhum machucado recente por sua cabeça, o que era estranho. Ela ainda se lembrava de ter recebido uma paulada de Marcus. De repente palavras que ela não se lembrava de pronunciar lhe vieram à mente como um flash.

- “Neste momento de perigo recorro a Tí, Senhor”.

“Peço para que me guie através deste momento tempestuoso.”

“Oro por minha alma e rogo piedade. Peço um milagre divino!”

Ela apenas sibilou muito rapidamente novamente a oração. Pareceu que isso foi o suficiente para que Oliver entendesse perfeitamente o que ela havia dito. Ele sorriu de canto e sentou-se na beirada da cama, próximo aos pés da menina, para que pudesse toca-los.

- Sim, minha menina. Você é diferente de todos os outros humanos que habitam esse planeta. Você tem um dom, um dom concedido por Deus, único. Você é a conexão entre todos os mundos, o portal para o além. Você purificará este lugar sujo quando chegar a hora certa e tudo estará pronto para que Ele apenas faça o Julgamento Final! Aqueles que não são puros de alma e coração devem se render perante a você, antes que o fim chegue e Ele venha envia-los para um péssimo lugar. Você... É uma pacificadora!

Anne estava pálida. Não conseguia acreditar no que o rapaz estava dizendo. Ela era um anjo, afinal de contas? Estava ali em missão de pacificação? Não entendia como isso era possível. Mas algo em seu coração a fazia acreditar que isto era verdade. Ela mordeu o lábio inferior e hesitou antes que pudesse perguntar qualquer coisa.

- Somos... A- Anjos?

O garoto riu. Passou os dedos entre os fios de cabelo desgrenhados e balançou a cabeça em um sinal negativo para a menina. De certa forma era exatamente esta resposta que ele esperava.

- Não, minha pequena. — Oliver passou a fitar as janelas. Parecia viajar em seus pensamentos, olhando a paisagem do jardim atrás do vidro – Eu sou um anjo. Eu sou seu protetor, e estarei aqui sempre que você necessitar ou não. Mas você... É muito mais especial que isso.

- Então... O que eu sou?

- Você é... Você é a humana com a alma mais pura do mundo, é um portal entre o céu e a Terra. Muito mais poderosa que nós... Apesar de não saber como usar seus poderes. Anne, você é a escolhida, você é a única que consegue abrir o portal entre os três mundos. Você é a descendente direta de Deus.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.