Anjos E Demônios - A Revolução Dos Invisíveis
6 Entre as Chamas e o Ódio
Notas iniciais
Vejo o sol se pondo no horizonte, com seus raios cansados e tristonhos, a nossa volta, uma densa floresta nos cerca, as árvores são todas iguais, e isso dificulta a nossa viagem. Eu não sei mais o que fazer, já que Rafael não para de perturbar Vincent, que já derrubou umas cinquenta árvores ao jogá-lo pela primeira vez, e ainda em forma humana.
– Esse lugar é muito estranho, e esse cheiro é horrível, parece que morreu alguém aqui – disse Vincent cobrindo seu rosto com uma das mãos.
– O sono está deixando você louco leãozinho. – diz Rafael andando um pouco na nossa frente e se deparando com uma casa. – Deveríamos passar a noite ali.
– Esse lugar parece ser perigoso, deveríamos seguir em frente. – retrucou Vincent.
– Vincent, eu ficarei de guarda a noite, ficará tudo bem.
– Isso mesmo, Juliet parece estar com sono. – diz Leo ao meu lado.
– Eu não estou com sono... É impressão sua – e continuo andando.
– Senhorita Juliet, você está indo pelo lado errado. – Brian corre rapidamente até mim e me puxa pela mão até a tal casa.
Todos já estavam na varanda da casa, realmente ela é muito bonita e bem decorada, mas parece que ninguém mora aqui a algum tempo, parece que as últimas pessoas que estiveram aqui saíram as pressas, e Vincent realmente não está gostando nada disso, seus olhos estão muito vermelhos e parece que se Rafael dizer mais alguma coisa ele vai explodir.
Brian se senta em uma cadeira de balanço que lá havia e passa a observar o ambienta em sua volta, com muita cautela, colocando sua espada em cima de uma pequena mesa que havia ao seu lado. Ele é uma pessoa muito séria, e extremamente educado, quando ele está quieto parece que é uma pessoa completamente diferente de quando vem falar comigo, ele logo põe um meio sorriso tímido em seu rosto pálido e me olha nos olhos como se estivesse querendo algo.
– Ei leãozinho, animais não são permitidos dentro de casa, você vai ter que ficar lá fora – diz Rafael entrando na casa.
– Seu maldito! — Vincent vai pra cima de Rafael, que desvia, e joga o primeiro objeto que vê em Rafael, uma poltrona.
– Chega vocês dois, parem de brigar, não tem mais idade pra isso, ou tem? – digo puxando a orelha dos dois.
Eles nada respondem, apenas trocam faíscas.
– Vão agora para cima, de preferência separados. – e solto eles.
Eles vão quietos e sobem as escadas, o que me surpreendeu pois eles nem olharam um ao outro.
– Isso foi surpreendente. – diz Leo parando ao meu lado.
– Acha mesmo? Pra mim não foi nada demais.
– Rafael nunca obedeceu ordens de ninguém, principalmente de uma mulher. – e sorri de canto para mim.
– Er, eu vou dormir, estou com sono, boa noite Leo. – e saio correndo.
Entrei em um quarto, que parecia muito estranho, realmente a casa tinha um cheiro estranho, mas acho melhor eu ignorar isto e ir dormir. Mas, eu não consigo dormir, algo aqui realmente me incomoda, é como se estivessem me observando, sugando minhas forças, querendo algo de mim, e essa sensação parece ficar pior a casa segundo que passa. Acho que vou fazer companhia ao Brian.
Me levanto rapidamente da cama e saio andando pela casa, está tudo em completo silêncio, as portas estavam entreabertas e pude ver Leo, Vincent e Rafael dormindo, pelo menos foi o que me pareceu, então acho que deve ser paranoia minha.
– Olá Brian – digo me aproximando dele em silêncio.
Nesse meio tempo, Brian se assustou ao me escutar, e se levantou rapidamente da cadeira com sua espada, quase me decapitando, seu olhar era frio, mais do que o normal, e ele estava pálido também, mas seu movimento foi bastante preciso e se ele não tivesse parado a tempo, sinto que eu certamente estaria morta. Com o susto que levei acabei tropeçando e torcendo meu pé.
– Perdoe-me senhorita Juliet – Brian larga a espada e me pega no colo. – Eu não a vi chegando – ele me coloca na cadeira e se ajoelha cabisbaixo.
– A culpa foi minha, eu devia ter feito alguma coisa para não lhe assustar.
– Não senhorita, eu quase a matei, e eu mereço ser punido por um ato tão impensado. – Brian se levanta, pega sua espada e começa a caminhar para dentro da densa floresta. Ele estava suando frio, suas mãos tremiam, e ele parecia estar sendo forçado a andar, como se algo o estivesse controlando.
Foi nesse momento que tive mais uma visão, mas não era uma visão qualquer, era o Brian. Ele estava andando na floresta, murmurando algumas palavras que não pude entender pois estava muito longe de mim, e com a espada em suas mãos ele... arrancou sua asa.
– Eu não posso permitir isso. — saio correndo para dentro da casa pra chamar os outros.
Eu entro no quarto de Leo e Rafael, mas eles parecem não me ouvir, estão ficando esqueléticos, e no lugar de seus olhos estão apenas uma vasta escuridão, como um buraco negro. Vincent, aonde ele está?
– Eu avisei que esse lugar era uma má ideia. – ele está parado em frente a porta, com os braços cruzados e expressando emoção alguma.
– Vincent, você precisa me ajudar. – corro em sua diração o puxando para fora da casa. – Eu tive uma visão do Brian e ele está em perigo;
– Quem vai ataca-lo? – agora ele parecia um pouco mais irritado.
– Eu acho que ele está sendo controlado por alguma coisa e... – aquelas imagens horrendas aparecem na minha cabeça novamente, e quando percebo estou chorando;
– Ei acalme-se, me diz o que vai acontecer – Vincent diz enxugando minhas lágrimas.
– Ele vai cortar suas asas.
– Ele não faria isso – Vincent diz tentando não aceitar, achando que era uma brincadeira.
– Vincent, não estou mentindo – o empurro para longe e saio correndo. – Se não acredita eu vou dar um jeito por mim mesma.
– Espere – Vincent corre em minha direção. – Eu vou com você.
– Não, você tira os outros daqui, eu vou atrás do Brian.
– Mas e se ele te fizer algo?
– Você precisa confiar em mim, Vincent – paro de correr e o olho séria.
Ele olha em meus olhos e sorri convencido, dando meia volta e se gabando por ter que salvar a vida de Rafael, certamente esses dois ainda vão ter muito o que brigar, e Vincent vai ter do que se vangloriar. Mas eu não posso parar pra brincar agora, tenho que impedir Brian. Se ele cortar suas asas não sei o que poderá acontecer.
Apresso-me e saio daquele lugar que mais me atormentava do que nunca, tudo parece muito igual e minha cabeça parece dar voltas, é como se algo estivesse sugando minha energia, como um parasita que se alimenta da vida dos outros. Mesmo com o pé torcido após o incidente com Brian tenho que correr, eu irei suportar a dor, eu irei provar ao medíocre do White que eu sou mais do que uma meio-sangue.
Mas antes que eu pudesse chegar a tempo de impedi-lo, sou parada por um tipo de barreira que se formou ao redor dele. Ela é negra, e possui uma energia muito negativa e familiar, com certeza não é do Brian, isso somente comprova o que eu já imaginava, ele está sendo controlado por um demônio!
– Por favor Brian, eu sei que você pode me ouvir, por favor pare. – não aguento mais e caio de joelhos no chão.
– Eu não posso fazer isso – sua voz está trêmula e diferente, com um tom de malícia – Eu irei fazer isso.
Brian ou seja lá quem for que esteja o controlando tira a armadura, e com um simples movimento a joga para longe, revelando suas belas asas brancas e puras, que transmitem um brilho ofuscante. Ele pega a espada que estava ao seu lado e passa a admirá-la por alguns instantes, parecia fascinado. Ele logo em seguida cai de joelhos no chão e antes que eu pudesse gritar ou demonstrar outro tipo de emoção, ele simplesmente cortou, sem mais nem menos. Logo a barreira ao seu redor se desfaz e ele cai no chão, obviamente está muito fraco. Uma enorme possa de sangue começou a surgir envolta dele, ele havia perdido a consciência. Me aproximo dele e tiro a espada que estava em suas mãos, por segurança, e coloco ele em meu colo. Eu não sei mais o que fazer. Avisto Vincent correndo para dentro da casa e tirando todos de lá, eles parecem estar bem.
– Brian, por favor fique bem – disse em um sussurro próximo ao seu ouvido, até que ele começa a tossir sangue. – Isso é tudo culpa minha.
– Senhorita... Juliet. – Brian abre os olhos e leva sua mão até meu rosto, enxugando minhas lágrimas – Eu não mereço a sua bondade – ele sorri com um pouco di dificuldade, escondendo a dor.
– Mas, se não fosse por mim você estaria bem agora... – abraço forte.
– Eu não irei morrer, Juliet, eu te prometo que... – antes que ele terminasse a frase ele desmaiou novamente.
– Eu não posso aceitar mais isso, é muito doentio. Quem seria capaz de fazer uma coisa dessas? Maldito White, aquele insensível vai pagar caro pelo que está fazendo. Eu vou mata-lo com minhas próprias mãos, vou manda-lo de volta para o lugar de onde ele nunca deveria ter saído, o inferno!
Após dizer essas palavras, um sentimento muito forte começou a tomar conta de mim, sinto meu corpo todo emanar fogo, sinto meus olhos arderem, como se eu fosse destruir tudo a minha frente, eu não podia sentir mais nada além da raiva, sinto como se não fosse mais eu mesma.
Vincent agora saiu de dentro da casa com Leo e Rafael, e está se aproximando de mim, com um ar de alívio.
– Juliet eles estão bem – ele para e me olha – Seus olhos estão... rubros.
Eu não respondo a ele, não consigo responder, apenas começo a caminhar em direção aquela casa, e as chamas se extinguem botando fogo nas árvores ao meu redor, mas elas não eram o meu objetivo, meu objetivo era ver aquela casa virar cinzas, sem exceção.
– Juliet, isso é loucura, você vai se matar – diz Vincent um pouco distante de mim.
Eu não podia ouvir sua voz claramente, era quase como um sussurro, minha visão estava turva e eu me peguei caminhando para dentro da casa. Quadros do que parecia ser uma havia feliz expostos por todos os lugares, talvez seja apenas uma armadilha, e para impedir que isso nunca mais vai acontecer vou botar fogo em tudo! Fecho a porta e então começo a destruir tudo, o fogo se espalhou rapidamente, engolindo tudo o que via, destruindo tudo o que tocava, exatamente como eu me sentia, exatamente como eu estava, em chamas.
– Juliet você enlouqueceu de vez? – Vincent derrubou a porta com um chute, um belo chute devo admitir.
Eu não respondi a ele, não o olhei e nem fiz menção a nada, na verdade eu queria fazer alguma coisa, sair daquele lugar que me dava arrepios mas o ódio era maior e mais persistente do que eu havia imaginado, um sentimento voraz e consumidor, talvez ele não seja a melhor opção afinal.
– Vamos sair daqui – ele me segura pela mão, o que não foi bom pois agora ele está com a mão queimada e em carne viva. – Ai!
Mas isso não o impediu de me tirar de lá, mesmo com a casa caindo, tudo desmoronando ele não desistiu de mim e continuou segurando forte minha mão, mesmo com toda a dor que ele estava sentindo. Por que ele faz isso? Mal o conheço e ele arrisca sua vida para me salvar?
Assim que saímos da casa Leo e Rafael estavam de pé ao lado de Brian, que estava sendo cuidado por Any, sim a Any estava lá, com uma bela armadura e com as asas escondidas é claro, por precaução aposto. Nunca vou me esquecer do semblante de seus rostos, espantados, como se tivessem presenciado algo horrendo. Olho para trás e vejo tudo se acabando. Eu mesma fiz isto?
– A quanto tempo Juliet – Any sorri para mim terminando de lidar com Brian.
– Sim... – Ela parece calma. – O que faz aqui?
– Eu achei que no meio de tantos homens assim você iria querer uma companhia feminina. Espero não atrapalhar.
– Claro que não, eu adoraria. – Menos Rafael que parece estar bastante irritado por algum motivo.
Leo estava muito sério, eu conheço esse olhar dele, ele desconfia de algo mas provavelmente não vai me contar.
– Senhorita Juliet – murmura Brian abrindo os olhos. – Venha aqui por favor.
– Claro – digo me aproximando dele enquanto Any foi examinar a mão do Vincent.
– Parece que o gatinho machucou a patinha – disse Rafael.
– Cala a boca seu anão. – gritou Vincent que estava escondendo a dor.
– Eu sinto muito por não ter chegado mais cedo – digo me sentando ao lado de Brian.
– Tudo bem – ele dá uma pausa. – A casa é obra dos demônios de classe baixa, pode não parecer mas ela afeta muito os seres divinos, sugando toda sua energia vital, podendo até manipular os de coração fraco, ou até devotos demais a alguém, mais do que a si mesmo.
– Ei mulher você está me machucando – Brian foi interrompido pelo urro de Vincent – Faça isso direito.
– Cale a boca, estou tentando te ajudar – rebatou Any.
Leo a Rafael pareciam se divertir com tudo aquilo, mas ainda vejo aquela mesma seriedade no olhar de Leo e sabia o que ele queria dizer: Não temos tempo para brincadeiras. Ele está certo obviamente, mas ele carrega toda a responsabilidade em seus ombros e isso acaba o afetando.
– Brian.
– O que foi senhorita Juliet?
– Você, quando estava sendo controlado estava consciente?
– Sim... Essa é a pior forma de tortura que consigo imaginar. Eu podia ver e sentir tudo, eu falava mas não era eu mesmo. Mas meu dever é garantir a sua segurança e eu seria capaz de tudo para isso.
Droga, meu rosto está fervendo de vergonha.
– Você tem um grande poder Senhorita, deve usá-lo com sabedoria.
Brian a seus conselhos, eles me reconfortam de alguma forma. Mas agora o que eu vou fazer? E se isso acontecer de novo e eu ferir seriamente alguém? O pior, e se eu acabar matando alguém sem querer? Eu não sei como lidar com esse sentimento, e não me parece certo usá-lo novamente. Eu estou confusa, não sei o que fazer. Será que o que estou fazendo é o certo?
Os primeiros raios de luz começaram a surgir por entre as árvores, o clima estava menos tenso entre nós, Leo e os garotos iam na frente conversando e provocando uns aos outros, enquanto eu e Any estávamos um pouco mais atrás.
– Any, o que vai acontecer o Brian? – pergunto a ela aproveitando o momento.
– Bem, se ele tivesse tirado suas duas asas teria se tornado humano, mas como só foi uma ele irá se tornar um meio-sangue assim como você. – ela forçou um sorriso. – Á propósito, você deveria disfarçar melhor as vezes.
– Do que você tá falando?
– Não pense que eu não vi, Brian certamente te disse algo que fez você deixar até uma pimenta com inveja.
– N-não foi nada disso. – apresso o passo. – Pare de dizer coisas estranhas.
Acho que ter a companhia de Any vai me deixar com dor de cabeça por um bom tempo, ela parece ser legal. Com Brian se tornando um meio-sangue e a chegada de Any as coisas estão ficando cada vez mais turbulentas, talvez seja coincidência? Isso me faz parar pra pensar, será mesmo que o White se rebelou contra todos apenas por que quis ou foi influenciado por alguém? Pelo que sei ele era o mais devoto dentre os anjos, então é meio estranho pensar que ele simplesmente largou tudo para se aliar as trevas?
– Dentro de algumas horas estaremos chegando ao nosso destino, talvez algo nos aconteça de novo, então peço que de maneira alguma se separem. – anunciou Leo. — O Labirinto da Banshee não é um local para se brincar. Nossa sorte está lançada!
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