Anjos De Cinzas
2 Despertar.
Notas iniciais
Encarei revoltada, o nascer do sol do alto da campina que ficava de frente as cinzas da antiga casa no lago que minha tia Meredith tinha. Nada sobrou do incêndio, nem mesmo uma pilastra de madeira ou ate mesmo tijolo. As cinzas incrustaram em minhas botas gastas como uma vaga lembrança do que um dia foi à cortina.
A mais de quatro anos meus pais morreram em um misterioso acidente. A casa no lago pegou fogo, todos me disseram que foi um acidente, o gás da cozinha não havia sido fechado direito, mas havia apenas um, porem meu pai fazia parte de um grupo pequeno de bombeiros que ajudavam a pequena cidadezinha onde morávamos. Ele saberia o que estava certo e errado, eu tenho certeza que ele não tinha falhado nesse caso.
Sinto meus braços travados em cima de meus joelhos, havia passado a noite ali apenas observando as cinzas. Meus músculos reclamavam por contar de estar muito tempo na mesma posição, mas mesmo assim não me movi. Ouvi passos pesados em minha direção, deveria ser Peter, meu irmão mais velho, e que tomava conta de mim agora, uma adolescente de dezessete anos com problemas em se adaptar depois da morte dos pais, considerada louca pelos colegas de classe, estranha pelos professores, e uma pobre insana pelos meus parentes distantes.
Como eu sei disso? Na verdade ninguém nunca me contou oficialmente, mas posso ler em seus pensamentos. Um pequeno dom – bem irritante para falar a verdade – que adquiri quando quase morri afogada em uma festa a mais de cinco anos. Um dos meus principais motivos de me afastar dos humanos.
...De novo aqui? Será que deva ligar para Connor?...
– Bom dia Bonnie. – sussurrou Peter se sentando ao meu lado.
Suspirei baixinho, mas não respondi.
– Passou a noite aqui de novo? – perguntou ele novamente, seus olhos castanhos chocolates me encarando com preocupação.
– Não consegui dormi. – eu respondi apenas isso, ignorando o fato de seus pensamentos estarem voltados para minha “loucura”. Trinquei meus dentes com força.
– Você não pode continuar fazendo isso! – ele resmungou irritado. Meus olhos desviaram para baixo encarando a grama verde e viva, a mais ou menos uns trintas centímetro encontrava-se um pequeno botão de rosa vermelho que começava a se abrir. – Bonnie já faz mais de quatro anos! Você deve seguir em frente...
– Ou se não o que? – perguntei com raiva. Senti o gosto do acido percorrer pela minha garganta seca. O encarei com ironia, apesar de saber que estava sendo injusta com ele. – olha me desculpa. – eu disse de imediato fitando seus olhos castanhos se abaixar para a grama tentando esconder a tristeza e a decepção que seus olhos demonstravam. – eu vou ficar bem, eu prometo. – eu sussurrei forçando um sorriso, não deu muito certo.
– Tudo bem. – ele sussurrou erguendo o olhar porem sem me olhar ainda. – melhor andar logo se não irá chegar atrasada na escola. – ele disse me advertindo como meu pai faria se estivesse vivo agora.
Levantei-me com dificuldade sentindo meus braços e pernas estralarem, meu pé esquerdo começou a formigar me fazendo quase cair. Peguei minha bolsa encostada na arvore onde Peter caiu quando tinha nove anos e quebrou o braço. Puxei o capuz da minha jaqueta e segui andando com certa dificuldade em direção a praça central da cidade.
A escola não era assim tão longe da casa no lago, apenas uns 30 minutos de caminhada me levaria ate lá. O único problema seria me concentrar em meus pensamentos atribulados, se misturando nos pensamentos das outras pessoas. Os pensamentos se acumulavam conforme eu me aproximava da escola.
Assim que virei à esquina entrando portão adentro na escola um dos milhares pensamentos me chamou atenção.
...eu sei que pode me ouvir...
Procurei rapidamente com os olhos a pessoa que havia pensado aquilo, mas não encontrei. Quem havia pensado isso? Devo estar ficando paranóica a uma altura dessas!
...eu posso te ouvir também...
... eu tenho um segredinho para te contar, eu matei seus pais...
Senti minha respiração parar, meus dentes trincaram-se com um estalo alto, e minhas mãos se tornaram punhos rapidamente. No meio da imensidão de alunos que se acumulavam perto das portas das salas de aula, encontrei uma figura sinistra encostada em uma pilastra. Ela me encarava com um sorriso sarcástico. Deveria ser ela que estava me atormentando minha única pergunta era como ela sabia que eu podia ler pensamentos eu não sei.
Sua pele era branca tão pálidas quanto à neve, seus olhos eram azuis escuros como a noite que tanto me assombrava, ela tinha longos cabelos loiros e lisos. Ela novamente sorriu para mim, dessa vez dando um passo a frente.
...e agora irei matar você...
Não consegui conter o impulso de começar a correr em sua direção, afinal o que ela queria comigo? Por que pensou naquilo? Por que quer me matar? As perguntas se estendiam em minha mente por uma longa lista que se embaralhou em meio aos pensamentos dos outros. Ela avançou em minha direção tão determinada quanto eu.
Porem não havia visto direito que o piso estava molhado o suficiente para se tornar tão liso quanto um sabonete, acabei escorregando. O resto que aconteceu foi muito rápido. Senti alguém segurar minha cintura com força evitando que eu caísse porem como estava correndo ambos caímos.
Eu estava em baixo de um rapaz, ele tinha os olhos azuis turquesa incrivelmente lindos e profundos, a pele cor de porcelana, seus cabelos eram preto quase igual à noite nublada, ele tinha as maçãs dos rostos largas. Ele deveria ser o aluno novo que tantas garotas estavam pensando antes de meu pequeno incidente.
– Você podia começar a olhar por onde anda. – ele disse com tom um tanto sarcástico.
Ignorei o comentário idiota que ele acabou de fazer me levantando rapidamente a procura da garota que me ameaçou. Ela havia desaparecido, por mais que eu a procurasse com meus olhos eu não a encontrava. O rapaz se levantou revoltado.
– Não vai nem ao menos dizer obrigado? – perguntou ele com raiva.
– Obrigada. – eu disse com acido na voz. Vir-me-ei em direção da sala de aula, quando o ouvi sussurrar algo que me irritou.
– Estranha. – ele resmungou baixinho.
– Cuidado novato você não sabe quem eu sou. – eu o ameacei virando lentamente em sua direção. Seus olhos azuis pareceram de repente surpresos. – por isso se eu fosse você não brincaria comigo.
– Eu não tenho medo de você. – ele resmungou dando um passo a frente como desafio.
– Que bom, somos dois então. – eu resmunguei com raiva.
Ele não respondeu apenas ficou me encarando. Voltei a andar em direção a sala, com um suspiro pesado passei pela porta e me sentei na ultima cadeira como de costume, a mais afastada de todas as outras pessoas. Peguei o fone de ouvido pendurado no bolso minúsculo da minha bolsa, conectando no meu celular e aumentando o ultimo. A professora de matemática entrou na sala rapidamente seguida pelo aluno novo. Afundei-me mais na cadeira ignorando o olhar desconfiado dele.
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