Anjos Da Morte
8 Capítulo 8 / Anjos da Morte / Sanguinarismo
Notas iniciais
Eu nunca pensei que estar dentro de uma delegacia fosse tão chato há ponto de você dormir no banco de espera, até levar um tapa na cara da polícia. Aliás, nunca entendi porque alguns militares eram tão idiotas e violentos. Deveria ser drama pessoal, no mínimo.
Algumas horas depois de sermos apreendidos, fomos enfim atendidos pelo delegado, já de madrugada. Era um homem com feições asiáticas, de uma pele morena (provavelmente queimada pelo sol), cabelos grisalhos e meia idade. Tinha uma expressão facial rude, como quem bota medo até no bicho-papão.
– Peter Harrison. Orion, sem sobrenome. Sou Phillip Yamazaki, o delegado. – Dizia o homem rude.
– Nome legal, delegado. Mas ainda prefiro o meu. – Sacaneava Orion, despreocupado.
Eu fiquei preocupado. Muito preocupado. Mas eu estava com um anjo da morte, porque me preocupar? Ele poderia sacanear completamente o delegado e sair ileso daqui, sem a mínima dificuldade. Acontecia que eu era humano, e as regras da minha sociedade se aplicavam a mim. Então Orion não poderia me largar ali.
– Aqui diz que você, Orion, esfaqueou uma mulher junto com sua filha por puro prazer. Não esperava tanto masoquismo de um jovem. – Dizia o delegado Yamazaki, com os olhos humanos que não enxergavam a verdade divina.
– Eu estava salvando elas, meu senhor. Os cortes no pulso ajudaram a extrair parte do veneno que iria ao coração, tanto é que elas ainda estão vivas. – Explicava-se Orion, calmamente.
– Eu até acreditaria no seu conto de fadas, se você não tivesse usado o sangue das mulheres para escrever num caderno imundo! – Gritava Yamazaki, muito estressado.
– Nada é verdade ou mentira, até que se prove ao contrário.
Bastou uma frase de efeito, para que o delegado se exaltasse por completo. Era incrível como ele não ia com a cara de Orion, há ponto de me ignorar completamente e apontar um revolver na cabeça do meu amigo. Orion manteve um controle incrível, deveria estar se concentrando em como usar suas habilidades sem que ficasse com olhos sanguinários e perdesse o controle. Eu suava frio, mas ele não. Mesmo sem muito mais forte que um humano comum, a prole de um anjo com uma humana não era aprova de balas. Principalmente se o tiro fosse à cabeça.
De certo modo, eu entendia a intolerância de Yamazaki. Ele era claramente japonês de origem, não só pelo sotaque, mas também pelo fato da justiça asiática ser muito mais rígida que a brasileira. Então, eu não o culpava por ser um delegado casca grossa e insuportável.
Quando o clima estava cada vez mais quente, ouvi alguém abrir a porta com as chaves. Eu gelei naquele momento. Seria mais um bandido, um demônio, um anjo? Só o destino poderia dizer. Até que, naquele momento, tudo o que se via era um asiático gordo e baixinho comendo salgadinho.
O rosto dele me era muito familiar. Deveria ser da minha escola, ou da minha sala até. Porém eu não lembrava o seu nome, tamanha era a invisibilidade social do garoto.
– Vô me dá dinheiro? – Dizia o gordinho.
– Você é louco Gabriel? Já não é a primeira vez que você vem me atrapalhar no trabalho por coisas inúteis! – Resmungava o velho.
Tá, era meio difícil achar que uma pessoa mais antissocial do que eu teria um avô tão casca grossa assim. Mas, se tem uma coisa que aprendi com Orion, é que o universo nunca fez sentido. Nem mesmo para os deuses.
– Hã, é vocês... São da minha escola! Você é o Peter né, que vive faltando? – Parecia que Gabriel havia me reconhecido pelo nome, o que me fez sentir vergonha por não saber seu nome verdadeiro. Então fingi que já tinha o notado algumas vezes na vida.
– Uhum. – Assenti com a cabeça. Orion o ignorou como de costume.
– Porque eles estão presos, vovô? – Questionava o neto.
– Esses malucos são dois sanguinários, e não quero te ver com eles nunca! Como ousa conhecer pessoas assim garoto?! – Gritava o velho, fazendo eu me segurar para não socar uma pessoa tão desprezível.
– Muito pelo contrário, vô. Eles são dois excelentes alunos, um dos melhores da escola. Peter está faltando por estar doente, e Orion sonha em se tornar um bom médico, sendo que vive socorrendo as pessoas na escola. – Explica Gabriel, num tom incrivelmente convincente.
Não sei como aquele garoto era tão inteligente, há ponto de nos proteger com incríveis contra-argumentos. Aliás, não sabia nem porque pessoas como ele deveriam se importar conosco. De qualquer forma, toda ajuda seria bem vinda.
– Está bem. Vou liberar esses dois masoquistas. – Dizia o delegado.
Aliás, fiquei muito feliz pela ajuda de Gabriel Yamazaki. Não sei como ele conseguiu convencer pessoas tão ignorantes como seu avô.
Depois de um tempo, fomos liberados. Já era madrugada, e eu tinha que ir logo, porque amanhã seria o último dia de aula do semestre.
– Por quê? Porque nos ajudou, Gabriel? – Perguntei.
– Meu avô sempre é arrogante com os outros, especialmente comigo. Ele me odeia, porque não sou tão brilhante como meu primo de naturalidade japonesa, Komuro. Komuro é muito inteligente, e mesmo tendo só dezessete anos já desvendou muitos casos para a polícia japonesa. Ele vai voltar pro Brasil amanhã, e novamente serei desprezado, pois todos o tratam como prodígio familiar.
Confesso que fiquei meio triste, porque Gabriel era um cara legal, e mesmo sendo desprezado pelas pessoas continuou assim. Era um motivo grande para eu admirá-lo e virar seu amigo, então chamei ele pra ir jantar amanhã.
O resto da madrugada foi tranquila, e enfim eu fui visitar minha amiga Alex no hospital. Ela estava muito bonita (como sempre), e seu estado de saúde havia melhorado bastante. Até que a médica disse que na próxima semana ela já teria alta, o que me deixou muito feliz. Eu amo muito Alex, mas não sei se ela e Rick ainda seriam meus amigos depois de eu começar a andar com Orion.
Ao sair do hospital, fui até o estacionamento com Orion para pegarmos sua moto. No caminho entramos o namorado de Alexandra, Alisson, bebendo e conversando com alguns amigos. Quando passamos perto deles, ouvi um dos homens dizerem:
– Sua namorada é muito gostosinha, porque não come logo ela?
– Ah, ela é de família e muito novinha pra aguentar. Mas vai chegar a hora. – Alisson respondeu com um tom escroto.
– Mas você deveria aproveitar logo, antes que ela descubra suas outras garotas parceiro. – Comentou outro cara.
– Ah, não ligo muito pra isso. Tudo no seu tempo. – Alisson falava com um desprezo enorme por Alex, o que me fez ficar enfurecido.
Não hesitei. Eu era muito mais fraco que aqueles universitários bêbados, e não saberia se Orion me protegeria por estar ocupado pegando a moto, porém eu precisava bater em Alisson. Não quero que pense que sou uma pessoa violenta e idiota, mas não poderia deixar de ensinar uma lição a eles. Injuriado, tomei o meio da rodinha (haviam mais de dez caras por lá), apontei o dedo na cara de Alisson, e o questionei:
– Quem você pensa que é pra tratar as pessoas assim, seu estúpido?!
– Ora, ora, ora. Se não é aquele amigo babaca defendendo sua amiguinha Alexandra. – Dizia rudemente Alisson, em tom de provocação.
– Eu te odeio seu babaca!
– Isso se chama inveja seu otário, inveja. Eu tenho tudo: grana, mulheres, faculdade e um bom futuro. Enquanto você é um “Zé ninguém” aí que morre de amores por uma adolescente babaca que todo mundo já pegou.
As palavras daquele cara me deram náuseas. Eu não aguentava mais, e então, rapidamente tentei feri-lo com um soco no rosto. Alisson desviou sem dificuldade nenhuma, e então, quando me agachei, deu-me uma joelhada no queixo com sua perna esquerda. Caí no chão, rolando por conta da dor. Mas levantei logo depois, e continuei tentando agredi-lo sem sucesso por pelo menos cinco minutos. Muito pelo contrário, quem acabou machucado fui eu, porque apanhei não só dele como também de seus amigos.
Foi quando eu já estava com a boca sangrando e os olhos roxos, que inevitavelmente Orion saiu por de trás do carro. Os outros amigos de Alisson perceberam a presença, e logo sacaram do bolso algumas armas brancas, enquanto alguns estavam com pedaços de pau na mão.
– Deixa eu levar meu amigo pra casa, por favor? – Pediu Orion, serenamente.
– O babaca mexe com a gente e acha que vai sair livre faz me rir! – Disse um dos homens atrás de mim, com uma voz rouca.
– Por favor. – Insistiu novamente.
– NÃO! – Gritaram todos os homens, juntos.
Orion deu um sorriso sádico e demoníaco. Seus olhos ficaram avermelhados, e não havia ninguém ali para impedi-lo. Eu sabia controla-lo nesses momentos de crise, mas estava machucado demais, até mesmo para me levantar e agarrá-lo.
A questão daquele momento era só torcer para que não houvesse nenhum massacre sanguinário por ali. Os primeiros homens foram pra cima de Orion, e ele, com enorme facilidade, desviou dos golpes.
Alisson ficou irritado e partiu pra cima de Orion com uma arma branca, muito parecida com espadas asiáticas. Não sei aonde ele conseguiu aquilo, mas o Anjo de Asas Negras desviou facilmente, agredindo-o com um murro na barriga. Depois de Alisson, todos os outros investiram pra cima, ao mesmo tempo! Mas Orion parecia tranquilo, se divertindo. Abateu todos os dez com uma enorme facilidade, rapidamente, estavam todos de joelhos no chão com cortes nas pernas. Orion segurava a espada na mão, levantando a cabeça e olhando para céu chuvoso, com várias risadas macabras. Eu percebi que sua face estava sangrando, assim como suas mãos. Então caminhou calmamente para perto de Alisson, em silêncio, com sua arma na mão. Eu ouvia vários gritos de misericórdia, até que...
PÁ! PÁ! Os sons emitidos eram de tiros, que foram dados por um membro do grupo que se localizava na parte encoberta do estacionamento. Orion estava sangrando, pois as balas haviam pegado de raspão. Inevitavelmente, ele arremessou a espada contra o corpo do atirador. O golpe atingiu uma parte do estômago, e o autor dos disparos gritava de dor. Alisson estava chorando, implorando a deuses e anjos para sair. Orion se aproximou do namorado de Alex, com a espada encoberta de sangue, e a apontou contra garganta de Alisson.
– Por favor, não me mate! Eu juro por Deus! Por favor! – A misericórdia em suas palavras eram grandes, e me deixavam de coração partido. Orion não poderia mata-lo. Não poderia. – Eu não sou quem você pensa que é. – Foi tudo o que Orion proferiu, em resposta aos sons de misericórdia.
Meu amigo não era um assassino. Não era, juro por Deus! Aquele não era o Orion que eu conhecia que brincava comigo, que contava piadas. Aquilo era um demônio fora de controle, que só queria matar por se divertir.
Consegui me levantar com dificuldade, e então desviar a espada rapidamente com um chute. Se não fosse por mim, ela teria perfurado o pescoço de Alisson, e não o vidro do carro.
Estavam todos apavorados, alguns saíram correndo, outros ficaram ali, apreciando uma chegada da morte. Orion desabou no chão, em tom de lamentação, chorando. Ele não havia voltado ao estado normal, mas me ajudou a levantar e seguimos para fora do estacionamento.
Quando olhei pra cima pra cima, então, vi que a lua cheia estava vermelha. A garoa estava de uma cor um pouco mais sólida, umedecendo nossos cabelos. E Orion continuava a rir em estado psicótico, com sua espada enxugada de sangue.
Aquele dia seria lembrado por toda nossa eternidade, como o massacre do estacionamento.
Fale com o autor