Anjos
17 Ágata / Henrique
Ágata
Ela estava fascinada. Seu anjo era um exímio contador de histórias.
Era maravilhoso ouvi-lo narrando histórias primeiras do mundo. Ela tinha que admitir: era maravilhoso apenas estar próximo a ele.
Por vezes, ela o interrompia. Na maioria das vezes, era por que ele usara palavras muito antigas, ou do dialeto angélico – era as que não havia correspondente em nenhuma linguagem terrena -, e então ele tinha de explicá-la o que significava. Mas, também, havia as vezes que ele simplesmente ia muito rápido: Ágata não tinha acordado muito bem, e seu cérebro ainda estava demorando pra assimilar tudo.
~*~
Henrique
— Bem... — disse Carla, olhando pro chão
— Pois é.- murmurou ele, tambem olhando pro chão, e pensando em algo para dizer.
"Creio que voce acha que me ajudou, não foi?"
"Tenho certeza que te ajudei" replicou ela "Se não tivesse feito isso, voce teria dito a verdade, e teriam voltado a estaca zero."
"Só que vou ter que inventar algo convincente agora. E não tenho imaginação suficiente"
"Repita o que eu disser"
"Vou tentar..." pensou sarcastico.
E assim o fez:
"Diga que nos conhecemos há pelo menos tres semanas. E que foi amor a primeira vista."
— Carla... Eu e a Angel nos conhecemos faz um mês. Foi que nem eu e voce no começo.
— Quer dizer que voce vai larga-la quando ela mais precisar de voce?
— Não, não. Carlinha, sabe que voce é muito ciumenta? E isso me sufoca. Eu não to pronto pra algo tão sério. E voce confunde namoro com casamento.
Ela só fungou.
"Coitada dela..."
"Quieta, ok? Me ajuda, ou nem atrapalha! Tá dificil, falou?"
"Tá. Diz que eu te completo ou coisa do tipo. Mas tente não diminui-la."
"Dificil fazer os dois..."
— Olha, ela é perfeita pra mim. Voce continua sendo importante, mas de um jeito diferente. E se não deu certo, não era pra dar. Voce tem que seguir em frente, que nem eu fiz. Sabe... a pessoa perfeita pra voce vai aparecer. Só que se voce se prender a mim, não vai perceber quando ela chegar. Voce não vai ser feliz, eu não vou conseguir ser feliz sabendo disso, e voce está se fechando à tudo que o mundo tem pra voce.
Ela levantou a cabeça, e ele pode ver que ela entendera o que ele tentava lhe dizer há tanto tempo. Ele viu uma pequena mudança naquele olhar. Ele ainda a olhava com amor, mas parecia que ela entendera que aquele amor, era de amigo. Sem paixão. Ela começou a chorar, e ele a abraçou.
"Obrigado"
"Estou aqui para te ajudar. Em tudo. Agora, olhe para cima."
Ele o fez, e ela estava num dos galhos mais altos da arvore mais perto deles. Ela levantou a mão para o céu, e começou a garoar. Em poucos segundos se transformara numa chuva forte, daquelas com pingos grossos e espaçados.
Carla levantou o rosto para a chuva, e deixou que ela o lavasse. Que lavasse sua alma. Angelica levantou a mão novamente, e a chuva se transformou naquela garoa fininha, que parece que uma nuvem desceu à terra. Que embaçava tudo à volta, como neblina na serra. E que encharcava as roupas mais rapidamente que a chuva que caíra outrora. Ela fez um aceno com a mão, e uma das nuvens maiores saiu da frente do sol, lançando um feixe de luz sobre o parque. Fez, então, um arco com a mão, e a luz pálida e suave que se espalhava pela fresta, dividiu-se num caleidoscópio, num arco-iris. Era possivel ver mais que as sete cores. Parecia que todas as cores existentes se uniram naquele raio de sol, e se deixaram mostrar naquele fenomeno — naquele belo fenomeno.
Fale com o autor