Anjos

15 Henrique


Ela caminhou ao seu lado durante todo o percurso. Invisivel durante quase todo ele.

No caminho de volta ele passava em uma banca de jornal, para comprar a nova edição de uma de suas — quase — sagradas graphic novels. E para cortar caminho até sua casa tinha que passar pelo parque do bairro.

Até aí tudo bem. Só que a ex namorada grudenta e ciumenta dele pegara a mania de ficar esperando ele ali. E tentava de todos os jeitos voltar para ele — só que ele queria espaço. Ela era quase perfeita, só que depois de duas semanas se tornara sufocante. E ele não aguentaria nem mais dois dias com ela. Detalhe: já fazia dois meses, e toda segunda, quarta e sexta ela ficava no parque, aguardando por ele. Na maioria das vezes ele conseguia vê-la antes que ela o fizesse, e desviava por outra trilha. E quando isso não acontecia, ele conseguia escapar com alguma mentira. Exemplos? Nas primeiras vezes dissera que precisava de um tempo para pensar, que quando 'estivesse pronto para voltar' diria à ela. Impaciente como tal era, não funcionou. Então ele começara a dizer que estava em outra, que ela deveria fazer o mesmo. Que ele já estava saindo com alguem legal, e não queria nada com ela. Até o ponto de dizer que tinha namorada, coisa das sérias. Só que aí ela pediu para ser apresentada à tal 'sirigaita' que o roubara dela. E toda semana ela estava ali, pronta para dizer que ainda o amava. Que o queria de volta. E para insistir ser apresentada a nova namorada — sabendo que era mentira, aguardando para vê-lo desistir e admitir que não há nenhuma outra garota.

Comprara a graphic novel, e o problema chamado ex lhe veio a mente. Claro que sua guardiã notou

"O que houve?"

"Nada não." respondeu como fazia com todos quando perguntado sobre isso.

"Não ouses mentir para mim, Henrique!" disse ela num tom ao mesmo tempo brando, mas de ordem. Calmo, suave e tambem vibrante e que desafiava qualquer um a questionar "Conte-me logo o que se passa. Sou tua anja, tua guardiã. Preciso saber de tudo. Qualquer detalhe pode ser crucial nesta missão."

Então ele resumiu o que já foi rapidamente exposto acima. E finalizou dizendo (ou pensando):

"Então ela vai me pressionar de novo, e eu acho que vou acabar cedendo e contando a verdade. Daí que ela não vai me deixar em paz mesmo."

"Por que simplesmente não diz que não queres nada com a garota?"

"Já disse. E ela não aceita. Tenho medo que caia em depressão. Ela é emotiva demais, fragil demais. E eu me culparia eternamente se qualquer coisa lhe acontecesse por conta de algo que eu disse ou fiz."

"Então não sei se posso ajudar. Tenho a impressão que queres resolver sozinho. Estou correta?"

"Sim" e lhe sorriu, ainda olhando para a frente, o nada. "Acho que certas coisas eu tenho que fazer por conta própria"

"Então estarei na trilha de trás. Gosto de algodão-doce, e o senhor que vende era protegido por uma amiga minha. Ele ainda pode me ver" Sorriu, virou-se e foi para o outro caminho.

Ele sorriu tambem, e pensou que se encontrasse uma garota como ela, pediria em casamento no mesmo minuto. Eles se deram bem em tão pouco tempo. Talvez o lance da telepatia ajudasse nisso. Mas não. Ele sentiu que se ela fosse uma mortal comum, o mesmo aconteceria. Seria extremamente bom encontrar alguem assim.

Suspirou ao lembrar o que lhe esperava. Respirou fundo, ajeitou a alça da mochila no ombro e foi de encontro ao seu ultimo caso amoroso — e o mais problematico e tempestuoso.