Anjos

18 Ágata / Henrique


Ágata

Passaram-se horas. Seu anjo contara diversas histórias. Era divertido, e ela sentia que aprendia e apreendia muito mais do que pudesse parecer, e mais do que todo o conhecimento que acomodara durante seus anos. E era verdade.

Afinal, o que é a literatura, a matemática, a música e a filosofia, se comparada à história celeste, ao conhecimento acerca do Senhor Soberano ou sobre o principio?

Seu guardião era sábio. Ambos sabiam disso – e ela, consciente ou não, fazia de tudo para sorver um pouco desta sabedoria.

— Sabe, depois que Caim matou Abel, ele acabou por piorar sua situação. Abel foi o primeiro humano a morrer, o primeiro a entrar nos céus – e afinal, ele foi mais que merecedor. Ele é puro e fiel. E não deixou que nada abatesse sua fé – nem as tentações de Lúcifer.

— Mas... acho que na época que Deus falava diretamente aos homens, era mais fácil acreditar. Sabe... não havia tanta maldade no mundo, tanta crueldade, a ponto de se perguntar: onde está esse Deus? Onde ele se escondeu? Por que ele não faz algo, não mostra sua face, não fala aos seus fiéis? Como alguém continua acreditando nesse Deus, mesmo ao ver tantas injustiças?

— É por isso que acreditam. Se, diante de tantas dificuldades, não acreditassem, o mundo seria pior do que já é. E todos entrariam em colapso: afinal, pra que viver, se vamos morrer? Pra que sermos bons e puros, se não há recompensa? Pra que fazer planos, se sabemos que serão abruptamente interrompidos, e não teremos uma segunda chance?

Ela apenas o fitou. Aquilo penetrara em sua mente, e ela sabia a resposta: as pessoas precisam de algo para se firmar, algo que lhe prometa que tudo vai melhorar. Senão, perderiam aquilo de mais precioso que tem: sua humanidade.

~*~

Henrique

Depois que Carla se acalmou completamente, e que o arco-iris estava apenas em suas memórias, Henrique a acompanhou até em casa. Ela tinha um semblante diferente. Respirava diferente, caminhava diferente, pensava diferente. Sua cabeça mudara. Ela tinha entendido aquela chuva repentina num dia de calor como um sinal – e o arco-iris estupendo confirmara esta teoria. Para ela, fora um sinal de que as coisas iam melhorar.

E ela estava certa – as coisas iriam de bem a melhor, e para os dois.

Angélica os acompanhara todo o tempo, a uma certa distancia. Estava invisível, e passava por entre as coisas e pessoas terrenas como se a matéria de seu corpo fosse inexistente – ou o contrário. Henrique percebera isso – e fez uma anotação mental de perguntar sobre.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.