— Laura?

Escuto meu nome e rapidamente acordo. Olho ao meu redor e vejo minha professora irritada e meus amigos com uma cara de ''estou tentando segurar essa risada''. Esfrego os olhos enquanto penso em uma desculpa bem sensacional para dar para essa velha chata que está me olhando como uma presa.

— Desculpa professora, ontem tive que trabalhar até tarde. Não tive tempo para dormir. – era meia verdade. Eu estava totalmente focada em terminar de jogar piano tiles. Isso conta?

— Responda a pergunta.

— Que pergunta.

— Qual é o mais extenso e o mais navegado rio da Europa?

Pensei um pouco e me lembrei que ela era a professora ranzinza de geografia.

— O mais é extenso é o Rio Volga e o mais navegado é o Reno.

Rugas em suas sobrancelhas apareceram e meu olhar de ''desculpe querida sou inteligente'' apareceu.

— Se você dormir mais uma vez em minha aula será suspensa.

— Como quiser.

Ela voltou a dar aula. Uma bolinha de papel repousou na minha mesa. Peguei e abri.

'' Sou sua fã. – Marian''

Olhei para trás e vi Marian mandando beijo e fazendo uns sinais esquisitos para o lado de sua carteira. Fui olhar e me deparei com Pedro olhando e sorrindo para mim. Acenei para ele e virei para frente. Marian provavelmente acha que ele está afim de mim e ela irá me atormentar pelo resto da semana.

Depois da escola, fui direto para casa. Encontrei minha mãe na porta de casa cumprimentando um homem de terno. Não fazia idéia de quem ele era.

— Oi filha, que bom que você chegou.

— O que foi? – olhei para o cara depois para minha mãe.

— Pode me dar uns minutos com minha filha. Já volto.

— É claro. – ele concorda.

Entro em casa e logo depois vem minha mãe.

— Quem é esse homem?

— Laura, tenho uma coisa para te falar.

— É coisa ruim né? – ela me olha triste.

— Desde da morte do seu pai as coisas estão muito... difíceis. Contas para pagar, sua escola, a hipoteca...

— Você está pensando em vender a casa?

— Essa casa é muito grande para eu bancá-la sozinha.

— Mas é a única lembrança viva do papai!

— Eu sei. – ela diz olhando para seus pés tentando pensar em mais alguma opção. Mas eu sabia que minha mãe não tinha mais nenhuma, a não ser vender a casa.

— Para onde vamos? – digo.

— Vamos nos mudar para outra cidade.

— A cidade da tia Bel?

— Tem uma casa a venda na rua dela. É uma ótima vizinhança e lá tem uma boa escola também.

— Não vejo a tia Bel há uns 10 anos.

— Ela tem um filho. Está com sua idade.

— Aquele menino que jogava lama no meu cabelo?

— Exatamente ele. – ela sorriu.

— Mãe, eu entendo. Juro, eu não quero que a senhora se preocupe comigo. Eu vou te apoiar sempre. – eu jogo meus braços em torno dela. Seu cabelo loiro queimado bate nos meus braços e eu sorrio ao lembrar da época que minha mãe andava com seus cabelos no ombro ressaltando um lindo sorriso nos passeios com meu pai. Uma lágrima caiu e rapidamente limpei.

— Eu te amo filha. – ela beijou minha testa e caminhou até a porta para falar com o corretor.

X

— Não acredito amiga! Não vamos se ver mais? – Marian faz uma cara triste e me abraça mais forte do que já estava.

— Eu vou voltar nas férias.

— Quem vai me dizer com que roupa ir para as festas? E com que menino devo ficar? Não vou sobreviver sem você!

— Ah você vai arranjar outra de mim muito fácil.

— Eu não quero outra de você. Você é única. – ela me solta e limpa uma lágrima.

— Marian você vai me fazer chorar!

Ela senta do meu lado no banco em frente à escola e entrelaça nossas mãos. Pedro chega e fica em pé na nossa frente.

— Que tanto amor é esse? Resolveram se converter? São um casal agora?

— Ah para com isso. A Laura vai embora. – Marian diz chorosa.

— Sério? Poxa, que saco heim. Sinto muito.

— Não vou agora, só daqui a um mês. Então vocês tem trinta dias para me encherem o saco.

— Passe livre? – Pedro diz animado.

— Exato. – concordo.

Ele me pega do banco e me carrega em suas costas. Eu começo a gritar pedindo para ele me colocar de volta ao chão, mas ele corre ainda mais em direção a escola. Todos os que eram empurrados por Pedro riam. Inclusive tinha um sorriso congelado no meu rosto.

1 mês depois.

Fecho a última mala. Deito no chão e respiro fundo. Essa casa me traz mil lembranças, as melhores são com meu pai. Minha respiração fica ofegante e uma lágrima escorre pelo meu rosto. Ouço passos pesados vindo ate meu quarto. Minha mãe aparece na porta.

— Está pronta?

— Estou.

Pego minha mochila e a mala e levo até o carro. Dou uma última olhada no lugar em que eu cresci e fecho os olhos tentando memorizar todos os detalhes.

X

A viagem foi longa e muito cansativa. Chegamos na casa nova antes do caminhão de mudanças e isso era um má notícia. Minha mãe e eu seguimos até o final da rua, que era onde minha tia morava. Eu nem sabia como ela era, fazia muito tempo que eu não a via.

— Vocês chegaraaaaaaaaam! – Tia Bel pula de alegria e dá um abraço na minha mãe depois em mim. – Como você cresceu Laura!

— É né, não sou mais aquela menininha de maria chiquinha.

— Está quase adulta! Que orgulho.

Tia Bel era o sinônimo de uma tia carente. Ela era muito emocional. Ela tinha cabelo loiro como o da minha mãe e olhos claros. Tinha o mesmo corpo que uma miss universo. Fiquei até com inveja. Naquele dia coloquei meu óculos já que eu guardei as minhas lentes na mala e não dava mais para pegar. Limpei as lentes e coloquei de volta, automaticamente uma nova visão surgiu. Um menino alto, forte e... lindo, estava sorrindo em minha direção. Ótimo dia de vir com um moletom, tênis e óculos. Dei um sorrisinho e acenei mesmo não sabendo quem ele era.

— Laura esse é o meu filho, Enzo.

— O garoto que jogava lama em mim? – apontei para o maravilhoso cara que era meu primo segundo minha tia.

— Eu não me lembro disso. – ele disse com um sorriso torto.

— Eu me lembro de ficar horas no banheiro tentando tirar aquela lama. – dou um sorriso irônico.

— Ele mesmo querida. Vocês vão se dar super bem. – ela sorri.

— Com certeza. – ele fala.

— Entrem. Não vão ficar ai do lado de fora né?

Eu e minha mãe entramos e nos sentamos no sofá. Tirei meu tênis e sentei como 'índio' no sofá, com uma perna sobre a outra. Me recostei no sofá enquanto Enzo se sentava ao meu lado. Nossas mães estavam conversando sobre chás e eu estava super entediada.

— Você precisa experimentar esse bolo! – tia Bel se levantou e minha mãe foi atrás.

— Oi. – disse Enzo.

Fiquei em silêncio.

— Não vai dizer 'oi' também?

— Não sou obrigada a conversar com você. – digo e volto a olhar para o teto.

— Muito marrenta você heim.

— Não sou marrenta, isso é só tédio se acumulando. Odeio ficar sem fazer nada.

— Conversa comigo então.

— Não é uma das minhas opções. Eu sou muita chata. – dou desculpa para não conversar.

— Deve ser por isso que eu jogava lama em você. – ele ri.

— Olha aqui, eu to meio mal hoje. Então se você puder me deixar em paz, agradeço.

— Mal de que? Nunca alguém ficaria mal com minha companhia.

— Acabou de achar alguém.

— É assim que vai ser? – ele me olhou como se eu fosse um desafio.

— Sim.

— Okay. – ele me olha e se levanta indo até a cozinha. O observo por uns instantes depois fecho os olhos pensando nos amigos que tive que deixar.

Notas finais
~ Beijinhos