Anjo do Silêncio
1 Plumas Ensaguentadas
Envolto em negras asas o silencioso anjo observa sobre prédios enegrecidos pela fumaça cancerígena de uma cidade envolta em peste e barulhos incessantes. Seu negro olhar cai até as minúsculas figuras que se aglomeram abaixo, uma vez que olhar para cima daquele ponto lhe causa angústia. É apenas o entardecer, mas pesadas nuvens de grande negror pairam no céu escurecido. Nenhum sinal do sol todo o dia, apenas a mórbida claridade que passava aqui e ali e era o suficiente para não acender as luzes das ruas entristecidas.
“Por quê?”
Seu coração batia num ritmo calmo, mesmo com todos os motivos do mundo para que estivesse em frenesi alucinado. Via desespero nos olhos da gente toda, mesmo naqueles alheios a tudo, mesmo aqueles completamente absortos no que parecia ser a “realidade”. Sentia garras com longas unhas apertando cada coração. Um a um via-os morrer. Não de corpo, este ainda perduraria mais alguns anos — mas na alma.
Via a essência humana se deturpar a cada segundo, a cada escolha, a cada decepção. Via o amor deturpar-se com a corrupção.
“Por quê?”
Com a respiração pesada, como se o ar tóxico estivesse ferindo os pulmões, decidiu pousar. Os longuíssimos fios negros caíram sobre o rosto, escondendo quase totalmente os rubros orbes. Toda sua aparência pálida, enegrecida e silenciosa, vestindo mantos de luto profundo encontrou então seu descanso sobre a antena de um arranha-céu do centro da cidade. Suas grandiosas asas, então, esticaram-se dolorosamente e, mesmo em seu limite de abertura, ele forçou-as a abrirem-se mais até que as articulações sangrassem. Nesse ponto, frias lágrimas cristalinas escorreram quietas pela face marmórea. O único sinal de qualquer emoção. O vento, então bateu sobre si, fazendo com que tudo esvoaçasse. Os cabelos, a túnica que trazia amarrada na cintura, o sobretudo com capuz que se encarregava de cobrir-lhe o rosto, as lágrimas... As penas das asas manchadas com o sangue imaculado. Segurando uma em sua pálida mão antes de permitir que se fosse, levou aos lábios em uma suave despedida.
-Vá. Espero que tu e tuas companheiras tenham alguma sorte neste mundo vazio.
Gélida voz que soava rouca, como se embargada por lágrimas esquecidas no passado distante. Vazia tal qual o mundo a que ele se referia. Soltou a pluma e deixou-se parado naquela posição, os olhos finalmente alcançando o negro firmamento.
“Por que tamanho sadismo? Por que tantas dúvidas?
... Não sou bom o bastante para todos eles?
Por que tanta crueldade desmedida? Por que tanta frieza?
... Por que você mente para nós todos?
Por que somente minhas asas não bastam para trazer toda essa tristeza e livrar seus corações dessa dor?
...Por que não me sentem mais...?
Por que tanta discórdia?
... Para que tanta dor?”
Desceu mais um pouco do arranha-céu, as lágrimas sendo secas na queda livre até pousar fantasmagoricamente sobre um prédio menor, onde seria perfeitamente visível pelas pessoas. Nesse momento, observou que uma de suas penas banhadas em sangue caíra aos pés de uma garotinha que era trazida pela mão por sua mãe completamente dispersa no celular. Então ele baixou os olhos, mais alguém a ignoraria e passaria por cima.
Mas então, para a surpresa daquele ser, a menininha desvencilhou-se da mãe e pegou a pluma ensanguentada, abraçando forte junto ao peito. Os olhos do anjo negro abriram-se, as lágrimas estancaram por um segundo. Seu mundo estancou. Naquele brevíssimo segundo, os olhos castanhos da pequena encontraram com o seu e ela, sorriu, puxando a calça de sua progenitora.
-Olha mamãe! Olha ali! Um anjo!
Animou-se a pequena, um pequenino raio de sol em uma cidade de penumbra. A mãe, irritada com a demora da filha, a puxou fazendo com que a pena voltasse para o meio da rua.
-Não diga mentiras, menina. Anjos não existem!
O golpe doera fundo no ser enegrecido, mas ele não se moveu. Era um desfecho comum. O mundo voltara a girar para si no mesmo arrastar pesaroso e tétrico da eternidade, o doce aroma de morte que provinha do futuro, a mesma doçura da solidão... A canção silente dos mortos vinda de um Jardim longínquo, que continha estátuas de tudo que vive, viveu e viverá.
Mas então, a jovenzinha deu um puxão das mãos da mãe e tornou ao local onde jazia solitária a pena escura, tomando-a nas mãozinhas tenras e quentes. Beijou-a com carinho, como se pertencesse a alguém muito importante e, de súbito, a pluma se desfez em um brilho caloroso e o anjo negro apareceu ao lado da criança, de joelhos. O mundo não importava mais, apenas eles. A solene jura dita num sussurro, o sentimento mútuo que não viera com o olhar, mas sim com o toque mais puro. Ele não era mais capaz de sorrir, mas por ela –aquela única- talvez valesse a pena arriscar-se e lutar. Uma única pessoa era o que bastava para reaver as esperanças do anjo.
-De hoje em diante, não tema mal algum. Irei protegê-la.
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