Anjo Negro
4 A voz
Notas iniciais
Onze anos atrás.
Cidade dos anjos.
Tenho seis anos de idade. Meus pais estão agora brigando na sala, outra vez meu pai chegou bêbado em casa, depois de gastar todo o nosso dinheiro. Minha mãe está gritando com ele, eu estou no canto da sala encolhido, tampando os ouvidos.
_QUERO QUE SAIA! _Ela gritava, pedindo que ele fosse embora.
_CALA ESSA BOCA MULHER! _Ele deu um tapa na cara dela, fazendo a cair no chão. Sai de meu esconderijo, no canto da sala. Levantei-me e comecei a socar-lo.
_Seu moleque ingrato! _Gritou. Dando-me um soco no estomago. Deixando-me sem ar. Cai no chão.
_Lucas! _Ela gritou, correndo em minha direção
_Levanta os braço querido, respira. _Fiz o que ela mandou. E conseguir encontra ar.
_Desgraçado! Como pode bater em nosso filho assim? _Ela se levantou, dando um tapa na cara dele. Ele segurou a mão dela e a arrastou para fora de casa. Depois disso não me lembro de mais nada. Ele disse pra mim que ela foi embora me largando com ele. Não acreditei, mais com o tempo vi que ela não iria voltar, me conformei com minha vida inútil.
***
Londres, 27 de Agosto de 2013.
Cidade dos anjos.
Ontem, tomei mais uma surra do meu pai bêbado e imprestável. Faz um mês desde que comecei a ouvir uma voz, ela me diz coisas... Diz que “sou um inútil”, “que minha mãe me largou por isso”. Mas não acredito e brigo com ela. Às vezes ela parece ser minha amiga, fala que me entende, que é meu amigo. Acha que sou louco? Também cheguei a achar. Mesmo às vezes me falando coisas horríveis ela e minha única companhia. Passos muito tempo sozinhos, na escola todos me ignoram e me zoam. Um dia ela me falou pra não aguentar isso. Bati muito em um garoto que veio me zoar, bati nele até sair sangue. Por isso fui expulso e hoje estou aqui nessa escola chata. Sentado aqui nessa sala.
_Lucas...? _A voz me chamou.
_Lucas, porque está fazendo isso? Não ver que eles iram te zoar de novo? Não acha que já não basta de sofrer? Ninguém te ama, Lucas. Só eu. _Levantei a cabeça, ele está certo. Uma garota olhou pra mim. Ela virou novamente pra frente esfregando os braços, sentindo frio.
_Está vendo, mais uma pra te zoar. Até ela vê que você é um fracassado. Venha comigo, vamos ser amigos pra sempre, é só você se matar. _ “Me matar?”.
“Não tenho coragem pra fazer isso.”
Escrevi no meu caderno, para ele ler. Ele não gostou nem um pouco e fez ficar mais frio. Não posso velo, mais sei quando está com raiva.
_Deixe de ser bobo! Seu idiota! Ninguém ousa bem, ninguém te ama. Todos te odeiam, sou o único que gosta de você. Peso-te uma coisa e nega. Pra mim! Seu amigo! _Ele gritou em meu ouvido. Tive que colocar as mãos os tampando, de tão alto que ele gritou. A aula acabou. Peguei minhas coisas e coloque na mochila. Já do lado de fora, no gramado onde todos conversavam e aproveitavam o sol à voz voltou a falar comigo.
_Lucas! Lucas! Lucas! _Ela cantava em minha cabeça, sem parar. Coloquei as mãos nos ouvidos em uma frustrante tentativa de não a escutar.
_O que quer? _Disse entre os dentes.
_Cara maluco! _ Um casal ao meu lado disse, saindo de perto de mim. Fui andando pelo gramado em direção a floresta, em busca de privacidade para conversar com ele sem ser chamado de louco.
_Está vendo, agora eles pensam que sou louco.
_Eles já achavam isso, antes mesmo de ouvirem você falar comigo.
_Eu quero que você se mate. _Ele disse em um tom de raiva.
_Já disse que não consigo. _Me aproximava da clareira onde o lago se encontrava. Chegando ao lago subi em cima de uma pedra e o admirei. O lago dos anjos é lindo principalmente nessa época do ano cheio de flores de lótus.
_Pule! O que tem a perder? Todos te odeiam, menos eu. Quero que venha ficar comigo, aqui nunca mais irar sentir essa dor. _Tirei os tênis e a camisa.
_Você me ajuda a fazer isso? _Falei baixinho. Quase não dando pra escutar minha voz.
_Sim. _Pulei no lago. Senti a água gelada em minha pele. Abri os olhos, a água do lago está transprarente. Senti algo rosar meu pé, olhei pra frente e vi um cardume de peixes a me rodear. Senti que ficava sem ar. Bati os pés, mas não sai do sugar. Comecei a me sacudir, tentando subir e nada.
_Acalme-se Lucas. _A voz disse.
_Não queria que eu te ajuda-se? Confie em mim em um minuto terá deixado esse mundo pra trás e estará comigo. _Parei de me debater.
_Isso, agora feche seus olhos. _Fechei os olhos. Então tudo ficou escuro. Vi a forma de um homem com assas negras, ele estendeu a mão pra mim. No momento em que ia segura sua mão, senti que me afastava.
_NÃO! _A voz gritou. _Acordei engasgado cuspindo a água que tinha engolido. Abri meus olhos de vagar e avistei uma linda garota me olhando.
_Quem é você? _Perguntei, pensando estar morto.
_Pode me chamar de anjo, se não fosse por mim você estaria mortinho. Você é idiota?
_Não era pra você ter me salvado. _Me sentei, passando as mãos em meu cabelo molhado. A voz deve está furiosa.
_Me deixa recuperar o fôlego que eu te afogo pra valer. _Ela se deitou no chão.
_Você está bem? _Perguntei, preocupado com ela.
_E você está? Porque me parece bem maluco.
_Meu nome é Lucas, acho melhor tirar essas roupas molhadas, pode ter uma hipotermia. _Ela se levantou tirando a blusa a torcendo tirando a água. Eu fiquei sentado a olhando. O sol batia nela quase parece um anjo. Vi que ela tem uma tatuagem nas costas.
_O que foi? _Ela disse Irritada.
_Tatuagem maneira.
_Não é tatuagem, é uma marca de nascença. Agora vai dizer que não acredita?
_Não.
_Não? _Ela Perguntou surpresa.
_Se você diz acredito. _Me levantei, peguei meu tênis e minha camisa, indo embora. Já chegando no gramado a voz voltou a falar comigo.
_Quem é ela? _Ele perguntou irritado.
_Não sei, ela disse que é um anjo. _Sorri.
_Não viu o que ela fez? Ela me afastou de você.
_Como ela fez isso se está falando comigo agora? _Disse irritado.
_Não sei como ela fez, mais enquanto estava com ela, tinha um muro que me impedia de falar com você. Já na sala de aula fiquei a observando, ela olhou pra trás sorrindo pra mim. Como ela é linda. Com certeza é um anjo.
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