Aquele foi o último dia em que tive aquela sobrecarga. Agora sou novamente uma criança "normal", se tirarmos as marcas deixadas pelo feitiço que fiz. Snow ainda não acredita que fiz aquilo, mas ela vai entender o motivo do que fiz. Meus pais ainda estão assustados com o que aconteceu. Minha mãe nunca mais voltou ao normal, ela começou a murmurar pelos cantos, como se estivesse conversando com alguém.

E descobri o motivo pelo qual ela é super protetora. Já tivera um irmão, ele morrera uns meses antes de eu nascer. Ele continua a morar na casa, consigo conversar com sua alma, mas como estou sem meus poderes, não posso mandá-lo para o outro lado... E lá vou eu novamente a entrar no meu modo de Anjo da Morte, sim, mas isso é só com ele.

Me lembro que quando comecei a morar naquela casa ele era o único que conseguia falar comigo. As conversas que temos mantiveram sua alma pura e pelo que parece ele continua a viver aqui pois espera que eu, ele sabe meu segredo, o liberte para poder voltar.

Seu nome era Márcio, cabelos dourados, olhos verdes, 5 anos, ou seja, morrera cedo e é por isso que Eleanor e Sirius ficam preocupados comigo.

A idade na qual ele morreu é a idade que tenho agora. Mas passarei desta idade que tenho e descobrirei o motivo pelo qual voltei.

Temo que a cada dia que passo aqui nesta casa derrete e amolece o meu coração. E é possível que logo tenha que fugir dessa casa, mas antes disso tenho que libertar Márcio de seu sofrimento, não posso deixá-lo sofrer a morte de um fantasma, uma almas que criou raízes no local. Ele é apenas uma alma bondosa, mas se ficar sem contato comigo, creio que no dia seguinte ele se tornará um monstro no qual deve ser abatido. Seu tempo de subir muito já passara e ele só continua aqui por pura teimosia e por mim, aquele que sempre conversa com ele.

Eu e Snow estávamos num parque próximo a minha casa conversando sobre o que acontecera no dia anterior, minha mãe que nos trouxe, já que precisamos de algum adulto nos supervisando quando saímos. Não preciso contar muita coisa para ela, pois parece que ela sabe de tudo, mas sempre conto mesmo assim.

"Hum... É por isso que sinto, mas não sinto nada de seus poderes. Sinto que você os tem, mas não sinto pois você os selou." Snow, me diga alguma novidade. Sei melhor do que ninguém que selei meus poderes, não quero perder esse novo corpo que ganhei. Pelo menos não antes de descobrir o motivo pelo qual voltei. "Acho que devemos logo mandar seu irmão para o outro lado. Tenho certeza que ele vai ficar feliz, mas como você está agora... será impossível. Não tem poderes nem para levantar uma pena." Juro que se ela estivesse como foice eu a selaria por um tempo... mas agora que ela tem forma humana... é meio que impossível. Suspirei.

"Como eu queria que tudo fosse como antes..." Suspiro.

"Bom a culpa foi sua, procurei por outros anjos que poderiam me empunhar, mas nenhum deles tinha o preciso, portanto tive que te esperar, e seu trabalho só aumentou, seu anjo idiota." Snow, adoro quando está brava, assim me sinto mais livre e volto a ser eu mesmo. Aquele anjo com um coração tão frio que nunca derretia, mas que agora está um pouco escorregadio.

"Tudo bem, não me arrependo de ter 'morrido'. Mas ainda me arrependo de não ter escolhido uma morte infinita, não queria voltar a esse mundo. O mundo que a cada dia que passa só piora." Soltei. Não aguento o bate papo dela, parece que nunca vai parar.

Snow apenas levanta do balanço que ela estava, sobe a árvore que estava empulerada. E coloca um dedo no meu peito.

"Nunca diga isso novamente. Ouviu? Nunca diga isso. Fui criada como uma arma, mas quando escolheu morrer e voltou a vida, acabei por renascer no corpo de uma menina. Bem não sou totalmente uma menina. Mas mesmo assim, nun-ca mais de-se-je is-so." Snow, não sei o que me deixou mais com medo. Você soletrando ou o fogo gélido que tinha em seus olhos ou ainda sua mão, ela estava começando a virar a ponta de uma foice.

"Bom agora que já decidimos tudo." Disse ela como se nada tivesse acontecido. "O que teremos para comer hoje, tia?" E ela sempre faz isso quando minha mãe vem nos trazer.

Somos vizinhos, algo que me arrependo profundamente de descobrir, pois sou obrigado a vê-la todos os dias mesmo que não queira, e só fui salvo de uma torrente de perguntas porque ela chegou em casa querendo brincar comigo naquele dia. Te agradeço profundamente por isso, mas agora é você que quer saber de tudo, mesmo já tendo te contado quase tudo. Algumas coisas nunca contarei para você.

"Snow, hoje teremos risoto de camarão, farei uma porção extra para você." Minha mãe responde gentilmente a pergunta da garota branca.

Naquela noite, algo estranho começou a acontecer. Sons e imagens começaram a invadir meus sonhos, fragmentos das minhas memórias antigas? Muito provável. Ainda lembro da parte mais chata da minha vida, mas agora que estou sentindo o calor da vida humana sinto que estou recuperando memórias a muito tempo jogadas de lado, como se elas tivessem ficado congeladas com meu coração.

"Mãe, quando vou receber meu trabalho aqui no céu?" Perguntei a uma mulher de lindo cabelos loiros que iam até os joelhos, asas brancas como a luz da lua, ela usava um lindo vestido branco que ia até seus calcanhares. E ela era linda, como nenhuma humana conseguia ser, seu rosto perfeito, olhos azuis que pareciam congelar as pessoas com um olhar.

"Dark, logo chegará o dia." Essa parecia sempre ser a resposta. E ela sempre sorria para mim, como se esperasse algo acontecer.

Meu pai, bem, não lembro dele, mas minha mãe disse que ele era um anjo guerreiro e ele morrera para nos proteger a muito tempo atrás. Mas sei que ela ainda o vê em mim. Pelo que ela fala e como ela olha de maneira sonhadora para meus cabelos. Ela acariciava meus cabelos negros e sempre cantarolava aquela canção para mim. Não sei o nome, mas ainda me lembro dela. Uma linda música, mas ainda triste. Como o futuro que me aguardava.

Não demorou muito para que eu fosse chamado para fazer o teste de meu trabalho. Aos 15 anos angelicais somos chamados para fazer um teste com algumas magias. Eu não sabia nada sobre isso, mas lembro muito bem, o feitiço que recitei naquele fatídico dia.

"Plumas negras cobrem o céu no dia em que a morte chega. Os espinhos negros caem como trovões, deixando o chão ensanguentado." Acabei por recitar a primeira coisa que veio em minha mente. O "feitiço" que recitei acabou por deixar cair uma pequena nuvem de espinhos negros cair no chão, e esses quando tocavam o chão acabam por deixar pequenas manchas de sangue. Algo que eu não esperava que fosse acontecer. E quando estava para sair, um anjo idoso me trouxe uma foice, e me pediu para por a mão em cima dela, e assim que eu fiz isso, minhas asas brancas escureceram de uma vez, como se nunca tivessem sido brancas. E nesse dia, eu fui escolhido como anjo da morte.

Acordei com um pulo. Acho que sei porque tranquei essas memórias, elas são dolorosas de mais. E quando levei minha mão ao rosto, pude sentir algumas lágrimas sob meus olhos e rapidamente limpei o rosto com as mãos. Não posso ser visto assim pela minha mãe humana, ela já não está bem e se ela me ver assim... não quero nem pensar no que ela vai falar.

Desci para encontrar minha mãe, que já estava acordada, preparando o café da manhã para todos nós. Ela era sempre a primeira a levantar, e a última a dormir. Sei dessa parte pois meu irmão me conta que ele vigia nossa mãe quando ela vai dormir.

"Bom dia Lu. Daqui a pouco o seu café estará pronto." Ela disse com uma voz feliz. Então pelo visto ela teve um ótimo sonho. Espero que nada estrague esse dia.

"Bom dia mãe." Respondi enquanto me sentava na cadeira. E a observava fazer o café. E eu estava achando que o dia não pioraria, até olhar para fora e ver ela, Snow. Suspirei, ela estava vindo para cá mais uma vez, ainda não sei porque ela insiste em vir me ver todos os dias. Sei que fomos companheiros há eras atrás. Mas agora, sou apenas um garoto e ela, bem, sobre ela nada posso afirmar. Para mim ela é estranha, desde o dia em que nos conhecemos, quando ela ainda tinha a forma da Foice da Morte.

"Tia, estou aqui hoje novamente." Disse enquanto abria a porta da cozinha. "Vim esperar esse preguiçoso." Ela olha para mim sorrindo e senta numa cadeira na cozinha.

"Olá Snow, vejo que veio hoje novamente. Espero que Lu não esteja dando trabalho na escola." Minha mãe responde sem nem mesmo olhar para ela, minha mãe já se acostumou com as aparições da menina por aqui. "Vamos tomar café?"

"Mãe, não precisa falar como se eu fosse bagunceiro!"

"Aceito um leite, já comi em casa." Ela responde. Ela é cortês, isso eu não posso negar, mas ainda é mandona.

"Tudo bem, prepararei para você também." Minha mãe responde. Sério, não consigo entender o motivo pelo qual minha mãe a trata tão bem.

"Pronto, está tudo aqui." Disse enquanto colocava o café da manhã na mesa. "Vou lá acordar o seu pai para que ele leve vocês para a escola." Ela sobe enquanto eu como.

"Sua mãe é uma pessoa boa. Espero que esteja bem em morar aqui. Saiba que se não aguentar mais a morar aqui terá que desistir de sua parte humana e voltar a ser um anjo completo." Ela fala isso parecendo feliz com a ideia.

"Não sei se vou fazer isso, mas espero que nada aconteça aqui. Vamos comer ou ficará frio."

Nesse momento minha mãe desce com meu pai. Ele já estava arrumado e pronto para o trabalho. Ele se sentou a mesa após um rápido bom dia para todos. Comemos em silêncio. E quando todos acabaram, fomos para o quarto do meu pai e lá o esperamos.

"Tchau filho, se cuide na escola. Snow, continue a cuidar desse menino." Eleanor nos beija rapidamente nas bochechas. "Sirius leve-os para escola, e tenha um ótimo dia de trabalho, logo mais saio para o meu. Tenham um bom dia. Nos vemos mais tarde." E, como sempre, perdemos uns 2 minutos nos despedindo dela.

Ninguém fala nada no carro, pois meu pai está concentrado no carro. Eu e Snow estamos no banco traseiro olhando para fora do carro esperando chegarmos na escola.

Chegamos na escola e algo chama minha atenção.

"Errr... Lúcifer, espere um minutinho. Quero falar algo com você." Meu pai fala rapidamente.

"Snow, me espere na sala. Não vou demorar."

"...Saiba que isso não me agrada..." Snow responde como se estivesse preocupada.

"Apenas vá." Respondi rudemente. E ela saiu do carro e entrou na escola.

"Filho, apenas não ligue muito para sua mãe. Ela está sendo super protetora. Apenas faça o que um garoto da sua idade faria. Corra, brinque, se machuque, e brigue se for necessário. Apenas não deixe sua mãe preocupada daquele jeito novamente." Ele olha para mim com olhos que pareciam estar suplicando.

"Pai, não se preocupe, não acontecerá novamente, eu juro." Disse para ele, sua expressão parecia ter suavizando levemente.

"Agora vá para aula, Snow já deve estar preocupada." Ele disse com um pequeno sorriso no rosto. "Acho que alguém já tem uma namorada."

"Pai, ela não é minha namorada!" Ele começa a rir da minha reação. Não posso falar nada de nossa reação ser mais antiga que a vida dele. "Estou saindo." Desci do carro e fui para a sala de aula.

A aula correu como sempre, eu sentado no fundo da sala com Snow do meu lado, crianças fazendo barulho, a "professora" nos olhando e ensinando a escrever, algo que eu já sei faz tempo, mas a língua deles é completamente diferente, mas o alfabeto é praticamente o mesmo. Portanto quase não preciso me preocupar em fazer tudo, já Snow... ela sempre foi uma foice, apesar dela saber tudo, pelo menos é o que parece, ela tem que aprender a escrever.