Notas iniciais
O amor é imortal. E o único que vence barreiras.

Naquela noite o céu estava coberto por estrelas brilhantes a lua estava cheia, clareando o céu noturno, e uma brisa soprava por entre as árvores. 


Da janela do meu quarto, dava para ver ao longe, a antiga colina, onde eu passara várias noites de minha infância com Lucas. Ele me levava ali para ver estrelas quando éramos crianças…

Fazia dez anos que eu não subia ali, aquele lugar me trazia todos os tipos de recordações. As quais eu enterrei no fundo do meu coração, era doloroso recordar de Lucas, de como ele era a minha luz, mais naquela noite, minhas lembranças a muito esquecidas vieram a mim como uma avalanche.

O meu primeiro sonho...

Quando eu era criança, eu tive o meu primeiro sonho com um anjo. Mais esse anjo era diferente, ele não era um anjo de Luz, ele era um anjo com asas negras, ele era um anjo Caído. E estava coberto de sangue, ajoelhado próximo a um lago. Seu rosto estava tomado por uma expressão sombria e seus olhos mergulhados em tristeza.

–Porque você está triste? — eu perguntei ao anjo.

–Porque eu não sei o que é o amor. — ele disse, seu olhar era frio como gelo, para um garotinho.

–Eu também não sei. — eu respondi sorrindo — Porque não descobrimos juntos? — perguntei estendendo a mão para ele levantar. E pela primeira vez o anjo negro sorriu. Um sorriso brilhante e verdadeiro.
Ele segurou a minha mão e se levantou. Olhou novamente para o lago.

–Mais disseram que eu não posso amar. — ele me olhou com esperança nos olhos escuros.

–As pessoas não sabem o que dizem. Eu acredito que só você pode saber. Não se preocupe, vamos aprender juntos.

E assim novamente a dor me atingiu. Lembrar-me do passado era doloroso. Sem intervalo as lembranças vinham a mim, agora foi da noite que ele disse adeus…

–Sophie, eu vou embora, não posso mais ficar por aqui. Tenho que partir!


-Lucas ainda está cedo, vamos ficar mais um pouquinho!

–Sophie não estou falando de ir para casa. Mais de partir para sempre!

–O que? Por quê? — me lembro de ficar muito confusa, que quase comecei a chorar, mais não chorei por alguma razão as minhas lágrimas não caíram.

–Não posso dizer. Na verdade eu não queria ir embora, eu queria muito ficar com você Sophie, mais tudo está crescendo muito rápido. Sinto muito. 


–O que está crescendo? Eu não entendo Lu. Não consigo entender se não me explicar. -naquele momento algo se quebrou dentro de mim. – Me diz Lucas.


-Não quero que você tenha medo de mim. -Não conseguiria viver se você tivesse medo de mim.


-Lucas. Eu jamais teria medo de você. Mais se é assim que você pensa, entendo que tenha que ir. Mais saiba que eu sempre vou amar você. — apesar dos meus olhos estarem cheios de lágrimas que se recusava a cair, eu sorri. 


–Eu sempre amei o seu sorriso. Aquele sorriso que radiante. Eu… (pausa) Adeus Sophie. -Você me deu a mão quando outros me viraram as costas! E se minhas asas negras aparecessem e você me desprezasse eu morreria. — eu pensei.

E assim Lucas saiu da minha vida, e tudo não tinha mais sentido. 
Era por ele que eu sorria, mesmo quando tudo parecia desabar, ele era o motivo para continuar suportando tudo, o brilho em seus olhos quando me via, o seu sorriso que era unicamente para mim. Era por vê-lo que todo o meu mundo se iluminava. O meu verdadeiro sorriso era unicamente dele. E com a partida dele nunca mais voltei a sorrir, ou a ver esperança nesse mundo tão sombrio e escuro.

Mesmo o vendo em sonhos, quando ele me chamava, eu só conseguia vê-lo mergulhado em dor e solidão, e era doloroso não tê-lo no mundo físico, não poder abraça-lo de verdade. Cada vez que o sonho vinha Lucas estava ferido, banhado em sangue, triste e sofrendo. E mesmo querendo pedir para que ele voltasse, eu não podia. Essa fora um decisão dele, e só ele tinha podia decidir voltar, então eu só podia fazer o que sempre fazia abraça-lo, e embalá-lo em meus braços, aceitando sua escuridão, para não perder o seu coração para as trevas.

Mais quando eu acordava o mundo ainda era um enorme vazio, e eu jamais voltaria a me sentir feliz e a olhar as estrelas no céu ou a voltar a pisar na velha colina. Mais essa noite, tudo mudou. Tudo me fazia lembrar ele.

Quando estava saindo da sacada e entrando no meu quarto, uma rajada forte de ar me atingiu as costas, fazendo-me olhar para traz. 
Quando eu vi alguém no alto da colina, um rapaz de longos cabelos estava em pé olhando para o céu, só podia ser Lucas, ninguém mais subia ali, era ele com certeza. 
Sai da sacada, correndo pelo quarto tão rápido que esbarrei na porta, desci as escadas como um raio, que cheguei a pensar que ia cair. 


Sai de casa, cruzei a ponte rumo ao parque, e entrei na floresta. Ela parecia ainda mais sombria que o de costume. Quando cheguei a antiga trilha agora coberta por mato, o medo me dominou. Odiava pensar nas coisas assustadoras que viviam ali, eu estava paralisada.

Uma lembrança me veio a mente...


“- Sophie você está com medo? Não precisa ficar. Lembre-se do que está nos esperando no fim da floresta, no topo da colina, o vasto céu noturno iluminado pelas estrelas e pela lua.”.

Era o que ele sempre dizia quando eu estava com medo da escuridão da floresta. Mais naquela época ele sempre estava lá segurando a minha mão quando a atravessávamos. Ele era o motivo que me fazia encontrar a coragem e subir a íngreme colina, era a felicidade de estar com ele naquele lugar, de vê-lo sorrir. 


Engoli em seco, e pensei em vê-lo novamente, em ver os seus lindos olhos novamente. Adentrei naquela escuridão correndo como nunca pensei em correr, como se estivesse fugindo de um predador, e quando cheguei à base da colina já estava exausta, mais eu queria vê-lo, abraça-lo, sentir seu cheiro mais uma vez, mesmo que uma última vez. 


Subi colina e quando cheguei ao topo eu o vi. 
Era ele, um pouco diferente mais era o Lucas. Mais alto que eu, pele clara, cabelo loiro, uma expressão sombria tomava conta de seu rosto e seus intensos olhos negros emanavam uma imensa tristeza que me deixava angustiada, odiava vê-lo assim.

Enquanto me aproximava, percebi dois rasgos nas costas de sua camiseta preta e deles emergiam um par de asas negras, erguiam-se majestosamente. Nunca vira algo tão sombrio e belo.

Fiquei tão encantada com suas asas que não percebi que já estava falando com ele, sem tirar os olhos de suas asas.

– Foi por causa delas que você foi embora? -
ele se virou rapidamente, para me encarar como se eu fosse uma ameaça, mais sua expressão suavizou quando realmente me viu, com um olhar surpreso, mais que emanava o brilho que eu tanto amava, quando ele me via, seus olhos negros me fitavam tão intensamente, desejando me agarrar. – Você achou mesmo, que eu teria medo, ou te odiaria por causa das suas asas negras? -enquanto falava, eu me aproximava o máximo que podia, encarando seus olhos sem desviar, sem perdê-lo de vista, eu o deixava assimilar minha presença ali.
 — Eu te disse Lucas, nada me faria ter medo de você. -quando cheguei perto o suficiente, agarrei sua camisa, passando os braços em volta de sua cintura, abraçando-o tão forte, para que jamais pudesse partir novamente.

Não o deixaria partir nunca mais, ele ainda tinha o cheiro de lavanda que eu tanto amava. E finalmente ele percebeu, ele me envolveu em seus braços encostando seu queixo na minha cabeça, dando-me um beijo na testa.

Levantei meu rosto para poder vê-lo, ali bem perto de mim. E percebi Lucas estava chorando. Ergui uma mão para tocar em seu rosto e enxugar suas lágrimas, enquanto eu sorria para ele, sem perceber eu também estava chorando e Lucas enxugando meus olhos.

–Você está mesmo aqui? Não é uma visão ou um sonho? Como você ainda está aqui! Por quê?
 - aquela enxurrada de perguntas me fazia sorrir ainda mais.

– Por quê? Esse era o único local no qual eu fui feliz, Lu. E no fundo eu tinha esperança de te ver novamente, eu acreditava que um dia você voltaria aqui, que voltaria para mim. 


Ele franziu a testa e desviou o olhar do meu, dando um passo para traz. Eu agarrei firmemente sua camiseta, dando um passo em sua direção.

–Não vai adiantar Lucas. -eu balancei a cabeça. –Não vou te deixar partir, mesmo quando ao subir a colina eu disse para mim mesma que queria te ver pela última vez, agora eu não posso, não consigo de deixar partir novamente. -lágrimas corriam pelos meus olhos.

–Sophie, — ele segurou minhas mãos, tão forte, tão tristemente — não consegue ver o que eu… - antes que ele terminasse eu soltei uma de minhas mãos, tocando seus lábios, com o dedo indicador, interrompendo-o. 
— Acha mesmo que me importo se é um anjo de luz ou um anjo caído? A única coisa que me importa é ver você sorrir para mim, de vê-lo feliz. Nada, me faria deixar de te amar. 
-ele negou com a cabeça.

–Eu falo sério, Lucas. Nada nem ninguém, nem mesmo você, me faria o amar menos.


— Um demônio, não é digno de amar e nem ser amado. E mesmo assim, uma garotinha me ensinou o significado do verdadeiro amor. Eu amei essa linda garotinha, e mesmo me afastando dela eu jamais pude esquecê-la. Eu sempre amei você, Sophie.


Lucas passou seus braços em minha cintura, fazendo nossos corpos se unirem. E me beijou, tão apaixonadamente, tão intensamente, que me fez perder o fôlego. O toque de suas mãos em minha pele, nossos corpos juntos, me fazia arder, um calor tão intenso que parecia estarmos em chamas. Eu ouvi o farfalhar de suas asas se abrindo e fechando-se ao redor do meu corpo de forma possessiva e aconchegante, seu toque era frio como o ar noturno, e me fazia estremecer, uma mistura de fogo e gelo, quente e frio. Era maravilhoso.


Quando afastamos nossas bocas, o desejo ainda permanecia em nossos corpos, nosso sangue fervia. Minhas pernas estavam tremulas, as assas dele vibrava em contato com minha pele, fazendo o Lucas estremecer de prazer.

–Nunca mais me deixe. Prometa para mim Lucas, prometa. -eu falei com a voz roca.

– Jamais. Eu prometo pequena. Não cometerei esse erro novamente. 
-ele me olhou no fundo dos meus olhos e continuou – Obrigado por não deixar de me amar, e por salvar a mim me dando um coração. Você foi a única que conseguiu abraça-lo, sem ter medo da escuridão, aquela que me estendeu a mão quando eu menos merecia. Sophie você é a primeira e a única eu amo.

–Desde pequena eu sonhava com um anjo, ele sempre vinha a mim em meus sonhos, quando estava ferido, sozinho, triste, e muitas vezes coberto de sangue. Esse anjo era você, reconheci você desde a primeira vez que nos vimos no mundo real, mesmo você sem asas, eu sabia que era você. E te amei desde o primeiro sonho, quando você sorriu pela primeira vez para mim. Mas quando você partiu e eu ainda tinha esperança de estar com você nos sonhos mesmo que só para abraça-lo, quando estava machucado.

Seus olhos brilharam tão intensamente, fazendo-me beijá-lo novamente.

–Eu pensei que você não se lembrava de mim quando acordava por isso eu jamais te disse. Se eu soubesse eu jamais teria partido. Sabe, comecei a gostar de você quando me você sorriu para mim, quando não teve medo de mim, mesmo eu estando coberto de sangue. E me apaixonei quando você me deu sua mão e me envolveu em seu abraço. Eu te amo, Sophie.

Notas finais
Amor é um conhecido. Amor é um demônio.Não há anjo malvado além do amor. William Shakespeare
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!