Anja Solitária
4 O meu começo.
Notas iniciais
Depois que voltamos, sentei-me no sofá. Eu estava tão desconfortável com o que eu iria lhes contar que me encolhi e abracei minha almofada com o desenho de uma caveira. Eles me olhavam do sofá da frente, preocupados, e eu não conseguia parar de encará-los. A única coisa que nos separava era a mesinha de centro. O clima estava tão tenso que a sala, que já era grande, pareceu maior ainda. Minha vontade era ligar a TV e colocar num canal de esportes radicais qualquer, só para tirar a atenção deles de mim e eu não precisar mais falar sobre aquilo.
Eu estava tão agitada que decidi tomar um copo d’água antes de começar a falar, então fui até a cozinha. Meu Deus, eu nem mesmo me lembrava onde estavam os copos de tão nervosa. Olhei no armário que ficava embaixo da mesa, mas eles estavam no armário de cima dela, lugar este que nunca mudou. Eu coloquei o copo sobre a mesa de mármore e enquanto enchia ele de água observava os garotos sentados na sala. Eles cochichavam entre eles. Na certa falavam sobre mim.
— Droga! — chamei minha própria atenção, pois de tão desligada deixei o copo transbordar, molhando o fogão que ficava sobre a mesa de mármore e o chão.
— Você precisa de ajuda, Anlu? — perguntou Ikuto, entrando na cozinha. Ele me ouviu reclamar. — Pode deixar que eu limpo isso! — disse ele, pegando o pano de chão na pequena área de serviço que ficava ao lado da cozinha. Ele percebeu que eu estava agitada, mas não me fez nenhuma pergunta. Acho que ele entendeu que eu precisava criar coragem.
Como eu molhei a roupa fui até meu quarto e coloquei um vestido preto, pois era assim que eu estava me sentindo, de luto. Depois que me troquei me senti mais pra baixo, mas mesmo assim estava disposta a contar-lhes tudo, ou até onde meu coração aguentar.
Assim que eu sai do quarto dei de cara com o Teito. Ele estava saindo do quarto deles, que ficava de frente para o meu.
— Aiiiii! Que susto, Teito! — disse a ele, e me desculpei. Pois eu estava tão nas nuvens que nem estava percebendo as pessoas a minha volta direito, ele entendeu e fomos para a sala. Ele disse que estava fechando a janela do quarto para a chuva que caia não molha-se o chão e as cortinas.
Assim que voltamos me sentei novamente no sofá de frente para eles. Meu suporte era a minha tão adorada almofadinha de caveira, lembrança da minha antiga casa, da minha antiga vida.
Estava difícil segurar as lágrimas, que já percorriam meu rosto, por causa das memórias que me vinham à mente.
— Nem sei por onde começar, mas vamos lá! — falei, buscando forças de onde não tinha para começar a falar.Os três me olhavam curiosos, mas entendendo que o que eu tinha pra falar era bem difícil.
— Não precisa falar nada se não quiser! Podemos esperar para você nos contar quando estiver mais a vontade. – disse Ikutopreocupado.
— Lie! — enfatizei, negando-me há esperar mais tempo. — Essa é a primeira vez que vou falar sobre isso com alguém e agora não vou voltar atrás.
— Esta certo! Mas se isso te fizer mal, pode deixar para lá. Nós entenderemos! – disse Natsume pela primeira vez com uma voz mais doce, mas com a cara de durão de sempre.
— Bom! Tudo começou antes de eu nascer. Minha mãe, Hoshina Utau, era uma cantora muito famosa no Japão, que começou a fazer sucesso com 13 anos. Quando tinha 17 anos conheceu um grande compositor chamado Tsukyumi Aruto, que na época tinha 20 anos. Eles se apaixonaram e se casaram 2 anos depois. Um ano se passou e eles tiveram uma filha, mas não queriam que ela tivesse problemas com os jornalistas e por isso a mantiveram em segredo. Eles viajaram para longe, ficando 3 anos afastados de tudo, para cuidar da criança. Para todos minha mãe estava num treinamento por inspiração. — contei nostálgica.
— Eu era a menina que nasceu do amor entre eles dois, e vivemos nossas vidas como pessoas normais, sempre com eles viajando e eu ficando em casa como uma boa menina. Eu passava os dias lendo os livros que meu pai tinha no escritório e aos 9 anos eu já sabia todo o conteúdo do colégio, até sobre a faculdade e por isso parei de ir a escola, e não conseguia fazer amizade facilmente. Meus pais não entendiam como eu podia ser tão inteligente com apenas 9 anos de idade. Até hoje eu também não entendo isso. — revelei, despertando surpresa em Ikuto.
Teito parecia ficar contente quando eu disse que era muito inteligente mesmo sendo tão nova. Já Natsume somente escutava com a cara fechada, mas compreensiva. Até ai eu sorria ao me lembrar dos meus pais que mesmo ausentes sempre voltavam e me davam muito amor.
— Mas e então é por esse motivo que você não vai para a escola mesmo só tendo 14 anos. — comentou Teito ainda feliz por saber que eu podia ensinar muito a eles sobre este mundo.
— Vocês só são 2 anos mais velhos que eu e mesmo assim viajaram para um mundo paralelo. – falei com um sorriso pequeno no rosto tentando animar o lugar, eles me olharam com os rostos um pouco vermelhos, Teito e Ikuto podiam estar com vergonha, mas Natsume parecia com raiva, mas eu ignorei e continuei a historia.
— Continuando... — depois que falei isso, uma sensação horrível passou por nós quatro e parei de falar olhando intensamente para os meninos que pareciam com mais medo que do que eu mesma.
— Ele está aqui perto, vamos antes que ele se esconda de novo. — falou Teito com os olhos estreitos e com o tom de voz mais elevado que o normal.
Ao dizer isso os três saíram de quase de imediato me deixando sozinha pensando que aquela sessação possa ter sido a presença do tal Mal que eles tanto falam. Me levantei e fui atrás deles, que corriam para dentro da vasta floresta que havia ao lado do meu prédio mostrando que perto dali havia um templo.
Sem perceberem que eu estava logo atrás deles, Teito, Ikuto e Natsume começaram a falar entre si, de forma que eu podia ouvir.
— Droga ! porque ele foi aparecer logo agora ? Vou acabar com a raça dele dessa vez, com tudo o que tenho. — disse Natsume trincando os dentes de tanta raiva que estava.
— Igual a quando nos encontramos da ultima vez ? Não se lembra do que aconteceu com você quando o atacou desprevenido ? — falou Ikuto com uma voz ríspida mas controlada e olhando para Natsume com os olhos frios.
— Realmente você saiu todo machucado, vamos tomar cuidado dessa vez e seremos mais ágeis. — Teito falou com a voz triste e receoso ao lembrar-se do passado.
Eles devem estar falando da ultima vez que lutaram contra o Mal, no mundo deles, por algum motivo isso me diz que foi nesse dia que os três perderam sua Anlu e tomaram a decisão de vir para este mundo me procurar e me proteger, isso me parte o coração, saber que mesmo tendo perdido uma pessoa querida e indo a procura de outra igual, mesmo sabendo não ser a mesma pessoa, deve ser difícil para eles me olharem como eu mesma e não como a Anlu que eles conheceram.
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