Anja Solitária
13 Extra: Amo um Ciume
Notas iniciais
Depois do treino, depois de um banho demorado, na cozinha, entre curativos, ervas e manhãs:
— Não faz drama, Anlu.
— Mas isso arde!
— Para de frescura! É só mertiolate!
— Diz isso porque não é você que esta todo ralado!
— O que você queria? Treino de xadrez?
— Aiii, meu pé!
— Ô menina fresca. Para de reclamar e coloca os pés no balde!
— Mas esta quente demais!
— É um escalda-pés, o que queria? Água gelada?
— Seu grosso!
— E desmancha essa cara!
— É a única que eu tenho!
— Se você tirar as mãos da bacia de novo eu vou te dar um cascudo!
— Que droga, Teito! Não estamos no treinamento, então para de falar assim comigo!
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Depois dos riso frouxo, depois das gargalhadas, depois de ter se tocado que pisou na bola, na porta da cozinha, pensativo, espiando:
P.O.V (Ikuto) on
"Anlu da Terra! Você não se parece mais com a minha Anlu, aquela que eu vi morrer. Você é mais forte, mas igualmente audaciosa. Ela era minha amiga, minha melhor amiga. Eu não consegui protegê-la e desde então meu coração é só ódio, eu não conseguia pensar em mais nada a não ser me vingar. Teito e Natsume compartilham deste sentimento comigo, nós três juramos destruir Kisho. Mas você, Anlu, você é diferente, você fez este ódio sumir, se quero destruir Kisho hoje não é mais por vingança, mas para proteger você, para evitar que ele te machuque, porque se você morrer, nem a morte de Kisho vai aliviar a minha dor. Não consigo te ver apenas como minha amiga." dizia Ikuto a si mesmo, no silêncio do seu olhar molhado, sem proferir uma palavra sequer, enquanto espiava Teito e Anlu na cozinha.
"Que droga, Teito! Nos conhecemos desde pequenos. Você, eu, Natsume e Anlu sempre fomos inseparáveis, amigos em todos os momentos. Ela não pode ser diferente para você também! Que droga, Teito!" o ciúme era um bichinho tolo e de visão extraviada.
"Que droga, Teito!" foi seu último pensamento, espantado e de coração acelerado.
— Que cara é essa Ikuto? — perguntou Natsume surpreendendo o amigo perto da porta. — O que você esta espiando? Até parece que viu uma assombração!
Ele não respondeu e saiu do apartamento. Ele precisava caminhar.
— CARACAS! — disse Natsume ao abrir a porta da cozinha. — Foi mau amigos. Eu não queria atrapalhar! — sem graça, colocando a mão na cabeça, com cara de bobo.
P.O.V (Ikuto) off
De volta aos curativos com Anlu cheia de manhã e Teito dando o troco:
— Aiii! Seja mais delicado!
— Eu não sou uma garota para ser delicado!
— Mas não precisa apertar os calos do meu pé. Eles doem!
— Sem fazer bico. Não sou o Ikuto!
— P-Por que v-você esta dizendo isso?
— Porque ele cederia a esta sua manha rapidinho!
— Ah, tá bom! Ele é uma besta isso sim. Na certa estaria rindo da minha cara!
— Você fala isso porque não viu ele preocupado hoje no treino.
— Vi sim, ele rindo da minha cara!
— Ele e o Natsume você quer dizer.
— É. E-Ele e o Natsume.
— Não gosto que olhem para o lado enquanto estão falando comigo! Olha para mim, Anlu!
— Aiii! Não aperta meu calo!
— Ah, oi Anlu. Tá me vendo agora!
— É claro, seu besta! Agora deixa meu pé quieto. Já fez os curativos.
— Só para você saber, ele pediu para eu encerrar o treino umas três vezes.
— Aiii. Minha mão! Não precisa puxar!
— Ele não queria que você se machucasse.
— Para de olhar para mim com esta cara de quem vai me sacanear, Teito!
— Por que você acha isso? Eu tenho motivos para querer te sacanear?
— Aiiiiiiiiiiiiiiiiii! Ta ardendo, tá ardendo!
— Nossa, como você é dramática! É só um pouquinho de álcool.
— Assopra, assopra!
— Você sabe que isso de assoprar é psicológico, não é?
— Por favor!
— Sem bico e nem choro! Eu assopro, mas para de manha!
— Você não perdoa mesmo, em Teito!
— Sem bico. Já disse que não sou o Ikuto.
— Eh, já vem você! Minhas mãos estão ferradas e doendo e não posso nem reclamar.
— Calma, Anlu, logo você vai calejar e não sentirá mais os calos.
— Mas minhas mãos vão ficar grossas como a de vocês!
— E daí. São mãos de guerreiros. Não é você que quer se tornar uma guerreira? É o preço!
— Mas eu sou uma garota! Minhas mãos tem que ser macias!
— Macias? Quer acariciar quem?
— Você, e com um tapa bem ardido! Para de me provocar!
— Não sei se eu dou risada ou mando você tentar!
— Que droga, Teito. Você esta atacado hoje!
— Ora Anlu, não sabe brincar de vez em quando? Cara feia causa rugas, você sabia disso?
— Para de me tratar como se eu fosse boba!
— Você não precisa que eu te trate como boba, você consegue ser boba sozinha, e sem esforço.
— Esta bem. Eu já entendi! Me desculpe!
— Como é. Não ouvi!
— ME DESCULPE!
— Agora sim. É claro que eu te desculpo. Eu sempre vou te desculpar. Mas não abuse de novo.
— Aiiiii! Meu rosto.
— Tudo bem, eu assopro...
— CARACAS! Foi mau amigos. Eu não queria atrapalhar!
— Ótimo que chegou, Natsume! Passe isso no rosto da Anlu.
— C-Como? E-Eu o quê?
— Faz logo este curativo. Eu estou apertado e preciso ir ao banheiro.
Natsume sentou à frente de Anlu e viu um corte pequeno, mas profundo, na sua bochecha, causado por uma pequena lasca de madeira que cravou sua face delicada na hora em que caiu com os baldes. Ele não viu antes devido a lama e depois por ela ter ido embora à frente deles, na pressa de se afastar.
— Aiiii! Essa pasta de ervas arde muito. Assopra para mim, Nat.
"Agora eu entendi!" pensou ele enquanto assoprava, tendo seu rosto bem pertinho do de sua amiga.
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Depois de caminhar por quase uma hora, depois de dar voltas e voltas naquela quadra, com as mãos no bolso e o pensamento na cozinha daquele pequeno apartamento, diante da porta fechada do quarto dela, com a mão na maçaneta, abrindo-a devagar:
— Me desculpe! — murmurou Ikuto baixinho enquanto a observava dormir, da porta, sem entrar no quarto cuja única luz vinha da janela.
"Por que não consigo perdoar ele? Teito foi severo, riu e até me sacaneou, Natsume riu tanto quanto ele, então porque ainda estou chateada com ele, se não estou mais com os outros? Por que o que Ikuto faz me incomoda tanto?" pensou ela deitada em sua cama, de costas para a porta, ao perceber a presença de seu amigo em seu quarto, imóvel. Ela não queria que ele soubesse que ainda estava acordada. Uma lágrima fugiu de seus olhos quando percebeu que ele saiu do quarto sem se aproximar.
Ela dormiu profundamente.
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