Aniversários!
1 Aniversários
Notas iniciais
Só uma crônica que escrevi em um momento de indignação que mudou rapidamente o ponto de vista de muitos pessimistas ao meu redor. rsrs
Sempre há uma esperança. Aniversários são mágicos.
Aproveitem.
Aniversário.
Ok, poderia ser apenas um dia como outro qualquer. Na maior parte das vezes simplesmente é um dia como outro qualquer.
O problema é como eu encaro isso.
Oras, é o dia em que se comemora a sua chegada a terra. O dia em que devemos celebrar com as pessoas que amamos mais um ano, mais um ciclo que foi concluído.
Um dia de agradecimento, por termos conseguido passar por mais um ano completo. Um dia de alegria.
Ou questionamentos. No meu caso, a segunda opção.
Não é que eu seja cético, ingrato ou coisa do tipo.
Eu faço aniversário no fim do ano. Digamos que para celebrações não é lá uma época muito propícia.
Na época da escola, bem, todo mundo estava nas férias, ou seja, de cinquenta amigos, dois se lembravam quando muito.
Traumatizante. Frustrante.
Irritante.
Depois, quando você cresce e vai pra vida universitária melhora um pouco. As pessoas saem pra encher a cara, e te cobram por uma festa.
Ou seja, você tem que arrumar a festa, a casa, as bebidas, aguentar meia dúzia de votos que você se lembraria, mas ou está bêbado demais pra isso, ou os outros estão bêbados demais e você fica andando pela casa se preocupando com a festa, os móveis e todo o resto.
Então você não lembra de nada.
Só que passou trabalhando.
Aí quando você começa a viver sua vida normal, seus aniversários são torturas agonizantes, por que sim, todo mundo faz como eu, fica na expectativa do que vai acontecer, quem vai lembrar, como vão ser os parabéns e etc.
Presentes? Claro que todos querem, mas nunca ganhamos nem perto do que realmente desejamos.
Pelo menos nesse aspecto sou simplista. O melhor presente pra mim é um abraço bem comprido e apertado, uma boa olhada no olho e um “eu te amo” sincero.
Nada pra mim é melhor do que isso.
Mas como eu não sei se me relaciono mal, ou sou estranho demais, ou sei lá o que pensar- a essa altura quero mais é que tudo exploda também, estou irritado- o que geralmente vem é uma mensagem na internet, umas mensagens de texto bem clichês- e sim, são poucas- duas ligações, e uns três cartões do banco ou da operadora de telefone.
Cadê o calor humano nessa hora gente, pelo amor?
Ok, vou confessar o que realmente me irrita.
É a merda da falta de recíproca.
Sabe por quê? Claro que eu entendo que as pessoas estejam vivendo cada uma um momento, uma situação, tem outras prioridades e etc. E no fim do ano então, nem se fala. Natal, ano novo, viagens, décimo terceiro, contas de começo e fim de ano...
Motivos pra se distrair todos tem de sobra.
Mas vejam, ao longo do ano, eu fiz questão -e muita- de parabenizar pessoalmente, telefonar, abraçar e presentear cada uma das pessoas que é importante pra mim. Até as que nem são tanto assim, mas fazem parte da minha rotina, afinal, elas me aguentam, então merecem uma atitude de reconhecimento.
E isso com todos os sabores e dissabores da vida. Como todo mundo, tenho ocupações e problemas. Coisas aos montes pra pensar, me preocupar, me ocupar e etc.
E será que só eu consigo arrumar tempo?
Quem não tem tempo arruma o tempo, quem tem tempo nunca tem tempo.
É isso mesmo.
Aí eu fico pensando:
Eu sou um idiota. Eu me preocupo, por que sim, isso é preocupação. Tentar agradar, fazer a pessoa se sentir especial, amada, importante, lembrada por ser quem ela é, mostrar que ela representa algo bom pra mim, tudo isso é implícito, envolvido e explícito em um simples “parabéns”.
Aí o trouxa aqui gasta tempo, energia, dinheiro, sentimento e o escambau pra fazer isso com todo mundo a volta dele...
E no meu dia...
...
Isso mesmo. Silencio. Grilos cantando. Vazio na planície.
Tá, eu exagero, sou dramático mesmo. Sou emotivo sim, carente, gosto de atenção, minha linguagem de amor não é simples, é sinestésica, envolve o falar que me ama, o me abraçar e beijar, o me dar um presente, o sentar comigo e me dar atenção, e a soma de todos me faz entender que eu sou amado.
Simples assim.
“Há, mas você quer demais já né?”
Só to querendo de volta o que eu dei. É pedir muito?
Se isso for querer demais, então eu quero demais sim.
Então já deu pra perceber que no dia que eu deveria simplesmente curtir e aproveitar como vejo todos os outros fazendo, eu fico puto, irritado e estressado.
Céus, preciso urgente me distrair. Tem uma hora só que meu aniversário começou.
Vai ser um longo dia...
-- --
-Gente, sério, falta pouco pra ele chegar. Tudo pronto?
A festa surpresa desse ano fora mais fácil de organizar. Talvez pelas ameaças explícitas que Ulisses disparou ao longo do ano entre os amigos, parentes e colegas, as pessoas se mobilizaram e resolveram fazer algo que com certeza o agradaria.
E o consenso geral era: simplicidade. Nada complicado.
Metade discordava por que conhecendo ele, sabia que ele ia dizer depois: “eu fiz tudo do jeito mais especial, e na minha vez é festa de barraca com bolo de padaria?”
Outra metade concordava que ele preferiria algo simples, senão ia dizer depois: ”fizeram esse circo todo sabendo que eu nem gosto de mais da metade das coisas que tem aqui?”
Ponto comum: todos concordavam que ele ia reclamar de qualquer jeito, então melhor pecar pelo excesso que pela falta.
Fizeram um bolo de brigadeiro- ele era chocólatra- com uma imagem de desenho japonês que ele gostava. Espalharam alguns cartazes feitos a mão, com frases dos livros que ele amava.
Docinhos e salgadinhos de festa de criança. O gosto infantil era empurrado para todos a sua volta.
Refrigerante, suco, e um coquetel de maça-verde. O favorito dele.
Um vídeo que mixava imagens dos filmes, seriados e desenhos favoritos dele.
E os presentes? Tudo que ele gostava. Dessa vez seria um ano que ele não teria um motivo sequer para reclamar.
Dvds dos filmes favoritos que ainda não tinha. Livros velhos com dedicatórias nas capas. Cartas e cartões de amigos novos e velhos. Um álbum de fotos hilário, com as piores fotos primeiro, e as mais bonitas depois.
Músicas da adolescência pra dançar a noite toda.
E o presente especial, de senso comum, que todos os parentes e melhores amigos suaram a camisa pra encontrar:
Uma capa de couro marrom claro com laço pra amarrar e ele colocar os diários que tanto gostava de escrever.
Sua irmã passeava pela casa checando a decoração. Seus pais e avôs estavam cuidando da comida. Seus tios caipiras compraram roupa country para mudar um pouco o estilo. E os amigos se revezavam no meio disso tudo.
Definitivamente seria uma surpresa bem aceita. E o senso comum era:
Faremos ele chorar hoje.
Todo mundo sabia que ele era uma manteiga derretida. Chorava junto com quem quer que fosse, mas sabe-se lá por que, nunca chorava perto dos outros por algo que fosse seu. Mantinha-se fechado para que entrassem no seu íntimo, mas estava sempre ali pra se enfiar no íntimo dos outros.
Cada um dos presentes iria falar alguma coisa. Um momento seria lembrado. Uma ideia seria comentada.
Hoje ele iria comemorar mesmo seu aniversário.
Amigos de infância, amigos de academia, amigos do trabalho atual e de trabalhos anteriores, amigos de faculdade, amigos de igreja, amigos do clube, amigos de fóruns de leitura, amigos que curtiam desenhos japoneses, amigos de internet, parentes...
Nem eles mesmo sabiam que ele era tão querido daquele jeito.
Propositalmente transformaram seu dia no trabalho em um inferno. Seu “chefe” até o dispensara depois do almoço.
E ninguém ligou. Alguns desavisados mandaram uma felicitação seca nas redes sociais, o que só serviu para deixá-lo mais revoltado.
Mariana era uma das prováveis candidatas a namorada. Era uma amiga antiga que resolvera se apaixonar por ele, mas nunca deixara nada muito claro. Esperava que ele desse o primeiro passo.
Coisa que ele não faria. Não depois que sua primeira paixão morrera.
Depois disso se fechara. Tinha noites com estranhas, mas nada além. Compromisso era algo fora de questão.
Todos viam que os dois formavam um casal perfeito. Se completavam. Mas nunca rolara nada além da amizade mega fraterna.
Mariana estava a frente da comemoração toda. Se depois daquela festa ele não percebesse o quanto ela gostava dele, iria pular fora de vez.
A mãe de Ulisses se aproximou da moça.
-Ei, tá mais nervosa do que se fosse receber um Nobel. Calma.
-É que isso tem que dar certo. Precisa ser perfeito.
-Já está sendo perfeito. Fica tranquila.
As duas se encararam com o olhar cúmplice de duas mulheres que sabem o que vai acontecer.
-Finalmente. Hoje vai. Separou a cereja do bolo?
Mariana foi até a área de serviço. O presente estava em perfeitas condições.
-Pronta para consumo.
-- --
Ok, eu estou puto.
Por que o mundo é um lugar cruel. As pessoas são ruins. Bando de mal agradecidos.
Eu juro, o próximo que vier reclamar no meu ouvido sobre como falta amor na sociedade, que os últimos tempos seriam como hoje e etc, vai tomar um esporro tão grande, mas tão grande, que a amizade ou qualquer que seja o nome que se der ao relacionamento que tenhamos, vai pro saco na hora.
Quero beber. Quando fico bravo preciso descontar fazendo alguma coisa estúpida. Como sou medroso pra pagar por sexo ou transar sem camisinha,e não estou a fim de me masturbar, tenho que comer ou beber até passar mal.
Também não quero passar mal.
Céus, como sou idiota.
Já sei, vou fumar. Isso me deixa mais puto ainda, por que detesto cigarro, mas sei lá, é uma coisa idiota que faz mal mas não tão mal por ser só hoje.
Faço minha lista mental, não fumei esse ano, a última vez foi ano passado. Logo, um cigarro hoje não vai me transformar em um viciado.
Mas hoje é meu aniversário. Não quero fumar no meu aniversário.
Porra de vida infeliz. Ninguém gosta de mim como eu gosto, ninguém lembra de mim, ninguém se importa de verdade.
Quero matar alguém. Torturar esses mal agradecidos pra que eles saibam como é ruim ser eu nesse momento.
Talvez se eu ligar pra alguém. Meus melhores amigos, talvez. Isso passa com eles. Sempre passa.
...
FILHOS DA PUTA. ATENDAM ESSA MERDA DE TELEFONE.
Ninguém atende.
Último recurso: mãe e pai. Eles sim nunca esquecem de mim.
...
-Alo?
-Mãe?
-Oi filho. Tudo bem?
Ok, vou dar um tempo, já já ela deve falar algo.
-Tudo. Como vão as coisas?
-O de sempre. Seu pai quer falar com você. Estou pintando umas caixas de feira, vou fazer uma estante pra arrumar a bagunça do seu apartamento...
E então ela me dá um sermão sobre como eu sou desorganizado, que ela não me criou pra aquilo, que isso refletia a minha vida, e etc, e acaba falando que estava decepcionada.
-Toma, fala com seu pai.
É assim? Ela acaba comigo e passa pro pai?
Olho pra cima e peço que seja apenas um momento, pois o que ela disse me magoou hoje. To sensível. To carente. To me sentindo um merda.
-Li?
-Fala pai.
Pra que ele me batizou com um nome do qual nunca me chama? Alguém pode me explicar?
-Eu preciso de um favor urgente.
Meu pai só sabe dizer isso. Não pede, delega, manda, obriga.
-Mas hoje?
-Só tenho até as cinco da tarde pra entregar isso. Você é mais novo que eu, mesmo perto de fazer trinta e dois anos. Espero na frente do seu prédio.
Ok, esse insensível consegue:
1)Esquecer o aniversário do próprio filho.
2)Fazer com que eu atravesse a cidade pra pegar- e chegando lá eu descubro que tenho que pagar também- um embrulho ridículo pra ele.
3)Errar a PORRA da minha idade. Hoje eu faço vinte e oito. Vinte e oito anos porra, ainda tenho dois anos com vinte, dois anos antes dos trinta ouviu? E ele me diz que eu sou quatro anos mais velho do que sou?
4)Tudo isso em uma ligação.
Espero mesmo que sua consciência doa muito ano que vem.
E pra completar com chave de merda:
Quase sou atropelado, caio em cima de um monte de lixo, estou fedendo a esgoto, e meu celular parou de funcionar. Quando trombei na rua com meu melhor amigo, ele me ignorou e foi embora.
Por que raios eu sai da cama hoje?
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O interfone toca.
-Ele tá subindo.
Todos apagam a luz e ficam em silencio. Mariana está cheia de expectativa.
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Ok, meu pai simplesmente tomou o pacote da minha mão e foi embora. Mal me olhou. E me mandou tomar um banho urgente.
E onde estão as malditas chaves?
Parado na frente do meu apartamento, reviro todos os bolsos, toda a mochila, e nada das chaves.
Sem telefone, sinto que vou ter que esperar a boa vontade do porteiro de arrumar um chaveiro. Significa que vou perder mais tempo...
Antes de sequer continuar a pensar, chuto a porta, xingo a vida, os falsos que me cercam, essa sociedade de merda, esse mundo de bosta, essa desgraça chamada ser humano.
Ninguém se importa, ninguém sabe o que é amor de verdade, e eu vou me mudar pro meio do mato e viver de tubérculos e bananas em uma casa na árvore.
E foda-se todo o mundo.
Então eu me seguro nos batentes, e quando escorrego a mão na maçaneta a porta se abre.
E eu desmonto.
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Depois de tudo, estou eu escrevendo no meu diário novo. Estou mega esgotado. Mas feliz como nunca.
Claro que paguei o maior mico da vida. Todo mundo riu quando eu entrei e fiz a maior cara de retardado do mundo. Mari me empurrou pro banheiro pra que eu tomasse um banho rápido e fosse pra minha festa, coisa que ainda demorei a processar.
Gente, toda a raiva que eu passei no dia... Foi desnecessária. Simples assim.
Meus pais estavam brincando comigo, e me deram um esporro público por eu acreditar que eles esqueceriam do meu dia. Meus melhores amigos superaram seus limites falando coisas que eu sempre quis ouvir e eles nunca disseram, e fizeram isso na frente de uma porrada de gente. Sem contar que me abraçaram com força e demoradamente. E pra piorar, me beijaram- no rosto, fique bem claro- com carinho.
Aquilo foi espantoso.
E cada um falando como eu havia marcado eles e tal... No meio de tudo rolou uma choradeira nervosa, um abraço em grupo, e eu nem lembrava da última vez que me senti tão amado e importante.
E a festa cara? Meus desenhos favoritos, minhas músicas favoritas- paguei todos os micos que a dança permite, e gostei disso ainda por cima.
E eu ganhei PRESENTES. Sim, e que eu gostasse ainda por cima.
Mas o melhor foi na hora dos parabéns.
Além do bolo DIVINO- eu preciso controlar meu nível de gordice- eu chorei de novo quando meu presente principal veio correndo pro meu lado.
E mijou na minha roupa.
Meus pais, meus dois melhores amigos, e a Mariana, que hoje entrou seriamente na minha lista de coisas a fazer- tipo, pedi-la em casamento- me deram um filhote de Pastor Alemão.
Lindo, fofo e com uma coleira azul celeste.
Agora ele está dormindo na área, onde tem que se acostumar a fazer coco. Virei pai, por que vou ter responsabilidade com esse bicho. A última vez que tive um morava com meus pais ainda.
Enfim, tanto amor assim reacendeu minha fé no ser humano.
E eu me sinto nas nuvens.
Enfim, vou parar de falar. Agora que todo mundo foi embora, e eu nem vou ter que me preocupar em arrumar a casa, vou tomar outro banho por causa das “gotinhas da alegria” do meu mais novo melhor amigo sem nome ainda.
E vou pular na cama junto com essa coisa linda que passou de amiga pra futura esposa.
Afinal, meu aniversário ainda tem duas horas antes de acabar. Posso pedir qualquer coisa de presente.
Quem sabe uma mão não seria uma boa?
Notas finais
Foi gostosa e rápida de fazer, espero que curtam tanto quanto eu.
Bjos e abraços, até uma próxima.
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