Aniquilação Escarlate
4 Músico
Notas iniciais
Foi com um misto de expectativa e decepção que Kurapika encontrou o envelope o aguardando na mesa do trabalho. Ansiava pela resposta, mas não a esperava tão cedo — e isso lhe causou uma certa ânsia. Boas notícias nunca vinham depressa.
Antes mesmo de o abrir, sentia um presságio de que as coisas tomariam um rumo indesejado. Torceu para estar enganado, mas a carta não deixou dúvidas. Compunha-se de uma única linha, três pequenas palavras longas o suficiente para incitar em Kurapika um distinto prelúdio de cólera.
"Vai se ferrar."
Ele a amassou, com raiva. Tivera a vã esperança de estabelecer uma comunicação amigável, dada a natureza do seu interlocutor. Agora entendia que era justamente o oposto. Haveria, portanto, de resolver o impasse pessoalmente.
Resoluto, pesquisou e concluiu a compra de um tíquete aéreo. A aeronave partiria ainda aquela tarde.
Sem sequer se preocupar em fazer as malas, aguardou pacientemente pelo horário do voo, torcendo para a raiva passar —mas não tanto.
(...)
Era noite quando Kurapika desembarcou em seu destino. Com facilidade, localizou o endereço da carta, uma das mansões mais opulentas da cidade.
A mansão estava cheia, a julgar pela música alta e pessoas no jardim. Chegou a cogitar voltar depois, já que não queria plateia acompanhando seus atos, mas mudou de ideia. Seus movimentos chamariam menos atenção em um ambiente já intoxicado de outros elementos.
Dois seguranças patrulhavam a casa, menos preocupados com possíveis penetras do que com o público interno: uma massa jovem, embriagada, que não conseguia distinguir um vaso de plantas de um vaso sanitário. A repentina balbúrdia causada pela queda de uma escultura na varanda foi o suficiente para roubar a atenção dos seguranças e permitir que Kurapika se infiltrasse pelas grades.
Ao navegar pelo mar de pessoas para dentro da mansão, Kurapika olhou em volta, mesmerizado pela decoração peculiar. Itens típicos de filmes de terror se misturavam a luzes neon, enquanto as paredes se enchiam de fotografias psicodélicas do dono da casa, acompanhadas de seu nome artístico: DJ Discorde.
De relance, viu os olhos vermelhos encapsulados. Descansavam sobre uma mesa alta, junto de um crânio igualmente vermelho e velas pretas. Sentiu um pavor ao pensar na fragilidade do objeto naquele ambiente lotado. Apressado, abriu caminho, afastando as pessoas, que protestaram ao serem empurradas. Ignorou-as; sua única preocupação era garantir a segurança do par de olhos que divisava.
— Ei! — alguém exclamou — O que pensa que está fazendo?
Kurapika se virou. O mesmo homem das fotos se aproximava, uma garrafa de espumante em uma das mãos e a cintura de uma modelo na outra. As pessoas imediatamente ao redor deram espaço, interrompendo a dança.
— Apenas pegando o que é meu — Kurapika respondeu — visto que recusou minha negociação.
O DJ o olhou intrigado por vários segundos, para em seguida se dobrar em uma gargalhada quase tão alta quanto o volume da música.
— Foi você que mandou aquela carta? — E ele empurrou seu ombro — Vaza daqui, otário. E largue as minhas coisas.
Kurapika não se mexeu. Na correspondência, havia proposto uma permuta: os olhos por algum item de colecionador, a escolha do DJ. Qualquer que fosse a resposta, Kurapika daria um jeito de efetuar a troca. Só não esperava a ofensa em palavras que recebeu no lugar.
— "Coisa?" O que é isso pra você? Um objeto de decoração excêntrico?
Discorde revirou os olhos. Procurando pelo segurança mais próximo, acenou com a cabeça, pedindo, entre goles de espumante, que se desse um jeito no intruso.
Kurapika viu o segurança se aproximando a passos largos, e se espantou ao notar que o homem ameaçava puxar da cintura uma arma de fogo. Não acreditou que ele seria irresponsável a ponto de atirar em um ambiente lotado, mas temendo pelo pior, conjurou suas correntes, que prenderam o pulso do segurança. A arma caiu no chão, soltando um disparo involuntário. A gritaria que veio em seguida foi inevitável.
— Está maluco? — Kurapika gritou, enquanto o homem tentava se soltar.
Com um gesto rápido, Kurapika puxou o segurança, torcendo junto seu braço ainda preso. Ele urrou de dor quando as correntes entraram mais fundo na pele e distenderam seu ombro ao forçá-lo para trás.
— Ei!! — outra voz protestou à distância.
Kurapika se virou, em tempo de ver um segundo segurança correndo em sua direção, a arma já fora do coldre. Ao menos três disparos em sequência foram ouvidos. Instintivamente, Kurapika recuou, procurando abrigo atrás de uma pilastra, mas acidentalmente expondo o homem que prendia pelo pulso — e que recebeu no peito cada uma daquelas balas. Mais berros desesperados se seguiram, junto de um baque quando o primeiro segurança caiu sem vida.
Ele olhou para o autor dos disparos, que mantinha a arma empunhada. Enfurecido com aquela morte desnecessária, Kurapika atacou novamente, dessa vez mirando suas correntes para os pés do atirador. Desequilibrado, ele tombou de costas.
Kurapika se aproximou. Aproveitou o atordoamento do segurança, que batera a cabeça ao cair, para chutar a arma longe. Com um soco, se certificou que ele permaneceria desacordado.
Olhou ao redor. A sala agora estava praticamente vazia e silenciosa. Móveis jaziam revirados. Janelas, quebradas. Em um canto, aturdido, o DJ olhava o estrago.
Kurapika o fuzilou com os olhos.
— Devia ter aceitado minha proposta.
Resgatou o recipiente de vidro que conseguiu manter incólume, mas um rugido raivoso chamou sua atenção novamente. De relance, vislumbrou o DJ correndo, a garrafa de espumante vazia em sua mão erguida como um punhal.
Sem se dar ao trabalho de usar seu Nen, Kurapika apenas desviou do assalto. Arrancando a garrafa, o imobilizou, acertando seu rosto em uma das fotografias emolduradas. Discorde grunhiu, misto de dor e medo.
— E esqueça que eu estive aqui, se não quiser terminar como um de seus seguranças.
Kurapika o soltou, seguro que a ameaça teria o efeito desejado.
Ao deixar a mansão, comtemplou novamente os olhos escarlates, que o encararam de volta, plácidos. Por um instante, suspeitou que o julgavam, mas logo reprimiu o pensamento.
Eles agora estavam em casa, e era só isso que importava.
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